segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Pais de cães, órfãos de educação

 


É isto que fazem os donos dos canitos. Passeiam os seus “filhos” — eles lá sabem que falha emocional os leva a chamar isso a um animal que lambe o próprio cu — de quatro patas, sem se importarem com o que fica espalhado pelo caminho. Outros limitam-se a abrir o portão do quintal ou a porta de casa, largam o bicho na via pública e deixam que o “filho peludo” vá tratar de arrear o calhau onde bem entender, regressando depois ao lar de tripa aliviada para junto dos papás.

Esta vistosa poia foi hoje deixada à minha porta. Como muitas outras foram deixadas à porta de muitos outros. O mesmo aconteceu ontem. E, sem grande margem para erro, voltará a acontecer amanhã. Sem que ninguém faça nada ou, ao menos, se incomode a fingir que faz alguma coisa. A chatice, o drama, o horror urbano e a súbita paixão pelo civismo só aparecem quando um caco velho é deixado ao lado de um contentor do lixo. Aí já há indignação, já há comunicados, já há autoridades a franzir o sobrolho e a falar em saúde pública. Curioso. Porque sendo ambos comportamentos reprováveis, suspeito que em matéria de higiene e saúde pública a merda de cão ganha por larga vantagem. É mais nojenta, mais infecciosa e infinitamente mais frequente.

Penalizar os donos de cães não dá votos, não rende fotografias e pode dar polémica no Facebook. Multar quem deixa um monte de merda fumegante à porta dos outros é antipático, é “sensível”, é mexer com o amor incondicional dos “pais” de cães. E isso, como sabemos, é politicamente inconveniente. Já um caco velho não ladra, não vota e não faz posts indignados. Prioridades.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ver o óbvio...e para além dele.

 


Esta retórica dos imigrantes a salvar a segurança social já aborrece. Cheira a lavagem cerebral. É óbvio que, face à paupérrima taxa de reprodução dos portugueses, necessitamos de importar gente que garanta que este território vai continuar habitado. Também é por demais evidente que se não for a mão-de-obra estrangeira a economia do país, tal como a conhecemos, colapsará a curto prazo. 

A Segurança Social estará a ter lucro imediato por existirem mais contribuições. O que é bom, mesmo que lá mais para diante tenha de pagar mais pensões de reforma. Agora só falta pôr os desempregados profissionais e beneficiários de subsídios à preguiça a trabalhar. Aí o lucro seria ainda mais significativo, pelo efeito duplo da coisa.

O que me parece igualmente evidente é que a chegada de tantas pessoas tem consequências. Boas e más. Evidenciar as primeiras até à exaustão e negar as segundas, acaba por contribuir para a desvalorização das boas e não resolve as más. Pior do que isso, acaba a criar uma divisão imbecil entre os que apenas olham para cada um lados da questão. E o facto das auto intituladas elites intelectuais urbanas acharem que quem não pensa como elas é atrasado mental, não augura nada de bom.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A trapaça disruptiva

 


Em muitos negócios a diversificação de mercados ou produtos constitui um factor importante para o crescimento do lucro. O que é bom. Nada tenho contra a diversificação nem, menos ainda, contra o lucro. É por isso que olho para a evolução recente do negócio da burla com um certo respeito académico. É cada vez mais visível a aposta dos empresários do ramo da trapaça na modernização, na inovação e em sair da sua zona de conforto. Estão a apostar também na expansão e  na disrupção do modelo tradicional de engano ao próximo. Já não oferecem heranças nigerianas, nem se fazem passar por príncipes exilados. Agora são gestores de conta da Via Verde, esse símbolo máximo da modernidade portuguesa que nos permite passar portagens sem parar. Enviaram-me – e, se calhar, a muita gente -  esta mensagem a informar-me de que foi registado com sucesso um pedido de alteração do email da minha conta. Tudo muito profissional, bem escrito e convincente. A tentativa, assim à primeira vista, tem tudo para resultar. Contém apenas uma falha. Pequena e quase irrelevante. Um detalhe mínimo, por assim dizer. Não me chamo Agripino Silva.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Agricultura da crise

 


Os efeitos da borrasca Kristin também se fizeram sentir por cá. Embora, felizmente, em muito menor escala do que noutras paragens. Ao que se sabe ninguém terá tido motivo para chorar, rezar ou meter a cabeça debaixo da almofada como, segundo terá confessado, fez a outra fulana que tem a mania que é especialista em cantorias e meteorologia emocional, e que, segundo consta, entrou logo em modo drama bíblico. 

No que toca à agricultura da crise, os estragos resumem-se a uma dúzia de laranjas atiradas ao chão e aos brócolos quase derrubados pelo vento. Coitados dos brócolos. A Kristin bufou-lhes com tanta força que quase os arrancou da terra pela raiz. Torceram-se todos, ficaram ali a fazer yoga involuntário, mas não quebraram. São rijos, os gajos. Ou pelo menos espero que sim. Especialmente quando chegarem ao prato, que é onde realmente importa que não estejam moles.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O fascismo é tão imaginário como o meu gato...

Uma revista que se publica semanalmente considera, na capa da sua última edição, que nestas eleições presidenciais está em causa o futuro da democracia. Não tem mal nenhum achar isso. Afinal, seja o assunto o que for, o futuro está sempre em causa. Basta não ter acontecido. O que é uma coisa que acontece muito, isso do futuro ainda estar por acontecer. 

O que já não me parece assim tão acertada é comparação com as outras eleições onde também foi necessário recorrer a uma segunda volta para eleger o Presidente da República. Isto porque, garante quem redigiu o texto que consta da dita capa, da outra vez o regime democrático, ao contrário de agora, não estava em causa. O que constitui um monumental disparate. Lembro-me mesmo de alguém ter dito após a confirmação da vitória de  Mário Soares -  se não estou enganado até terá sido o próprio -  que podíamos todos dormir descansados nessa noite. Numa clara alusão ao dramatismo que a esquerda, tal como agora, promoveu durante a campanha acerca das consequências trágicas para a democracia se Freitas do Amaral ganhasse. 

