Kruzes Kanhoto
Ainda que todos, eu não!
sábado, 11 de abril de 2026
Reciclar era fácil. Felizmente, corrigiram isso.
quinta-feira, 9 de abril de 2026
O fascinio das ditaduras encanta os europeus
terça-feira, 7 de abril de 2026
Mictorium desaconselhável..
Cada um sabe de si e Deus – esse amigo imaginário no âmbito das divindades – sabe de todos. Daí que apenas a criatura e o Deus da sua predileção saibam os contornos da situação que motivou o seu autor a elaborar, trepar ao poste e afixar o cartaz apelando à não micção naquele lugar. O odor e o pulguedo poderão constituir as principais razões. O triste espectáculo proporcionado pela incontinência dos que ali se viam obrigados a mudar a água às azeitonas, poderá ser outra.
Curiosa é a altura do solo a que foi afixado. Quase parece que existiu o receio que fosse removido. Com razão, provavelmente. Presumo que ninguém mije com a tranquilidade que o momento exige a olhar para uma placa com a inscrição “não urinar”. Até deve fazer mal à bexiga.
domingo, 5 de abril de 2026
Especialistas especializados em inveja
A propósito da chamada crise da habitação entusiasma-se hoje o pasquim da Sonae, que em tempos foi um jornal de referência relativamente merecedor de credibilidade, por um grupo de juristas ter concluído que “o direito de propriedade não é absoluto”. Outros já concluíram noutras ocasiões que o direito à vida também não é. Pouco surpreende, por isso, que os especialistas da especialidade mencionados pelo jornaleco tenham idêntica opinião acerca dessa coisa da propriedade. Essa maléfica invenção do capitalismo, sem a qual todos seriamos muito mais felizes. E pobres, como eles gostam.
Assim de repente, não estou a ver de que adianta ou atrasa esta opinião. É, apenas, isso mesmo. Uma opinião. Como qualquer outra. Num país em que setenta por cento das famílias são proprietárias, não estou a ver - ninguém estará, desconfio – o que um eventual e altamente improvável governo com tendências revolucionárias que resulte de umas próximas eleições venha a fazer com ela. Isto não é a Venezuela, Cuba nem nenhum outro paraíso na Terra. Daqueles que uma minoria ruidosa muito aprecia, mas para onde se revela incapaz de emigrar em busca da vida que desejam para cá.
Reitero aquilo que já escrevi noutras ocasiões. Se – e bem – o direito à habitação está consagrado na Constituição, então o Estado que garanta, mediante as condições que lhe pareçam mais adequadas, o cumprimento das obrigações dos inquilinos. Nomeadamente se substitua aos mesmos em caso de falta de pagamento e trate posteriormente de cobrar essa divida aos caloteiros. Não deve ser difícil. Afinal a Autoridade Tributária, para além das dividas fiscais, já cobra as dividas das portagens e facturas de água dos Municípios. Não seria nada do outro mundo. A não ser a conta que os caloteiros iriam pagar. O que, acredito, desmotivaria qualquer um de se eximir reiteramente a pagar o que deve. Até porque, os que ousassem incumprir, ficariam a saber que a AT não brinca em serviço e facilmente duplica, em seu benefício, o montante de qualquer calote.
O sistema teria a vantagem de dar confiança aos proprietários para colocar casas no mercado, o que provocaria a inevitável queda dos preços e tornaria residual o arrendamento sem contrato gerando um maior crescimento do imposto pago pelo sector. Por outro lado, mesmo que se verificasse um nível relativamente elevado de dividas incobráveis, seria sempre inferior ao custo de construção, manutenção e gestão da habitação pública. Tinha, no entanto, uma consequência muitíssimo desagradável para a esquerda. Diminuiria drasticamente a conflitualidade acerca do tema.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Impertinências relativamente pertinentes
Anda muita gente abespinhada por causa da Constituição. Aquela com “C” grande. Uns querem mudá-la à viva força e outros rasgam as vestes para que fique na mesma. Há, ainda, mais uns tantos a exigir que seja cumprida. Tudo muito estranho, digo eu que dessas coisas da Constituição percebo muito pouco. Nada, até. Apesar disso acho esquisito que uma lei – neste caso, para tornar tudo mais estapafúrdio, a lei fundamental do país - não esteja, pelos vistos, a ser cumprida. O que, lendo e ouvindo algumas opiniões de todos os lados das barricadas, parece andar próximo da verdade.
