domingo, 21 de dezembro de 2025

A última carta

Há quem não se canse de estar do lado errado da história. Nem, qual D. Quixote, de lutar contra moinhos de vento e contra as mudanças que, gostemos ou não, vão acontecendo todos os dias na sociedade.


Ainda são muitos os que rasgam as vestes contra as privatizações. Como se o Estado, que somos nós e apenas dispõe do dinheiro que nos tira do bolso, tivesse obrigação de nos prestar todos os serviços e vender todos os bens de que precisamos. A privatização dos CTT, ainda no tempo do Passos, é daquelas que mais irrita os que desejam viver sob a tutela do Estado paizinho.


Vender aquela empresa foi uma boa solução. Distribuir cartas, já então se percebia, é um negócio sem futuro. Cá e em todo o mundo mais ou menos desenvolvido. Na Dinamarca, que em muita coisa nos devia servir de exemplo, o serviço postal vai entregar a última carta no próximo dia trinta de dezembro, pondo fim a uma tradição com mais de quatrocentos anos. Decisão justificada pela digitalização e a acentuada quebra no envio de correspondência. Por cá, mais cedo do que tarde, terá de acontecer o mesmo. Já ninguém escreve cartas de amor.


O mundo é o que é. Mas há quem prefira continuar a lutar contra o moinho, espada em riste, convencido de que o carteiro ainda vem a cavalo.

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