domingo, 18 de outubro de 2026

O poder dos chalupas

 

Apesar de já estarem habituadas, as pessoas normais costumam indignar-se por os governos não cumprirem aquilo que prometeram na campanha eleitoral que os conduziu ao poder. É uma coisa que as aborrece, a costumeira falta de palavra dos políticos. Ou, vá, a frequente mudança de opinião dos ditos face a circunstâncias que possam comprometer a sua reeleição. Acontece muito.

Estranho é haver quem exija o contrário. Que exija do governo outras opções políticas, diferentes das promessas que levaram os eleitores a escolher aqueles e não outros para governar. A discórdia é salutar. Não temos que estar todos de acordo nem, muito menos, pensar todos da mesma maneira. Pensar que quem foi eleito deve, depois de chegar ao poder, esquecer as promessas que levaram a maioria a votar neles para aplicar as políticas de partidos que no seu conjunto têm dez deputados, é que já me parece algo muito pouco democrático.

Um governo deve cumprir o mandato para o qual foi escolhido. Depois, se não estivermos contentes, escolhemos outro. Essas escolhas serão primordialmente influenciadas pelos resultados das políticas que foram colocadas em prática, pelo que, para escolher em consciência, nada como vê-las implementadas. Mal vai um país quando uma ultra minoria de chalupas – muitos, até, chalupas que outros exportaram para cá - consegue condicionar as políticas do governo. E, pior ainda, condicionar as nossas escolhas. Como, provavelmente, acontecerá com as escolhas dos franceses nas próximas presidenciais. Depois não se queixem…

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“El trabajo no me gusta”

 

“El trabajo no me gusta”. É uma das respostas mais frequentes dadas pelos manifestantes espanhóis quando questionados se não têm mais nada para fazer do que protestar, acampar e meter nojo. Presumo que será repetida nas mais diversas línguas por essa Europa fora. Até por cá, agora que uns quantos macacos de imitação estão finalmente a conseguir dar visibilidade às suas maleitas mentais. Embora, reconheço, as criaturas tenham razão em reclamar uma casa aos contribuintes. É que a gente daquela ninguém arrenda uma.

O que não entendo neste pagode é a sua aversão ao trabalho e, simultaneamente, ao capital. Isto dantes não era assim. Ou se era pelo trabalho e contra o capital ou o contrário. É um sinal dos tempos. Agora são contra o trabalho próprio e contra o capital alheio. Mas, de certeza, não são contra o trabalho dos outros nem contra o capital próprio. Eles podem ser malucos, mas não são parvos.

No ajuntamento de hoje é impressão minha ou deixaram as bandeirinhas da Palestina em casa? Se calhar estão a começar a concluir que esses trapos não cativam ninguém para a causa em causa. Nem para nenhuma outra. Agora só falta perceberem que a esmagadora maioria da população acha divertido ver a policia a coçar-lhes o lombo.


terça-feira, 13 de outubro de 2026

Turismo de escravatura voluntária

 


Diz que há falta de mão de obra em quase todos os sectores produtivos. Nomeadamente nos mais mal pagos. O pessoal não quer trabalhar por tuta e meia, a generosidade do Estado-social não incentiva ninguém a fazer-se à vida e nas localidades mais pequenas do interior, as autarquias locais absorvem toda a força de trabalho disponível nos respectivos municipios. A que precisam e a que não precisam. O que não tem mal nenhum. É uma maneira de evitar a desertificação total de muitos concelhos. Embora, desconfio eu porque ninguém me contou, a ideia dos autarcas recrutadores tenha mais ver com estratégias eleitorais. O que também é legitimo e pouco tem de inovador.

Se estamos perante a escassez de quem se disponha a bulir, sobejam os que estão dispostos a pagar por novas “experiências”. Que é o que os “urbanitas” chamam às tristes figuras pelas quais pagam para fazer coisas que outros recusam a fazer ainda que lhes paguem. É o caso da apanha da azeitona. Não há quem a queira apanhar, que aquilo é um trabalho lixado. A solução é chamar-lhe experiência e convencer uns quantos patetas a pagar para a apanhar.

