domingo, 5 de abril de 2026

Especialistas especializados em inveja

A propósito da chamada crise da habitação entusiasma-se hoje o pasquim da Sonae, que em tempos foi um jornal de referência relativamente merecedor de credibilidade, por um grupo de juristas ter concluído que “o direito de propriedade não é absoluto”. Outros já concluíram noutras ocasiões que o direito à vida também não é. Pouco surpreende, por isso, que os especialistas da especialidade mencionados pelo jornaleco tenham idêntica opinião acerca dessa coisa da propriedade. Essa maléfica invenção do capitalismo, sem a qual todos seriamos muito mais felizes. E pobres, como eles gostam. 

Assim de repente, não estou a ver de que adianta ou atrasa esta opinião. É, apenas, isso mesmo. Uma opinião. Como qualquer outra. Num país em que setenta por cento das famílias são proprietárias, não estou a ver - ninguém estará, desconfio – o que um eventual e altamente improvável governo com tendências revolucionárias que resulte de umas próximas eleições venha a fazer com ela. Isto não é a Venezuela, Cuba nem nenhum outro paraíso na Terra. Daqueles que uma minoria ruidosa muito aprecia, mas para onde se revela incapaz de emigrar em busca da vida que desejam para cá.  

Reitero aquilo que já escrevi noutras ocasiões. Se – e bem – o direito à habitação está consagrado na Constituição, então o Estado que garanta, mediante as condições que lhe pareçam mais adequadas, o cumprimento das obrigações dos inquilinos. Nomeadamente se substitua aos mesmos em caso de falta de pagamento e trate posteriormente de cobrar essa divida aos caloteiros. Não deve ser difícil. Afinal a Autoridade Tributária, para além das dividas fiscais, já cobra as dividas das portagens e facturas de água dos MunicípiosNão seria nada do outro mundo. A não ser a conta que os caloteiros iriam pagar. O que, acredito, desmotivaria qualquer um de se eximir reiteramente a pagar o que deve. Até porque, os que ousassem incumprir, ficariam a saber que a AT não brinca em serviço e facilmente duplica, em seu benefício, o montante de qualquer calote. 

O sistema teria a vantagem de dar confiança aos proprietários para colocar casas no mercado, o que provocaria a inevitável queda dos preços e tornaria residual o arrendamento sem contrato gerando um maior crescimento do imposto pago pelo sector. Por outro lado, mesmo que se verificasse um nível relativamente elevado de dividas incobráveis, seria sempre inferior ao custo de construção, manutenção e gestão da habitação públicaTinha, no entanto, uma consequência muitíssimo desagradável para a esquerda. Diminuiria drasticamente a conflitualidade acerca do tema. 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Impertinências relativamente pertinentes

Anda muita gente abespinhada por causa da Constituição. Aquela com C grande. Uns querem mudá-la à viva força e outros rasgam as vestes para que fique na mesma. Há, ainda, mais uns tantos a exigir que seja cumprida. Tudo muito estranho, digo eu que dessas coisas da Constituição percebo muito pouco. Nada, até. Apesar disso acho esquisito que uma lei – neste caso, para tornar tudo mais estapafúrdio, a lei fundamental do país - não esteja, pelos vistos, a ser cumprida. O quelendo e ouvindo algumas opiniões de todos os lados das barricadas, parece andar próximo da verdade.

Por mim tanto se me dá como se me deu que mudem ou deixem de mudar a Constituição. Mas, se não está a ser cumprida porquê mudar? Ou, noutra perspetiva, porque não mudar? Se não é para ser levada a sério para quê perder tempo com o assunto? Tudo questões (im)pertinentes, mas, assim como assim, não é por lá estar escrito isto ou aquilo que impediu o país de se tornar uma democracia mais ou menos liberal. Contrariamente, diga-se, ao que desejavam os gajos que a redigiram em 1976. Recorde-se que aqueles tipos pretendiam uma democracia tutelada pelos militares, a irreversibilidade das nacionalizações, o fecho de diversos sectores à iniciativa privada, a instauração do socialismo e a dissolução da Nato. Entre outras maluqueiras a que, obviamente, ninguém decente ligou patavina nestes cinquenta anos. 

Felizmente os portugueses de hoje não têm de se submeter aos desejos dos antepassados do tempo do PREC. Bem basta que lhes paguemos as mordomias que conquistaram para si próprios.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Agricultura da crise


São necessários os mais variados estratagemas para proteger a agricultura da crise dos ataques impiedosos de hordas dos mais variados inimigos. Cada uma – a horda – mais agressiva e nefasta que a outra, como se houvesse um campeonato inter-espécies para ver quem me lixa mais a horta. A plantação em vasos, garrafões ou outro tipo de recipientes tem evitado os ataques da passarada. Ao menos não destroem as plantas. Mais difícil de evitar é que as vão debicando. E são mais que muitos. Mais parece um restaurante buffet em regime de self-service a abarrotar de excursionistas esfomeados. 

Devido a uma doença mental que se instalou na sociedade - e, pior, nos malucos que elegemos para gerir o manicómio - não é hoje possível matar nem um pardal, melro ou seja lá o que for. Esta gente desconhece o conceito de praga. Para eles é tudo “biodiversidade”. Se um dia tiverem ratos na sala, vão chamar-lhes “coabitantes urbanos”. Ou, se calhar, considerá-los membros da família. Não admira. Decidem fechados em gabinetes, são eleitos por quem vive em apartamentos e da natureza apenas conhecem o que veem pela janela do automóvel quando vão à terra dos pais ou dos avós. O tempo em que qualquer gaiato tinha uma pressão de ar e matava duas ou três dúzias de pássaros por dia, já lá vai. E os passarinhos fritos, também… 

Por estes dias as formigas e as borboletas estão a ser os atacantes mais difíceis de controlar. Para controlar as primeiras a Internet recomendou-me uma mistura de açúcar branco com bicarbonato. Diz que a sua ingestão provoca gases às formigas e estas, por não terem forma de se libertar deles, acabam por falecer e causar uma mortandade enorme dentro do formigueiro. O esquema – uma espécie de ataque quimico - terá resultado apenas no primeiro dia. Em pouco tempo levaram uma dose industrial da mistela, mas as consequências desse acto irreflectido devem ter sido de tal ordem que nunca mais tocaram um grão. A alternativa tem sido o café. Parece que evitam caminhar sobre a aquela substância. Confesso o meu cepticismo quanto a isso. Desconfio que apenas ficam mais aceleradas. 

