sábado, 10 de janeiro de 2026

Quando a liberdade encarece a culpa é do ocidente...

Compreende-se a vontade de controlar – que é como quem diz, censurar e, se possível, calar – as redes sociais. Sem elas saberíamos apenas aquilo que o poder decidisse que era bom para a sua sobrevivência. Ou, como já acontece em Portugal e em boa parte das democracias ocidentais, ficaríamos confinados à versão oficial dos factos. Aquela filtrada, higienizada e explicada pelos activistas que hoje acumulam as funções de jornalista, militante, pedagogo moral e fiscal da virtude alheia. Nada disto é coincidência, sempre que se sentem ameaçados os ditadores já não mandam calar jornais nem desligam o sinal da televisão. Isso é coisa do passado. Agora mandam cortar a Internet. 

Veja-se o caso do Irão. Para a comunicação social portuguesa aquilo são protestos por causa da inflação galopante que está a destruir a economia e o poder de compra da população. Tudo, esclarecem-nos, por culpa das sanções do ocidente. Deve ser mesmo isso, deve. A grande preocupação das mulheres iranianas é, de certeza, o aumento do preço dos tecidos pretos em que são obrigadas a embrulhar-se. Vai daí, foram para as ruas protestar. Nem ele é outra coisa. Está-se mesmo a ver e só um facho é que não percebe esta maquinação capitalista para derrubar a revolução. Nem um facho, nem alguém que tenha o atrevimento de pensar pela própria cabeça.

Ainda assim, admito, essa canalha do activismo jornalistico tem alguma razão quanto a isso do envolvimento da inflação nestas lutas populares. É que o preço da liberdade está pela hora da morte. No Irão, na Venezuela e em todo o lado onde a esquerda e os seu aliados governam. E, se não nos pusermos a pau, também por cá.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O balázio de ano novo - património imaterial da família tradicional

Há quem ache estranho que, passados todos estes dias, ainda nenhum membro da  “família” que celebrou a entrada no novo ano aos tiros de metralhadora tenha sido incomodado pelas autoridades. Gente mesquinha, evidentemente. Pessoas pequenas, roídas pela inveja, que não conseguem aceitar que há quem se divirta de forma genuína, saudável e profundamente enraizada na tradição oral  e balística  dos seus antepassados.

Querem ver atrás das grades cidadãos de bem que apenas exerceram o seu direito ancestral de transformar o espaço público num campo de tiro improvisado, sem qualquer intenção de fazer mal a uma mosca. A não ser, claro, que por um azar cósmico absolutamente imprevisível, alguma dessas moscas — ou pombos, ou varandas, ou transeuntes — se tenham atravessado na  trajectória de um dos muitos projécteis festivos disparados para o ar. 

Os que defendem que isto é comportamento punível e que pedem mais “acção” policial revelam apenas ignorância. Não percebem o contexto. Não percebem a cultura. Não percebem que o facto de a “família” disparar armas proibidas a civis é um detalhe menor. Quase burocrático, diria. Quem nunca, numa passagem de ano mais animada, sacou de uma arma de guerra para marcar a meia-noite, que atire a primeira bala. De preferência em rajada.

Além disso, sejamos razoáveis. Identificar a “família” seria uma tarefa ciclópica. Apesar de estarem de cara descoberta, numa rua perfeitamente identificável, num vídeo amplamente difundido, é praticamente garantido que ninguém os conhece. Não moram ali, claro. Estavam só de passagem. Foram à festa. Coisa rápida. E, como é evidente, desapareceram logo a seguir porque a casa fica longe e no dia seguinte tinham de acordar cedo para ir trabalhar. 

Pode ser isso tudo. Ou não. Tenho outra teoria. Cá para mim, aquele vídeo é falso. Ou melhor, é coisa criada por inteligência artificial para nos levar a sentir falsas sensações de insegurança. Uma cena muito própria da extrema-direita, ou lá o que se chama aqueles gajos que não gostam de “famílias”. Toda a gente sabe que as “famílias” não se dedicam a actividades desprovidas de enquadramento legal. "Jamé", como dizia o outro. No máximo, vá, a umas burlazinhas no MB Way...

domingo, 4 de janeiro de 2026

Especialistas que deixaram de querer apenas paz...

De repente, como cogumelos depois da chuva ou comentadores depois de um conflito internacional, começaram a surgir especialistas especialmente especializados nessa especialidade muito específica chamada direito internacional, que curiosamente ninguém parecia dominar até ontem ao pequeno-almoço. Aquela coisa da Venezuela fez-lhes saltar a tecla. Eu, pelo meu lado, pouco percebo do assunto. O que me coloca, ironicamente, numa posição de enorme vantagem. Daí que me socorra das posições dos apaniguados de um conhecido partido político — aquele cuja relevância pública é rigorosamente inversa à sua relevância eleitoral — já testadas e aprovadas aquando da invasão da Ucrânia. A receita é simples, eficaz, moralmente confortável e resume-se a “eu só quero paz”. O que é preciso é paz. Paz acima de tudo. Se é que aconteceu alguma coisa, claro. E, se aconteceu, não começou agora. Nunca começa agora. Começa sempre algures no Neolítico ou, no mínimo, em 1991. É preciso olhar para trás. Muito para trás. Até encontrar qualquer coisa que justifique tudo. Deve ser isso. Ou outra cena marada qualquer, possivelmente.