Trata-se, convenhamos, de uma ideia genial. Nem sei como não é aplicada em larga escala noutros sectores de actividade que, tal como a agricultura, apresentam níveis preocupantes de dificuldade de recrutamento de trabalhadores. A restauração, por exemplo, podia proporcionar “experiências” a tirar cafés, servir à mesa ou confecionar bifanas. Ou, já que tanto se fala na necessidade de construir casas para resolver o problema da habitação, as empresas do sector podiam proporcionar uma “experiência” no âmbito da construção civil. Um dia a carregar baldes de massa, abrir roços e outros trabalhos parecidos era coisa capaz de abrir novos horizontes a quem estivesse disposto a vive-la. E, sugestão minha, com desconto para a malta das manifestações.

sábado, 10 de outubro de 2026

Os culpados que não podemos culpar

 


Não há manifestação, seja contra a extinção do gambuzino-marreco ou pela contratação de mais funcionários para as escolas porque os que lá estão não trabalham suficientemente pouco, onde não sejam visíveis o estandarte da Palestina e a toalha de piquenique idêntica à usada por aquelas paragens. Coisa que costuma suscitar uma infinidade de graçolas a zombar com os esgazeados que as exibem.

Hoje, como não podia deixar de ser, aconteceu mais uma vez. Algumas criaturas manifestaram-se em várias cidades contra a carestia de vida e a dificuldade de encontrar um lugar para morar a um preço acessível. Desta vez não vou alinhar em zombarias. Acho que, no caso, têm razão em quase tudo. A vida está pela hora da morte, a elevada procura face à escassa oferta de habitação fez disparar os preços para valores incomportáveis e, nestas circunstâncias, os trapos palestinianos fazem algum sentido. Afinal, se há um sítio no planeta com um problema de habitação é mesmo Gaza.

A minha concordância apenas não é completa por não concordar com a escolha dos culpados. Alojamento local, fundos abutres, estrangeiros ricaços e senhorios gananciosos não me parece que tenham assim tanta culpa no cartório como os manifestantes querem fazer crer. Se não vejamos: O Alojamento local, em Lisboa e provavelmente no resto do país, caiu quase quarenta por cento; Os fundos imobiliários, presumo que nem todos sejam “abutres”, representam algo entre um a dois por cento; As casas compradas por estrangeiros, ricos e não ricos, serão pouco mais de vinte cinco por cento do total das casas vendidas, sendo que oitenta e cinco por cento delas são compradas por imigrantes ou estrangeiros residentes no país; Finalmente os senhorios, esses patifes. Gente sem escrúpulos e do piorio, diria. Gastam centenas de milhares de euros para comprar ou recuperar uma casa e depois, feitos mete-nojo, têm o desplante de pretender rentabilizar o investimento.

Se calhar este pagode que se exalta com esta cena dos preços das rendas, podia também atribuir uma percentagem elevada da culpabilidade ao milhão e meio de imigrantes que entraram no país nos últimos anos. São muitos, têm de morar em algum lado e se não se construíram casas em número significativo as que existem terão, face à procura, de ficar mais caras. É como os ovos no mercado. Desengane-se quem pensa que fixar o preço dos ditos resolve o problema. Apenas aumenta o número de omeletes comidas pelo produtor.


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O mundo ao contrário


 

Há quem sonhe com a réplica em Portugal das manifestações espanholas e francesas contra as alegadas crises da habitação e da educação. Em democracia todo o protesto é legitimo. Os métodos reivindicativos utilizados naqueles países é que não me parecem ser os melhores tendo em vista a obtenção dos resultados pretendidos.