Por mim tanto se me dá como se me deu que mudem ou deixem de mudar a Constituição. Mas, se não está a ser cumprida porquê mudar? Ou, noutra perspetiva, porque não mudar? Se não é para ser levada a sério para quê perder tempo com o assunto? Tudo questões (im)pertinentes, mas, assim como assim, não é por lá estar escrito isto ou aquilo que impediu o país de se tornar uma democracia mais ou menos liberal. Contrariamente, diga-se, ao que desejavam os gajos que a redigiram em 1976. Recorde-se que aqueles tipos pretendiam uma democracia tutelada pelos militares, a irreversibilidade das nacionalizações, o fecho de diversos sectores à iniciativa privada, a instauração do socialismo e a dissolução da Nato. Entre outras maluqueiras a que, obviamente, ninguém decente ligou patavina nestes cinquenta anos.
Felizmente os portugueses de hoje não têm de se submeter aos desejos dos antepassados do tempo do PREC. Bem basta que lhes paguemos as mordomias que conquistaram para si próprios.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Agricultura da crise
segunda-feira, 30 de março de 2026
Familia?! Ele lá sabe a que raça pertence...
domingo, 29 de março de 2026
A bomba, a caixa e a carteira
Sempre que os preços dos combustíveis sobem é um corrupio de jornalistas juntos dos postos de abastecimento. Quando a diferença relativamente a Espanha se alarga ainda mais do que já é habitual, o arraial estende-se ao lado de lá da fronteira. Agora que o governo esquerdalho espanhol resolveu, por uma questão de sobrevivência política, tomar aquelas medidas que fizeram cair os preços, tem sido o delírio jornalístico. Curiosamente, ou talvez não, as referências à conflitualidade dessas medidas com as directizes europeias não suscitam grande interesse à nossa comunicação social. Havia de ser cá. Não faltariam horas de debates acerca das consequências dramáticas para o país, das grosseiras violações das normas da UE, do desprezo pelas alterações climáticas e do que mais calhasse. Isso e, quase de certeza, manifestações dos meninos que padecem dessa doença misteriosa designada ansiedade ambiental. Já andariam por aí a manifestar-se pelo fim dos combustíveis fósseis, bloquear estradas, a partir montras e a berrar que o capitalismo não é verde.
O mesmo frenesim jornalístico se verifica nas grandes superfícies, mercados e em todos os locais onde se vendem coisas. A preocupação aparenta ser grande. Com, evidentemente, alguma razão para isso. O que nunca se questiona, vá lá saber-se porquê, é o efeito da especulação nos preços dos produtos. Uma velhinha, na caixa de uma mercearia, garantindo que com esta carestia de vida quase não tem dinheiro para comer, enquanto paga um pacote de massa e duas latas de comida para cão, provoca muito mais comiseração. Qualquer activista sabe isso.
Entretanto os dados indicam que o valor dos depósitos a prazo e em certificados de aforro atingiu, mais uma vez, máximos históricos. Sabendo-se que estes produtos financeiros não estão entre os preferidos pelos mais ricos ou com maior literacia financeira, fico a aguardar com expectativa as próximas reportagens televisivas à porta dos bancos e dos Correios. E um ou outro estudo académico, vá.
quarta-feira, 25 de março de 2026
Prato do dia: contribuinte de cebolada
As autarquias são uma fonte inesgotável de noticias. Ou não fossem trezentas e oito, se apenas contarmos os municípios. A acrescentar a esse número, já de si despropositado, temos ainda mais três mil duzentas e cinquenta e oito freguesias. Um fartote. Não admira, por isso, que haja todos os dias relatos de comportamentos, digamos, mais ou menos exóticos por parte dos autarcas. Embora aquilo que chega ao público não passe, na maior parte das ocasiões, de fait-divers. As cenas alegadamente mais cabeludas – se é que as há - poucas vezes são noticia. Até porque são com as bruxas, mas ao contrário. Todos acreditam que há, mas nunca são vistas. Salvo um ou outro raríssimo exemplo, vá.
