segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Cãotidiano"

O canito, coitado, manifestamente mais ajuizado que o dono, demonstra séria relutância em caminhar sob a chuva intensa que, na altura, se abatia sobre a cidade. De nada lhe valeu.  A trela sobrepôs-se à sua vontade e fê-lo prosseguir no encalço do outro maluco. É, portanto, uma imagem clássica do nosso quotidiano.

sábado, 30 de julho de 2011

A cultura das boas contas. Ou a falta de ambas.

Da leitura de blogues de uma localidade não muito distante concluo que a autarquia lá do sítio terá uma divida colossal à banca, a fornecedores e aos chamados agentes culturais e desportivos do concelho. Nada que, relativamente à divida financeira, inquiete alguém. Tão pouco o atraso na regularização dos pagamentos às empresas que venderam bens e prestaram serviços à autarquia é merecedor de grandes preocupações. O mesmo não se pode dizer da falta de cumprimento dos compromissos assumidos pela edilidade para com os tais “agentes”. Isso aí é que “alto lá e pára o baile”, que não pode ser.
Obviamente que as dividas, seja qual for a sua natureza, são para pagar. O que não se percebe é que o movimento associativo lá da terra exija um tratamento de excepção e que se arrogue no direito de receber o que lhe é devido, de forma prioritária relativamente aos restantes credores. Fizeram, com certeza, a planificação das suas actividades na perspectiva de receberem atempadamente os valores em causa e o incumprimento autárquico estará certamente a causar transtornos. Mas, e isto não se afigura difícil de perceber, o mesmo sucederá com as empresas que aguardam a regularização de dezassete milhões de euros há mais de trezentos e sessenta dias.
Perante este cenário, nem sei como classificar argumentos do tipo “o chavão da falta de dinheiro já não convence”, usado para criticar o atraso no pagamento das quantias acordadas com as associações. Há quem tenha dificuldade em perceber, especialmente na área cultural onde por norma as pessoas são mais avessas a números, que o dinheiro, tal como tudo, também pode acabar. Ou, no mínimo, que se trata de um bem escasso para ser usado com ponderação. O que, dadas as evidências, não terá acontecido no caso em apreço. E é a ausência de crítica das gentes da cultura à gestão desastrosa que os conduziu até este estado de coisas, que me deixa verdadeiramente perplexo. Pior. Se reclamam é apenas porque a tal Câmara promoverá, na opinião deles, poucas actividades culturais. Ou seja, a divida até podia atingir valores ainda mais astronómicos que, desde que eles recebessem, estaria tudo bem. Com uma cultura destas não admira que o país esteja neste estado!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Ora assoem-se lá a este guardanapo!

Assim que tomou posse o primeiro-ministro apressou-se a comunicar ao país que este ano os deputados não teriam férias. Embora agora pareça que afinal não vai ser bem assim, a verdade é que a malta gostou. Bem-feita, terá pensado a maioria dos eleitores para quem a profissão de representante da nação no hemiciclo não é lá muito bem vista e acha que os ditos figurões ganham demais para o serviço que apresentam. 
A necessidade de manter a Assembleia da República a funcionar, justificava-se o então recém-eleito chefe do governo, teria a ver com a imperiosa aprovação das medidas indispensáveis à salvação do país. Tratar-se-ia de aprovar coisas importantes, pelo que era fundamental não perder tempo. Férias e outras minudências teriam que esperar. 
Ficámos, portanto, todos na expectativa. Uns mais ansiosos que outros, é verdade, mas isso depende do feitio de cada um e, também, daquilo que cada qual considera importante. Tão importante que impeça até um ilustre deputado de gozar uns dias de descanso. Ora sabe-se – ou pelo menos calcula-se - que um deputado cansado não deputará com a qualidade que nós desejamos que depute e – há quem garanta isso - a deputação é uma actividade muito exigente, capaz de deixar a maioria de rastos se praticada de forma contínua e sem os necessários períodos de recuperação.
Pelo exposto fácil é concluir que sou a favor das férias dos representantes do povo. A última coisa de que precisamos é de deputados esfalfados, cansados de tanta actividade deputativa, a aprovar medidas cruciais e determinantes para o desenvolvimento do país. Como, por exemplo, a “Promoção e valorização dos bordados de Tibaldinho da Freguesia de Alcafache”. Para quem não sabe, como era o meu caso, “Nestes panos é bordada uma panóplia de motivos decorativos: os ilhós simples, espirais de ilhós (enleios), arcos de ilhós (cadeia), arcos ogivais, quadrados de nove ilhós, espirais de cordão, espirais de borbotos, círculos simples e concêntricos, rodízios, estrelas, óculos em cruz, corações simples, floridos ou com chave, com hastes, pétalas, malmequeres, girassóis, cravos, botõezinhos, folhas abertas e fechadas, folhas redondas, alongadas, pontiagudas e serrilhadas, folhas de feto, carvalho, trevo de quatro folhas, composições florais, laços, silvas, bolotas, tranças, pevides, pássaros, borboletas, Cruz de Cristo, dois oitos em cruz, crivos simples e de duas pernas, recorte ondeante, bainha aberta, machocos redondo, alongados (de pevide) e bicudos (serrilha ou dentes de rato), curvas espiraladas, cordão ondeante, canutilhos, pompons, letras maiúsculos, monogramas”.
Perante factos destes não consigo calar o meu regozijo. Temos, finalmente, deputados que se preocupam com o essencial. O que claramente vem desmentir todos os que insistem em menorizar a actividade parlamentar. Ora assoem-se lá a este guardanapo!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Mau sinal