Em Espanha, por exemplo, transformar a Puerta del Sol num circo de aberrações não se me afigura que seja uma boa ideia. Se aquela gente que está por ali acampada quer uma casa o melhor será sair dali quanto antes. É que ninguém de bom senso arrendará uma casa a criaturas como aquelas que as imagens daquele local nos mostram. Como diria a minha avó, aquilo é gente que mete nojo aos porcos.

Já em França diz que o problema são as escolas. Não prestam. E os professores, que são poucos. Partir escolas recentemente recuperadas e chegar a roupa ao pêlo dos alegadamente poucos docentes que ainda têm parece, assim à primeira vista, uma coisa simplesmente estúpida. Mas, quem sabe, se repetirem isso muitas vezes pode ser que resulte. Até porque tem o amém dos paizinhos e, principalmente, da esquerda francesa. Tem tudo para correr bem, portanto.

Cada um sonha com o que muito bem quiser, mas pelo sim pelo não, era capaz de não ser má ideia estar informado acerca das potenciais consequências. Nomeadamente procurar saber, entre outras coisas, quem ganhou e por que margem as eleições convocadas na sequência do Maio de 1968. É que a história tem a estranha mania de se repetir.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Estacionamento tuga


 

Estes pedidos são inúteis. Ninguém lhes liga. Acho até que produzem o efeito contrário ao pretendido, que seria, no caso presente, dispor de um espaço livre para desenvolver o trabalho sem empecilhos. Mas não dá. Era fatal que alguém ia estacionar naquele espaço tão jeitoso e que estava ali mesmo a pedir um carrinho devidamente estacionado. Tão fatal como os “velhos das obras”. Esses, ao menos, em caso de necessidade ainda se desviam sozinhos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O imposto do além



Ciclicamente voltamos ao mesmo. Esta fixação com os bens dos outros não dá sinais de desaparecer. Pelo contrário, parecem estar a fazer de tudo para colocar o tema das taxação das heranças em discussão. Agora chamam “borla” à isenção do imposto de selo na transmissão, em linha recta, dos bens herdados. Algo que, afinal, é apenas da mais elementar justiça. São bens que já pagaram imposto quando foram adquiridos pelos falecidos. Fazê-los pagar novamente seria dupla tributação. Ou tripla, em muitas circunstâncias, dado que quem vende um imóvel que recebeu de herança está sujeito ao pagamento daquele roubo a que chamam mais-valias.

É fascinante assistir a esta ginástica mental onde o fruto de uma vida inteira de trabalho, poupança e privações passa, por motivações ideológicas, a ser considerado um privilégio. Aos olhos destes arautos da justiça distributiva, querer deixar um tecto aos filhos em vez de estoirar tudo em cervejas, pasteis de nata ou concertos musicais constitui uma intolerável acumulação de riqueza que, na hora da morte, deve ser confiada aos cofres do Estado.

A historieta de que isto é "imposto sobre os ricos" constitui a parte mais hilariante. Sobretudo quando toda a gente sabe quem acaba por pagar a conta no mundo real. No fundo, a mensagem fundamental que estes pedagogos da fiscalidade nos querem passar é clara. Poupar para as gerações futuras é uma tonteria reaccionária. O cidadão verdadeiramente solidário é aquele que gasta tudo o que tem até ao último cêntimo - de preferência também aquilo que não tem - e deixa que os herdeiros aprendam a viver à conta das benignas e inestimáveis benesses do Estado.

sábado, 3 de outubro de 2026

A idade não é um número...

Ah e tal, a idade é apenas um número. Só que não, não é. Todos sabemos isso, por mais que muitos se recusem a admitir esta realidade que a semântica nunca conseguirá desmentir. A recente questiúncula à volta da birra de um futebolista famoso que não aceita a idade que tem, revela que existem mesmo muitas criaturas a acreditar que o passar dos anos não envelhece os seus ídolos. Nem a elas, se calhar.

