sexta-feira, 20 de março de 2026

Mais um eco-imposto

 Estamos a poucos dias de começar a pagar um novo imposto. Daqueles virtuosos. Com consciência ecológica, certificado moral e promessa de reembolso. Serve, dizem eles, para fomentar a reciclagem, pois tem como prémio a devolução do seu valor aos contribuintes bem comportados. Ou seja, ama espécie de mesada ambiental para adultos que sabem pôr o lixo no sítio certo. Embora essa parte do “devolvemos-lhe o dinheiro” tenha tanto de promessa como de miragem no deserto. Até porque o processo, por mais propagandeada que seja a sua eficácia, envolve sempre aquele pequeno detalhe chamado realidade. Nomeadamente logística, tempo, e a eventual inaptidão natural de alguns contribuintes para interagir com máquinas que mais parecem invenções do Demo.

Dez cêntimos de imposto por cada garrafa de água ou lata de cerveja parece, assim de repente, uma coisa inócua. Uma ninharia, até. Um gesto simbólico, quase. Mas não é. Primeiro, porque num pack de vinte e quatro embalagens o consumidor paga logo mais dois euros e quarenta cêntimos. Que é como quem diz, paga já e logo se vê. E, segundo, porque só recupera esse montante algum — potencialmente longo — tempo depois e apenas se cumprir um pequeno conjunto de requisitos dignos de um concurso público. Embalagens completas, em bom estado, sem amolgadelas e devidamente transportadas desde o local de consumo até ao altar da devolução. O que, convenhamos, não acontecerá em mais de metade das situações. Porque entre a preguiça, o esquecimento e o simples facto de ninguém querer andar com um saco de latas a tilintar como um chocalho no porta-bagagens haverá muito dinheiro que vai encontrar como destino final o cofre do Estado.

Embora sempre prontos a indignarem-se com um cão sarnoso, uma polémica de ocasião ou a última caça ao terrorista de serviço os portugueses têm uma relação quase zen com os impostos. Aceitam-nos como quem aceita os humores da meteorologia e encolhem os ombros. Melhor ainda se lhes disserem que é para salvar o planeta, proteger as tartarugas ou cumprir metas com nomes em inglês. Só que não. Este, como quase todos os outros, não serve apenas para reciclar latas. Serve, sobretudo, para reciclar dinheiro — do bolso do contribuinte para o estômago insaciável do Estado — e para alimentar a máquina de propaganda que nos garante que tudo isto é para o nosso bem. Chamem-lhe Estado social, proteção ambiental ou educação cívica. No fim do dia, continua a ser o mesmo. Pague agora, recicle depois… e, com sorte, receba qualquer coisa lá mais para a frente. Ou nunca.

2 comentários:

  1. Portugal tem a água engarrafada mais barata do mundo faz décadas. Ouvi dizer que vão introduzir o sistema de reciclagem em troca de dinheiro em máquinas automáticas. Ou seja: é como no Japão: por cada garrafa enfiada na máquina devolvem esse dinheiro. O que vai passar a haver é muita gente a querer apanhar as garrafas dos outros ahahaha.

    Mas eu acho bem e quero ver como se sairá tal medida em Portugal. É tão feio ver garrafas e latas caídas pelo chão das cidades. Onde vivo, em Inglaterra, é uma constante. Outros países europeus têm esse sistema. Nunca fui a nenhum mas o têm faz décadas.

    Faz uns 20 anos que fui à Itália e me surpreendi que uma garrafa de água das de 25 ml 50 ml me custaria uns 3 euros para começar. Em todo o lado. Nós com as nossas a 0.20 centimos e eles sem nada abaixo de 1 euro. Bebi água enchendo a garrafa nas bicas deles. Em Roma faz-me imensa confusão mas eles tem água a correr em bicas 24h por 24h. Eu só pensava "onde fecho a torneira?" devido ao desperdício e à falta de água noutras partes do mundo. Ainda hoje espero que aquela água seja parte de uma intrincada rede de reciclagem e reutilização de água da cidade de Roma. A água é o nosso maior recurso. E tomara que nunca o venhamos a descobrir pela pior forma. Enquanto uns a deixam cair no chão como se naõ fosse nada, outros valorizam cada gota.
    Aqui em inglaterra um garrafão de água de 5 litros pode custar cerca de 6 libras. Nós em Portugal ainda os apanhamos a menos de um euro. E eles não vendem garrafas de 0.25 ml separadamente. É muito raro de ver isso nos supermercados. Só se for assim nos cafés... ao preço de um. Que aliás, aqui também não é como em Portugal. Um "café" até do MacDonalds é 5 libras. E pode-se dizer que é água apenas com dois pingos do "suco" do pó do café. É raro terem "expresso" mas como não bebo não sei especificar qual o racio de preço.

    Se for para recuperar o valor desse imposto, acho bem.
    É como as garrafas em vidro de cerveja e afins na década de 80.... ia-se à mercearia com umas tantas no saco de plástico e recebia-se uns cêntimos. Se reciclamos vidro pesado carregando-o num saco à mão vamos conseguir reciclar plástico. Embora preferisse que a medida fosse BANIR o plástico de quase tudo. Mas já é tarde...
    Se você me responder a este comentário os seus dedos estão a tocar no quê? Os parachoques dos automóveis antes eram de metal agora são do quê? As roupas antes eram fibras de algodão agora são poliester que é o quê?
    Seria importante diminuir a pegada do plástico mas não com os supostos sacos de supermercado que deixaram de facultar de forma gratuita, só paga. Isso reduziu mas não fez grande coisa. Porque os oferecidos tinham qualidade e duravam anos e várias re utilizações e os pagos são de péssima qualidade porque não têm de obedecer a uma regra de percentagem e podem rasgar-se ainda durante o trajecto de transporte das compras. Não sei como é que isso não é visto ainda como mais poluição do que no passado.

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    1. As preocupações ambientais são a desculpa perfeita para aumentar impostos. Toda a gente aplaude ou, pelos menos, não critica. Por mim até tolerava esses aumentos se fosse acompanhados da redução de outros. Nomeadamente o IRS, que constitui um roubo absolutamente escandaloso.

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