Muita razão tem o ministro Neves quando garante que a extrema-direita e o seu discurso populista constituem uma ameaça à democracia. Também acho. Olhem-me estes, os desta fotografia. Não querem saber das leis do Estado de direito e sugerem que a casa da democracia seja incendiada. É este discurso de ódio, promovido pela extrema-direita, que incentiva a violência e que pretende acabar com a democracia. Não podemos, obviamente, tolerar algo assim. Digamos, até, que exterminar esta extrema-direita se trata de um imperativo de qualquer democrata.
Muito bem, igualmente, todos os canais televisivos e comentadores em geral, que foram unânimes em condenar este desfile de fascistas que teve lugar um destes dias em Lisboa. Para não falar do vivo repúdio que esta passeata de fachos, gente que despreza a Constituição e os valores de Abril, suscitou entre os partidos de esquerda, forças progressistas e democratas diversos. Desde o BE ao PS todos condenaram. O PCP até lhes terá chamado bafientos, mas isso também já me parece demasiado ofensivo. São apenas mal-cheirosos.
Consta, aliás, que várias redações interromperam imediatamente a programação habitual para alertar o país para o perigo iminente. Durante horas, especialistas em extremismo analisaram a dimensão da ameaça, traçando paralelos históricos inquietantes entre este cartaz e alguns dos períodos mais sombrios da Europa. Não me recordo dos detalhes, porque devo ter sonhado essa parte.
Também merece aplauso a prontidão das autoridades competentes. Perante um apelo tão explícito ao incêndio do Parlamento, imagino que tenham sido abertas dezenas de investigações, emitidos comunicados e convocadas conferências de imprensa. Se tal não aconteceu, certamente foi por excesso de zelo democrático e não porque algumas ameaças são mais ameaçadoras do que outras.
Importa igualmente sublinhar que ninguém tentou relativizar a mensagem. Ninguém explicou que era apenas uma metáfora, um grito de revolta, uma performance artística, uma manifestação de criatividade cívica ou uma intervenção poética pós-moderna. Todos compreenderam que, quando alguém escreve que quer ver arder o Parlamento, o que está em causa é um saudável debate de ideias.
Aliás, se há algo que distingue os verdadeiros democratas é a sua intransigência perante qualquer discurso violento. Sem expceções, sem descontos, sem notas de rodapé e sem asteriscos ideológicos. A democracia exige coerência. E a coerência, como todos sabemos, é um valor tão importante que deve ser cuidadosamente evitado sempre que possa causar embaraços aos nossos aliados.
No fundo, a fotografia é reconfortante. Mostra-nos que os extremistas continuam a ser facilmente identificáveis. São sempre os outros.

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