Ao contrário do que já vi escrito em muito sitio, os portugueses estão gratos ao Ronaldo por tudo o que fez na seleção e no futebol em geral. O homem é o maior futebolista português de sempre e, provavelmente, terão de passar muitos anos até aparecer outro que chegue perto das suas qualidades futebolísticas. Mas isso é passado. Há meia dúzia de anos que devia ter arrumado as chuteiras. Hoje, por mais que ele e os seu fans mais histéricos não o queiram reconhecer, já não tem condições físicas para jogar ao mais alto nível. Seria, quando muito, uma boa opção para suplente do Sporting.

Como em tudo na vida, também no futebol há que saber sair a tempo. É aqui que muita gente tem culpa. O próprio, quem o rodeia, o selecionador – que nem o devia ter convocado – e a Federação. Esta ultima, porque já devia ter feito um jogo com San Marino. Para essa partida, que inevitavelmente acabaria em goleada, convocavam o fedelho Ronaldo que faria o passe para o golo mil do papá CR7 e ficavam todos felizes pela quebra de mais não sei quantos recordes. Mas não. Ninguém quis esta solução. E é aqui que aparece o verdadeiro culpado de tudo isto. O grande capital. O dinheiro que a marca cria, fala mais alto. Se querem cofres cheios em lugar de resultados desportivos, força nisso. Vão lá buscar o gajo outra vez.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Selva urbana




Há quem pouco se importe que as árvores, arbustos, ervas ou o que seja que cresce no seu quintal extravase os limites da sua propriedade e invada a do vizinho. Ou, pior ainda, o espaço publico e, como nas circunstâncias das imagens prejudique a circulação das pessoas. No caso colocando mesmo em risco a segurança de quem por ali caminha, dado que terá de o fazer pela faixa de rodagem.

O desleixo, tal como a cunha, é uma instituição nacional. Ninguém quer saber. Nomeadamente a Câmara lá do sitio. Daquele ou de outro qualquer, que disto há por todo o lado. Nem nós, cidadãos. Se cada um que por ali passa, em lugar de se desviar, cortasse um ramo aquilo resolvia-se em pouco tempo. 


 

domingo, 27 de setembro de 2026

Causas e habituações

 


Acredito que apenas muito poucos, em alguma ocasião, compraram um tijolo ou mudaram uma torneira. Apesar disso quase todos sabem tudo acerca da problemática da habitação. Constituirão, também, uma ínfima minoria os que entendem como funciona o IRS. Isso, ainda assim, não obsta a que as redes sociais, os jornais, as televisões e qualquer outro local onde o assunto venha à baila esteja repleto de especialistas especialmente especializados em fiscalidade. Nomeadamente quando o tema são os combustíveis e a habitação. Por mim – apesar de ter carro e já me terem passado muitos tijolos e algumas torneiras pelas mãos - não me incomoda nada reconhecer a minha ignorância quanto à solucionática para qualquer destas problemáticas.

Já no que diz respeito à parte da fiscalidade, fico cada vez mais boquiaberto com as teses mirabolantes que vou vendo, ouvido e lendo. Inclusivamente, algumas, desenvolvidas por criaturas pelas quais até nutria uma certa admiração, dado o conhecimento que detém sobre o tema. Um desses cavalheiros, num artigo publicado na passada semana, defende o aumento dos impostos sobre o património como forma de fazer baixar o preço das casas. Posição que é igualmente preconizada por outros especialistas na especialidade e que, como era de esperar, suscitou um enorme coro de aplausos dos invejosos do costume. Muitos deles, se calhar a maioria, defendem também a redução dos impostos sobre os combustíveis como forma de baixar o preço dos mesmos. Coisa que, assim de repente, me deixa ligeiramente baralhado.

Cada qual pode defender as teses que quiser e a imaginação ditar. Não será por isso que qualquer destes problemas terá solução num futuro próximo. A carestia dos combustíveis depende de factores externos e a da habitação - para além do aumento dos custos de construção e manutenção – da procura e da oferta. Afinal, o milhão e meio de pessoas que entrou no país em meia-dúzia de anos tem de morar nalgum lado. O tempo que andaram a chamar fascistas, xenófobos e a mandar outras bacoradas para o ar tivessem, ao menos, reconhecido que isso constituía um problema. Como, de resto, já havia constituído quando do regresso dos retornados. Os burros não tropeçam duas vezes na mesma pedra. Esperar que os socialistas também não, é ser demasiado exigente com eles.

sábado, 26 de setembro de 2026

Poupar, eu?! Ai, que horror!