Os dois casos onde hoje intervieram as autoridades judiciais enquadram-se, ambos, no âmbito da diversão. Um deles literalmente. Diz que uma das autarquias pagou lautos banquetes a eleitos, funcionários e a quem mais calhava. Desde que a diária do subsidio de refeição tenha sido descontada no vencimento não estou a ver, assim de repente, motivos para reparo. Juntar todo esse pagode à mesa contribui para estimular o espírito de grupo – e outras coisas, eventualmente – e dinamizar a economia local, nomeadamente na área da restauração. Nem são precisos grandes dotes adivinhatórios para prever que a “operação lagosta fumada” – diz que os repastos incluíam a degustação de crustáceos e terminavam com os convivas a fumar charutos – não vai dar em nada. A não ser perda de tempo. Daquele bem pago, obviamente.
O outro ainda é mais bizarro. Envolve bufaria. Da chique. E não me estou a referir aquelas criaturas que não sabem se são Franciscos ou Franciscas. São queixinhas contra um Presidente que, veja-se o desplante, entende ser sua prioridade governar para quem trabalha e paga impostos. Mesmo sendo uma ideia manifestamente excêntrica, essa de priorizar quem faz alguma coisa útil na vida, também desconfio que o contingente policial deslocado para o local não vai conseguir reunir matéria de facto que convença o tribunal a condenar o homem. Até porque ninguém o pode obrigar a fazer um Plano de Habitação Paralelo.
segunda-feira, 23 de março de 2026
Desencabrestados
Caso o ataque do fim de semana a uma manifestação, marcha ou lá o que queiram chamar a um ajuntamento de pessoas que defendem valores pouco valorizáveis de acordo com os actuais padrões definidos pela opinião publicada, tivesse sido contra idêntica iniciativa promovida pela esquerda, teríamos assistido a debates intermináveis em todos os canais noticiosos e o assunto constituiria noticia de abertura de todos os telejornais. O perigo da extrema-direita e a imperiosa necessidade de a combater estaria na ordem do dia. Assim, ninguém quer saber. A noticia apenas chegou às televisões horas depois de circular pelas redes sociais e, quase, como nota de rodapé. Não houve indignação das redacções, especialistas da especialidade a defender ilegalizações, regulações nem outras acções. Era, afinal, um cocktail democrata. Do bem, até. Pena não ter acertado, escreveram sem qualquer pudor na puta da tromba, muitas criaturas que enchem a boca de liberdade, democracia e outros conceitos muito jeitosos desde que se apliquem apenas aos ideais que defendem.
Não surpreende esta reacção desencabrestada de extremistas mais exaltados. A esquerda acha que a rua lhe pertence. Tal como também considera ter uma espécie de direito divino a, mesmo perdendo as eleições, continuar a ocupar os lugares – desde os importantes aos folclóricos - que o Estado tem para distribuir. Os que consideram que o PS deve continuar a ter a mesma representação no Tribunal Constitucional ou senhora do PCP a mandar num museu qualquer, não são muito diferentes dos que acham que só eles têm direito à rua. O povo para além de ter o direito de se manifestar contra ou a favor do que lhe apetecer tem, também, o direito de escolher a quem quer dar de mamar. Desta vez escolheu outros.
domingo, 22 de março de 2026
Discurso de ódio?! Depende do indignometro em uso...
O actual Ministro da Administração Interna declarou em várias ocasiões que combater o discurso de ódio constituiria uma das principais prioridades. Até porque esse discurso - também manifestou esse sentimento em diversas oportunidades - revela-se um problema sério a que urge dar luta. Ou seja, o homem tal como qualquer outro português de bem odeia o discurso de ódio. Oral, escrito e, presumo, quando levado à prática.
Trata-se, convenhamos, de uma postura irrepreensível. Daquelas que dificilmente encontram oposição, a menos que alguém se assuma publicamente como defensor do insulto gratuito. Não há como não gostar deste princípio. Qualquer um concordará que é preciso acabar com aquele discurso do “passa aí a carteira, senão levas uma facada”, esse clássico intemporal da retórica urbana. Ou outras variantes igualmente sofisticadas, que combinam criatividade linguística com uma forte componente pedagógica sobre as consequências da não colaboração. Muito bem, portanto, o senhor ministro por se insurgir contra tamanha barbárie verbal.