Seja como for, a deposição de Maduro é, sem dúvida, uma boa notícia. A má é a forma como foi deposto. Um detalhe, dirão alguns. Um pormenor técnico, dirão outros. Embora não se trate sequer de um precedente — ingerências, invasões, golpes e anexações são mais que muitas nos últimos cinquenta anos — o episódio tem a ligeira desvantagem de significar que nenhum país ou território está verdadeiramente a salvo. Nenhum mesmo. Seja o Canadá, a Gronelândia ou os Açores por parte dos EUA, todos os países que constituíam a URSS por parte da Rússia ou Taiwan pela China. É tudo uma questão de tempo, oportunidade e uma narrativa suficientemente criativa. Até mesmo Portugal é melhor ir pondo as barbas de molho, que os castelhanos estão mesmo ali ao lado e são capazes de começar a ter ideias. E isso, as ideias - especialmente as mais parvas -  costumam surgir quando menos se espera.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Reciclagem tradicional



Há tradições, sólidas como as muralhas que as inspiram, que atravessam gerações. Costumes ancestrais, transmitidos de forma quase ritual. A fotografia que aqui se vê documenta uma delas. O  nobilíssimo hábito de atirar lixo muralha abaixo. Trata-se de uma prática antiquíssima, cujas origens se perdem no nevoeiro da história. Os primeiros registos remontam, ao que consta, ao primeiro cerco à urbe. Um episódio ocorrido numa época tão remota que ainda eu tinha cabelo. O que ajuda a situar cronologicamente o evento no dealbar da humanidade. Nessa altura, os atacantes terão sido rechaçados com recurso a pedradas e a todo o tipo de objectos disponíveis à mão, inaugurando assim uma escola de defesa urbana baseada no improviso e no desperdício doméstico.

A tradição manteve-se viva ao longo dos séculos. Sempre que os castelhanos se lembravam de entrar por aqui adentro com intenções menos amistosas, lá choviam detritos, móveis e utensílios vários, garantindo uma retirada célere e pouco digna. Diz-se que muitos invasores regressaram a casa não só derrotados, mas também com uma profunda aversão a cerâmica partida. Daí aquela tradição manhosa que os espanhóis hoje têm de ir à feira de Elvas comprar louça.

É reconfortante verificar que, apesar da modernidade, há quem continue a honrar os costumes dos antepassados. Verdade que, nos últimos anos, ninguém tentou invadir a povoação. Mas com o estado em que anda o mundo, nunca fiando. Nada como manter o treino em dia e assegurar que, se o pior acontecer, não falte munição. À vista desarmada o arsenal parece modesto. Garrafas de plástico, caixas de cartão e um ou outro electrodoméstico fora de prazo. Mas não nos iludamos. Em caso de necessidade extrema, haverá sempre recurso a armamento pesado. Seguramente nos "paióis" existirão frigoríficos, máquinas de lavar, fornos e um velho sofá de três lugares em fim de vida prontos a serem arremessados. Tudo em nome da defesa civil e da pátria gloriosa. Que o Putin, ou qualquer outro pateta com ambições expansionistas, se ponha a pau. Aqui não passará. Os bravos patriotas do local estão preparados para pôr a milhas qualquer atacante. Com eficácia, convicção e um profundo desprezo pela recolha selectiva de resíduos. Um grande bem-haja a quem não deixa morrer as tradições.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Especialistas em tudo ou mestres do nada

 

Há pessoas que sabem tudo sobre tudo. Não se limitam a ser especialistas nisto ou naquilo. Não. São especialistas em tudo o que alguma vez foi, é ou poderá vir a ser uma especialidade. É precisamente por isso que adoro ler o que escrevem e ouvir as suas opiniões sábias, profundas e, sobretudo, muito especialmente especializadas, que fazem o especial favor de nos oferecer, quase sempre sem que ninguém lhas tenha pedido. O tempo, esse mal-educado, costuma depois encarregar-se de os desmentir. Ou de pôr as suas certezas em modo de dúvida permanente. Em quase tudo, curiosamente.

Garantem estas eminências que os imigrantes — que, diga-se desde já para evitar ataques de nervos, fazem cá falta e a questão nem é essa — estão a salvar a Segurança Social. Vai-se a ver, porém, e a idade da reforma continua a subir, enquanto o valor das pensões, em comparação com o último vencimento, continua a descer. Quanto aos estrangeiros que cá vivem e trabalham, não se sabe ao certo quantos são, onde moram ou o que faz a maioria. Parece até que é mais simples contar javalis. Esses, segundo dados oficiais, são quatrocentos mil. E, arrisco dizer, mais facilmente localizáveis.

Em matérias legislativas, então, a especialização atinge níveis olímpicos. Garantem, com ar grave e tom doutoral, que aquela coisa dos cartazes do Ventura é manifestamente ilegal por discriminar toda uma comunidade. Talvez seja. Sou tentado a concordar. Aliás, já achava o mesmo quando muita dessa gentinha, que agora rasga as vestes em defesa da não discriminação, se deliciava a contar anedotas e graçolas onde os alentejanos surgiam invariavelmente como criaturas alérgicas ao trabalho. Alguns chegaram mesmo a aborrecer-se por eu não lhes achar piada e acusaram-me de uma “incapacidade de rir de mim próprio”, prova inequívoca — segundo eles — da minha falta de inteligência. Pois. De discriminação percebem eles. Nisso, reconheço, são mesmo especialistas. Têm anos de prática, currículo sólido e uma notável capacidade de só identificar a que dá jeito.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O passado, em politica, é muito imprevisivel

Tempos houve em que se garantia que um tipo perigoso é aquele que nos olha nos olhos e mente. Hoje mente-se com a maior das naturalidades enquanto nos olham de frente. Sem sequer pestanejar, se preciso for. Os políticos aperfeiçoaram essa prática e a mentira faz parte integrante das suas estratégias. Digamos que a mentira deixou de ser um desvio moral para se tornar numa competência transversal, especialmente apreciada na carreira política. 

Mas, convenhamos, há mentiras e mentiras. Uma coisa é prometer mundos e fundos para o futuro, esse território sempre elástico onde tudo cabe e nada se confirma. Outra, bastante mais grave e com muito menos margem para ginástica verbal, é mentir sobre o que se fez no passado. Foi nesse campeonato que decidiram alinhar António Filipe e André Ventura. Pelos menos, assim que me lembre, mais à descarada.

O primeiro garante, com ar ofendido, que o PCP nunca, jamais, em tempo algum, defendeu a saída do euro e da União Europeia. Ideia que, aparentemente, brotou espontaneamente da imaginação coletiva de décadas de militantes, dirigentes e documentos oficiais. O segundo jura a pés juntos que é uma falsidade pegada ter dito que votou em José Sócrates. Tudo invenções, como se sabe.