A carestia de vida é lixada. Daí que a malta proteste sempre que os preços aumentam, diga que não aguenta, que nunca a vida esteve tão má e que a culpa é dos fascistas. Esta última é coisa recente. De agora. Nomeadamente desde que uma geração de fedelhos que mal largou os cueiros tomou conta do espaço mediático e contagiou com esta virose gente com idade para ter juízo.

Quando os preços sobem e o ordenado deixa de chegar para comprar tudo o que antes comprávamos, há que fazer opções. Poupar numas coisas para poder gastar noutras. Cortar no acessório para manter o essencial. Sempre assim foi. Trata-se de um conceito que, num tempo em que as “libelinhas” e os “maluquinhos da aldeia” proliferam, parece ofender muita gente.

As palavras daquela ministra, a sugerir que o pessoal poupe combustível, são apenas bom senso do mais elementar. Ainda sou do tempo em que até se faziam campanhas institucionais a promover esse comportamento. Agora, fazê-lo, constitui uma ofensa. Não admira. É que, apesar do preço, o consumo não pára de aumentar. Deixem-se de lamurias e vão a pé para o ginásio, mas é....

sábado, 19 de setembro de 2026

Ai que desgraça tão grande!

Fui abordado hoje, no mercado semanal cá da cidade, por pessoas – duas estrangeiras e outra portuguesa, que não me lembro de alguma vez ter visto – que me inquiriram se estava disponível para salvar a Serra d’Ossa. Confesso a minha ignorância, mas tirando a parte do recente incêndio nem sabia que a serra corria perigo. Ao que fui elucidado o meu contributo para o salvamento da elevação montanhosa seria assinar uma petição. Diz que haverá um projecto qualquer para instalação de aerogeradores – aquelas cenas para gerar energia eólica - naquela zona. O que será, segundo os contestatários, uma coisa muito má. Embora todos garantam que a produção de energia limpa e o fim dos combustíveis fósseis seja uma cena muito fixe. Desde que feita noutro lado, obviamente.

Não assinei, está-se mesmo a ver. Mas estou solidário. Com o senhor estrangeiro de alguma idade, com a senhora relativamente jovem igualmente estrangeira, com a portuguesa com ar de recém aposentada e com todos os demais que gastaram uma pipa de massa a comprar um monte ou um terreno onde construiram uma vivenda com vista para a serra. Fazem eles muito bem em reclamar. Eu também ficaria chateado se me estragassem a paisagem – que deve ter sido caríssima - com mamarrachos daqueles. De resto, se a variante do IP à cidade não foi construida para não prejudicar o outro “tio de Cascais” que não queria uma auto-estrada a passar-lhe à porta da casinha de fim de semana, por que raio hão-de estes querer ver umas quantas pás gigantescas a girar de cada vez que abrem a janela? E depois é destas coisas, assim como assim, os espanhóis já aumentaram o prazo de validade da central nuclear de Almaraz, que fica a duzentos quilómetros daqui, em mais uns anos.

Não são apenas os “novos estremocenses” que estão preocupados com este terrível atentado contra a Serra d’Ossa. Ao que constatei nas redes sociais, também os residentes manifestam uma justificada preocupação acerca do assunto e apontam mesmo problemas dramáticos se a ideia de instalar as turbinas eólicas se concretizar. As aves, há quem garanta, serão as principais vitimas. Correm o risco de serem todas dizimadas pelo movimento giratório das pás daquela traquitana. Ou, se conseguirem escapar a isso, chocarem contra aqueles objectos monstruosos. E depois lá se vai o alegre chilreio da passarada, concluem cheios de pena. Salvo seja, claro.

