Há, obviamente, espaço
para muitos cortes na despesa pública. Todos somos capazes de
identificar inúmeras situações de gastos do Estado onde uma
valente tesourada seria muitíssimo bem aplicada. Principalmente
quando os afectados são os outros. Não fujo, tal como toda a gente,
a esta tendência. Reconheço, no entanto e ao contrário da maioria,
que isso de cortar em motoristas, gabinetes, mordomias diversas ou no
BPN, por mais moralidade que revele, não passa de trocos e é
preciso ir muito mais fundo.
Saúde, educação,
segurança social e autarquias são alguns dos sectores onde é
necessário cortar a sério. Não concebo, por exemplo, que apesar de
não haver dinheiro se continuem a fazer abortos - sem ser por
motivos de saúde - completamente gratuitos. Ou porque não se
privatizam serviços de saúde aplicando o mesmo principio da ADSE.
Tenho também dificuldade em perceber que, na educação, não haja coragem – como
parece que, afinal, não há – de acabar com aquilo a que chamam
actividades de enriquecimento curricular. Ou porque se insiste em
construir escolas onde não existem crianças. Faz-me igualmente
espécie, quanto à segurança social, que não se mexa nos subsídios de toda a espécie
atribuídos sem qualquer controlo. Ou de retirar as reformas,
pequenas ou grandes, a quem nunca descontou e tem contas bancárias
com muitos zeros do lado certo da virgula. E, no que respeita ao poder local, nem é bom falar da
incapacidade de moralizar os autarcas que, alheios ao mundo que os
rodeia, continuam a esturrar dinheiro como se não houvesse amanhã.
Um dia, mais cedo do
que tarde, com este governo ou com outro – por mais patriótico e
de esquerda, seja lá o que for que isso signifique - vamos chocar
frontalmente contra um cofre vazio. O que, lamento dizer, não será
necessariamente mau. Parece ser a única maneira de, finalmente,
percebermos o significado da frase “não há dinheiro”. Pena é
que vamos todos no mesmo autocarro.