Cada qual é livre de defender as ideias que bem entender. Os comunistas, por exemplo, sonham com um país que seria uma espécie de Cuba em versão europeia, com clima menos tropical e economia igualmente exótica. É lá com eles. O problema não é a ideia, mas sim a negação histérica de a ter tido. Assumir posições exige coluna vertebral e, como temos visto no caso da Ucrânia, isso é um acessório que o PCP tende a dispensar sempre que em causa está a mãe-Rússia.

Quanto a ter votado em José Sócrates, obviamente, não tem nada de mal. Especialmente se, como diz André Ventura — embora nunca saibamos quando está a falar verdade — se arrependeu por se sentir enganado. Acontece aos melhores e ele até está muito longe de integrar esse grupo. O incómodo começa quando não se assume e evolui para o patético quando se jura que é mentira. Ainda assim, vindo de alguém que votou no candidato do PS enquanto militava no PSD, não é exatamente motivo para espanto. Aliás, não me surpreenderá minimamente se, nas próximas presidenciais, André Ventura acabar por não votar no candidato André Ventura. Afinal, coerência é um conceito raramente usado na politica. Por ele e por todos.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A última carta

Há quem não se canse de estar do lado errado da história. Nem, qual D. Quixote, de lutar contra moinhos de vento e contra as mudanças que, gostemos ou não, vão acontecendo todos os dias na sociedade.

Ainda são muitos os que rasgam as vestes contra as privatizações. Como se o Estado, que somos nós e apenas dispõe do dinheiro que nos tira do bolso, tivesse obrigação de nos prestar todos os serviços e vender todos os bens de que precisamos. A privatização dos CTT, ainda no tempo do Passos, é daquelas que mais irrita os que desejam viver sob a tutela do Estado paizinho.

Vender aquela empresa foi uma boa solução. Distribuir cartas, já então se percebia, é um negócio sem futuro. Cá e em todo o mundo mais ou menos desenvolvido. Na Dinamarca, que em muita coisa nos devia servir de exemplo, o serviço postal vai entregar a última carta no próximo dia trinta de dezembro, pondo fim a uma tradição com mais de quatrocentos anos. Decisão justificada pela digitalização e a acentuada quebra no envio de correspondência. Por cá, mais cedo do que tarde, terá de acontecer o mesmo. Já ninguém escreve cartas de amor.

O mundo é o que é. Mas há quem prefira continuar a lutar contra o moinho, espada em riste, convencido de que o carteiro ainda vem a cavalo.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Agricultura da crise

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O meu quintal constitui um ecossistema habitado por uma fauna abundante e indecifrável. Bichos esquisitos, rastejantes diversos, lagartas e passarada de todas as marcas. Todos com um apetite verdadeiramente obsceno. Comem tudo e não deixam nada, estes abutres aproveitadores do trabalho alheio e desconhecedores do conceito de propriedade privada. Como outros, igualmente detestáveis, que por aí cirandam.

Por alguma razão que os meus conhecimentos agrícolas não alcançam, mas a ciência explicará, os morangueiros estão agora a frutificar. Não produziram nada na época certa, mas agora há por ali uns quantos a dar fruto. Obviamente não como nenhum. Mal começam a ganhar cor, são de imediato integrados na cadeia alimentar da bicheza que adoptou este recanto como habitat. Daí esta opção mais ou menos drástica. Sempre quero ver agora como vão ripostar os rastejantes. Cá os aguardo, seus vermes!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Vão roubar para a estrada!

Se há coisa que aprecio nos carros híbridos é aquela maravilha mística chamada travagem regenerativa. Um sistema tão virtuoso que permite conduzir sem gastar um cêntimo em combustível. Zero. Bola. Nadinha. E, cereja no topo do bolo, sem pagar imposto. Népia, Rien. Nicles. Um verdadeiro crime perfeito, só que legal. Claro que há um pequeno detalhe. Uma coisinha de nada, quase. Para alcançar esta espécie de nirvana automóvel é preciso circular a uma velocidade que faz inveja a um caracol asmático. Mas não faz mal. A sensação de não estar a ser rapinado pelo Estado compensa largamente o facto de a viagem parecer uma peregrinação medieval. Afinal, o tédio passa, o prazer de não ser roubado fica.

Quem, surpreendentemente, não acha graça nenhuma a isto são os governos europeus. Andaram anos a incentivar carros eléctricos, a distribuir subsídios como quem atira arroz num casamento, a anunciar o fim iminente dos motores a combustão e agora estão pasmados, boquiabertos, estupefactos, porque as receitas fiscais do sector automóvel estão a cair. Quem diria. Incentivam as pessoas a não gastar combustível e depois ficam chocados porque deixam de cobrar impostos sobre o combustível. Em consequência há que inventar uma nova forma de gamar o automobilista. Daí que mais uma ideia brilhante tenha surgido dessas mentes iluminadas. Uma taxa por quilómetro percorrido. Sim, senhor. Taxar o simples acto de existir em movimento. Consta que o Reino Unido será pioneiro, já em 2028, com três cêntimos por milha. Porque três parece um número simpático e ninguém desconfia de números simpáticos.