Como já escrevi em diversas ocasiões aqui no Kruzes, nomeadamente naqueles posts dedicados à “agricultura da crise”, tenho no meu quintal um grave problema com os pássaros. São muitos, estão permanentemente esfomeados e devoram tudo. Curiosamente, apesar de o meu quintal estar cheio de obstáculos, as aves demonstram uma precisão cirúrgica no voo e nunca chocaram contra nada. Talvez as preocupações dos meus conterrâneos com as eólicas me tenham dado a solução para este problema. Vou espalhar estrategicamente umas quantas ventoinhas pelo quintal. Deve ser remédio santo. Sendo bastante mais pequenas do que as geringonças da serra, aquilo vai ser um genocídio ornitológico.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Efeito carrossel

As medidas anunciadas ontem pelo primeiro-ministro são assim uma coisa a atirar para o poucochinho. Apesar disso têm motivado horas e horas de debate. Centrado quase todo, diga-se, na miserável redução de IRS que o homem anunciou. Na SIC, a jornalista que moderava o debate levou o tempo a contestar a medida. Que, para ela, em nada beneficia quem não paga IRS. O que, parece-me, faz sentido. Aquilo, por maior estranheza que possa causar à mulher, é como dizia o tipo do carrossel: “Mais uma voltinha, mais uma viagem, aqui menina bonita não paga, mas também não anda”.

Esta é, de resto, uma discussão recorrente sempre que há mexidas no imposto sobre o rendimento. É óbvio que, sendo um imposto progressivo, quando sobe afecta os que ganham mais, quando desce beneficia os que mais ganham. É matemática, ou lá o que chamam à ciência que trata destas cenas. Quem não sabe, aprenda ou deixe de dizer bacoradas como se de verdades absolutas se tratassem. Deste ponto de vista nunca se baixava nenhum imposto, pois haverá sempre alguém que não é abrangido pela sua incidência.

Depois há aquela coisa do “dar”. O governo não dá nada. O pouco dinheiro que resulta desta redução – meia dúzia de euros num ordenado médio – não é do Estado. É dinheiro nosso. O Estado limita-se apenas a sacar menos umas migalhas. Como já escrevi noutras ocasiões isto é tão básico, mas mesmo tão básico, que apenas um básico não entende. Até o meu gato imaginário, o Bigodes, percebe a lógica da coisa.

Mais consensual é aquela ideia de distribuir dinheiro pelos reformados. Ninguém, por razões óbvias, se atreveu a discordar. Os reformados são muitos, insistem em votar e dizer coisas que eles não gostam de ouvir constitui um risco político que poucos querem correr. Entretanto os gajos da Santa Casa já estarão a providenciar um reforço do stock de raspadinhas lá mais para alturas do Natal.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Cá para mim é inveja...

 


Longe vão os tempos em que feministas em fúria berravam histericamente aquela coisa do “my body, my choice”. Parece que isso já não é bem assim. A menos, se calhar, que a ideia apenas se aplique a corpos a atirar para o badalhoco. Que o diga aquela moçoila, desportista e bem apessoada, que está a ser alvo de criticas até mais não por ter exibido, tal como veio ao mundo, o corpinho que Deus lhe deu. Para ela, segundo as feministas e “progressistas” diversos, não há cá direito a escolher se quer ou não mostrar as curvas. Afinal essa cena da escolha que cada qual faz com o respectivo corpo só se aplica quando a policia da moralidade determina. Mamas ao leu ou partes pudibundas à vista de todos, só quando é para protestar contra qualquer coisa que as defensoras do bem supremo achem desajustado das suas mentes delirantes. Se bem que, nessas circunstâncias, o que geralmente salta à vista é algo que preferíamos não ver.

domingo, 13 de setembro de 2026

Ganha um pouco mais do que o SMN? É capitalista!