Quanto às borboletas, são mais difíceis de abater do que os drones que agora usam nas guerras. E, mesmo que abata duas ou três por dia, há sempre mais e mais a esvoaçar, firmemente dispostas a largar ovos e mais ovos de onde irão sair as lagartas que me devoram as couves com uma eficiência que só visto. Aquilo não é alimentação, é desflorestação em larga escala. A solução é dar caça aos ovos antes que ecluda lagartagem com fartura. Ou seja, fazer um controlo preventivo da natalidade. Não deve ser proibido, espero...mas, ainda que seja, no meu quintal mando eu. E, principalmente, a minha Maria.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Familia?! Ele lá sabe a que raça pertence...




André Ventura, já se sabia, nem sempre tem a melhor relação com a verdade. Às vezes, digamos, trata-se mesmo de um relacionamento a resvalar para o pouco amistoso. Do que não se pode acusar o homem é de não ter faro para a política. Tanto assim é que deve ter farejado eleitorado com problemas existenciais na coutada do PAN e resolveu dar-lhes caça. Resta saber é se esta entrada de cabeça no silvado não o deixa demasiado arranhado. Se calhar não, porque as restantes matilhas, por ser o assunto que é, não vão ter coragem de lhe morder o lombo. 

O líder do Chega, numa recente publicação no X, achou boa ideia que os portugueses possam ter licença remunerada para ficar em casa a tratar dos seus animais de estimação doentes ou feridos. À semelhança, acrescenta, do que acontecerá por obra e graça da Melonni. O que é falso, pois em Itália não existe nenhuma lei nesse sentido, promovida pela actual primeira-ministra nem por nenhum dos seus antecessores. Um tribunal italiano terá, numa ocasião, julgado procedente o recurso de um maluco qualquer que, ao abrigo do conceito de assistência à família, pretendia ficar em casa a tomar conta do canito enfermo. 

A coerência, como tem sido amplamente demonstrado, não constitui um dos atributos conhecidos do cavalheiro. Para quem tanto critica os que vivem de subsídios, os que não querem trabalhar e o excesso de direitos de que tantos beneficiam exprimir o seu desejo de ver algo deste género implementado por cá parece-me, digamos, um bocado estúpido. Ou, apenas, mais uma das muitas ocasiões em que mais valia estar calado. 

Receio, ainda assim, que se um dia uma idiotice destas chegar ao parlamento se arranje uma maioria qualquer que a aprove. Se acharem que é popular não haverá linhas vermelhas, nem de qualquer outra cor, que não sejam transpostas. Se os papagaios aprovarem uma cena destas restará ao contribuinte trabalhar que nem um boi para sustentar, além da fauna habitual, todos os calões que queiram ficar em casa a tratar do cão. Seria, convenhamos, o fim da macacada.

domingo, 29 de março de 2026

A bomba, a caixa e a carteira

  

Sempre que os preços dos combustíveis sobem é um corrupio de jornalistas juntos dos postos de abastecimento. Quando a diferença relativamente a Espanha se alarga ainda mais do que já é habitual, o arraial estende-se ao lado de lá da fronteira. Agora que o governo esquerdalho espanhol resolveu, por uma questão de sobrevivência política, tomar aquelas medidas que fizeram cair os preços, tem sido o delírio jornalístico. Curiosamente, ou talvez não, as referências à conflitualidade dessas medidas com as directizes europeias não suscitam grande interesse à nossa comunicação social. Havia de ser cá. Não faltariam horas de debates acerca das consequências dramáticas para o país, das grosseiras violações das normas da UE, do desprezo pelas alterações climáticas e do que mais calhasse. Isso e, quase de certeza, manifestações dos meninos que padecem dessa doença misteriosa designada ansiedade ambiental. Já andariam por aí a manifestar-se pelo fim dos combustíveis fósseis, bloquear estradas, a partir montras e a berrar que o capitalismo não é verde.

O mesmo frenesim jornalístico se verifica nas grandes superfícies, mercados e em todos os locais onde se vendem coisas. A preocupação aparenta ser grande. Com, evidentemente, alguma razão para isso. O que nunca se questiona, vá lá saber-se porquê, é o efeito da especulação nos preços dos produtos. Uma velhinha, na caixa de uma mercearia, garantindo que com esta carestia de vida quase não tem dinheiro para comer, enquanto paga um pacote de massa e duas latas de comida para cão, provoca muito mais comiseração. Qualquer activista sabe isso.

Entretanto os dados indicam que o valor dos depósitos a prazo e em certificados de aforro atingiu, mais uma vez, máximos históricos. Sabendo-se que estes produtos financeiros não estão entre os preferidos pelos mais ricos ou com maior literacia financeira, fico a aguardar com expectativa as próximas reportagens televisivas à porta dos bancos e dos Correios. E um ou outro estudo académico, vá.


quarta-feira, 25 de março de 2026

Prato do dia: contribuinte de cebolada

 As autarquias são uma fonte inesgotável de noticias. Ou não fossem trezentas e oito, se apenas contarmos os municípios. A acrescentar a esse número, já de si despropositado, temos ainda mais três mil duzentas e cinquenta e oito freguesias. Um fartote. Não admira, por isso, que haja todos os dias relatos de comportamentos, digamos, mais ou menos exóticos por parte dos autarcas. Embora aquilo que chega ao público não passe, na maior parte das ocasiões, de fait-divers.  As cenas alegadamente mais cabeludas – se é que as há - poucas vezes são noticia. Até porque são com as bruxas, mas ao contrário. Todos acreditam que há, mas nunca são vistas. Salvo um ou outro raríssimo exemplo, vá.

