André Ventura, já se sabia, nem sempre tem a melhor relação com a verdade. Às vezes, digamos, trata-se mesmo de um relacionamento a resvalar para o pouco amistoso. Do que não se pode acusar o homem é de não ter faro para a política. Tanto assim é que deve ter farejado eleitorado com problemas existenciais na coutada do PAN e resolveu dar-lhes caça. Resta saber é se esta entrada de cabeça no silvado não o deixa demasiado arranhado. Se calhar não, porque as restantes matilhas, por ser o assunto que é, não vão ter coragem de lhe morder o lombo.
O líder do Chega, numa recente publicação no X, achou boa ideia que os portugueses possam ter licença remunerada para ficar em casa a tratar dos seus animais de estimação doentes ou feridos. À semelhança, acrescenta, do que acontecerá por obra e graça da Melonni. O que é falso, pois em Itália não existe nenhuma lei nesse sentido, promovida pela actual primeira-ministra nem por nenhum dos seus antecessores. Um tribunal italiano terá, numa ocasião, julgado procedente o recurso de um maluco qualquer que, ao abrigo do conceito de assistência à família, pretendia ficar em casa a tomar conta do canito enfermo.
A coerência, como tem sido amplamente demonstrado, não constitui um dos atributos conhecidos do cavalheiro. Para quem tanto critica os que vivem de subsídios, os que não querem trabalhar e o excesso de direitos de que tantos beneficiam exprimir o seu desejo de ver algo deste género implementado por cá parece-me, digamos, um bocado estúpido. Ou, apenas, mais uma das muitas ocasiões em que mais valia estar calado.
Receio, ainda assim, que se um dia uma idiotice destas chegar ao parlamento se arranje uma maioria qualquer que a aprove. Se acharem que é popular não haverá linhas vermelhas, nem de qualquer outra cor, que não sejam transpostas. Se os papagaios aprovarem uma cena destas restará ao contribuinte trabalhar que nem um boi para sustentar, além da fauna habitual, todos os calões que queiram ficar em casa a tratar do cão. Seria, convenhamos, o fim da macacada.

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