Desconfio que naquela altura a tentativa de amedrontar os portugueses para a perigo que constituiria a eleição de um presidente de direita, foi muito maior do que agora. O equilíbrio era muito grande e o resultado podia cair para qualquer dos lados. O que desta vez não acontece. Mesmo o meu gato imaginário, o Bigodes, ganharia com facilidade ao candidato que se apresenta com vontade de impor uma democracia mais felina, chamemos-lhe assim. 

A democracia sobreviveu aos comunistas no Verão quente de setenta cinco. Desde aí nunca mais esteve em perigo. Nem estará por causas internas. Não enquanto, como estará prestes a acontecer noutras paragens, aqueles que se regem por valores contrários à civilização não constituírem a maioria da população. Mas isso não acontecerá nos tempos mais próximos. As netas desses auto-intitulados democratas é que “Irão” saber o que é o fascismo. Não o fascismo imaginário, omnipresente e conveniente, que só existe na cabeça dos malucos dos seus avós. O outro. O verdadeiro.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Dizer coisas tornou-se perigoso

No Brasil, um treinador português foi acusado de racismo por, ao explicar a deprimente exibição da sua equipa, ter cometida heresia de considerar que foi uma “noite negra”. Fica assim provado que o problema do futebol brasileiro não é a defesa, nem o meio-campo nem o ataque. Apenas o vocabulário.

Em Portugal, um tribunal — um órgão de soberania, convém sublinhar para quem ainda acredita nessas coisas — decidiu que a frase “nós só queremos o islão fora da Europa” configura crime de ódio. Aparentemente, já não é preciso odiar. Basta conjugar um verbo e mencionar um continente.

Noutros tempos, ambas as situações dariam origem a chacota, anedotas ou umas “décimas”, como dizia a minha avó perante algo que merecesse ser escarnecido. Hoje, exigem ar grave, testa franzida e comunicado oficial. A ditadura chegou. Não de botas cardadas, mas de corretor ortográfico moral, imposta por entidades sem rosto, comentadores profissionais e justiceiros de redes sociais com diploma em indignação instantânea.

O controlo da linguagem é apresentado como virtude cívica, mas cheira cada vez mais a velho vício autoritário. Enquanto isso, entretidos a trocar galhardetes por causa de um badalhoco e de um estarola, ignoramos olimpicamente os novos ditadores — esses mesmos que se arrogam o direito de decidir o que podemos ou não dizer, pensar ou até insinuar.

Sim, num caso e noutro estamos a falar de opiniões tão boas ou tão más como quaisquer outras. Incluindo as minhas, que continuarei a expressar aqui, ali ou onde bem me apetecer. Reafirmo, portanto, que mesmo em saldo não compro nada no “mercado negro”, que por mera prudência continuarei com “um olho no burro e outro no cigano”, que só quero as testemunhas de Jeová longe da minha porta e, já agora que aqui estou, aproveito para acrescentar que detesto “doutores da mula ruça”. Se isto me transforma num perigoso extremista linguístico, avisem-me antes que alguém me condene a frequentar aulas obrigatórias de semântica inclusiva.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Memórias inconvenientes de um tempo que alguns preferem inventar

 Nestes quarenta e cinco anos que levo de serviço, as histórias de que guardo memória já são mais que muitas. As que não me lembro, provavelmente, serão outras tantas. Uma das que recordo sempre que ouço falar de SNS, de fascismo e de como morríamos por falta de assistência médica antes do dia fundador é a de um colega que, ali a meio da década de oitenta do século passado, se dirigiu aos serviços para tratar de cenas relacionadas com um acidente de trabalho. 

Questionado acerca do sucedido o homem, um pedreiro que trabalhava na construção de um edifício municipal, esclareceu que ao descer de um andaime embateu violentamente com o traseiro numa vara de aço que um servente transportava na vertical e que passava naquele preciso momento no trajecto por onde o acidentado descia. A colisão na zona do traseiro foi inevitável e, ao que garantia, as lesões provocadas foram assinaláveis.

Transportado ao centro de saúde cá do sitio, o nosso homem foi encaminhado para o hospital distrital, pois seria necessário efectuar Rx não fosse haver chatices ao nível do cóccix. Coisa que, confessou, lhe causou profunda estranheza. Isto porque noutro infortúnio que vinte anos antes igualmente lhe afectou aquela zona anatómica, o assunto foi resolvido no hospital cá do sitio. E garantia, enquanto descrevia pormenorizadamente a maleita e respectivo tratamento, que se tratou de um caso muito pior. Com efeito, a remoção de um fragmento de osso de frango que ficou encravado mesmo à saída não deve ser encarada como um procedimento menor. Ainda assim, imagine-se, até para essas situações havia solução local com médicos, camas, bisturis e competência.

Isto vem a propósito da quantidade industrial de idiotice que se diz e escreve por aí sobre assuntos acerca dos quais reina uma ignorância vaidosa. Ainda bem que existe o SNS. Isso nem se discute, tal como não se discute a utilidade da água ou do oxigénio. Mas convém não reescrever a História como se antes dele só houvesse curandeiros, sangrias e orações. Porque, se fosse hoje, o dito colega teria esperado uma dúzia de horas para ser atendido a cinquenta quilómetros de casa e os meus pais teriam pago uma fortuna num hospital privado para me fazerem uma amigdalectomia. Na altura, sem SNS, foi de borla.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Turistas das intempéries

 Por cá também nevou. Pouco e durante um curto espaço de tempo. Tão pouco que nem deu para fazer “sku”. E ainda bem, não fosse isso servir de convite formal para a inevitável romaria dos turistas das intempéries. Essa espécie migratória peculiar que, mal ouve falar de um fenómeno meteorológico ligeiramente fora da banalidade, enfia a família no carro e acelera em direção ao perigo com o entusiasmo de quem vai ao centro comercial ao domingo. 

