Começo seriamente a dar razão aos gaiatos da organização juvenil do SPD – o equivalente alemão ao PS – que pretendem acabar com a família tal como a conhecemos. Na moção apresentada ao recente congresso do partido, os pequenos Lenines defendem a abolição do casamento civil e o fim dos privilégios legais e fiscais a ele associados. Segundo os prodígios sociológicos da Juventude Social-Democrata alemã, o casamento tradicional aprofunda estruturas patriarcais, limita a liberdade individual e discrimina pessoas que preferem modelos relacionais mais criativos, fluidos e, imagino eu, logisticamente caóticos. Os benefícios fiscais atribuídos aos casais constituem, dizem eles, uma violência fiscal contra quem opta por não viver em relações monogâmicas. O texto vai ainda mais longe e classifica o casamento como um instrumento ao serviço do Estado capitalista para impor políticas “misóginas, queerfóbicas, classicistas e racistas”. Talvez por não frequentarem a catequese, faltou apenas acusarem Santo António de branqueamento heteronormativo.
Pensando bem, talvez tenham razão. Afinal, basta abrir um jornal ou ligar uma televisão para perceber o flagelo civilizacional que a família representa. São famílias que agridem médicos, enfermeiros, polícias e qualquer infeliz que tenha a ousadia de lhes pedir um mínimo de civismo. São famílias que roubam lojas, assaltam idosos, vivem da burla MbWay e outras, traficam droga, exploram mão-de-obra, protagonizam rixas campais e transformam urgências hospitalares em ringues de MMA. Quase sempre famílias. Nunca, curiosamente, “colectivos afectivos de responsabilidade partilhada”. Perante semelhante evidência, torna-se difícil contestar os jovens camaradas alemães. A extinção da família surge não apenas como uma opção política, mas como um imperativo higiénico. Uma espécie de desinfecção social em nome de um futuro melhor, mais inclusivo e, sobretudo, terminologicamente mais sofisticado.
Em alternativa, os Jusos – assim se chama a JS lá do sítio – propõem a criação de uma “comunidade de responsabilidade”. Um modelo contratual mais flexível, garantem, centrado em cuidados de saúde, heranças e apoio mútuo. Um novo modelo social que podia ter como lema “onde vai um, vão todos”, “mexeu com um, mexeu com todos” ou “um por todos e todos por um”. Evidentemente que onde se lê “um”, também se pode ler “uma” ou “ume”, que eu não sou de discriminar ninguém nem quero ser acusado de violência fonética.
Uma ideia magnífica, esta. Qualquer pessoa percebe imediatamente a superioridade moral de uma “comunidade de responsabilidade” face a uma mera família. Desde logo porque ninguém imagina uma comunidade de responsabilidade a invadir urgências hospitalares aos gritos ou a resolver divergências sacando da pistola. Isso são comportamentos retrógrados, próprios da família tradicional. No fundo, talvez esteja aqui o futuro. Acabam-se as famílias, acabam-se automaticamente os crimes cometidos por famílias. É ciência social de vanguarda. Depois disso, suponho que bastará abolir “grupos de jovens” para acabar com a delinquência juvenil e extinguir “comunidades criminosas” para eliminar o crime organizado. A realidade, como se sabe, resolve-se sempre mudando os nomes às coisas.
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