Os dois casos onde hoje intervieram as autoridades judiciais enquadram-se, ambos, no âmbito da diversão. Um deles literalmente. Diz que uma das autarquias pagou lautos banquetes a eleitos, funcionários e a quem mais calhava.  Desde que a diária do subsidio de refeição tenha sido descontada no vencimento não estou a ver, assim de repente, motivos para reparo. Juntar todo esse pagode à mesa contribui para estimular o espírito de grupo – e outras coisas, eventualmente – e dinamizar a economia local, nomeadamente na área da restauração.  Nem são precisos grandes dotes adivinhatórios para prever que a “operação lagosta fumada” – diz que os repastos incluíam  a degustação de crustáceos e terminavam com os convivas a fumar charutos – não vai dar em nada. A não ser perda de tempo. Daquele bem pago, obviamente. 

O outro ainda é mais bizarro. Envolve bufaria. Da chique. E não me estou a referir aquelas criaturas que não sabem se são Franciscos ou Franciscas. São queixinhas contra um Presidente que, veja-se o desplante, entende ser sua prioridade governar para quem trabalha e paga impostos. Mesmo sendo uma ideia manifestamente excêntrica, essa de priorizar quem faz alguma coisa útil na vida, também desconfio que o contingente policial  deslocado para o local não vai conseguir reunir matéria de facto que convença o tribunal a condenar o homem. Até porque ninguém o pode obrigar a fazer um Plano de Habitação Paralelo.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Desencabrestados

 Caso o ataque do fim de semana a uma manifestação, marcha ou lá o que queiram chamar a um ajuntamento de pessoas que defendem valores pouco valorizáveis de acordo com os actuais padrões definidos pela opinião publicada, tivesse sido contra idêntica iniciativa promovida pela esquerda, teríamos assistido a debates intermináveis em todos os canais noticiosos e o assunto constituiria noticia de abertura de todos os telejornais. O perigo da extrema-direita e a imperiosa necessidade de a combater estaria na ordem do dia. Assim, ninguém quer saber. A noticia apenas chegou às televisões horas depois de circular pelas redes sociais e, quase, como nota de rodapé. Não houve indignação das redacções, especialistas da especialidade a defender ilegalizações, regulações nem outras acções. Era, afinal, um cocktail democrata. Do bem, até. Pena não ter acertado, escreveram sem qualquer pudor na puta da tromba, muitas criaturas que enchem a boca de liberdade, democracia e outros conceitos muito jeitosos desde que se apliquem apenas aos ideais que defendem.

Não surpreende esta reacção desencabrestada  de extremistas mais exaltados. A esquerda acha que a rua lhe pertence. Tal como também considera ter uma espécie de direito divino a, mesmo perdendo as eleições, continuar a ocupar os lugares – desde os importantes aos folclóricos -  que o Estado tem para distribuir. Os que consideram que o PS deve continuar a ter a mesma representação no Tribunal Constitucional ou senhora do PCP a mandar num museu qualquer, não são muito diferentes dos que acham que só eles têm direito à rua. O povo para além de ter o direito de se manifestar contra ou a favor do que lhe apetecer tem, também, o direito de escolher a quem quer dar de mamar. Desta vez escolheu outros.

domingo, 22 de março de 2026

Discurso de ódio?! Depende do indignometro em uso...

 O actual Ministro da Administração Interna declarou em várias ocasiões que combater o discurso de ódio constituiria uma das principais prioridades. Até porque esse discurso - também manifestou esse sentimento em diversas oportunidades - revela-se um problema sério a que urge dar luta. Ou seja, o homem tal como qualquer outro português de bem odeia o discurso de ódio. Oral, escrito e, presumo, quando levado à prática. 

Trata-se, convenhamos, de uma postura irrepreensível. Daquelas que dificilmente encontram oposição, a menos que alguém se assuma publicamente como defensor do insulto gratuito. Não há como não gostar deste princípio.  Qualquer um concordará que é preciso acabar com aquele discurso do “passa aí a carteira, senão levas uma facada”, esse clássico intemporal da retórica urbana. Ou outras variantes igualmente sofisticadas, que combinam criatividade linguística com uma forte componente pedagógica sobre as consequências da não colaboração. Muito bem, portanto, o senhor ministro por se insurgir contra tamanha barbárie verbal. 

De louvar, igualmente, a intenção de dar guerra sem quartel ao discurso de ódio nas redes sociais, esse território onde a humanidade dá o seu melhor. Por exemplo, aquela mania, que muitos pacóvios não se cansam de alardear, de fazer piadas de mau gosto associando os alentejanos a determinados estereótipos tem de ter um fim. Ou pelo menos uma comissão de acompanhamento, um grupo de trabalho, um observatório e um portal para denúncias com autenticação por chave móvel digital. Insistir em associar um imigrante ao crime, um cigano ao RSI, um negro a África ou um alentejano à preguiça não é aceitável e deve ser combatido com firmeza, sensatez e uma boa dose de relatórios trimestrais. O recém-empossado MAI garantiu que vai fazê-lo, o que nos deixa a todos mais descansados, sobretudo sabendo que a Internet é um espaço tradicionalmente dócil à autoridade.

Por mim, fico na expectativa  não vá dar-se o caso de, num momento de fraqueza ou excesso de liberdade de expressão, ter de vir aqui fazer aquele discurso inconveniente que associa os políticos à pantominice. O que, como todos sabemos, seria profundamente ofensivo para os pantomineiros em geral e constituiria, eventualmente, um discurso de ódio.

sábado, 21 de março de 2026

Agricultura da crise

 Deve ser da chegada do Primavera ou assim. O certo é que, depois de semanas consecutivas – arrisco dizer meses – de chuva, o quintal e a agricultura da crise começam finalmente a ficar com melhor aspecto. A cerejeira já tem flor, o mirtilo também, começam a aparecer as primeiras amostras de morangos e a framboeseira tem as suas folhas de volta. Quanto ao resto estamos a adoptar uma abordagem diferente. A utilização de recipientes – garrafões, vasos, baldes ou o que calhar - para evitar que a diversa fauna que faz do meu quintal o seu habitat natural prejudique as plantas. Este método poderá igualmente representar uma poupança assinalável da água necessária para a rega e, com um pouco de imaginação, mantê-las com a humidade indispensável em caso de alguma ausência mais prolongada.