São os mesmos que sobem em massa à Serra da Estrela sempre que cai um floco com mais de meio centímetro sob a desculpa, nobre e inquestionável, de que é “só para o Martim ou a Carlota brincarem um bocadinho”. Porque nada diz mais sobre boa parentalidade do que expor uma criança a hipotermia ligeira, estradas geladas e filas quilométricas para fazer um boneco de neve que mais parece um croquete gigante.

Estes dias são também ideais para estes turistas se dirigirem à beira-mar usufruir da proximidade das ondas. A oportunidade de obter uma selfie épica, de costas para a água, justifica a deslocação e a galhofa. Até porque, toda a gente sabe, o Atlântico aprecia imenso aparecer nas stories do Instagram.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Armados em parvos

É reconfortante saber que as forças policiais estão atentas às movimentações do mundo do crime em geral e dos criminosos em particular. Há quem não se preocupe com minudências e ache que as policias deviam era preocupar-se com a malta do “colarinho branco”, os que roubam milhões e outra gente que comete a heresia suprema de escapulir ao fisco. São criaturas – conheço algumas – que se afirmam muito mais alarmadas com essas cenas do que com aqueles que andam por aí aos tiros e a roubar os pertences que não lhes pertencem.
Por mim acho muito bem que os policias cacem meliantes. Ontem caçaram uns quantos. Diz que alguns pertencem, ou terão pertencido, a partidos pouco recomendáveis – três ao Chega e um ao Partido Socialista – e outros a claques de futebol. Integrariam uma espécie de seita com uma admiração enternecedora pelas ideias deixadas por um certo Adolfo — um obscuro artista falhado — e, em simultâneo, um ódio visceral a muçulmanos. Uma posição curiosa, diga-se, já que ambos são igualmente incompatíveis com judeus. Mas não admira, a coerência nunca foi o forte destas alminhas.
Fez, reitero, a policia muito bem em dar-lhes caça. Aquilo é gente a evitar em todas as circunstâncias. Agora só faltam aqueles desgraçadinhos que andaram aos tiros com armas de guerra na noite da passagem do ano, de cara descoberta e perfeitamente identificáveis em vídeos amplamente divulgados que toda a gente viu. Excepto a policia. O que não admira. É óbvio que a policia não vai ver coisas filmadas ilegalmente e que não respeitam a privacidade do bandido. Alguém, de resto, tem de cumprir a lei.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O demónio imaginário e o anjo de conveniência

 

Por maior besta que se seja em vida, é na altura da morte que quase todos – e digo quase porque em certa ocasião estive num velório onde, com o morto ainda ali esticado, não faltou quem dissesse mal do extinto - se tornam as melhores pessoas do mundo. António José Seguro não precisou de passar pela maçada de falecer para atingir esse patamar. Bastou chegar à segunda volta das eleições presidenciais. O “Choninhas”, “Copinho de leite”, “sonso”, o tipo da “esquerda que a direita gosta” ou das vitórias “poucochinho” passou, ungido por comentadores e gente de esquerda sem vergonha na cara – passe o pleonasmo – para uma espécie de salvador da democracia ou arcanjo constitucional que, de lança em punho, enviará o demónio para o quinto dos infernos.

Obviamente que nada me move contra as pessoas que mudam de opinião. Nem, tão-pouco, contra quem não tendo visto eleito o candidato em quem votou na primeira volta opte por uma das alternativas na segunda. Uma e outra coisa são absolutamente normais. Pouco normal é a retórica. Eu, benfiquista ferrenho, também fico contente sempre o que Porto e o Sporting não ganham. Não ando é por aí a apregoar que os outros adeptos do Glorioso que não fazem o mesmo, por manifestamente terem mais juízo do que eu, são uns atrasados mentais ou que não gostam de futebol. 

E, como toda a gente parece sentir uma súbita necessidade de proclamar virtudes cívicas em praça pública, manifesto desde já o meu sentido de voto, para esta segunda volta, no candidato apoiado pelo Presidente do Conselho Europeu.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Ontem uma faca, hoje um veículo e amanhã, quiçá, uma torradeira...


São recorrentes as notícias acerca de facas que esfaqueiam pessoas. Acontece muito. Tanto, que já fazemos pouco caso dessas notícias. As facas, essas maganas, andam numa azáfama homicida por essa Europa fora, fartam-se de esfaquear pessoas que, por coincidência, costumam estar por perto. Por cá também acontece, mas menos. Por enquanto.

Este ímpeto assassino não se limita aos tradicionais objectos cortantes, afiados ou pontiagudos que durante milénios viveram injustamente catalogados como utensílios de cozinha ou ferramentas de bricolage. Afinal, revelam agora uma vida interior riquíssima e uma clara vocação para o homicídio. Essa vontade indómita de matar parece, aliás, ser transversal a muitos outros objectos que teimámos em considerar inanimados, quando na verdade só estavam à espera do momento certo para se passarem dos carretos. Nomeadamente no que diz respeito ao desejo muito concreto de nos ver falecer, de preferência sem aviso prévio.

Segundo as notícias, na Amadora, um carro em andamento terá disparado sobre duas criaturas. E acertou-lhes, ao que parece. O que revela não só uma pontaria notável como também um avanço tecnológico assinalável no sector automóvel. Já não bastava conduzir sozinho, agora também decide quando abrir fogo. Deve ser coisa da inteligência artificial, esse milagre moderno que veio para facilitar a vida e, ocasionalmente, para a terminar. O que torna isto ainda mais preocupante.

É que, numa época em que qualquer electrodoméstico tem mais poder de processamento do que a traquitana que pousou na Lua, começa a ser ingénuo achar que estamos seguros dentro de casa. Hoje é um carro, amanhã é um frigorífico com ideias próprias. Às tantas, nem nas nossas cozinhas estamos a salvo. Agora que penso nisso, a minha torradeira tem andado esquisita… ontem queimou o pão com um ar que não me inspirou confiança. E ficou a olhar para mim. Fixamente.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Adeus Sapo, olá Blogger.

Onze anos depois de ter migrado do Blogger para o Sapo, faço hoje o caminho inverso. Os tipos do batráquio resolveram acabar com os blogs e, entre as alternativas disponíveis, não hesitei na escolha. É um regresso óbvio a um espaço onde andei pelos primórdios destas coisas.

