Na ausência de alternativas vi-me forçado um destes dias a estacionar num parque controlado por um daqueles meliantes que esbracejam assim que avistam um automóvel e que, mal saímos da viatura, nos solicitam uma moedinha pelos alegados serviços prestados. Sejam lá eles quais forem. Mas que, por norma, têm a ver com o nosso medo de, no regresso, ver um pneu furado ou mais um risco no carrinho.
Como é óbvio não lhe dei moeda nenhuma. Era o que mais faltava. Mas, assim como assim, achei melhor não abandonar as redondezas. Daí que, enquanto a famelga ia onde tinha de ir fazer o que havia para fazer, matei o tempo de espera a observar o comportamento do auto-proclamado guarda do parque e dos automobilistas que chegaram depois de mim.
Verifiquei com alguma surpresa que, apesar do homem garantir a importância do seu mister, vários condutores não cederam à pressão do fulano e tratavam de o ignorar liminarmente. Não foram - nem de perto - a maioria mas, ainda assim, fiquei satisfeito por não ser o único “desmancha prazeres”.
A conclusão mais surpreendente da quase uma hora de observação foi, no entanto, outra. Completamente inesperada, diga-se. Conclui que, sem margem para dúvidas, aquele arrumador é racista. Durante esse período de tempo, três carros conduzidos por respeitáveis – nada me leva a suspeitar do contrário - cidadãos de etnia cigana pararam por ali e o homem nem uma palavrinha lhes deu. A nenhum deles. Nem se lhes dirigiu a oferecer os seus préstimos, não pediu moeda e não fez sinais a indicar a manobra. Nada. Racismo é o que é. Então o carro de um cigano não merece ser protegido de eventuais ameaças como o de outro cidadão qualquer?!