Fica a “reportagem” fotográfica da agricultura da crise.





















sexta-feira, 20 de março de 2026

Mais um eco-imposto

 Estamos a poucos dias de começar a pagar um novo imposto. Daqueles virtuosos. Com consciência ecológica, certificado moral e promessa de reembolso. Serve, dizem eles, para fomentar a reciclagem, pois tem como prémio a devolução do seu valor aos contribuintes bem comportados. Ou seja, ama espécie de mesada ambiental para adultos que sabem pôr o lixo no sítio certo. Embora essa parte do “devolvemos-lhe o dinheiro” tenha tanto de promessa como de miragem no deserto. Até porque o processo, por mais propagandeada que seja a sua eficácia, envolve sempre aquele pequeno detalhe chamado realidade. Nomeadamente logística, tempo, e a eventual inaptidão natural de alguns contribuintes para interagir com máquinas que mais parecem invenções do Demo.

Dez cêntimos de imposto por cada garrafa de água ou lata de cerveja parece, assim de repente, uma coisa inócua. Uma ninharia, até. Um gesto simbólico, quase. Mas não é. Primeiro, porque num pack de vinte e quatro embalagens o consumidor paga logo mais dois euros e quarenta cêntimos. Que é como quem diz, paga já e logo se vê. E, segundo, porque só recupera esse montante algum — potencialmente longo — tempo depois e apenas se cumprir um pequeno conjunto de requisitos dignos de um concurso público. Embalagens completas, em bom estado, sem amolgadelas e devidamente transportadas desde o local de consumo até ao altar da devolução. O que, convenhamos, não acontecerá em mais de metade das situações. Porque entre a preguiça, o esquecimento e o simples facto de ninguém querer andar com um saco de latas a tilintar como um chocalho no porta-bagagens haverá muito dinheiro que vai encontrar como destino final o cofre do Estado.

Embora sempre prontos a indignarem-se com um cão sarnoso, uma polémica de ocasião ou a última caça ao terrorista de serviço os portugueses têm uma relação quase zen com os impostos. Aceitam-nos como quem aceita os humores da meteorologia e encolhem os ombros. Melhor ainda se lhes disserem que é para salvar o planeta, proteger as tartarugas ou cumprir metas com nomes em inglês. Só que não. Este, como quase todos os outros, não serve apenas para reciclar latas. Serve, sobretudo, para reciclar dinheiro — do bolso do contribuinte para o estômago insaciável do Estado — e para alimentar a máquina de propaganda que nos garante que tudo isto é para o nosso bem. Chamem-lhe Estado social, proteção ambiental ou educação cívica. No fim do dia, continua a ser o mesmo. Pague agora, recicle depois… e, com sorte, receba qualquer coisa lá mais para a frente. Ou nunca.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Não é a guerra, é a ganância.

 As noticias hoje em dia circulam a uma velocidade espantosa. Sendo o mundo uma aldeia grande, não espanta por aí além que assim seja. Nem, estando isto tudo ligado, que escavacar uns quantos poços de petróleo provoque um problema no mundo inteiro. E se o mundo inteiro tem um problema – na verdade até tem muitos – nós, apesar dos milhares de quilómetros que nos separam das explosões, também temos. 

O que me causa estranheza não são as chatices chegarem cá. É chegarem tão depressa.  E com efeitos retroactivos, o que ainda é mais extraordinário.  Os combustíveis, por exemplo.  Ainda mal o magala especializado na especialidade tinha apertado  o botão do mecanismo que lança os misseis,  já os preços estavam a subir. Isto apesar de terem sido comprados quando ainda eram todos amigos e o Trump nem tinha sonhado em tomar conta do sitio famoso pelos tapetes. 

Noutros tempos as noticias chegavam primeiro às cidades. Na actualidade, para o bem e para o mal, já assim não é. Tanto que as noticias chegaram igualmente velozes às aldeias e aos campos agrícolas. As consequências de uma guerra longínqua, também e os efeitos nos preços fizeram-se sentir de imediato. Coisa que, sabe-se, acontece quase sempre que uma querela resvala para a luta armada. Curiosamente, quando a paz é restabelecida raramente os preços entram em queda. Vá lá saber-se porquê. Ou melhor, nós sabemos que não é a guerra. É a ganância. 

Lá mais para o Verão vão chegar as beldroegas. No ano passado eram vendidas a dois euros no mercado cá do burgo. Um roubo, como se percebe. Este ano, estou mortinho por ouvir a explicação criativa que há de justificar os três ou quatro euros. Talvez um conflito internacional no setor das ervas daninhas ou uma instabilidade dramática no mercado global do refogado. Imaginação não lhes faltará. Falta-lhes só a vergonha, que essa, como certos preços, raramente desce.

terça-feira, 17 de março de 2026

Dietas ideológicas

Ainda me lembro de, ali por volta de dois mil e onze a dois mil e quinze, as noticias relatarem com frequência situações de pessoas que desmaiavam com fome nos comboios, nas paragens dos autocarros e onde mais calhava.

Mais tarde, depois da geringonça ter apeado o Passos Coelho e conduzido o país até às portas do paraíso, o problema passou a ser a obesidade. Os portugueses, esfaimados por causa da larica que tiveram de suportar durante o período da troika e do Coelho malvado, desataram a comer que nem uns garganeiros e ficaram badochas. 

