Tempos houve em que se garantia que um tipo perigoso é aquele que nos olha nos olhos e mente. Hoje mente-se com a maior das naturalidades enquanto nos olham de frente. Sem sequer pestanejar, se preciso for. Os políticos aperfeiçoaram essa prática e a mentira faz parte integrante das suas estratégias. Digamos que a mentira deixou de ser um desvio moral para se tornar numa competência transversal, especialmente apreciada na carreira política.
Mas, convenhamos, há mentiras e mentiras. Uma coisa é prometer mundos e fundos para o futuro, esse território sempre elástico onde tudo cabe e nada se confirma. Outra, bastante mais grave e com muito menos margem para ginástica verbal, é mentir sobre o que se fez no passado. Foi nesse campeonato que decidiram alinhar António Filipe e André Ventura. Pelos menos, assim que me lembre, mais à descarada.
O primeiro garante, com ar ofendido, que o PCP nunca, jamais, em tempo algum, defendeu a saída do euro e da União Europeia. Ideia que, aparentemente, brotou espontaneamente da imaginação coletiva de décadas de militantes, dirigentes e documentos oficiais. O segundo jura a pés juntos que é uma falsidade pegada ter dito que votou em José Sócrates. Tudo invenções, como se sabe.
Cada qual é livre de defender as ideias que bem entender. Os comunistas, por exemplo, sonham com um país que seria uma espécie de Cuba em versão europeia, com clima menos tropical e economia igualmente exótica. É lá com eles. O problema não é a ideia, mas sim a negação histérica de a ter tido. Assumir posições exige coluna vertebral e, como temos visto no caso da Ucrânia, isso é um acessório que o PCP tende a dispensar sempre que em causa está a mãe-Rússia.
Quanto a ter votado em José Sócrates, obviamente, não tem nada de mal. Especialmente se, como diz André Ventura — embora nunca saibamos quando está a falar verdade — se arrependeu por se sentir enganado. Acontece aos melhores e ele até está muito longe de integrar esse grupo. O incómodo começa quando não se assume e evolui para o patético quando se jura que é mentira. Ainda assim, vindo de alguém que votou no candidato do PS enquanto militava no PSD, não é exatamente motivo para espanto. Aliás, não me surpreenderá minimamente se, nas próximas presidenciais, André Ventura acabar por não votar no candidato André Ventura. Afinal, coerência é um conceito raramente usado na politica. Por ele e por todos.