Da sinalização que alguns iluminados pela ignorância se lembraram de espalhar profusamente, aqui há atrasado, pelos bairros da Salsinha, Monte da Razão e Quinta das Oliveiras, este sinal é talvez o único que faz todo o sentido. No entanto já foi vandalizado em diversas ocasiões. Terá, portanto, inimigos de estimação que não suportarão a imposição de parar. Ou, então, será outra coisa qualquer no âmbito das doenças mentais. Daquelas que alguns insistem em classificar como vandalismo. Seja como for, a “obra” deu trabalho e o derrube do sinal não foi uma tarefa simples. Pena que estas bestas não concentrem as suas energias em atitudes mais cívicas. Como, por exemplo, fechar as tampas dos três contentores situados poucos metros mais abaixo e que, misteriosamente, NUNCA estão fechadas. Mas isso, além de constituir assunto para outro post a publicar um destes dias, deve ser coisa que envolve muito esforço.

domingo, 24 de julho de 2011

Curiosidades da execução orçamental da administração local

A síntese da execução orçamental recentemente divulgada pela Direcção-Geral do Orçamento apresenta valores, no que diz respeito à administração local, que simpaticamente me limitarei a classificar apenas como perturbadores. Isto porque, contrariamente ao que seria expectável, a despesa do conjunto dos municípios não está a encolher relativamente ao ano anterior. Bem pelo contrário. Até final de Junho a despesa, do total de toda a administração local, registou um aumento de 2,4 por cento. Isto apesar das despesas com pessoal – os eternos culpados – terem caído, por comparação com igual período do ano passado, em 3,3 por cento.
Estes números não reflectem, na minha opinião, apenas má gestão por parte de quem lidera os municípios portugueses. O caso será muito mais grave do que isso. O que estes indicadores nos mostram é que estando o poder local muito mais perto das pessoas lhe é praticamente impossível ir contra o que dele exigem os eleitores e, vivendo os portugueses um estranho estado de negação da realidade, é muito difícil a qualquer autarquia reduzir seja o que for no âmbito das suas despesas sem ter de se confrontar com a reacção dos que se habituaram a viver, de alguma forma, à conta do orçamento municipal. De resto apenas um totó acreditará que um autarca, por mais corajoso ou empenhado em prosseguir uma gestão racional da coisa pública, será capaz de olhar nos olhos os seus munícipes e dizer-lhes que a “festa” acabou. Excepto, como os números claramente demonstram, se os cortes forem no pessoal. Aí ninguém se importa de ser mauzão porque sabe que a populaça fica satisfeita.
A título de exemplo – podia ser outro, mas este parece-me sintomático – até final de Junho, foram pagos pelas autarquias mais 9,8 milhões de euros em transferências correntes - os vulgares subsídios - do que em período homólogo do ano anterior. Ou seja, mais de metade da poupança gerada com a redução das despesas com pessoal não serviu para reduzir o défice, equilibrar as contas públicas, salvar o país da bancarrota ou, o que me parecia sério, pagar as dívidas. Foi, antes, parar às contas bancárias dos inúmeros subsidio-dependentes, verdadeiros peritos na arte de mostrar trabalho – tipo, sei lá, comer camarão - com o dinheiro que lhes é dado de mão-beijada. Espero que façam bom proveito. Na verdadeira acepção da palavra.

sábado, 23 de julho de 2011

A média é quase sempre uma má maneira de medir...

