As reportagens televisivas acerca do calor fazem-me precipitar para o comando da televisão para rapidamente mudar de canal. Aborrecem-me. Nomeadamente aquelas que são feitas no Alentejo. Como se no Verão estar quentinho nestas paragens fosse coisa de espantar. Em lugar de indagarem os habitantes sobre as precauções que tomam para fazer face à canícula podiam, sei lá, ser mais imaginativos. Assim, tipo, perguntar o porquê das árvores, nas vilas e cidades alentejanas, serem um elemento raro da paisagem. Ou, se quisessem ser um bocadinho mais agressivos, tentarem perceber o motivo para os alentejanos não gostarem de árvores.Isso é que era uma cena de relevante interesse público.
De facto a relação amistosa entre alentejanos e árvores é meramente anedótica. Não passa de um mito. No campo já não há gente para se deitar à sombra e nos aglomerados urbanos quase não há arvores. Os habitantes não gostam delas. São mais que muitíssimos os casos em que os moradores solicitam o seu abate às autarquias. As razões invocadas, que vão desde as folhas que sujam os quintais aos pássaros que cagam os automóveis ou perturbam o descanso com o seu chilrear, são todas muito válidas e, como é óbvio, suscitam da parte das edilidades a maior compreensão e rápida intervenção no sentido de satisfazer as reclamações. Que isto, como se sabe, há que manter o eleitorado contentinho não vá dar-se o caso de nas próximas eleições escolher a oposição. Se quando está calor as sombras escasseiam e não existe arvoredo para aligeirar a temperatura é coisa que interessa pouco. Até porque há outras coisas muito mais importantes e divertidas com que a malta se pode entreter.