De há um ano a esta parte, garante um estudo qualquer muito citado ultimamente, estão outra vez na penúria. Não conseguem pagar as contas e mesmo para comer – pior, agora, com esta coisa da guerra -  estão a ver-se aflitos. Não tarda estão outra vez magricelas e a desfalecer aí pelas esquinas. Perante isto, parece-me licito concluir que a esquerda engorda as pessoas, a direita emagrece-as e ambas as deixam doentes. 

Morando eu na região mais pobre do país era de supor que estes problemas tivessem por aqui uma especial incidência. Mas, se calhar, os residentes desenvolveram uma enorme capacidade de os disfarçar. É que qualquer um dos cinco supermercados da cidade — com cerca de sete mil habitantes — está sempre cheio de gente com carrinhos tão atafulhados que parecem preparativos para um Apocalipse. Ou tipo Covid, mas sem papel higiénico. 

Por outro lado, no país, praticamente todos os meses os valores depositados nos bancos e em certificados de aforro vão batendo sucessivos recordes. Dinheiro que terá de pertencer a alguém. E, de certeza, que não se enquadra nesse conceito bacoco de “grande capital”. Isso é outro patamar. Daí que igualmente me pareça licito concluir que somos todos uns piegas. Ou mal-governados. No geral e em particular.


segunda-feira, 16 de março de 2026

Habitação: Quando não pagar a renda passa a ser um direito Constitucional

 A anunciada intenção do governo de facilitar o despejo dos inquilinos incumpridores está a suscitar as reacções mais inusitadas. Pelos vistos, a ideia de que alguém que não paga aquilo a que se comprometeu deve deixar de usufruir da coisa objecto do contrato é considerada por alguns um radicalismo quase ultraliberal. Como se não devesse ser normal. Estranho é o contrário, como acontece presentemente. Inquilinos que se eternizam numa habitação sem pagar a renda e sem que o proprietário do imóvel consiga reaver o que é seu, numa espécie de arrendamento místico onde a renda é facultativa e a propriedade privada uma ideia tonta.

A esquerda, sempre vigilante na defesa dos mais vulneráveis - categoria onde cabem com frequência bandidos, caloteiros e toda a fauna que vive alegremente à custa do trabalho alheio -  argumenta com o direito constitucional à habitação para se opor à medida proposta pelo governo. O detalhe incómodo é que não são os senhorios que têm obrigação de assegurar esse direito e o Estado, apesar das tentações paternalistas,  não tem propriamente vocação para agência imobiliária. É que isto da solidariedade social é uma coisa muito linda… desde que a conta seja enviada a outra pessoa.

A solução para assegurar o cumprimento desse direito também não passa por subsidiar o arrendamento ou o Estado construir mais casas. A primeira hipótese já se viu que apenas serve para aumentar o preço das rendas  - é o que acontece quando se estimula a procura num mercado onde a oferta continua anémica -  mas aparentemente a aritmética económica ainda não chegou a certas mentes. Quanto à segunda, atendendo à maneira como o Estado gere o seu património, as consequências seriam fáceis de prever. Mais um generoso parque imobiliário público a caminhar lentamente para o estado de abandono e degradação que tão bem caracteriza outras aventuras patrimoniais do sector público.

Já que a habitação é um direito, então que o Estado leve a coisa a sério e garanta o pagamento das rendas, tratando o incumprimento como uma dívida ao Estado cobrada através da Autoridade Tributária. Teriamos, desconfio, um milagre estatístico no cumprimento das obrigações. Se atentarmos no que acontece com as dívidas das portagens e outras cobradas pela AT, acredito que poucos arriscariam deixar de pagar a renda.  

domingo, 15 de março de 2026

Protecção de dados. Desde o NIF na secretária à lista de clientes

 Enquanto noutros países e noutras regiões do globo se fomenta o desenvolvimento, a investigação e a melhoria da qualidade de vida dos residentes a Europa, os europeus e o ocidente em geral fazem questão de se preocupar com idiotices. Nem vale a pena enumerá-las, de tantas e tão estúpidas que são as prioridades que constituem a agenda que vigora deste lado do mundo. Basta aceder a uma qualquer rede social, ligar a televisão ou simplesmente sair à rua para se ficar com a sensação que estamos a viver num manicómio gerido pelos mais malucos de todos os malucos. 

Os dirigentes europeus passam grande parte do seu tempo a discutir e, pior, muitas vezes a aprovar regulamentos para tudo e mais alguma coisa. Um dos mais escabrosos tem a ver com a protecção de dados que, posteriormente, foi de implementação obrigatória em toda a União Europeia. Independentemente da bondade da ideia é daqueles que, digamos, mais me enfenece. Por tudo e por nada temos de autorizar que os nossos dados sejam usados ou acedidos. Podemos sempre rejeitar, mas nesse caso não obtemos o serviço a que tentamos aceder. Ou seja, mais valia não existir regulamento nenhum. 

Ainda por causa da aplicação do famoso RGPD, não pode um qualquer funcionário de uma qualquer repartição pública – privada, provavelmente, também não – ir beberricar o seu cafezinho e deixar um papel em cima da secretária onde constem nomes ou outros dados alegadamente sensíveis como moradas e NIFs. No entanto, soube-se por estes dias, um tribunal português mandou o primeiro-ministro divulgar a lista de clientes da empresa que detinha quando exercia a sua actividade profissional. A minha simpatia pelo adepto do FC Porto que actualmente preside às reuniões do conselho de ministros é pouco mais que nula, mas parece-me que a dita lista conterá dados muitíssimo mais sensíveis, na perspetiva dos clientes, do que a relação de licenças de canideos que ficaram por renovar, esquecida numa qualquer secretária da junta de freguesia. 

sábado, 14 de março de 2026

Marx, microsoft e moralismo

 


Dez anos é muito tempo, já dizia o gajo das cantigas. No que toca a informática, então, é para lá de uma eternidade. Daí que seja natural um equipamento com essa bonita idade ter há muito ultrapassado o prazo de vida útil. O disco rígido deste computador andava a ameaçar entregar a alma ao criador fazia uns tempos e não fora tê-lo em dual-boot, a cirurgia a que o submeti esta semana – a substituição por outro HD que guardei do antecessor -  não podia ter sido adiada tanta vez. 