Encontrei algumas diferenças na gestão do blogue face aquilo que me recordo que era em 2015 e inconsistências diversas com o material que exportei da anterior plataforma. O normal numa transição desta natureza, mas que requer um trabalho imenso até ficar tudo como eu gosto.

Ou seja, o Sapo fechou a porta, eu voltei ao Blogger e assim se confirma que, na Internet, nada morre realmente, apenas muda de URL e dá mais trabalho do que prometia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O socialismo funciona...nunca!



Há quem não perceba, ou não queira perceber, que o socialismo não funciona. Ainda assim insistem num argumentário rico em verborreia, mas manifestamente longe da realidade. Aquela coisa que se encarrega de destruir, sempre mais cedo do que tarde, os cenários idílicos daquelas terras que prometem o sol a brilhar para todos nós, mas que afinal apenas conseguem dar a noite mais negra. Ou vermelha, vá, para ser cromaticamente mais  rigoroso.

No gráfico pode ver-se a evolução de um país capitalista, a Venezuela, que um bando de malucos resolveu levar a adoptar as práticas socialistas. O outro, a Polónia, fez o caminho inverso. Os últimos dados da comparação são de 2020. Hoje a diferença será bastante maior. Apesar de todas as evidências ainda existe gente que nos quer vender as opções políticas que levaram ao colapso e à destruição daquele país sul-americano. É a estes que recomendo sempre que façam a revolução socialista no respectivo quintal. E, porque não lhes desejo mal nenhum, estimo as melhoras. Com pouca esperança, mas muita sinceridade.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Quando a liberdade encarece a culpa é do ocidente...

Compreende-se a vontade de controlar – que é como quem diz, censurar e, se possível, calar – as redes sociais. Sem elas saberíamos apenas aquilo que o poder decidisse que era bom para a sua sobrevivência. Ou, como já acontece em Portugal e em boa parte das democracias ocidentais, ficaríamos confinados à versão oficial dos factos. Aquela filtrada, higienizada e explicada pelos activistas que hoje acumulam as funções de jornalista, militante, pedagogo moral e fiscal da virtude alheia. Nada disto é coincidência, sempre que se sentem ameaçados os ditadores já não mandam calar jornais nem desligam o sinal da televisão. Isso é coisa do passado. Agora mandam cortar a Internet. 

Veja-se o caso do Irão. Para a comunicação social portuguesa aquilo são protestos por causa da inflação galopante que está a destruir a economia e o poder de compra da população. Tudo, esclarecem-nos, por culpa das sanções do ocidente. Deve ser mesmo isso, deve. A grande preocupação das mulheres iranianas é, de certeza, o aumento do preço dos tecidos pretos em que são obrigadas a embrulhar-se. Vai daí, foram para as ruas protestar. Nem ele é outra coisa. Está-se mesmo a ver e só um facho é que não percebe esta maquinação capitalista para derrubar a revolução. Nem um facho, nem alguém que tenha o atrevimento de pensar pela própria cabeça.

Ainda assim, admito, essa canalha do activismo jornalistico tem alguma razão quanto a isso do envolvimento da inflação nestas lutas populares. É que o preço da liberdade está pela hora da morte. No Irão, na Venezuela e em todo o lado onde a esquerda e os seu aliados governam. E, se não nos pusermos a pau, também por cá.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O balázio de ano novo - património imaterial da família tradicional

Há quem ache estranho que, passados todos estes dias, ainda nenhum membro da  “família” que celebrou a entrada no novo ano aos tiros de metralhadora tenha sido incomodado pelas autoridades. Gente mesquinha, evidentemente. Pessoas pequenas, roídas pela inveja, que não conseguem aceitar que há quem se divirta de forma genuína, saudável e profundamente enraizada na tradição oral  e balística  dos seus antepassados.

Querem ver atrás das grades cidadãos de bem que apenas exerceram o seu direito ancestral de transformar o espaço público num campo de tiro improvisado, sem qualquer intenção de fazer mal a uma mosca. A não ser, claro, que por um azar cósmico absolutamente imprevisível, alguma dessas moscas — ou pombos, ou varandas, ou transeuntes — se tenham atravessado na  trajectória de um dos muitos projécteis festivos disparados para o ar. 

Os que defendem que isto é comportamento punível e que pedem mais “acção” policial revelam apenas ignorância. Não percebem o contexto. Não percebem a cultura. Não percebem que o facto de a “família” disparar armas proibidas a civis é um detalhe menor. Quase burocrático, diria. Quem nunca, numa passagem de ano mais animada, sacou de uma arma de guerra para marcar a meia-noite, que atire a primeira bala. De preferência em rajada.

Além disso, sejamos razoáveis. Identificar a “família” seria uma tarefa ciclópica. Apesar de estarem de cara descoberta, numa rua perfeitamente identificável, num vídeo amplamente difundido, é praticamente garantido que ninguém os conhece. Não moram ali, claro. Estavam só de passagem. Foram à festa. Coisa rápida. E, como é evidente, desapareceram logo a seguir porque a casa fica longe e no dia seguinte tinham de acordar cedo para ir trabalhar. 

Pode ser isso tudo. Ou não. Tenho outra teoria. Cá para mim, aquele vídeo é falso. Ou melhor, é coisa criada por inteligência artificial para nos levar a sentir falsas sensações de insegurança. Uma cena muito própria da extrema-direita, ou lá o que se chama aqueles gajos que não gostam de “famílias”. Toda a gente sabe que as “famílias” não se dedicam a actividades desprovidas de enquadramento legal. "Jamé", como dizia o outro. No máximo, vá, a umas burlazinhas no MB Way...

domingo, 4 de janeiro de 2026

Especialistas que deixaram de querer apenas paz...