De louvar, igualmente, a intenção de dar guerra sem quartel ao discurso de ódio nas redes sociais, esse território onde a humanidade dá o seu melhor. Por exemplo, aquela mania, que muitos pacóvios não se cansam de alardear, de fazer piadas de mau gosto associando os alentejanos a determinados estereótipos tem de ter um fim. Ou pelo menos uma comissão de acompanhamento, um grupo de trabalho, um observatório e um portal para denúncias com autenticação por chave móvel digital. Insistir em associar um imigrante ao crime, um cigano ao RSI, um negro a África ou um alentejano à preguiça não é aceitável e deve ser combatido com firmeza, sensatez e uma boa dose de relatórios trimestrais. O recém-empossado MAI garantiu que vai fazê-lo, o que nos deixa a todos mais descansados, sobretudo sabendo que a Internet é um espaço tradicionalmente dócil à autoridade.
Por mim, fico na expectativa não vá dar-se o caso de, num momento de fraqueza ou excesso de liberdade de expressão, ter de vir aqui fazer aquele discurso inconveniente que associa os políticos à pantominice. O que, como todos sabemos, seria profundamente ofensivo para os pantomineiros em geral e constituiria, eventualmente, um discurso de ódio.
sábado, 21 de março de 2026
Agricultura da crise
Deve ser da chegada do Primavera ou assim. O certo é que, depois de semanas consecutivas – arrisco dizer meses – de chuva, o quintal e a agricultura da crise começam finalmente a ficar com melhor aspecto. A cerejeira já tem flor, o mirtilo também, começam a aparecer as primeiras amostras de morangos e a framboeseira tem as suas folhas de volta. Quanto ao resto estamos a adoptar uma abordagem diferente. A utilização de recipientes – garrafões, vasos, baldes ou o que calhar - para evitar que a diversa fauna que faz do meu quintal o seu habitat natural prejudique as plantas. Este método poderá igualmente representar uma poupança assinalável da água necessária para a rega e, com um pouco de imaginação, mantê-las com a humidade indispensável em caso de alguma ausência mais prolongada.
Fica a “reportagem” fotográfica da agricultura da crise.
sexta-feira, 20 de março de 2026
Mais um eco-imposto
Estamos a poucos dias de começar a pagar um novo imposto. Daqueles virtuosos. Com consciência ecológica, certificado moral e promessa de reembolso. Serve, dizem eles, para fomentar a reciclagem, pois tem como prémio a devolução do seu valor aos contribuintes bem comportados. Ou seja, ama espécie de mesada ambiental para adultos que sabem pôr o lixo no sítio certo. Embora essa parte do “devolvemos-lhe o dinheiro” tenha tanto de promessa como de miragem no deserto. Até porque o processo, por mais propagandeada que seja a sua eficácia, envolve sempre aquele pequeno detalhe chamado realidade. Nomeadamente logística, tempo, e a eventual inaptidão natural de alguns contribuintes para interagir com máquinas que mais parecem invenções do Demo.
Dez cêntimos de imposto por cada garrafa de água ou lata de cerveja parece, assim de repente, uma coisa inócua. Uma ninharia, até. Um gesto simbólico, quase. Mas não é. Primeiro, porque num pack de vinte e quatro embalagens o consumidor paga logo mais dois euros e quarenta cêntimos. Que é como quem diz, paga já e logo se vê. E, segundo, porque só recupera esse montante algum — potencialmente longo — tempo depois e apenas se cumprir um pequeno conjunto de requisitos dignos de um concurso público. Embalagens completas, em bom estado, sem amolgadelas e devidamente transportadas desde o local de consumo até ao altar da devolução. O que, convenhamos, não acontecerá em mais de metade das situações. Porque entre a preguiça, o esquecimento e o simples facto de ninguém querer andar com um saco de latas a tilintar como um chocalho no porta-bagagens haverá muito dinheiro que vai encontrar como destino final o cofre do Estado.
Embora sempre prontos a indignarem-se com um cão sarnoso, uma polémica de ocasião ou a última caça ao terrorista de serviço os portugueses têm uma relação quase zen com os impostos. Aceitam-nos como quem aceita os humores da meteorologia e encolhem os ombros. Melhor ainda se lhes disserem que é para salvar o planeta, proteger as tartarugas ou cumprir metas com nomes em inglês. Só que não. Este, como quase todos os outros, não serve apenas para reciclar latas. Serve, sobretudo, para reciclar dinheiro — do bolso do contribuinte para o estômago insaciável do Estado — e para alimentar a máquina de propaganda que nos garante que tudo isto é para o nosso bem. Chamem-lhe Estado social, proteção ambiental ou educação cívica. No fim do dia, continua a ser o mesmo. Pague agora, recicle depois… e, com sorte, receba qualquer coisa lá mais para a frente. Ou nunca.
quinta-feira, 19 de março de 2026
Não é a guerra, é a ganância.