Estou escandalizado com tamanha falta de vergonha. Desconfio que qualquer reles bandido tem mais ética do que esta gente. Nem vou estar a desfiar um enorme rol de alternativas que esses cabrões têm para equilibrar as contas. Há muita despesa, desde aquela de atirar dinheiro janela fora até outra que recheia os bolsos de muita gente, que pode ser eliminada. Mas, para essa gentalha, isso não é sequer opção. Mais depressa, se taxar o km percorrido de carro não gerar receita suficiente, lhes ocorrerá lançar um imposto sobre quem anda a pé. Diz que desgasta a calçada. E, se calhar, não é assim tão bom para o ambiente. Por causa do chulé e isso. E das contas do estado, também.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

IRS: fazer as contas antes que seja tarde

Há quem garanta que existem apenas duas inevitabilidades na vida. A morte e os impostos. Quanto à primeira, convém empurrá-la para o mais longe possível. Na  segunda, ainda que não incumprindo descaradamente a lei, é imperativo fazer de tudo para pagar o menos que se puder. Daí que, no que toca ao IRS, os últimos dias do ano sejam o momento ideal para quem não se precaveu antes sacar da calculadora, fazer contas e tentar aproveitar todas as oportunidades legais para emagrecer a factura. Haverá várias ferramentas, mas deixo a sugestão deste simulador de IRS para rendimentos de 2025 a pagar em 2026. Muito completo, fácil de usar e com a enorme vantagem de permitir, com antecedência, avaliar a dimensão do “estrago”. E, se for caso disso, tentar minimizar, mesmo que modestamente, a escala do assalto.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A televisão como última trincheira

A presença assídua — para não dizer quase permanente, como aquelas manchas de humidade que voltam sempre — de representantes do Bloco de Esquerda nos painéis televisivos de comentário político é um fenómeno digno de estudo. Não tanto pela sua relevância política, que é escassa, mas pela devoção quase litúrgica que a comunicação social lhes presta. Só assim se explica que um partido com a expressão parlamentar de um suspiro continue a ser tratado como se fosse indispensável à saúde da democracia.

Claro que há explicações. A mais caridosa aponta para a falta de profissionalismo de muitas redacções, incapazes de disfarçar preferências partidárias e, sobretudo, de exercer aquele velho hábito ultrapassado chamado imparcialidade. Outra pode ser a vassalagem. Opção impossível de deixar de equacionar quando se observa a reverência com que aquele grupelho, pouco recomendável até do ponto de vista estético, é convidado a opinar sobre tudo e mais um par de botas.

Esta quase omnipresença mediática contrasta, de forma cómica, com o seu quase desaparecimento do mapa político. O Bloco de Esquerda tem, recorde-se, um deputado. Um. Exatamente o mesmo número que o JPP. A diferença é que este último parece sofrer de uma estranha alergia aos estúdios de televisão, nunca aparecendo em debates ou fóruns onde se discute o país. Mistérios da democracia, dirão uns. Escolhas editoriais isentas, dirão outros. Depois aparecem a distribuir lições de democracia e o camandro, com a seriedade de quem confunde tempo de antena com votos.

E já que falamos em democracia e afins, não posso deixar de mencionar o Tribunal Constitucional que, a pedido do PS, declarou inconstitucional a lei da nacionalidade. Eles lá sabem. Eles é que leram os livros, eles é que são doutores. “Da mula ruça”, como acrescentava a minha avó quando sentia que a doutoral conversa estava a resvalar perigosamente para o parvo. Quanto a mim, acho que fizeram muito mal. Porque, a continuar assim, ao Chega basta fingir-se de morto — e nem precisa de o fazer muito bem — para que o poder lhe caia no colo. Depois não se queixem.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Ou há moralidade...

Há, no Ocidente em geral e em Portugal em particular, uma devoção quase religiosa às proibições. Proibir tudo, de preferência aquilo de que não se gosta. As redes sociais são o exemplo do momento. Andam muitos a salivar pela sua interdição aos jovens e outros — os mais criativos no autoritarismo, diria — defendem mesmo a sua extinção. Percebe-se o entusiasmo. Informação é poder e a velha máxima de que “um homem informado vale por dois” constitui uma chatice para quem detém o poder e para aqueles que pretendem controlar a informação.

Um dos argumentos favoritos dos defensores das limitações — ou do abate sanitário — das redes sociais é a desinformação que por lá circula e o perigo que isso representa para a democracia. Um excelente argumento, reconheço. Seguindo essa lógica imaculada, o mais sensato seria começar a fechar tudo o que permita comunicação entre seres humanos. Ou, se a tarefa se revelar demasiado ciclópica, partir para a solução alternativa. Distribuir martelos e desatar à pancada em todo e qualquer dispositivo tecnológico. Algo ao estilo daquele visionário que decidiu escavacar televisões na Worten, numa espécie de performance pedagógica contra o mal.

Quando uma televisão pública, num programa supostamente educativo, afirma com ar doutoral que uma menina pode ter pilinha, não me parece que esteja a prestar um serviço exemplar à verdade. Está apenas a fazer o mesmo que qualquer borra-botas faz no seu mural do Trombasbook. Com a pequena diferença de ser paga por todos nós e de usar um cenário com melhor iluminação.

Cada um faz da sua vida o que muito bem entende. Agora, um meio de comunicação — do Estado, ainda por cima — não pode andar a propagandear bacoradas destas e, logo a seguir, discursar solenemente contra as fake news, a manipulação dos factos e a desinformação enquanto arma da extrema-direita. Por mim nada tenho contra quem se identifique, se isso o fizer sentir melhor, com um Tesla a combustão. A felicidade da criatura é legítima. No entanto a legitima felicidade da criatura jamais transformará odisparate em verdade.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

De zero a três milhões vai uma greve de distância...

No país não sei, mas na pacatez da minha cidade não dei por essa coisa da greve geral. Nem, tão pouco, da parcial se é que a houve. Cafés, restaurantes, bancos, superfícies comerciais e comércio em geral, serviços públicos e toda a espécie de actividades económicas funcionaram normalmente. Pode, eventualmente, ter havido um ou outro trabalhador da área do ensino que tenha aderido, mas isso já ninguém repara. Naquele sector nem se pode dizer que é greve. Já faz parte integrante da rotina profissional daquele pessoal.

Nas televisões, pelo contrário, a greve teve um sucesso estrondoso. Nomeadamente ao nível do material que produziu para os humoristas. Aquilo dá para horas e horas de programas humorísticos e para piadolas sem conta. Uma espécie de gozar com quem faz greve, que certamente o bobo da corte não deixará de aproveitar no Domingo à noite. “Não faço absolutamente nada na vida”, declarava orgulhosamente uma manifestante aos microfones da CNN. Outra, uma matulona com vinte e muitos anos, garantia que a mãe precisava de quatro empregos para a poder sustentar a ela e à irmã. Uma injustiça, acrescentava. E com razão. Ter bom corpo para trabalhar e viver á custa da mãe não me parece lá muito justo.