De repente, como cogumelos depois da chuva ou comentadores depois de um conflito internacional, começaram a surgir especialistas especialmente especializados nessa especialidade muito específica chamada direito internacional, que curiosamente ninguém parecia dominar até ontem ao pequeno-almoço. Aquela coisa da Venezuela fez-lhes saltar a tecla. Eu, pelo meu lado, pouco percebo do assunto. O que me coloca, ironicamente, numa posição de enorme vantagem. Daí que me socorra das posições dos apaniguados de um conhecido partido político — aquele cuja relevância pública é rigorosamente inversa à sua relevância eleitoral — já testadas e aprovadas aquando da invasão da Ucrânia. A receita é simples, eficaz, moralmente confortável e resume-se a “eu só quero paz”. O que é preciso é paz. Paz acima de tudo. Se é que aconteceu alguma coisa, claro. E, se aconteceu, não começou agora. Nunca começa agora. Começa sempre algures no Neolítico ou, no mínimo, em 1991. É preciso olhar para trás. Muito para trás. Até encontrar qualquer coisa que justifique tudo. Deve ser isso. Ou outra cena marada qualquer, possivelmente.

Seja como for, a deposição de Maduro é, sem dúvida, uma boa notícia. A má é a forma como foi deposto. Um detalhe, dirão alguns. Um pormenor técnico, dirão outros. Embora não se trate sequer de um precedente — ingerências, invasões, golpes e anexações são mais que muitas nos últimos cinquenta anos — o episódio tem a ligeira desvantagem de significar que nenhum país ou território está verdadeiramente a salvo. Nenhum mesmo. Seja o Canadá, a Gronelândia ou os Açores por parte dos EUA, todos os países que constituíam a URSS por parte da Rússia ou Taiwan pela China. É tudo uma questão de tempo, oportunidade e uma narrativa suficientemente criativa. Até mesmo Portugal é melhor ir pondo as barbas de molho, que os castelhanos estão mesmo ali ao lado e são capazes de começar a ter ideias. E isso, as ideias - especialmente as mais parvas -  costumam surgir quando menos se espera.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Reciclagem tradicional



Há tradições, sólidas como as muralhas que as inspiram, que atravessam gerações. Costumes ancestrais, transmitidos de forma quase ritual. A fotografia que aqui se vê documenta uma delas. O  nobilíssimo hábito de atirar lixo muralha abaixo. Trata-se de uma prática antiquíssima, cujas origens se perdem no nevoeiro da história. Os primeiros registos remontam, ao que consta, ao primeiro cerco à urbe. Um episódio ocorrido numa época tão remota que ainda eu tinha cabelo. O que ajuda a situar cronologicamente o evento no dealbar da humanidade. Nessa altura, os atacantes terão sido rechaçados com recurso a pedradas e a todo o tipo de objectos disponíveis à mão, inaugurando assim uma escola de defesa urbana baseada no improviso e no desperdício doméstico.

A tradição manteve-se viva ao longo dos séculos. Sempre que os castelhanos se lembravam de entrar por aqui adentro com intenções menos amistosas, lá choviam detritos, móveis e utensílios vários, garantindo uma retirada célere e pouco digna. Diz-se que muitos invasores regressaram a casa não só derrotados, mas também com uma profunda aversão a cerâmica partida. Daí aquela tradição manhosa que os espanhóis hoje têm de ir à feira de Elvas comprar louça.

É reconfortante verificar que, apesar da modernidade, há quem continue a honrar os costumes dos antepassados. Verdade que, nos últimos anos, ninguém tentou invadir a povoação. Mas com o estado em que anda o mundo, nunca fiando. Nada como manter o treino em dia e assegurar que, se o pior acontecer, não falte munição. À vista desarmada o arsenal parece modesto. Garrafas de plástico, caixas de cartão e um ou outro electrodoméstico fora de prazo. Mas não nos iludamos. Em caso de necessidade extrema, haverá sempre recurso a armamento pesado. Seguramente nos "paióis" existirão frigoríficos, máquinas de lavar, fornos e um velho sofá de três lugares em fim de vida prontos a serem arremessados. Tudo em nome da defesa civil e da pátria gloriosa. Que o Putin, ou qualquer outro pateta com ambições expansionistas, se ponha a pau. Aqui não passará. Os bravos patriotas do local estão preparados para pôr a milhas qualquer atacante. Com eficácia, convicção e um profundo desprezo pela recolha selectiva de resíduos. Um grande bem-haja a quem não deixa morrer as tradições.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Especialistas em tudo ou mestres do nada

 

Há pessoas que sabem tudo sobre tudo. Não se limitam a ser especialistas nisto ou naquilo. Não. São especialistas em tudo o que alguma vez foi, é ou poderá vir a ser uma especialidade. É precisamente por isso que adoro ler o que escrevem e ouvir as suas opiniões sábias, profundas e, sobretudo, muito especialmente especializadas, que fazem o especial favor de nos oferecer, quase sempre sem que ninguém lhas tenha pedido. O tempo, esse mal-educado, costuma depois encarregar-se de os desmentir. Ou de pôr as suas certezas em modo de dúvida permanente. Em quase tudo, curiosamente.

Garantem estas eminências que os imigrantes — que, diga-se desde já para evitar ataques de nervos, fazem cá falta e a questão nem é essa — estão a salvar a Segurança Social. Vai-se a ver, porém, e a idade da reforma continua a subir, enquanto o valor das pensões, em comparação com o último vencimento, continua a descer. Quanto aos estrangeiros que cá vivem e trabalham, não se sabe ao certo quantos são, onde moram ou o que faz a maioria. Parece até que é mais simples contar javalis. Esses, segundo dados oficiais, são quatrocentos mil. E, arrisco dizer, mais facilmente localizáveis.