Como sempre, de cada vez que é anunciada uma redução do IRS, voltamos ao mesmo. O eterno desagrado da esquerda mais à esquerda e da imensa chusma de criaturas que aliam a inveja à ignorância no âmbito da fiscalidade. Mesmo que alguns até sejam letrados noutras ciências, quando o assunto são número a burrice revela-se de forma avassaladora.

Vem isto a propósito da anunciada descida do IRS para os primeiros escalões. Acha mal aquela gente. O argumento é o de sempre. Quem ganha mais, mais beneficia e quem ganha o salário mínimo nacional não beneficia nada. Para quem passa a vida a defender a progressividade do imposto sobre o rendimento, parece-me uma argumentação com um nível de coerência assinalável. Embora, reconheço, perceber que a progressividade funciona nos dois sentidos – quando sobe e quando desce – seja um exercício intelectualmente exigente para quem acredita nos amanhãs que cantam.

O que não há maneira de baixar é o IRS sobre os rendimentos de capital, que aumentou significativamente no tempo dos governos de Sócrates e da Troika. Percebo que os extremistas da Geringonça não o tenham feito. Reduzir o imposto sobre as poupanças dos reformados e dos pequenos aforradores – a maioria dos titulares dos depósitos a prazo e certificados de aforro – constituiria uma afronta aos invejosos do costume. Já os actuais governantes não terem coragem para fazer voltar a taxa aplicável aos juros recebidos, para os valores que antes vigoravam, parece-me uma coisa a atirar para a cobardia política. Nem os tipos do Chega, que dizem alarvidades acerca de tudo e de nada, se atrevem. Todos falam, falam, falam, mas todos têm é medo de uma imensa minoria ruidosa que, apesar de ver a sua voz desmesuradamente amplificada, não deixa de ser cobiçosa, ignorante e presa a preconceitos ideológicos bafientos do século passado.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Coisas de familias



 

É lamentável que haja pessoas que necessitem de andar a vasculhar os contentores. Ninguém devia ter de o fazer. Mas, se calhar, a alternativa passa por essa exótica convenção social a que se dá o nome de trabalho. Algo que exige o cumprimento de certas regras e cuja simples menção parece desencadear reações alérgicas graves em determinados grupos de pessoas.

Não o farão por desporto, concedo. Remexer em detritos alheios dificilmente figurará no topo das preferências de lazer de quem quer que seja. Parece, no entanto, que lhes dá um especial gozo deixar os contentores tombados e o lixo espalhado pelo pavimento. Idiossincrasias. Ou, simplesmente, coisas de família.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Geração "Quarta-feira"

 


Nesta moderna fixação em colar etiquetas e dar nomes às gerações, desconfio que o espectro é generosamente alargado. A dita geração boomer – na qual, com todo o orgulho estrutural, me incluo – está longe de constituir um grupo de características homogéneas. Nem, sequer, vagamente parecidas. Nomeadamente no que toca às oportunidades que a sorte distribuiu. Para o bem e para o mal. Se calhar, para os nascidos nos anos sessenta e até ao 25A, seria mais apropriada a designação de "geração quarta-feira". Aquele dia cinzento e útil no meio da semana em que a ressaca do fim de semana passado já passou e o entusiasmo do próximo ainda é uma miragem distante. Ou seja, algo ali no meio-termo que nem é carne nem é peixe.

Trata-se de uma geração que, ao contrário dos primeiros boomers, não passou pela guerra colonial. Nem por nenhuma outra, diga-se. Ainda. Em matéria de combates, digamos que até agora apenas combateu com alguma tenacidade por si própria. Nem, muito provavelmente, terá a maçada de se envolver num conflito futuro. Até porque já nem temos idade para essas tropelias.