Enquanto isso o país consumia mais 6,3% de energia eléctrica do que no dia anterior. Das duas uma. Ou os grevistas ficaram todos em casa de aquecedor ligado no máximo ou aproveitaram o dia para se dedicarem à bricolage e pôr o carro a carregar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Pelo direito à habitacão!

Soube hoje que um infeliz qualquer, aqui das redondezas, foi denunciado e prontamente notificado pelas autoridades por um crime de extrema gravidade. Daqueles que fazem tremer os alicerces do Estado de Direito. O monstro mantinha o seu canito numa casota  húmida. Coisa que, como é do conhecimento geral, constitui um atentado gravissimo aos direitos fundamentais do animal.

Após minuciosa vistoria ao local, provavelmente com recurso  a sofisticado material de investigação, as autoridades competentes terão concluído, segundo fontes geralmente bem informadas mas que não posso revelar sob pena de não me contarem mais nada, que o pobre bicho apresentava as “mãos molhadas”. Um choque. Um verdadeiro horror. Aquele cão esteve a segundos de entrar em hipotermia, de apanhar  uma pneumonia, ou, no mínimo, uma constipação.

Constitui, de facto, uma vergonha a maneira como certas pessoas tratam os animais. Em pleno século vinte e um não se justifica que um cão resida numa barraca instalada no quintal do tutor. Sem TV cabo, agua corrente, luz, Internet e todas as demais condições que lhe proporcionem uma vida digna. Obviamente que o lugar deles é no sofá. E na cama, também, a dormir com os seus pais e irmãos de duas pernas.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Penas e tomates

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Acho graça à obsessão da comunicação social com o Chega. Por um lado percebo que as noticias vindas daquele lado deem audiência. É disso, pelo menos em grande parte, que as empresas desse ramo de negócio sobrevivem e que muitos figurões, que de outra forma passariam despercebidos, acham que fazem figura. De parvo, em muitas circunstâncias, diga-se.


Toda esta malta descobriu agora um novo filão. Ou, melhor, novas vitimas das atrocidades dos cheganitos. A bicharada. Já devem ter concluído que com pedofilia, malas roubadas ou encomendas postais desviadas – ah, espera, esse é doutra coudelaria – não vão lá e, então, resolveram apostar nos bichos. Primeiro foi o gato capado, em pleno parlamento, por um deputado e agora, na falta de melhor, um ex-membro de uma assembleia municipal que matou a tiro uma gaivota. Esta última criatura – o chegano, não o pássaro - também malhou um fulano qualquer, mas esse como é apenas uma pessoa não interessa nada. Ainda se tivesse capado, roubado a mala e assaltado o desgraçado – lá estou eu, porra, quem assaltava era um do PS – podia ser que a ocorrência merecesse uma nota de rodapé. Ou, vá, uma piadola do palhaço do regime.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

As mentiras da extrema-direita são um perigo para a democracia

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Mensagens falsas haverá mais que muitas. Culpa da extrema-direita, como é amplamente reconhecido por quem sabe destas coisas. Ou seja, por quem é de esquerda, que as topa logo à distância. A imagem mostra um cartaz, colocado por uns patifes direitolas numa universidade brasileira, onde se denunciava o suposto massacre de que estariam a ser vitimas os jovens negros naquele país. Aquilo, a ser verdade, foi uma matança generalizada. Mas, felizmente, foi apenas mais uma mentira da extrema-direita. Lá, como em todo o lado, aquela malta é tão burra, mas tão burra, que nem sabe fazer contas. Atendendo a que o cartaz remonta a dois mil e dezoito, por esta altura toda a população do Brasil – não chegava chacinar só os negros, todos os restantes teriam se ser também abatidos - já teria sido exterminada. Genocídio pior, só em Gaza.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O melhor jámon do mundo

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Talvez esta fotografia de um supermercado espanhol, apesar de publicada em inúmeras páginas, não seja real. Isto, com essa modernice da inteligência artificial, nunca se sabe. Mas, a ser verdadeira, parece-me uma boa ideia. Colocar esta “montra” de um produto típico do país à entrada da loja, por onde todos os clientes terão de passar, constitui uma excelente promoção do artigo. Não será, ao que garantem os detratores da iniciativa, uma coisa inclusiva. Que é o que eles agora chamam às cenas esquisitas que pretendem normalizar. Paciência. Quem se sentir incomodado procure outro sitio para ir às compras. Ou, se for o caso, para viver.  

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Pescaria bombastica

A bolha mediática e os tontinhos que por ela se deixam influenciar convivem muito mal com o combate ao crime. Ainda me lembro do coro de indignados que se insurgiram por, há uns anos atrás, um atirador de elite ter abatido o assaltante de um banco que, na sequência do assalto, tinha sequestrado os clientes. No entender daquela gente os criminosos devem ser tratados como espécie protegida e, quando interpelados pela policia, apenas apresentados à justiça se, depois de convidados, a isso estiverem dispostos. Se não tiverem mais nada para fazer e a deslocação não lhes causar demasiado incomodo, está bem de ver.


É toda esta gente – toda é uma força de expressão, são apenas os bacocos acima mencionados – que está a ficar possessa com os ataques americanos no Mar das Caraíbas aos barcos que transportam droga. Eles lá sabem. Se calhar estão com receio que o mercado reaja e o produto encareça. Alegam, para alem do que consideram ser a falta de legitimidade da acção norte-americana, que podem nem sequer ser traficantes. Uma dúvida legitima, concedo. Vão ver aqueles barcos ultra-rápidos, com não sei quantos motores, são de pescadores que andam na faina. Faz sentido. Diz que naquelas águas abunda o carapau de corrida.

sábado, 29 de novembro de 2025

O Chega e toda a esquerda têm muito em comum.