Em matérias legislativas, então, a especialização atinge níveis olímpicos. Garantem, com ar grave e tom doutoral, que aquela coisa dos cartazes do Ventura é manifestamente ilegal por discriminar toda uma comunidade. Talvez seja. Sou tentado a concordar. Aliás, já achava o mesmo quando muita dessa gentinha, que agora rasga as vestes em defesa da não discriminação, se deliciava a contar anedotas e graçolas onde os alentejanos surgiam invariavelmente como criaturas alérgicas ao trabalho. Alguns chegaram mesmo a aborrecer-se por eu não lhes achar piada e acusaram-me de uma “incapacidade de rir de mim próprio”, prova inequívoca — segundo eles — da minha falta de inteligência. Pois. De discriminação percebem eles. Nisso, reconheço, são mesmo especialistas. Têm anos de prática, currículo sólido e uma notável capacidade de só identificar a que dá jeito.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O passado, em politica, é muito imprevisivel

Tempos houve em que se garantia que um tipo perigoso é aquele que nos olha nos olhos e mente. Hoje mente-se com a maior das naturalidades enquanto nos olham de frente. Sem sequer pestanejar, se preciso for. Os políticos aperfeiçoaram essa prática e a mentira faz parte integrante das suas estratégias. Digamos que a mentira deixou de ser um desvio moral para se tornar numa competência transversal, especialmente apreciada na carreira política. 

Mas, convenhamos, há mentiras e mentiras. Uma coisa é prometer mundos e fundos para o futuro, esse território sempre elástico onde tudo cabe e nada se confirma. Outra, bastante mais grave e com muito menos margem para ginástica verbal, é mentir sobre o que se fez no passado. Foi nesse campeonato que decidiram alinhar António Filipe e André Ventura. Pelos menos, assim que me lembre, mais à descarada.

O primeiro garante, com ar ofendido, que o PCP nunca, jamais, em tempo algum, defendeu a saída do euro e da União Europeia. Ideia que, aparentemente, brotou espontaneamente da imaginação coletiva de décadas de militantes, dirigentes e documentos oficiais. O segundo jura a pés juntos que é uma falsidade pegada ter dito que votou em José Sócrates. Tudo invenções, como se sabe.

Cada qual é livre de defender as ideias que bem entender. Os comunistas, por exemplo, sonham com um país que seria uma espécie de Cuba em versão europeia, com clima menos tropical e economia igualmente exótica. É lá com eles. O problema não é a ideia, mas sim a negação histérica de a ter tido. Assumir posições exige coluna vertebral e, como temos visto no caso da Ucrânia, isso é um acessório que o PCP tende a dispensar sempre que em causa está a mãe-Rússia.

Quanto a ter votado em José Sócrates, obviamente, não tem nada de mal. Especialmente se, como diz André Ventura — embora nunca saibamos quando está a falar verdade — se arrependeu por se sentir enganado. Acontece aos melhores e ele até está muito longe de integrar esse grupo. O incómodo começa quando não se assume e evolui para o patético quando se jura que é mentira. Ainda assim, vindo de alguém que votou no candidato do PS enquanto militava no PSD, não é exatamente motivo para espanto. Aliás, não me surpreenderá minimamente se, nas próximas presidenciais, André Ventura acabar por não votar no candidato André Ventura. Afinal, coerência é um conceito raramente usado na politica. Por ele e por todos.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A última carta

Há quem não se canse de estar do lado errado da história. Nem, qual D. Quixote, de lutar contra moinhos de vento e contra as mudanças que, gostemos ou não, vão acontecendo todos os dias na sociedade.

Ainda são muitos os que rasgam as vestes contra as privatizações. Como se o Estado, que somos nós e apenas dispõe do dinheiro que nos tira do bolso, tivesse obrigação de nos prestar todos os serviços e vender todos os bens de que precisamos. A privatização dos CTT, ainda no tempo do Passos, é daquelas que mais irrita os que desejam viver sob a tutela do Estado paizinho.

Vender aquela empresa foi uma boa solução. Distribuir cartas, já então se percebia, é um negócio sem futuro. Cá e em todo o mundo mais ou menos desenvolvido. Na Dinamarca, que em muita coisa nos devia servir de exemplo, o serviço postal vai entregar a última carta no próximo dia trinta de dezembro, pondo fim a uma tradição com mais de quatrocentos anos. Decisão justificada pela digitalização e a acentuada quebra no envio de correspondência. Por cá, mais cedo do que tarde, terá de acontecer o mesmo. Já ninguém escreve cartas de amor.

O mundo é o que é. Mas há quem prefira continuar a lutar contra o moinho, espada em riste, convencido de que o carteiro ainda vem a cavalo.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Agricultura da crise

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O meu quintal constitui um ecossistema habitado por uma fauna abundante e indecifrável. Bichos esquisitos, rastejantes diversos, lagartas e passarada de todas as marcas. Todos com um apetite verdadeiramente obsceno. Comem tudo e não deixam nada, estes abutres aproveitadores do trabalho alheio e desconhecedores do conceito de propriedade privada. Como outros, igualmente detestáveis, que por aí cirandam.

Por alguma razão que os meus conhecimentos agrícolas não alcançam, mas a ciência explicará, os morangueiros estão agora a frutificar. Não produziram nada na época certa, mas agora há por ali uns quantos a dar fruto. Obviamente não como nenhum. Mal começam a ganhar cor, são de imediato integrados na cadeia alimentar da bicheza que adoptou este recanto como habitat. Daí esta opção mais ou menos drástica. Sempre quero ver agora como vão ripostar os rastejantes. Cá os aguardo, seus vermes!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Vão roubar para a estrada!

Se há coisa que aprecio nos carros híbridos é aquela maravilha mística chamada travagem regenerativa. Um sistema tão virtuoso que permite conduzir sem gastar um cêntimo em combustível. Zero. Bola. Nadinha. E, cereja no topo do bolo, sem pagar imposto. Népia, Rien. Nicles. Um verdadeiro crime perfeito, só que legal. Claro que há um pequeno detalhe. Uma coisinha de nada, quase. Para alcançar esta espécie de nirvana automóvel é preciso circular a uma velocidade que faz inveja a um caracol asmático. Mas não faz mal. A sensação de não estar a ser rapinado pelo Estado compensa largamente o facto de a viagem parecer uma peregrinação medieval. Afinal, o tédio passa, o prazer de não ser roubado fica.

