Não gosto de Abril. O mês, embora também tenha algo a ver com o significado quase mítico que a palavra tem entre nós. Mas nada no sentido de não apreciar tudo o que o 25 do A nos proporcionou enquanto povo. Mas, escrevia eu, não gosto do quarto mês do ano. Pela especificidade do meu trabalho tem sido sempre ao longo dos últimos trinta anos, em termos profissionais, de longe o mais desgastante de todos.
Depois porque é o mês de acertar contas com o fisco. Coisa que me eleva a irritabilidade para um nível raramente atingido em qualquer outra época do ano. Se nos restantes meses quanto vejo a folha do vencimento é como se me estivessem a roubar a carteira, por esta altura olhar para a declaração de IRS é como se fosse vitima de um assalto à mão armada.
Finalmente pelas inevitáveis discussões em torno do 25 de Abril em que não resisto a envolver-me. Todos os anos juro a mim mesmo que este ano é que não reajo às parvoíces que se dizem e escrevem sobre o tema. Nunca consigo. É mais forte do eu. E, por incrível que pareça, a cada ano é pior. Cada vez surge mais gente, a maioria ainda nem era nascida quando se deu o golpe militar, a ensinar-me como era a vida antes dessa data. A coisa já chegou ao ponto de me chamarem facho só por eu ter tido a ousadia de desmentir alguém que garantia que antes do 25A, nas aldeias do Alentejo, íamos para a escola descalços. Nem o facto de eu alegar ter entrado para a primária em 1968 e nunca ter visto na escola, pelo caminho ou noutro lugar qualquer ninguém descalço me torna menos fasciszóide. Pior, faz de mim também um mentiroso da pior espécie. Mas, obviamente, a culpa é minha. Se tivesse dado ouvidos à minha sábia avó não discutia com malucos.
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