Ao que tenho lido - e ouvido, sobretudo – os portugueses sentem-se confortáveis com o regresso da censura. Pelo que me é dado ler e ouvir não se incomodam que o acesso às diferentes redes sociais passe a ser controlado pelo Estado. O mais extraordinário que este mesmo povo, zeloso guardião da sua privacidade, quando chega a hora de pagar um almoço, recusa religiosamente a fatura com contribuinte porque “eles” — leia-se o fisco, leia-se o Estado — “não têm nada que saber onde gasto o meu dinheiro”. Aqui a desconfiança é virtuosa. Já quando se trata de saber o que se pensa, escreve, partilha ou comenta, aí não há problema nenhum. Estes iluminados parecem não perceber que, no primeiro caso, os dados recolhidos são mínimos, servem para benefícios fiscais e contribuem para o bem comum. Já no segundo, por mais angelical que seja a intenção anunciada, “eles” passam a saber tudo. Quem acede, publica, comenta, ironiza e quem não pensa de acordo com a cartilha oficial.
Agora, façamos um pequeno exercício de imaginação. Imagine-se esta lei nas mãos de um próximo governo de uma nova geringonça de esquerda. Ou, cenário ainda mais plausível a médio prazo, quando o Chega ganhar eleições e conseguir governar. De repente, a lei já não parece tão simpática, pois não? Nessa altura já será tarde para indignações retroativas. A censura, como o colesterol, não aparece de um dia para o outro. Vai-se instalando. Como o fascismo, que de tanto berrarem por ele, vai chegando pela mão dos alegados democratas.
Depois não se queixem, como diz o outro. Aos mais doze mil detidos no Reino Unido – entre os quais muitas velhinhas radicais que escreveram coisas no Facebook – queixar-se não lhes valeu de muito.
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