Quem, surpreendentemente, não acha graça nenhuma a isto são os governos europeus. Andaram anos a incentivar carros eléctricos, a distribuir subsídios como quem atira arroz num casamento, a anunciar o fim iminente dos motores a combustão e agora estão pasmados, boquiabertos, estupefactos, porque as receitas fiscais do sector automóvel estão a cair. Quem diria. Incentivam as pessoas a não gastar combustível e depois ficam chocados porque deixam de cobrar impostos sobre o combustível. Em consequência há que inventar uma nova forma de gamar o automobilista. Daí que mais uma ideia brilhante tenha surgido dessas mentes iluminadas. Uma taxa por quilómetro percorrido. Sim, senhor. Taxar o simples acto de existir em movimento. Consta que o Reino Unido será pioneiro, já em 2028, com três cêntimos por milha. Porque três parece um número simpático e ninguém desconfia de números simpáticos.

Estou escandalizado com tamanha falta de vergonha. Desconfio que qualquer reles bandido tem mais ética do que esta gente. Nem vou estar a desfiar um enorme rol de alternativas que esses cabrões têm para equilibrar as contas. Há muita despesa, desde aquela de atirar dinheiro janela fora até outra que recheia os bolsos de muita gente, que pode ser eliminada. Mas, para essa gentalha, isso não é sequer opção. Mais depressa, se taxar o km percorrido de carro não gerar receita suficiente, lhes ocorrerá lançar um imposto sobre quem anda a pé. Diz que desgasta a calçada. E, se calhar, não é assim tão bom para o ambiente. Por causa do chulé e isso. E das contas do estado, também.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

IRS: fazer as contas antes que seja tarde

Há quem garanta que existem apenas duas inevitabilidades na vida. A morte e os impostos. Quanto à primeira, convém empurrá-la para o mais longe possível. Na  segunda, ainda que não incumprindo descaradamente a lei, é imperativo fazer de tudo para pagar o menos que se puder. Daí que, no que toca ao IRS, os últimos dias do ano sejam o momento ideal para quem não se precaveu antes sacar da calculadora, fazer contas e tentar aproveitar todas as oportunidades legais para emagrecer a factura. Haverá várias ferramentas, mas deixo a sugestão deste simulador de IRS para rendimentos de 2025 a pagar em 2026. Muito completo, fácil de usar e com a enorme vantagem de permitir, com antecedência, avaliar a dimensão do “estrago”. E, se for caso disso, tentar minimizar, mesmo que modestamente, a escala do assalto.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A televisão como última trincheira

A presença assídua — para não dizer quase permanente, como aquelas manchas de humidade que voltam sempre — de representantes do Bloco de Esquerda nos painéis televisivos de comentário político é um fenómeno digno de estudo. Não tanto pela sua relevância política, que é escassa, mas pela devoção quase litúrgica que a comunicação social lhes presta. Só assim se explica que um partido com a expressão parlamentar de um suspiro continue a ser tratado como se fosse indispensável à saúde da democracia.

Claro que há explicações. A mais caridosa aponta para a falta de profissionalismo de muitas redacções, incapazes de disfarçar preferências partidárias e, sobretudo, de exercer aquele velho hábito ultrapassado chamado imparcialidade. Outra pode ser a vassalagem. Opção impossível de deixar de equacionar quando se observa a reverência com que aquele grupelho, pouco recomendável até do ponto de vista estético, é convidado a opinar sobre tudo e mais um par de botas.

Esta quase omnipresença mediática contrasta, de forma cómica, com o seu quase desaparecimento do mapa político. O Bloco de Esquerda tem, recorde-se, um deputado. Um. Exatamente o mesmo número que o JPP. A diferença é que este último parece sofrer de uma estranha alergia aos estúdios de televisão, nunca aparecendo em debates ou fóruns onde se discute o país. Mistérios da democracia, dirão uns. Escolhas editoriais isentas, dirão outros. Depois aparecem a distribuir lições de democracia e o camandro, com a seriedade de quem confunde tempo de antena com votos.

E já que falamos em democracia e afins, não posso deixar de mencionar o Tribunal Constitucional que, a pedido do PS, declarou inconstitucional a lei da nacionalidade. Eles lá sabem. Eles é que leram os livros, eles é que são doutores. “Da mula ruça”, como acrescentava a minha avó quando sentia que a doutoral conversa estava a resvalar perigosamente para o parvo. Quanto a mim, acho que fizeram muito mal. Porque, a continuar assim, ao Chega basta fingir-se de morto — e nem precisa de o fazer muito bem — para que o poder lhe caia no colo. Depois não se queixem.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Ou há moralidade...

Há, no Ocidente em geral e em Portugal em particular, uma devoção quase religiosa às proibições. Proibir tudo, de preferência aquilo de que não se gosta. As redes sociais são o exemplo do momento. Andam muitos a salivar pela sua interdição aos jovens e outros — os mais criativos no autoritarismo, diria — defendem mesmo a sua extinção. Percebe-se o entusiasmo. Informação é poder e a velha máxima de que “um homem informado vale por dois” constitui uma chatice para quem detém o poder e para aqueles que pretendem controlar a informação.

Um dos argumentos favoritos dos defensores das limitações — ou do abate sanitário — das redes sociais é a desinformação que por lá circula e o perigo que isso representa para a democracia. Um excelente argumento, reconheço. Seguindo essa lógica imaculada, o mais sensato seria começar a fechar tudo o que permita comunicação entre seres humanos. Ou, se a tarefa se revelar demasiado ciclópica, partir para a solução alternativa. Distribuir martelos e desatar à pancada em todo e qualquer dispositivo tecnológico. Algo ao estilo daquele visionário que decidiu escavacar televisões na Worten, numa espécie de performance pedagógica contra o mal.

Quando uma televisão pública, num programa supostamente educativo, afirma com ar doutoral que uma menina pode ter pilinha, não me parece que esteja a prestar um serviço exemplar à verdade. Está apenas a fazer o mesmo que qualquer borra-botas faz no seu mural do Trombasbook. Com a pequena diferença de ser paga por todos nós e de usar um cenário com melhor iluminação.

