Raro é o dia em que alguém não me questiona se já estou aposentado. Outras variantes da questão, igualmente frequentes, são se ainda estou a trabalhar ou quando é que me reformo. Pois que não sei. Um ano destes, talvez. Num futuro mais ou menos distante, quiçá. É que, para o bem e para o mal, não faço parte daquela geração de funcionários públicos que se aposentaram com trinta e seis anos de serviço e sem cortes. Melhor do que isso. Muitos foram promovidos dois ou três meses antes de se reformarem e, dado que deixaram de ter descontos e a pensão era igual ao último salário, passaram até a auferir mais do que quando trabalhavam. Ainda bem para eles, mas isto não dá para todos. Só para alguns. Os que chegaram primeiro, no caso. No fundo é como dizia a minha avó, quem primeiro chega primeiro se avia.
Perante este cenário de corte permanente das reformas – as futuras, claro, que esse é um corte indolor no presente e que apenas provoca uma perspectiva de maleita futura – não faço a mais pequena ideia quando atingirei a condição de aposentado. Se os direitos adquiridos fossem para todos já levaria sete anos de reforma. Assim, se calhar, terão de me continuar a aturar outros tantos porque, já estou como o outro, quanto mais trabalho mais tempo falta para me reformar. Ninguém merece. Nem eu, nem quem tem de me aturar.