Embora não faça questão de ter o último grito da moda em tecnologia, em matéria de software gosto de estar sempre actualizado. Mas, como é óbvio, software recente em hardware antigo é uma combinação que raramente resulta. O Windows, por exemplo, desde o XP que não é suportado por esta máquina. Mesmo o Linux, que adoptei como sistema operativo quando ainda tinha cabelo, apenas nas versões mais leves  funciona de maneira minimamente aceitável. 

Tudo isto porque eu não uso nenhum programa pelo qual tenha de pagar. Nem, tão pouco, pirateados. Bem que todos aqueles que aqui pelas redes sociais – ou noutros sítios, não interessa – levam a vida a papaguear contra as grandes empresas, as multinacionais e o capitalismo em geral podiam fazer o mesmo. Usar software livre. Há muito, completamente à borla, faz o mesmo do que o da Microsoft e não contribuíam para aquilo a que chamam lucros escandalosos. Mas não. Garantem que não gostam do capitalismo, mas não querem viver sem as suas maravilhas. Criticam o sistema e alguns querem mesmo derrubá-lo desde que isso não signifique abdicar do Windows, do Office ou do Photoshop. O que, evidentemente, não tem mal nenhum. O capitalismo também precisa de clientes. Não precisam é de fingir um sentimento anti-capitalista. Até porque ninguém acredita muito nisso. Sobretudo quando a revolução é organizada a partir de um portátil comprado a prestações e publicada numa rede social avaliada em milhares de milhões. 

terça-feira, 10 de março de 2026

Pacifistas e Outros Traidores

Esta coisa da guerra é uma daquelas inevitabilidades absolutamente inevitável. Sempre existiu desde que o mundo é mundo e sempre existirá enquanto for habitado. Podemos filosofar à vontade, tecer as mais rebuscadas teorias, destilar os nossos ódios de estimação como circunstancialmente nos dê mais jeito, mas não há nada a fazer. Sempre assim foi e sempre assim será. 

O que me parece evitável são determinadas posições que, consoante a nossa simpatia pelo agressor ou pelo agredido, se tomam perante os diversos conflitos bélicos que vão ocorrendo. No caso do ataque ao Irão alguns invocam o “direito internacional”. O mesmos, curiosamente, que não viram nenhum atropelo a esse tal direito quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Ou que choram baba e ranho pelas criancinhas mortas em Gaza e no Irão, mas que garantiram ter visto as vitimas do massacre de Bucha, na Ucrânia, a acenar para as câmaras de televisão. 

Felizmente a II Guerra Mundial decorreu quando as pessoas ainda não sofriam das maleitas que agora lhes afectam a moleirinha. Se fosse hoje, com o ódio aos EUA e ao Ocidente em geral, os bombardeamentos sobre a Alemanha seriam crimes de guerra, o desembarque na Normandia visto como uma invasão e não faltariam manifestações a exigir a retirada dos soldados americanos. Provavelmente também haveria especialistas a garantir que o verdadeiro intuito dos aliados seria apropriar-se da cerveja e das salsichas germânicas. 

Por mim, independentemente dos beligerantes em conflito estarei sempre do lado da democracia, da liberdade e do país onde as mulheres, se essa for a sua vontade, usam mini-saia. Não gosto de ditadores e pouco me importa quem lhes bate, quando lhes bate ou porque lhes bate. Como dizia o outro, num ditador bate-se sempre. Mesmo que não saibas porque lhe bates, ele sabe porque apanha. E se não souber, paciência. Sempre fica a saber como “elas lhe mordem”.

domingo, 8 de março de 2026

Agricultura da crise

 

Origem: Wikipédia


Já aqui dei conta em múltiplas ocasiões que o meu quintal exerce um estranho fascínio sobre toda a espécie de fauna. Uma cobra de aspecto ameaçador, um coelho assustado e um pato bravo com o sistema de voo avariado são os exemplos, digamos, mais exóticos. Menos mal que foram exemplares únicos. Nenhum outro de qualquer dessas espécies voltou a aparecer por aqui. 

O mesmo não se pode escrever de gatos e passarada de todas as marcas. Quanto aos primeiros, ao invés de fazerem disto uma coutada de caça, usam-no apenas para arrear o calhau. Os segundos, de dia comem, estragam a agricultura da crise, de noite pernoitam nas árvores, cagam-me o carro e tudo o mais calhar. Depois há toda uma miríade de bicharada – desde lagartas, bichos de conta e outros que a minha ignorância nesta matéria não permite identificar -  que complementam o trabalho dos anteriores. 

Como se tudo isto não fosse já suficientemente desesperante, agora apareceu o Vinicius. Chegou com uma confiança absolutamente desconcertante, o gajo. Tem a mania que é o dono disto tudo. Percorre todo o terreno, espoja-se no chão, esgravata e abre verdadeiras crateras junto às raízes das plantas, o mau-feitio. Um fingido, também. Um destes dias tentei tirar-lhe uma foto e o gajo levantou voo a piar. Deve ter ido fazer queixinhas por violação da privacidade, o raio do melro.

sexta-feira, 6 de março de 2026

CCDR — Comissão de Coordenação do Desenvolvimento Remuneratório

Desconfio que a maioria dos portugueses não sabem para que servem as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional. Até sou gajo para apostar que um número igualmente significativo nem sequer tem conhecimento da sua existência. Quem não sabe fica a saber que são cinco – Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve – organismos regionais que servem para “definir e executar estratégias”. Ou, em linguagem corrente, gerar burocracia e distribuir tachos entre os amigos, correlegionários e outros palhaços. 