As noticias hoje em dia circulam a uma velocidade espantosa. Sendo o mundo uma aldeia grande, não espanta por aí além que assim seja. Nem, estando isto tudo ligado, que escavacar uns quantos poços de petróleo provoque um problema no mundo inteiro. E se o mundo inteiro tem um problema – na verdade até tem muitos – nós, apesar dos milhares de quilómetros que nos separam das explosões, também temos.
O que me causa estranheza não são as chatices chegarem cá. É chegarem tão depressa. E com efeitos retroactivos, o que ainda é mais extraordinário. Os combustíveis, por exemplo. Ainda mal o magala especializado na especialidade tinha apertado o botão do mecanismo que lança os misseis, já os preços estavam a subir. Isto apesar de terem sido comprados quando ainda eram todos amigos e o Trump nem tinha sonhado em tomar conta do sitio famoso pelos tapetes.
Noutros tempos as noticias chegavam primeiro às cidades. Na actualidade, para o bem e para o mal, já assim não é. Tanto que as noticias chegaram igualmente velozes às aldeias e aos campos agrícolas. As consequências de uma guerra longínqua, também e os efeitos nos preços fizeram-se sentir de imediato. Coisa que, sabe-se, acontece quase sempre que uma querela resvala para a luta armada. Curiosamente, quando a paz é restabelecida raramente os preços entram em queda. Vá lá saber-se porquê. Ou melhor, nós sabemos que não é a guerra. É a ganância.
Lá mais para o Verão vão chegar as beldroegas. No ano passado eram vendidas a dois euros no mercado cá do burgo. Um roubo, como se percebe. Este ano, estou mortinho por ouvir a explicação criativa que há de justificar os três ou quatro euros. Talvez um conflito internacional no setor das ervas daninhas ou uma instabilidade dramática no mercado global do refogado. Imaginação não lhes faltará. Falta-lhes só a vergonha, que essa, como certos preços, raramente desce.
terça-feira, 17 de março de 2026
Dietas ideológicas
Ainda me lembro de, ali por volta de dois mil e onze a dois mil e quinze, as noticias relatarem com frequência situações de pessoas que desmaiavam com fome nos comboios, nas paragens dos autocarros e onde mais calhava.
Mais tarde, depois da geringonça ter apeado o Passos Coelho e conduzido o país até às portas do paraíso, o problema passou a ser a obesidade. Os portugueses, esfaimados por causa da larica que tiveram de suportar durante o período da troika e do Coelho malvado, desataram a comer que nem uns garganeiros e ficaram badochas.
De há um ano a esta parte, garante um estudo qualquer muito citado ultimamente, estão outra vez na penúria. Não conseguem pagar as contas e mesmo para comer – pior, agora, com esta coisa da guerra - estão a ver-se aflitos. Não tarda estão outra vez magricelas e a desfalecer aí pelas esquinas. Perante isto, parece-me licito concluir que a esquerda engorda as pessoas, a direita emagrece-as e ambas as deixam doentes.
Morando eu na região mais pobre do país era de supor que estes problemas tivessem por aqui uma especial incidência. Mas, se calhar, os residentes desenvolveram uma enorme capacidade de os disfarçar. É que qualquer um dos cinco supermercados da cidade — com cerca de sete mil habitantes — está sempre cheio de gente com carrinhos tão atafulhados que parecem preparativos para um Apocalipse. Ou tipo Covid, mas sem papel higiénico.
Por outro lado, no país, praticamente todos os meses os valores depositados nos bancos e em certificados de aforro vão batendo sucessivos recordes. Dinheiro que terá de pertencer a alguém. E, de certeza, que não se enquadra nesse conceito bacoco de “grande capital”. Isso é outro patamar. Daí que igualmente me pareça licito concluir que somos todos uns piegas. Ou mal-governados. No geral e em particular.
segunda-feira, 16 de março de 2026
Habitação: Quando não pagar a renda passa a ser um direito Constitucional
A anunciada intenção do governo de facilitar o despejo dos inquilinos incumpridores está a suscitar as reacções mais inusitadas. Pelos vistos, a ideia de que alguém que não paga aquilo a que se comprometeu deve deixar de usufruir da coisa objecto do contrato é considerada por alguns um radicalismo quase ultraliberal. Como se não devesse ser normal. Estranho é o contrário, como acontece presentemente. Inquilinos que se eternizam numa habitação sem pagar a renda e sem que o proprietário do imóvel consiga reaver o que é seu, numa espécie de arrendamento místico onde a renda é facultativa e a propriedade privada uma ideia tonta.