Cada um faz da sua vida o que muito bem entende. Agora, um meio de comunicação — do Estado, ainda por cima — não pode andar a propagandear bacoradas destas e, logo a seguir, discursar solenemente contra as fake news, a manipulação dos factos e a desinformação enquanto arma da extrema-direita. Por mim nada tenho contra quem se identifique, se isso o fizer sentir melhor, com um Tesla a combustão. A felicidade da criatura é legítima. No entanto a legitima felicidade da criatura jamais transformará odisparate em verdade.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

De zero a três milhões vai uma greve de distância...

No país não sei, mas na pacatez da minha cidade não dei por essa coisa da greve geral. Nem, tão pouco, da parcial se é que a houve. Cafés, restaurantes, bancos, superfícies comerciais e comércio em geral, serviços públicos e toda a espécie de actividades económicas funcionaram normalmente. Pode, eventualmente, ter havido um ou outro trabalhador da área do ensino que tenha aderido, mas isso já ninguém repara. Naquele sector nem se pode dizer que é greve. Já faz parte integrante da rotina profissional daquele pessoal.

Nas televisões, pelo contrário, a greve teve um sucesso estrondoso. Nomeadamente ao nível do material que produziu para os humoristas. Aquilo dá para horas e horas de programas humorísticos e para piadolas sem conta. Uma espécie de gozar com quem faz greve, que certamente o bobo da corte não deixará de aproveitar no Domingo à noite. “Não faço absolutamente nada na vida”, declarava orgulhosamente uma manifestante aos microfones da CNN. Outra, uma matulona com vinte e muitos anos, garantia que a mãe precisava de quatro empregos para a poder sustentar a ela e à irmã. Uma injustiça, acrescentava. E com razão. Ter bom corpo para trabalhar e viver á custa da mãe não me parece lá muito justo.

Enquanto isso o país consumia mais 6,3% de energia eléctrica do que no dia anterior. Das duas uma. Ou os grevistas ficaram todos em casa de aquecedor ligado no máximo ou aproveitaram o dia para se dedicarem à bricolage e pôr o carro a carregar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Pelo direito à habitacão!

Soube hoje que um infeliz qualquer, aqui das redondezas, foi denunciado e prontamente notificado pelas autoridades por um crime de extrema gravidade. Daqueles que fazem tremer os alicerces do Estado de Direito. O monstro mantinha o seu canito numa casota  húmida. Coisa que, como é do conhecimento geral, constitui um atentado gravissimo aos direitos fundamentais do animal.

Após minuciosa vistoria ao local, provavelmente com recurso  a sofisticado material de investigação, as autoridades competentes terão concluído, segundo fontes geralmente bem informadas mas que não posso revelar sob pena de não me contarem mais nada, que o pobre bicho apresentava as “mãos molhadas”. Um choque. Um verdadeiro horror. Aquele cão esteve a segundos de entrar em hipotermia, de apanhar  uma pneumonia, ou, no mínimo, uma constipação.

Constitui, de facto, uma vergonha a maneira como certas pessoas tratam os animais. Em pleno século vinte e um não se justifica que um cão resida numa barraca instalada no quintal do tutor. Sem TV cabo, agua corrente, luz, Internet e todas as demais condições que lhe proporcionem uma vida digna. Obviamente que o lugar deles é no sofá. E na cama, também, a dormir com os seus pais e irmãos de duas pernas.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Penas e tomates

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Acho graça à obsessão da comunicação social com o Chega. Por um lado percebo que as noticias vindas daquele lado deem audiência. É disso, pelo menos em grande parte, que as empresas desse ramo de negócio sobrevivem e que muitos figurões, que de outra forma passariam despercebidos, acham que fazem figura. De parvo, em muitas circunstâncias, diga-se.


Toda esta malta descobriu agora um novo filão. Ou, melhor, novas vitimas das atrocidades dos cheganitos. A bicharada. Já devem ter concluído que com pedofilia, malas roubadas ou encomendas postais desviadas – ah, espera, esse é doutra coudelaria – não vão lá e, então, resolveram apostar nos bichos. Primeiro foi o gato capado, em pleno parlamento, por um deputado e agora, na falta de melhor, um ex-membro de uma assembleia municipal que matou a tiro uma gaivota. Esta última criatura – o chegano, não o pássaro - também malhou um fulano qualquer, mas esse como é apenas uma pessoa não interessa nada. Ainda se tivesse capado, roubado a mala e assaltado o desgraçado – lá estou eu, porra, quem assaltava era um do PS – podia ser que a ocorrência merecesse uma nota de rodapé. Ou, vá, uma piadola do palhaço do regime.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

As mentiras da extrema-direita são um perigo para a democracia

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Mensagens falsas haverá mais que muitas. Culpa da extrema-direita, como é amplamente reconhecido por quem sabe destas coisas. Ou seja, por quem é de esquerda, que as topa logo à distância. A imagem mostra um cartaz, colocado por uns patifes direitolas numa universidade brasileira, onde se denunciava o suposto massacre de que estariam a ser vitimas os jovens negros naquele país. Aquilo, a ser verdade, foi uma matança generalizada. Mas, felizmente, foi apenas mais uma mentira da extrema-direita. Lá, como em todo o lado, aquela malta é tão burra, mas tão burra, que nem sabe fazer contas. Atendendo a que o cartaz remonta a dois mil e dezoito, por esta altura toda a população do Brasil – não chegava chacinar só os negros, todos os restantes teriam se ser também abatidos - já teria sido exterminada. Genocídio pior, só em Gaza.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O melhor jámon do mundo

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Talvez esta fotografia de um supermercado espanhol, apesar de publicada em inúmeras páginas, não seja real. Isto, com essa modernice da inteligência artificial, nunca se sabe. Mas, a ser verdadeira, parece-me uma boa ideia. Colocar esta “montra” de um produto típico do país à entrada da loja, por onde todos os clientes terão de passar, constitui uma excelente promoção do artigo. Não será, ao que garantem os detratores da iniciativa, uma coisa inclusiva. Que é o que eles agora chamam às cenas esquisitas que pretendem normalizar. Paciência. Quem se sentir incomodado procure outro sitio para ir às compras. Ou, se for o caso, para viver.