A presidência e vice-presidência destas entidades será, ao que tem sido noticiado, composta por um total de trinta e sete pessoas – cinco presidentes e trinta e dois vices – que irão auferir quase nove mil euros e pouco mais de oito mil, respectivamente, por mês. Brutos. Cada um deles, claro. 

Com a recente eleição de toda esta malta, o país passa a ter mais cinco primeiros-ministros e mais de três dezenas de ministros. Pelos menos a ganhar como tal. O que, certamente, contribuirá para melhorar significativamente a qualidade de vida dos portugueses. Por mim, que acredito sempre que tudo o que os políticos planeiam é em beneficio do povo, aposto que a melhoria será imensa. Tão grande que será coisa para andar ali perto do zero. Ou talvez até abaixo dele. 

quarta-feira, 4 de março de 2026

O Alentejo segundo um especialista em coisa nenhuma

 


As anedotas e piadolas parvas sobre os alentejanos quase desapareceram do espaço público. Não porque quem as dizia tenha ficado subitamente mais inteligente ou empático, mas porque deve ter percebido que isso hoje dá direito a rótulo, processo e talvez um workshop obrigatório sobre sentimentos. Já não dizem que somos madriões ou estúpidos. Agora é mais sofisticado. Somos pobres, suicidas, racistas e radicais. Uma evolução notável, convenhamos.

Presumo — embora não tenha a certeza, porque não li o artigo — que tudo isto esteja solidamente sustentado em estatísticas. Daquelas elaboradas a partir de números recolhidos por verdadeiros especialistas, especialmente especializados nas mais especiais especialidades. Algo ao nível daquele “rapazinho especial” que assina o artigo, doutorado em generalizações apressadas e mestrado em desprezo regional.

Sou alentejano, quase toda a vida vivi no Alentejo e lamento desapontar este coisinho, mas não possuo nenhum dos defeitos que o infeliz escriba aponta aos alentejanos. Nem eu, nem a esmagadora maioria de quem aqui mora. Embora, reconheço facilmente, que antes do café até eu posso parecer radical. Gente como a que a criatura descreve existe em todo o lado. Aqui, onde ele vive e, com grande probabilidade, pelo caminho que faz todos os dias até ao espelho.

Dizer que os alentejanos são pobres e suicidas é de uma indigência mental comparável a afirmar que os lisboetas são todos ricos e criminosos. É simples, é preguiçoso e dá muito pouco trabalho a quem escreve. Mas se ele quer insistir nisso, é lá com ele. Cada um lida com as suas limitações como pode.

Quanto à parte do racista e radical, aquela velha máxima do “quem diz é quem é” assenta aqui que nem uma luva. Esta meia dúzia de linhas não deixa muitas dúvidas. A única que fica é o que raio lhe terá acontecido na vida para carregar tamanho ressentimento contra o Alentejo e os alentejanos.

terça-feira, 3 de março de 2026

ZLAN - As placas que salvaram o mundo

Parece-me manifestamente exagerada a teoria que o Irão nos vai atacar. Nomeadamente ao nível do armamento atómico. Não pelo facto de, segundo garantem, não terem dessas cenas, mas porque grande parte do nosso território é uma zona livre de armas nucleares. Não sei se as potencias que as possuem sabem disso, mas é óbvio que quando tomarem conhecimento dessa interdição recuam de imediato na intenção de nos bombardear. Por mais vontade que tenham de o fazer, de certeza não vão correr o risco de violar essa proibição. Nem o Trump nem nenhum Mohamed desta vida são malucos a esse ponto.   

Tudo isto porque nos anos oitenta, várias zonas do nosso país eram ornamentadas por placas informativas com a sigla ZLAN. O cidadão era assim informado de que estava numa Zona Livre de Armas Nucleares. Maioritariamente, essas zonas coincidiam com concelhos de maioria comunista, onde as respetivas Câmaras Municipais reproduziam a propaganda pacifista soviética. Que, na prática, se resumia à defesa do desarmamento das democracias ocidentais enquanto a União Soviética se armava até aos dentes com armas convencionais e nucleares. Aquilo era uma espécie de redundância folclórica, porque Portugal era todo ele livre de armas nucleares. Servia apenas para dar um sinal de que estávamos perante gente pacífica e pouco dada a bombardeamentos. E, diga-se, também tinha a nobre missão de arrancar um sorriso trocista a quem reparasse nas placas. Porque, em boa verdade, não abonava em nada a credibilidade – ou, vá, da sanidade mental -  dos autarcas da altura. Inclusive os que cá na terra também nos incluíram nesse clube de malucos.

segunda-feira, 2 de março de 2026

A esquerda e o fetiche pelas ditaduras alheias

 Por alguma razão que a psiquiatria explicará, as ditaduras gozam de uma especial simpatia em Portugal. Nomeadamente por parte da comunicação social, da esquerda e, mais espantoso ainda, de pessoas aparentemente ajuizadas.

Para os jornalistas, o ayatola a quem os israelitas limparam o sebo era “um religioso discreto”. Os muitos milhares de mortos do regime que chefiou terão sido, certamente, apenas ofertados em sacrifício ao amigo imaginário do tirano. 

Os esquerdistas odeiam tudo o que envolve a democracia, os EUA em particular e o ocidente em geral. Detestam tanto que chega a ser comovente vê-los insistir em viver aqui, neste inferno capitalista onde há salários, direitos e liberdade para dizer disparates sem desaparecer de madrugada. Ou cair de uma varanda enquanto apreciam o pôr-do-sol. Um sacrifício diário que mais parece um martírio digno de beatificação. 

Podiam — e deviam — ir viver para Cuba, Venezuela, Irão ou outro santuário ideológico onde pudessem desfrutar do sonho revolucionário. Partilhar filas, censura, moeda sem valor, prateleiras vazias e a deliciosa sensação de saber que o Estado pensa por eles. Mas não. Preferem ficar por cá, a sofrer nas esplanadas e a maldizer o capitalismo de iPhone na mão. Ninguém merece penar tanto.

domingo, 1 de março de 2026

O lucro é bom quando tem a forma de imposto.