A esquerda, sempre vigilante na defesa dos mais vulneráveis - categoria onde cabem com frequência bandidos, caloteiros e toda a fauna que vive alegremente à custa do trabalho alheio - argumenta com o direito constitucional à habitação para se opor à medida proposta pelo governo. O detalhe incómodo é que não são os senhorios que têm obrigação de assegurar esse direito e o Estado, apesar das tentações paternalistas, não tem propriamente vocação para agência imobiliária. É que isto da solidariedade social é uma coisa muito linda… desde que a conta seja enviada a outra pessoa.
A solução para assegurar o cumprimento desse direito também não passa por subsidiar o arrendamento ou o Estado construir mais casas. A primeira hipótese já se viu que apenas serve para aumentar o preço das rendas - é o que acontece quando se estimula a procura num mercado onde a oferta continua anémica - mas aparentemente a aritmética económica ainda não chegou a certas mentes. Quanto à segunda, atendendo à maneira como o Estado gere o seu património, as consequências seriam fáceis de prever. Mais um generoso parque imobiliário público a caminhar lentamente para o estado de abandono e degradação que tão bem caracteriza outras aventuras patrimoniais do sector público.
Já que a habitação é um direito, então que o Estado leve a coisa a sério e garanta o pagamento das rendas, tratando o incumprimento como uma dívida ao Estado cobrada através da Autoridade Tributária. Teriamos, desconfio, um milagre estatístico no cumprimento das obrigações. Se atentarmos no que acontece com as dívidas das portagens e outras cobradas pela AT, acredito que poucos arriscariam deixar de pagar a renda.
domingo, 15 de março de 2026
Protecção de dados. Desde o NIF na secretária à lista de clientes
Enquanto noutros países e noutras regiões do globo se fomenta o desenvolvimento, a investigação e a melhoria da qualidade de vida dos residentes a Europa, os europeus e o ocidente em geral fazem questão de se preocupar com idiotices. Nem vale a pena enumerá-las, de tantas e tão estúpidas que são as prioridades que constituem a agenda que vigora deste lado do mundo. Basta aceder a uma qualquer rede social, ligar a televisão ou simplesmente sair à rua para se ficar com a sensação que estamos a viver num manicómio gerido pelos mais malucos de todos os malucos.
Os dirigentes europeus passam grande parte do seu tempo a discutir e, pior, muitas vezes a aprovar regulamentos para tudo e mais alguma coisa. Um dos mais escabrosos tem a ver com a protecção de dados que, posteriormente, foi de implementação obrigatória em toda a União Europeia. Independentemente da bondade da ideia é daqueles que, digamos, mais me enfenece. Por tudo e por nada temos de autorizar que os nossos dados sejam usados ou acedidos. Podemos sempre rejeitar, mas nesse caso não obtemos o serviço a que tentamos aceder. Ou seja, mais valia não existir regulamento nenhum.
Ainda por causa da aplicação do famoso RGPD, não pode um qualquer funcionário de uma qualquer repartição pública – privada, provavelmente, também não – ir beberricar o seu cafezinho e deixar um papel em cima da secretária onde constem nomes ou outros dados alegadamente sensíveis como moradas e NIFs. No entanto, soube-se por estes dias, um tribunal português mandou o primeiro-ministro divulgar a lista de clientes da empresa que detinha quando exercia a sua actividade profissional. A minha simpatia pelo adepto do FC Porto que actualmente preside às reuniões do conselho de ministros é pouco mais que nula, mas parece-me que a dita lista conterá dados muitíssimo mais sensíveis, na perspetiva dos clientes, do que a relação de licenças de canideos que ficaram por renovar, esquecida numa qualquer secretária da junta de freguesia.
sábado, 14 de março de 2026
Marx, microsoft e moralismo
Dez anos é muito tempo, já dizia o gajo das cantigas. No que toca a informática, então, é para lá de uma eternidade. Daí que seja natural um equipamento com essa bonita idade ter há muito ultrapassado o prazo de vida útil. O disco rígido deste computador andava a ameaçar entregar a alma ao criador fazia uns tempos e não fora tê-lo em dual-boot, a cirurgia a que o submeti esta semana – a substituição por outro HD que guardei do antecessor - não podia ter sido adiada tanta vez.
