Era uma questão de tempo. Como praga bíblica ou moda importada com atraso do estrangeiro, a febre dos therians — pessoas que se identificam como animais — tinha inevitavelmente de atravessar a fronteira e chegar a Portugal. Ainda não são uma manada, é certo, mas já atingiram aquele número mágico que justifica um ajuntamento solene. Seja um congresso, um encontro espiritual ou uma feira de rações com Wi-Fi. Um fungágá da bicharada, se quisermos ser rigorosos.
Cada um é livre de achar que é um gato persa preso num corpo humano ou um cão de médio porte emocionalmente incompreendido. Juntarem-se para trocar vivências inter-espécies, comparar marcas de areia aglomerante ou discutir a melhor posição para dormir 16 horas seguidas é perfeitamente legítimo. Até pedagógico, diria.
As dúvidas surgem noutro plano. Nomeadamente no plano da convivência civilizada, esse conceito antiquado e caído em desuso. Espera-se, por exemplo, que não comecem a uivar às três da manhã porque a lua está “emocionalmente intensa”. Ou que as fêmeas em período de cio não transformem a via pública num documentário do National Geographic em horário nobre sobre reprodução animal. E, essencialmente, que não caguem nos passeios, não mijem nos postes, nas árvores ou, pior ainda, nos pneus dos carros alheios só porque “é instintivo”. Instintos todos temos, a civilização serve precisamente para os conter.
De resto, desde que não mordam desconhecidos, usem chip e estejam com as vacinas em dia é lá com eles. Portugal sempre foi um país tolerante. Desde que a tolerância não venha com pulgas.
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