Embora os valores apresentados nem me pareçam merecedores de grande destaque, até pela natureza das faltas em causa, um jornal de expansão nacional resolveu fazer manchete com um estudo segundo o qual os funcionários públicos faltam ao trabalho dezoito dias por ano. Isto em média, claro. E o problema reside principalmente aí. Estou, assim de repente, a lembrar-me daquela história – não sei se verdadeira mas tenho boas razões para acreditar que sim – de um vereador de um dos maiores municípios do país, simultaneamente detentor de um cargo numa empresa municipal e que, alegadamente, nem sequer sabia onde ficava a sede. Embora – isto também alegadamente – a generosa retribuição nunca tivesse deixado de ir estacionar na sua conta bancária.
Ora um gajo destes estraga claramente a média. Depois temos ainda aqueles fulanos que acumulam vários lugares em instituições diferentes. Apesar de toda a genialidade que sobejamente lhes é reconhecida, não terão o poder de estar, simultaneamente, em dois ou mais lugares. O que constitui mais uma desgraça para a estatística. A menos – hipótese que nem ouso colocar – esta malta não entre nestas contas.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Pagar uma vez é mau. Justo, mas mesmo justo, seria pagar duas. Ou três, vá.


Acho piada à tese, maioritariamente aceite como boa, que defende a incidência do imposto natalício, para além de outros ganhos, também sobre os juros de depósitos a prazo. Para a esquerda de uma maneira geral e para grande parte dos opinadores com direito a voz nas televisões, essa abrangência seria da mais inteira justiça, ao contrário de, como pretende o governo, taxar apenas os rendimentos do trabalho.
Considero, como escrevi noutras ocasiões, que este imposto produzirá efeitos nefastos na economia. Não vejo por isso que abranger outros rendimentos lhe acrescente qualquer tipo de justiça. Deixemos-nos de fingimentos e hipocrisias. Provavelmente muitos dos que vão ser abrangidos pelo corte no subsídio de Natal possuem acções e, seguramente, a larga maioria são titulares de depósitos bancários. Taxar estes rendimentos seria penalizar quem já vê parte significativa do seu trabalho ir direitinha para os cofres do Estado e cobrar, ainda mais, aos mesmos.
Nem vale a pena espernear muito em busca de argumentos contrários ao que acabo de escrever. Nem, sequer, armar em anjinho de pau carunchoso e acreditar que é apenas uma minoria que detém produtos financeiros. De acordo com os dados do boletim estatístico do Banco de Portugal, hoje divulgados, o total de depósitos aplicados por particulares atingiu os 122.249 milhões de euros em Maio, mais 1,386 mil milhões de euros face a Abril. Por detrás destes números estão, forçosamente, pessoas. Que trabalharam, pouparam e investiram. Entre os quais se encontram muitos reformados, que têm nos juros obtidos um complemento para as suas reformas. Mas, apesar disso, há quem considere uma injustiça não lhes sacar umas massas. Opiniões.
Reitero a minha convicção que, feito o apuramento final, o resultado do impacto deste imposto na economia e, por consequência, nas contas do Estado a médio e longo prazo será trágico, e tudo o que seja alargar a tributação servirá apenas para aumentar a dimensão dessa tragédia. Mas isso não é preocupante. Os dos costume continuarão a pagar os desvarios dos inimputáveis do regime.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O passado está de regresso

Desde o final da década de oitenta - princípio dos anos noventa do século passado, vá - até há dois ou três anos atrás, era raríssimo ver ciganos nómadas por estas paragens. Agora, carroças repletas desta gente, são uma presença constante nas estradas do distrito de Évora. Não sei a que se deve tão estranho fenómeno mas, de verdade, não me agrada. Nem é por serem feios, porcos e, possivelmente, maus. Nada disso. O meu desagrado tem mais a ver com as memórias de um tempo em estas caravanas eram constituídas por muitas mais carroças e integravam largas dezenas ou centenas de pessoas que, à sua passagem, iam roubando o que podiam. Quase sempre a pessoas que pouco mais tinham do que eles, diga-se.
É a memória desse tempo, que parece prestes a regressar, que me causa um certo calafrio e me provoca, perante este cenário, um sentimento de déjà vu. Espero estar enganado e este não constitua mais um sinal de que estamos em claro processo de regressão social. Admitamos, antes, que esta malta aprecia a natureza, possui um indomável espírito de liberdade e que prefere levar a vida a passear. Admitamos. Até porque por estas bandas nem há areia onde possamos esconder a cabeça.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Crise de valores


