Estamos a poucos dias de começar a pagar um novo imposto. Daqueles virtuosos. Com consciência ecológica, certificado moral e promessa de reembolso. Serve, dizem eles, para fomentar a reciclagem, pois tem como prémio a devolução do seu valor aos contribuintes bem comportados. Ou seja, ama espécie de mesada ambiental para adultos que sabem pôr o lixo no sítio certo. Embora essa parte do “devolvemos-lhe o dinheiro” tenha tanto de promessa como de miragem no deserto. Até porque o processo, por mais propagandeada que seja a sua eficácia, envolve sempre aquele pequeno detalhe chamado realidade. Nomeadamente logística, tempo, e a eventual inaptidão natural de alguns contribuintes para interagir com máquinas que mais parecem invenções do Demo.
Dez cêntimos de imposto por cada garrafa de água ou lata de cerveja parece, assim de repente, uma coisa inócua. Uma ninharia, até. Um gesto simbólico, quase. Mas não é. Primeiro, porque num pack de vinte e quatro embalagens o consumidor paga logo mais dois euros e quarenta cêntimos. Que é como quem diz, paga já e logo se vê. E, segundo, porque só recupera esse montante algum — potencialmente longo — tempo depois e apenas se cumprir um pequeno conjunto de requisitos dignos de um concurso público. Embalagens completas, em bom estado, sem amolgadelas e devidamente transportadas desde o local de consumo até ao altar da devolução. O que, convenhamos, não acontecerá em mais de metade das situações. Porque entre a preguiça, o esquecimento e o simples facto de ninguém querer andar com um saco de latas a tilintar como um chocalho no porta-bagagens haverá muito dinheiro que vai encontrar como destino final o cofre do Estado.
Embora sempre prontos a indignarem-se com um cão sarnoso, uma polémica de ocasião ou a última caça ao terrorista de serviço os portugueses têm uma relação quase zen com os impostos. Aceitam-nos como quem aceita os humores da meteorologia e encolhem os ombros. Melhor ainda se lhes disserem que é para salvar o planeta, proteger as tartarugas ou cumprir metas com nomes em inglês. Só que não. Este, como quase todos os outros, não serve apenas para reciclar latas. Serve, sobretudo, para reciclar dinheiro — do bolso do contribuinte para o estômago insaciável do Estado — e para alimentar a máquina de propaganda que nos garante que tudo isto é para o nosso bem. Chamem-lhe Estado social, proteção ambiental ou educação cívica. No fim do dia, continua a ser o mesmo. Pague agora, recicle depois… e, com sorte, receba qualquer coisa lá mais para a frente. Ou nunca.
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