 As empresas vivem para o lucro. Seja a mercearia da esquina ou a banca. Mas há quem não aprecie essa intenção. Os invejosos, por norma, ou aqueles falhados da vida que nem na gestão das suas finanças pessoais conseguem ter saldo positivo. E, quanto a estes últimos, estou apenas – e sublinho, apenas – a pensar naquela malta que possui rendimentos médios ou elevados, mas que esturra tudo em futilidades e que depois leva a vida a queixar-se do capitalismo ou de outra coisa qualquer que justifique a sua penúria. 

Isto a propósito dos recentemente divulgados lucros recorde da banca portuguesa. Ou, melhor, a operar em Portugal. Esta divulgação suscitou umas quantas reacções curiosas. Houve quem ficasse indignado, por os considerar pornográficos - nomeadamente os dos bancos privados – e quem ficou manifestamente satisfeito com o lucro da Caixa Geral de Depósitos e o facto do banco público ter entregue ao Estado a parte de leão desses resultados.

Por mim, sinto-me dividido quanto ao sentimento a adoptar. Por um lado, gosto do lucro. Mais ainda quando envolve os bancos. Até porque, a existir prejuízo sabemos que não é o respectivo conselho de administração quem o paga. Mas, no que diz respeito à CGD, a coisa já me provoca algumas comichões. Sendo um banco público, o lucro, pelo menos a parte respeitante ao território nacional, é imposto pago pelos clientes. Por mais que o embrulhem em linguagem contabilística para consumo de audiências parolas. Sei que isto não incomoda muita gente. Há quem adore impostos com devoção religiosa. O que não tem nada de mal, diga-se, até porque só tem conta na Caixa quem quer.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Entre a razão e a ração

Era uma questão de tempo. Como praga bíblica ou moda importada com atraso do estrangeiro, a febre dos therians — pessoas que se identificam como animais — tinha inevitavelmente de atravessar a fronteira e chegar a Portugal. Ainda não são uma manada, é certo, mas já atingiram aquele número mágico que justifica um ajuntamento solene. Seja um congresso, um encontro espiritual ou uma feira de rações com Wi-Fi. Um fungágá da bicharada, se quisermos ser rigorosos.

Cada um é livre de achar que é um gato persa preso num corpo humano ou um cão de médio porte emocionalmente incompreendido. Juntarem-se para trocar vivências inter-espécies, comparar marcas de areia aglomerante ou discutir a melhor posição para dormir 16 horas seguidas é perfeitamente legítimo. Até pedagógico, diria.

As dúvidas surgem noutro plano. Nomeadamente no plano da convivência civilizada, esse conceito antiquado e caído em desuso. Espera-se, por exemplo, que não comecem a uivar às três da manhã porque a lua está “emocionalmente intensa”. Ou que as fêmeas em período de cio não transformem a via pública num documentário do National Geographic em horário nobre sobre reprodução animal. E, essencialmente, que não caguem nos passeios, não mijem nos postes, nas árvores ou, pior ainda, nos pneus dos carros alheios só porque “é instintivo”. Instintos todos temos, a civilização serve precisamente para os conter.

De resto, desde que não mordam desconhecidos, usem chip e estejam com as vacinas em dia é lá com eles. Portugal sempre foi um país tolerante. Desde que a tolerância não venha com pulgas. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Quem tem medo do passado?


Há quem não aprenda. Proibir raramente é solução seja para o que for. Por mais explicações, racionais ou não, que quem entendeu não permitir a exibição desta pancarta tenha prestado, o erro já não tem remédio. O estrago está feito e não há VAR que o reverta. 

A convicção de que a proibição desta pancarta terá pouco a ver com segurança e bastante mais com outras “sensibilidades”, está instalada. Cá dentro e lá fora. Porque sim, a notícia atravessou fronteiras e, como já dizia o outro, toda a dúvida é legítima. Sobretudo quando a certeza cheira a censura.

Não fosse a proibição, a mensagem ficaria confinada às bancadas e morreria no apito final. Assim, ganhou pernas, passaporte e tradução automática. Espalhou-se além-fronteiras dando azo a leituras, análises e interpretações que nem sempre serão as mais saudáveis e, de certeza, bem distantes daquilo que esteve na mente de quem elaborou a obra de arte. O que, por um lado, é bom. E pelo outro também. Recorda-nos que todos os ditadores são ridículos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Às três pancadas...

Parece que os tipos lá do governo terão contratado uma empresa para lhes tratar da imagem. Que é como quem diz do cabelo, das unhas, das beiças e do que mais calhar. O objectivo será, imagino, ficarem mais bonitos e apresentáveis no exercício das suas funções. Para isso, cuidava eu, é que serve aquele montante pecuniário que engrossa substancialmente o vencimento daquela malta e que dá pelo nome despesas de representação. Mas, se calhar não será bem assim. Contudo, independentemente de subsistir a dúvida quanto ao destino desse complemento salarial, fica a certeza que o serviço contratado não está a resultar. Não estão mais bonitos/bonitas. Tão pouco mais apresentáveis. 

Já outro dia foi aquilo dos canais de desporto que o executivo subscreve desde dois mil e dezassete. Um desperdício de dinheiro, convenhamos. Toda a gente vê isso e muito mais, completamente à borla. Ou seja, estamos perante um esparrame de dinheiro em futilidades. E nem é pelo valor, que nem dá para mandar um cego. Ou, vá, um invisual em matéria orçamental. É mais por, num e noutro caso, estas opções não se traduzirem em nenhuma mais-valia palpável na acção governativa. Mais valia não as ter, pois o resultado seria igual.

Por falar em valor acrescentado, anda muita gente a babar-se com a nomeação do gajo da PJ para ministro da administração interna. Alguns terão razão quanto ao contentamento. Nomeadamente os policias que já esfregam a carteira com a perspetiva de ver o valor do vencimento acrescentado de mais uns euros. Os demais que esperem pela pancada. Secreta.