Sempre considerei que é preciso um enorme descaramento e uma colossal falta de vergonha  – assim mesmo, sem nenhum conjunto de palavras pelo meio que possa dar azo a interpretação diversa – para pedir, que é como quem diz exigir, um subsídio a uma instituição pública para realizar uma festa, fazer uma jantarada ou promover um qualquer evento semelhante. Na actual situação em que vivemos vou ainda mais longe. Continuar a exigir – quase encostar os autarcas à parede, não é mera figura de retórica – apoios para os mais variados disparates que dirigentes associativos idealizam, constitui um acto lesivo do interesse de todos os portugueses e que me enoja profundamente. A existência de dinheiro público a financiar cantorias e cambalhotas, bejecas, camarão ou frango assado é, principalmente numa altura como a actual, um verdadeiro escândalo que devia envergonhar a todos os que, em alguma parte do processo, tem uma palavra a dizer.  
Quando se solicitam estes apoios, são evocados motivos aparentemente muito nobres que justificam a sua concessão. Desde o interesse público até coisas realmente imaginativas, como a promoção e a divulgação do concelho em causa.  Seja lá o que for que isso queira dizer. Presumo que terá sido nesse contexto que os “Amigos da Festa Brava”, certamente uma associação de reconhecido interesse público e que eventualmente promoverá o concelho onde está sediada, ganharam quase oito mil e duzentos euros de subsídio atribuído pela Câmara lá da terra. No entanto, nessa mesma terra, muitas famílias deixaram de receber abono de família, pagam bastante mais irs e vão ver parte do seu subsídio de Natal ser absorvido pelo imposto natalício. É a crise. De valores.

domingo, 17 de julho de 2011

Um pelo preço de dois

Numa loja de electrodomésticos de uma conhecida cadeia de hiper-mercados, enquanto aguardava a minha vez de pagar, decorria na caixa ao lado um dos mais interessantes negócios a que já tive a oportunidade de assistir. Um casal tinha acabado de adquirir uma arca congeladora e, como medida de protecção adicional à garantia, o vendedor propunha-lhe a subscrição de um seguro que, durante cinco anos, cobriria toda a espécie de azares que pudessem acontecer ao aparelho. Pela módica quantia de três euros e sessenta por mês. Uma insignificância quando comparada com a tranquilidade proporcionada, acrescentava. Qualquer coisa como duzentos e dezasseis euros no final dos sessenta meses, se nos dermos ao trabalho de fazer a conta.
Ao contrário do que seria de esperar, o casal – aparentemente de condição humilde, mas com idade para ter juízo - não demorou muito tempo a concluir pela aceitação da proposta do vendedor e, assim de repente, levar um electrodoméstico para casa e assumir o compromisso de pagar outro. Perante um cenário como o descrito anteriormente não é difícil concluir que os portugueses se deixam convencer com facilidade, manifestam uma confrangedora iliteracia financeira e uma preocupante inabilidade para fazer contas. Assim não vamos lá. Contudo ajuda a explicar porque chegámos até aqui.

sábado, 16 de julho de 2011

Uma "brasa" no Ministério da Agricultura (*)

Mesmo colocando as mais sérias reservas quanto à sua eficácia, aplaudo as medidas implementadas pela nova Ministra da Agricultura visando a optimização dos recursos energéticos pelos serviços do seu ministério. Se, por um lado, tudo o que envolve poupança me parece bem, já, por outro, não se me afigura que o simples facto de deixar de usar gravata e, por isso, poupar no ar condicionado resolva grande coisa. Até porque a ministra já manifestou publicamente a sua condição de friorenta, o que não augura nada de bom quando, lá mais para o Outono, as temperaturas começarem a baixar. A menos que, por essa altura, seja emitida alguma ordem de serviço a aconselhar os funcionários a incluir na sua indumentária gorros, cachecóis, luvas, sobretudos e ceroulas. Ou, fica a sugestão, os serviços do ministério distribuam uma mantinha a cada colaborador. De preferência daquelas artesanais para estimular a economia das zonas rurais.
O que, de todo, me desagrada é que a alegada poupança tenha apenas como alvo a gravata. Ou, visto de outra forma, que apenas o pescoço masculino mereça ser aliviado dos apertos a que normalmente está sujeito nos gabinetes e corredores institucionais. Surpreende-me que as feministas de serviço, os mais variados grupos pela igualdade e, até, o Bloco de Esquerda, não tenham ainda vindo reclamar pela institucionalização do decote generosamente mais amplo ou da saia mais curta. Tudo, claro, em nome da poupança, da redução da pegada ecológica e, principalmente, do direito das mulheres a arejarem aquilo que muito bem entenderem.