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 Tenho pouca paciência para aquelas conversetas onde se fala de “opções de classe”, “luta de classes”, “burguesia”, “desfavorecidos” ou, como agora se diz, “vulneráveis”. Não dou para esse peditório e, a bem-dizer, nem sei como “classificar” os patetas que enchem a boca dessas idiotices. A hipocrisia desta gente, por vezes, vai muito para lá dos meus limites de tolerância. Mesmo naqueles dias em que, por razões que me escapam, essa limitação se encontra excepcionalmente elevada.

Como estou farto de por aqui escrever que não gosto de impostos. É dinheiro que nos é retirado e, por isso, quem está mandatado para governar deve cobrar apenas o mínimo necessário para assegurar as necessidades básicas das funções essenciais do Estado e usá-lo com a mesma parcimónia com que usa o que lhe pertence. Para além disso, esse financiamento do Estado deve ser preferencialmente feito à custa do luxo, da ostentação, do vicio, dos lucros ou ganhos injustificados e o menos possível sobre os rendimentos do trabalho, das poupanças e do investimento. Não é nada disso que pensa a esquerda portuguesa. Nem, igualmente, parte da direita. É gente que gosta de penalizar o trabalho e de castigar quem tem alguma coisa de seu. Em contrapartida faz questão de beneficiar os seus e aqueles que lhes podem estragar os arranjinhos que os sustentam no poder. Os artistas e a malta da cultura, nomeadamente. E, de caminho, aqueles que têm dinheiro suficiente para gastar em arte. Nem que seja para comprar uma banana colada a uma parede. Depois venham para cá chatear por os ciganos não passarem factura dos trapos vendem nas feiras.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Ligeiramente menos discriminados...

Já escrevi noutras ocasiões, aqui ou em outro sitio qualquer, que o Partido Socialista governa muito melhor quando está na oposição. É, por estas e outras coisas, imperativo que lá fique durante muito tempo. Para nosso bem. Já assim foi no “Verão quente” de 1975 e no processo que culminou no 25 de Novembro, quando o PS liderou a oposição aos que pretendiam levar o país para o abismo comunista. De lá para cá deve ter contribuído com uma ou outra cena, igualmente jeitosa, para o bem estar dos portugueses. Assim de repente não me lembro de nenhuma, mas calculo que haja.

Agora, que é o terceiro maior partido e o vice-lider da oposição, lembrou-se que seria boa ideia acabar com as portagens na A6 para as empresas e residentes na região. Coisa que, vá lá saber-se porquê, nunca lhe ocorreu nos muitos – demasiados, diria – anos em que governou. Isto depois de ter isentado tudo e todos nas restantes autoestradas que cruzam transversalmente o país. Mais vale tarde, mas se vêm à procura de votos desconfio que esperaram demasiado para mudar de ideias. Mais ano menos ano os velhinhos que ainda votam PS perdem as carta de condução e depois nem São Cristóvão lhes vale.

Curiosamente os comentários que leio sobre este assunto parece-me pouco simpáticos relativamente ao fim da portagem exclusivamente para residentes. Ou, talvez seja mais apropriado, bastante discriminatórios em relação a nós, alentejanos, e muito pouco inclusivos. Para já não falar de uma notória falta de empatia para connosco, todos os que habitamos esta região. Recordo aos invejosos, que por cá não temos passes a quarenta euros para uma panóplia de transportes nem, ao contrário do que acontece com outras regiões, acesso a um infindável conjunto de serviços públicos. Apesar de pagarmos os mesmos impostos.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Equilibrio rigidamente precário

Tem havido ultimamente uma enorme discussão em torno das alterações que o governo pretende introduzir no chamado pacote laboral. Não é coisa, confesso, que me interesse muito. Até porque faço hoje, precisamente hoje, quarenta e cinco anos de trabalho e, com sorte, dentro de alguns meses tudo o que envolva trabalho deixa de me interessar. Ou, pelo menos, de me dizer respeito.

Por agora, relativamente aos desaguisados que a matéria tem suscitado, foco-me apenas em dois dados. Ambos, aos que julgo saber, bastante fiáveis por virem de fontes credíveis amplamente citadas por gente reconhecidamente sabedora do tema. Um é que Portugal é o segundo país da União Europeia com mais trabalhadores precários. O outro é que o país ocupa a terceira posição, também na UE, entre as legislações laborais mais rígidas. Assim de repente, parece-me, é capaz de uma coisa estar relacionada com a outra. E o melhor, provavelmente, é deixar estar assim. Quando grande parte dos patrões são broncos e quase todos os sindicatos são marionetas de um partido que luta pela sobrevivência política, o mais ajuizado é não mexer. Desequilibrar, seja para que lado for, só vai piorar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Retorcer a história

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Vai-me faltando a paciência para aturar malucos. Até porque, já garantia a minha sábia avó, um bêbado e um maluco nunca se contrariam. Nem, acrescento eu, um drogado. Isto a propósito das interpretações manhosas que muitos andam por aí a fazer dos acontecimentos que tiveram lugar faz agora cinquenta anos. Que sob o efeito de substancias de diversas estirpes, licitas ou não, devido a problemas que a psiquiatria pode, eventualmente, explicar ou por dificuldades provocadas pela cegueira ideológica há criaturas empenhadas em reescrever a história. Podem fazê-lo à vontadinha. Espaço público e tempo de antena têm-no de sobra. Infelizmente para eles o 25 de Novembro foi o que foi. Por mais contorcionismo narrativo que façam, nada altera o que aconteceu naqueles dias. Os derrotados foram o PCP e todos os outros que se situavam à sua esquerda. Foi assim. Os tipos que faziam manchetes com a da imagem, se ainda forem vivos e mantiverem a lucidez, concordarão comigo.