Embora não faça questão de ter o último grito da moda em tecnologia, em matéria de software gosto de estar sempre actualizado. Mas, como é óbvio, software recente em hardware antigo é uma combinação que raramente resulta. O Windows, por exemplo, desde o XP que não é suportado por esta máquina. Mesmo o Linux, que adoptei como sistema operativo quando ainda tinha cabelo, apenas nas versões mais leves funciona de maneira minimamente aceitável.
Tudo isto porque eu não uso nenhum programa pelo qual tenha de pagar. Nem, tão pouco, pirateados. Bem que todos aqueles que aqui pelas redes sociais – ou noutros sítios, não interessa – levam a vida a papaguear contra as grandes empresas, as multinacionais e o capitalismo em geral podiam fazer o mesmo. Usar software livre. Há muito, completamente à borla, faz o mesmo do que o da Microsoft e não contribuíam para aquilo a que chamam lucros escandalosos. Mas não. Garantem que não gostam do capitalismo, mas não querem viver sem as suas maravilhas. Criticam o sistema e alguns querem mesmo derrubá-lo desde que isso não signifique abdicar do Windows, do Office ou do Photoshop. O que, evidentemente, não tem mal nenhum. O capitalismo também precisa de clientes. Não precisam é de fingir um sentimento anti-capitalista. Até porque ninguém acredita muito nisso. Sobretudo quando a revolução é organizada a partir de um portátil comprado a prestações e publicada numa rede social avaliada em milhares de milhões.
terça-feira, 10 de março de 2026
Pacifistas e Outros Traidores
Esta coisa da guerra é uma daquelas inevitabilidades absolutamente inevitável. Sempre existiu desde que o mundo é mundo e sempre existirá enquanto for habitado. Podemos filosofar à vontade, tecer as mais rebuscadas teorias, destilar os nossos ódios de estimação como circunstancialmente nos dê mais jeito, mas não há nada a fazer. Sempre assim foi e sempre assim será.
O que me parece evitável são determinadas posições que, consoante a nossa simpatia pelo agressor ou pelo agredido, se tomam perante os diversos conflitos bélicos que vão ocorrendo. No caso do ataque ao Irão alguns invocam o “direito internacional”. O mesmos, curiosamente, que não viram nenhum atropelo a esse tal direito quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Ou que choram baba e ranho pelas criancinhas mortas em Gaza e no Irão, mas que garantiram ter visto as vitimas do massacre de Bucha, na Ucrânia, a acenar para as câmaras de televisão.
Felizmente a II Guerra Mundial decorreu quando as pessoas ainda não sofriam das maleitas que agora lhes afectam a moleirinha. Se fosse hoje, com o ódio aos EUA e ao Ocidente em geral, os bombardeamentos sobre a Alemanha seriam crimes de guerra, o desembarque na Normandia visto como uma invasão e não faltariam manifestações a exigir a retirada dos soldados americanos. Provavelmente também haveria especialistas a garantir que o verdadeiro intuito dos aliados seria apropriar-se da cerveja e das salsichas germânicas.
Por mim, independentemente dos beligerantes em conflito estarei sempre do lado da democracia, da liberdade e do país onde as mulheres, se essa for a sua vontade, usam mini-saia. Não gosto de ditadores e pouco me importa quem lhes bate, quando lhes bate ou porque lhes bate. Como dizia o outro, num ditador bate-se sempre. Mesmo que não saibas porque lhe bates, ele sabe porque apanha. E se não souber, paciência. Sempre fica a saber como “elas lhe mordem”.
domingo, 8 de março de 2026
Agricultura da crise
sexta-feira, 6 de março de 2026
CCDR — Comissão de Coordenação do Desenvolvimento Remuneratório
Desconfio que a maioria dos portugueses não sabem para que servem as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional. Até sou gajo para apostar que um número igualmente significativo nem sequer tem conhecimento da sua existência. Quem não sabe fica a saber que são cinco – Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve – organismos regionais que servem para “definir e executar estratégias”. Ou, em linguagem corrente, gerar burocracia e distribuir tachos entre os amigos, correlegionários e outros palhaços.