(*) Pelo conteúdo do texto percebe-se claramente que a “brasa” a que me refiro é a temperatura. Nada de más interpretações que o respeitinho é muito bonito e isto é um blogue sério.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Fogaréu

Faz-me espécie que, ano após ano, este cenário se repita nesta zona da cidade. Há, pelo menos, vinte e dois anos que em cada Verão os incêndios em redor das muralhas ocorrem com inusitada frequência. Que, refira-se, apenas não é estranha à força de tanto se repetir. 
Não existe por ali nada que potencie, mais que em qualquer outro local, o risco de incêndio. Nem, que se saiba, nada que interesse queimar. Daí não se perceber o que motivará o constante arder daqueles pastos. A não ser que estes – coisa difícil de acreditar – possuam invulgares características capazes de provocar a sua combustão espontânea. 
Se calhar, digo eu que não percebo nada de fogueiras, o melhor será mesmo deixar arder tudo de uma vez. A menos que se pretenda que estes pequenos focos de incêndio sirvam como teste à prontidão e capacidade operacional das forças competentes para intervir nestes assuntos. O que, bem vistas as coisas, até nem parece mal de todo.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Um coice na crise?

Esta imagem poderá revelar-nos que estaremos já em fase de retoma económica ou, pelo contrário, que regressámos ao tempo em que – presumo, porque não vivi nessa época – se comercializavam muares no principal largo da cidade. Seja como for, é de saudar o espírito de iniciativa destes comerciantes que resolveram mostrar as suas alimárias a eventuais compradores. 
Será, talvez, também um sinal que o regresso à terra – à lavoura, vá – está para breve. Quem sabe, com recurso aos métodos mais tradicionais e amigos do ambiente. Ou, vistas as coisas noutra perspectiva, poderão constituir uma alternativa aos actuais meios de transporte. Dispensam seguro, não gastam combustíveis fósseis e são fáceis de estacionar. Apesar disso desconfio que não terão grande sucesso no negócio. De resto só um parvo iria comprar uma mula a um cigano quando pode ter um jipe à borla. Ou com pouco trabalho e alguma ciganice. E os lavradores, como se sabe, não são nada parvos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Patriotas, mas só relativamente.

O patriotismo evidenciado pelos portugueses desde que a Moody's considerou a divida lusa como lixo é deveras enternecedor. Comovente, até. A maioria de nós descobriu, assim de repente e sem que nada o fizesse prever, uma repentina paixão patriótica. Quase tão intensa como naquele longínquo Verão de 2004 em enfeitámos tudo e mais alguma coisa com bandeirinhas nacionais. Daquelas compradas nas lojas dos chineses.
Apesar de achar alguma piada às tentativas de chatear os gajos da Moody's – ao ponto de também ter acedido e feito refresh inúmeras vezes no site da organização - e admitindo que as agências de notação até podem ser uns chatos do caraças, insisto, tal como escrevi aqui, que a culpa é quase exclusivamente nossa. Ninguém nos obrigou a pedir dinheiro emprestado. Nem, ainda menos, a não regularizar atempadamente os nossos compromissos. Só em processos de acção executiva a aguardar cobrança admite-se que estarão mais de vinte mil milhões de euros. Sensivelmente um terço da chamada ajuda externa recentemente negociada. Coisa pouca, portanto.
Admito que, sem a quantidade astronómica de dinheiro que nas últimas décadas desaguou no país, a nossa vida não seria a mesma coisa. Provavelmente não teríamos auto-estradas onde passam quase tantos veículos quantos os passageiros que embarcam ou desembarcam no aeroporto de Beja. Não haveria um campo de futebol relvado em cada aldeia e o Tony Carreira, certamente, daria menos concertos. Não teria sido construído um parque habitacional suficiente para acomodar vinte cinco milhões de habitantes nem, quase de certeza, veríamos qualquer gaiato ranhoso com o pai desempregado e a mãe no rendimento mínimo a manusear um telemóvel de última geração. Não era, de facto, a mesma coisa. Mas, se calhar, não era pior.