Obviamente que pretender equiparar a importância desta data com o 25 de Abril é simplesmente parvo. São incomparáveis e quem o pretende fazer também não percebe nada do que se passou naquela época. Mas, como escrevi, não tenho paciência para discutir com badalhocos. Limito-me a sorrir com condescendência perante aqueles que, apesar de apenas terem nascido décadas depois, me querem convencer que verdadeira é a história que eles contam e não aquela que eu vi acontecer à minha porta.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Pagagaios

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“É preciso uma visão global para a saúde”, proclamou aquele indivíduo que ocupa o palácio de Belém e que, há quem assegure, é o presidente – propositadamente com letra minúscula – de todos os portugueses. Trata-se de um diagnóstico brilhante. Tão brilhante que até eu era gajo para fazer. Alarvidades dessas digo eu a toda a hora e ganho bastante menos. De resto, quase toda a gente tem a visão que globalmente a saúde está com os pés para a cova.

Por falar em alarves. Amanhã temos mais uma greve da função pública. Ou não fosse sexta-feira. Estava com esperança que, desta vez, a luta envolvesse a diminuição da carga fiscal sobre os salários, nomeadamente o IRS, ou a diminuição da quotização da ADSE de 3,5% sobre catorze meses para 1,5% sobre doze. Mas não. Apesar de essa ter sido uma promessa da lista vencedora das eleições para os corpos directivos daquele sistema de saúde, que integrava representantes dos sindicatos, o silêncio acerca do tema tem sido sepulcral. Nem reivindicam, sequer, que o valor descontado possa ser deduzido em sede de irs, como acontece com os seguros de saúde dos trabalhadores do sector privado.

Obviamente que os tipos dos sindicatos, coitados, não têm grande culpa. Afinal, limitam-se a papaguear o que os seus mentores lá do partido mandam dizer. Que eles falam, falam, mas eu não os vejo a fazer nada.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

A liberdade dos outros é uma chatice

Impressionante a quantidade de criaturas incomodadas com as declarações de Cristiano Ronaldo em que este confessa a sua admiração por Donald Trump. Pior ficaram com o anuncio que o futebolista seria recebido na Casa Branca pelo Presidente Americano. Uma parvoíce. Como se o homem não tivesse o direito a ser admirador de quem muito bem entender. Gostam muito de apregoar liberdade, berrar contra o fascismo e proclamar solidariedade com os oprimidos, mas rasgam as vestes quando os outros não seguem a cartilha que a esquerda quer impor ao mundo.


Por mim, como democrata, amante da liberdade e nem por isso grande fã do CR7, acho muito bem que o melhor futebolista português de todos os tempos ou qualquer outra criatura à face da Terra, faça uso pleno dos seus direitos. Cívicos ou outros. Gosta do Trump? É lá com ele. No Benfica, já tivemos um jogador — Fabrizio Miccoli — tão devoto do Che Guevara que até se tatuou com a imagem do revolucionário e não me lembro de ninguém, benfiquista ou não, se ter importado com isso.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

(De)bater no ceguinho

A longuíssima maratona de debates entre candidatos presidenciais, a menos que resolvam incluir o Vieira, será um não menos desmesurado bocejo. Do debate de ontem retenho apenas aquilo dos estrangeiros que vêm para Portugal tratar da saúde à borla. À borla para eles, que os custos ficam por nossa conta. Que não, garante o Seguro e os gajos que fazem a “verificação dos factos” corroboram. Os estrangeiros pagam e os que ficam a dever é problema do funcionamento do sistema. Claro que sim. A gente acredita. Até porque, já dizia o outro, para a mentira ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade. O caso das gémeas brasileiras, transformadas em portuguesas de gema da noite para o dia, é por demais elucidativo. Por mais que se esforcem em dourar a pílula.

Quanto ao resto foi mais do mesmo. Um candidato choninhas, um fala barato e comentadores que antes de abrirem a boca já sabemos o que vão dizer. Se debatentes fazem o seu papel e cada um escolhe, legitimamente, as suas estratégias, de quem comenta espera-se outra atitude. Desejavelmente mais séria. Mas não. Estas criaturas, como sempre, parecem os pastorinhos de Fátima. Ou os árbitros do futebol português. Vêm coisas que mais ninguém vê. Tem corrido bem, como sabemos. E por falar em futebol. Aquilo ontem foi um empate de zero a zero. Total inoperância do ataque, a defesa só deu porrada e o meio campo passou o tempo a vê-las passar. A continuar assim descem ambos de divisão.

domingo, 16 de novembro de 2025

“Aos olhos da inveja todo o sucesso é crime.”

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O Correio da Manhã chama hoje para a primeira página a “fortuna” dos ministros. Conclui, presumo que com muito espanto e bastante horror, que os dezassete ministros acumulam no seu conjunto um património total de quase vinte e um milhões de euros. Toda esta riqueza, entre outras coisas, incluirá prédios, terrenos, automóveis, acções ou depósitos bancários. Se, como informa o dito pasquim, apenas três ministras acumulam quase doze milhões restam apenas pouco mais de nove milhões para os restantes catorze. O que dará, em média, pouco mais de seiscentos e sessenta e quatro mil euros por cada um. Realmente um escândalo, como a noticia parece pretender dar a entender e como a mesma é comentada nas redes sociais por uma multidão de invejosos. Gente que, certamente, preferia ser governada por indivíduos com a conta-ordenado no vermelho, vivessem num Tê zero na Rinchoa e se alimentasse à base de latas de atum compradas em promoção.
A falta de noção é mesmo tramada. Como se alguém com um património dessa dimensão pudesse, mesmo em Portugal, ser considerado rico. Tanto assim é que, ainda não há muitos anos a segurança social pagava RSI a uma família de feirantes que tinha um milhão e setecentos mil euros no banco. Ou – uma história mais antiga - a uma outra que ganhou uma maquia choruda no Totoloto, mas que ainda assim continuava a receber o RSI “por não ter liquidez”, como justificavam as entidades “competentes” nessa coisa de distribuir o dinheiro que nos custa a ganhar.
Se há sentimento que me aflige é a inveja. Nomeadamente quando a mesquinhez envolve os pertences ou o sucesso dos outros. Neste caso nem sequer parece haver muito para invejar. A esmagadora maioria dos invejosos que hoje invectivaram os membros do governo, esturrariam todo esse património enquanto o Diabo esfrega um olho. E quando o Belzebu esfregasse o segundo já estariam endividados.

sábado, 15 de novembro de 2025

É só fumaça...