A presidência e vice-presidência destas entidades será, ao que tem sido noticiado, composta por um total de trinta e sete pessoas – cinco presidentes e trinta e dois vices – que irão auferir quase nove mil euros e pouco mais de oito mil, respectivamente, por mês. Brutos. Cada um deles, claro.
Com a recente eleição de toda esta malta, o país passa a ter mais cinco primeiros-ministros e mais de três dezenas de ministros. Pelos menos a ganhar como tal. O que, certamente, contribuirá para melhorar significativamente a qualidade de vida dos portugueses. Por mim, que acredito sempre que tudo o que os políticos planeiam é em beneficio do povo, aposto que a melhoria será imensa. Tão grande que será coisa para andar ali perto do zero. Ou talvez até abaixo dele.
quarta-feira, 4 de março de 2026
O Alentejo segundo um especialista em coisa nenhuma
Presumo — embora não tenha a certeza, porque não li o artigo — que tudo isto esteja solidamente sustentado em estatísticas. Daquelas elaboradas a partir de números recolhidos por verdadeiros especialistas, especialmente especializados nas mais especiais especialidades. Algo ao nível daquele “rapazinho especial” que assina o artigo, doutorado em generalizações apressadas e mestrado em desprezo regional.
Sou alentejano, quase toda a vida vivi no Alentejo e lamento desapontar este coisinho, mas não possuo nenhum dos defeitos que o infeliz escriba aponta aos alentejanos. Nem eu, nem a esmagadora maioria de quem aqui mora. Embora, reconheço facilmente, que antes do café até eu posso parecer radical. Gente como a que a criatura descreve existe em todo o lado. Aqui, onde ele vive e, com grande probabilidade, pelo caminho que faz todos os dias até ao espelho.
Dizer que os alentejanos são pobres e suicidas é de uma indigência mental comparável a afirmar que os lisboetas são todos ricos e criminosos. É simples, é preguiçoso e dá muito pouco trabalho a quem escreve. Mas se ele quer insistir nisso, é lá com ele. Cada um lida com as suas limitações como pode.
Quanto à parte do racista e radical, aquela velha máxima do “quem diz é quem é” assenta aqui que nem uma luva. Esta meia dúzia de linhas não deixa muitas dúvidas. A única que fica é o que raio lhe terá acontecido na vida para carregar tamanho ressentimento contra o Alentejo e os alentejanos.
terça-feira, 3 de março de 2026
ZLAN - As placas que salvaram o mundo
Parece-me manifestamente exagerada a teoria que o Irão nos vai atacar. Nomeadamente ao nível do armamento atómico. Não pelo facto de, segundo garantem, não terem dessas cenas, mas porque grande parte do nosso território é uma zona livre de armas nucleares. Não sei se as potencias que as possuem sabem disso, mas é óbvio que quando tomarem conhecimento dessa interdição recuam de imediato na intenção de nos bombardear. Por mais vontade que tenham de o fazer, de certeza não vão correr o risco de violar essa proibição. Nem o Trump nem nenhum Mohamed desta vida são malucos a esse ponto.
Tudo isto porque nos anos oitenta, várias zonas do nosso país eram ornamentadas por placas informativas com a sigla ZLAN. O cidadão era assim informado de que estava numa Zona Livre de Armas Nucleares. Maioritariamente, essas zonas coincidiam com concelhos de maioria comunista, onde as respetivas Câmaras Municipais reproduziam a propaganda pacifista soviética. Que, na prática, se resumia à defesa do desarmamento das democracias ocidentais enquanto a União Soviética se armava até aos dentes com armas convencionais e nucleares. Aquilo era uma espécie de redundância folclórica, porque Portugal era todo ele livre de armas nucleares. Servia apenas para dar um sinal de que estávamos perante gente pacífica e pouco dada a bombardeamentos. E, diga-se, também tinha a nobre missão de arrancar um sorriso trocista a quem reparasse nas placas. Porque, em boa verdade, não abonava em nada a credibilidade – ou, vá, da sanidade mental - dos autarcas da altura. Inclusive os que cá na terra também nos incluíram nesse clube de malucos.

