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Tenho dificuldade em perceber o alarido que por aí anda por causa da greve, supostamente geral, que o Partido Comunista resolveu promover na sequência de mais uma hecatombe eleitoral. Não será a última. Hecatombe, greve geral patrocinada pelos comunistas logo se verá. Mas, escrevia, não se justifica tamanho basqueiro. O país não vai parar e tudo aquilo que ainda vai funcionando nos outros dias também funcionará nesse. Quando muito meia dúzia dos poucos comunas que ainda restam poderão paralisar as áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, impedindo muita gente, nomeadamente os mais pobres, de ir trabalhar. Ou seja, os do costume a prejudicar, como sempre, os que mais precisam. Nada que incomode os mentores destas iniciativas, que têm tanto apreço por quem trabalha como o Ventura pelos ciganos. No restante país a vida continuará, como sempre, indiferente aos entusiasmos revolucionários. Na instituição onde trabalho o único sinal de greve será, quando muito, a presença pela manhã de dois ou três sindicalistas à porta do edifício. E, mesmo assim, por pouco tempo que eles não são parvos e o sindicalismo não lhes põe o pão na mesa. Como dizia o outro: “a luta é muito bonita, mas convém ser só até à bucha. Depois tenho mais que fazer”.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Em estando pago, pago está!

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O pagode queixa-se de tudo. Agora, lá porque o governo anunciou a intenção de alterar a data de pagamento do IUC para o mês de Fevereiro de cada ano, surgiu um coro de lamentações, protestos e divagações várias. Pagar duas vezes em três meses é uma violência, vi eu escrito e ouvi, algo parecido, na televisão. Pagar impostos, sejam eles quais forem, é sempre uma violência. Mas, se o raio do imposto é anual, qual é a diferença? E depois é destas coisas, quem paga em Dezembro há já um ano que não paga. Daí que não tenha muito para se queixar.
O problema será, alegadamente, a falta de graveto. O que é pior. O “selo do carro” é uma parte ínfima, diria que até  a menor, dos custos que qualquer um tem de suportar com o automóvel. Reclamar da proximidade dos pagamentos é mais lamuria do que outra coisa. Não acredito que quem tem carro, por mais velho que seja, não tenha dinheiro para essa minudência.
Quando ouço estas queixinhas lembro-me sempre do tempo em que ganhava vinte e poucos contos por mês e me cobraram trinta e cinco de seguro. Uma quantia mais elevada do que aquela que recebi quando, um ou dois anos depois, vendi o carro. Perante os meus protestos o tipo da seguradora, provavelmente farto de me ouvir, atirou: “Não tem dinheiro para pagar o seguro?! Ná, você não tem é dinheiro para ter carro!”. Ficou-me cá.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Era um muro muito engraçado...

Fez no Domingo passado trinta e seis anos que caiu o Muro de Berlim. Por incrível que pareça, o acontecimento passou despercebido nas nossas televisões, sempre tão zelosas em assinalar efemérides de gloriosa irrelevância. É natural, pois para as redacções actuais a queda do muro continua a ser um trauma mal resolvido. Um daqueles episódios infelizes em que a realidade insistiu em destruir mais um “paraíso na Terra”.

Seja pelo silêncio em torno deste tema, por burrice ou por ser o que lhe ensinam em casa ou no partido, uma jovencita comunista partilhou um texto sobre a queda do muro onde, a linhas tantas, considerava que “o muro foi construido para impedir que os alemães migrassem em massa de Berlim Ocidental para Berlim Leste. Goste-se ou não foi assim.” Numa primeira leitura, até pela falta da virgula, acreditei que se tratava de uma conta paródia a escrever piadolas. Só que não. A menina está convicta da sua verdade e, por mais que inúmeros comentadores a chamem à razão, não se “desmonta da burra”. Nem o facto de as pessoas terem corrido para o lado de cá a demove. 

É neste caldo de estupidez mascarada de inteligência que se revela o papel miserável da comunicação social actual. Um jornalismo que já não informa, catequiza. Que não questiona, lambe. Que vê na miséria planificada da RDA um modelo de justiça social. É chato que o povo prefira o “inferno capitalista” à alegria cinzenta das filas para comprar manteiga, mas, c'um catano, se tanto apreciam o encanto da RDA, façam o favor de a reconstruir no vosso quintal. Um muro, uma cancela, ração mensal e vigilância da vizinhança. A experiência será educativa. E, melhor ainda, não incomodam ninguém.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Ah e tal...fake news e isso....

A BBC foi, durante décadas, um farol da informação credível. Um daqueles nomes que se dizia com respeito, quase com reverência. Hoje, a dúvida sobre se ainda o é tornou-se mais do que legítima, é inevitável. Se fazem aquilo com o Trump — que, convenhamos, é “apenas” o Presidente do país mais poderoso do mundo e aliado histórico do Reino Unido — imagine-se o que não farão com um Zé-Ninguém desta vida, o borra-botas do costume ou qualquer outro desafinado com a partitura ideológica da moda.
O pior nem é isso. O pior é que, se uma estação com os pergaminhos da BBC já torce a informação como quem espreme um limão seco, não se pode esperar que os seus congéneres pelo mundo fora façam diferente. É o festival da manipulação, cada qual a tentar impingir ao público as percepções mais convenientes. Aliás, só um ceguinho — daqueles que se esforçam mesmo muito para não ver — é que ainda acredita na independência e na imparcialidade da imprensa ocidental. E, muito menos, no profissionalismo dos jornalistas que a servem.
Por cá a comunicação social nem se dá ao trabalho de esconder o que a move. A isenção morreu e ninguém se deu ao trabalho de fazer o funeral. Basta abrir o jornal da minha terra. Deve ser por isso que não faltam figurões a clamar pelo controlo das redes sociais e, se possível, pelo seu fim. Eles lá sabem porquê. E nós também.