Será, no entanto, esta geração quarta-feira a última a dar-se ao luxo de viver praticamente toda a sua existência em liberdade. As próximas gerações dificilmente conseguirão tal proeza. Ou, vendo bem as coisas, nem sequer o quererão. Afinal, os sinais de que a liberdade tal como a conhecemos, a democracia e o nosso confortável modo de vida liberal estão a chegar ao seu prazo de validade são generosamente evidentes. Tal como numa popular série televisiva, o Inverno está a chegar e o frio já vai causando alguns arrepios. Que o digam os habitantes de Ceuta e todos aqueles que por essa Europa fora — nomeadamente as mulheres — têm a sua rotina condicionalmente ajustada pelas hordas invasoras que, paulatinamente e com o nosso mais virtuoso consentimento, vão impondo nas nossas civilizadas sociedades a sua peculiar maneira de ver o mundo.

Atrás de tempos, tempos vêm. E gerações, também. Um dia – distante, talvez – virá finalmente aquela a que alguém, com apurado sentido histórico, chamará a geração Pelágio.

sábado, 5 de setembro de 2026

A chata mania de não gostar de ser assaltado

 


O caso do cavalheiro que foi vítima do gangue do Rolex tem dado muito que falar. E escrever, também. Diz que o homem – de quem sabemos tudo, desde a raça do cão até à marca de aftershave que usa, ao contrário do criminoso de quem apenas se suspeita que goste de relógios e de ar livre – pode vir a ter chatices com a justiça por causa da sua reação ao assalto. Parece que, naquelas circunstâncias, o seu comportamento foi absolutamente irresponsável, condenável e, presumo, profundamente fascista.

De facto aquilo não se faz. Anda um pobre deserdado da fortuna a fazer honestamente o seu trabalho – no fundo, ou à superfície tanto faz, gamar é uma ocupação tão respeitável como a helicicultura – e depois fazem-lhe isto. Não está certo. Não se persegue um técnico especialista na subtração de bens alheios apenas porque se tem um inusitado e injustificado amor a uma traquitana que só serve para ver as horas. Mais ainda quando o trabalhinho tinha sido feito com toda a limpeza, elevado profissionalismo e um toque de delicadeza.

Há, reitero, que mostrar empatia com quem trabalha. Perante um assalto devemos sempre colaborar. Ser simpático com o profissional do crime, entregar voluntariamente tudo o que ele – ou ela, ou seja lá o que for – pretender tornar seu e, se possível, providenciar o bem-estar do delinquente. Oferecer-lhe um cafezinho, uma mini, ou uma água não vá o gajo ficar desidratado e acusar a vitima de tentativa de homicídio por inanição hidrica. Eventualmente, até, disponibilizar-se para fazer uma massagem capilar ao meliante ou ouvir a sua história de vida para melhor perceber as causas profundas que o levaram a escolher aquela profissão em vez de uma carreira no âmbito da física quântica.

Convém, no entanto, ter em conta que quem assalta é por norma mais pobre do que quem é assaltado. O que, perante muita gente, legitima o roubo por via da redistribuição instantânea de matéria. Daí que, neste caso, a matemática financeira desempenhe um papel importante. Se, na sequência do roubo e após umas contas de cabeça, o assaltado concluir que fica mais pobre do que o assaltante, parece-me que existe legitimidade para se reapoderar do que antes lhe tiraram. Ou seja, fazer um pequeno biscate no sector da criminalidade preventiva. Ninguém, excepto os imbecis do costume, lhe levará a mal.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Os parolos da TV...

Quatro drogados e dois mariconços a agitar bandeiras palestinianas e a berrar disparates, numa qualquer praça de um qualquer vilarejo da Transilvânia ou noutro lugar igualmente remoto, constituem motivo para a comunicação social nacional relatar entusiasticamente a ocorrência de uma manifestação de solidariedade com o povo palestiniano e contra o genocídio imaginário que, de acordo com a agenda política em vigor, estará a acontecer em Gaza.

Ainda me recordo do tempo, no período da Troika, em que a CGTP e outros culpados da desgraça a que isto chegou conseguiam, ao que era amplamente divulgado na época, meter quinhentos mil manifestantes no Terreiro do Paço e cem mil em frente a Assembleia da Republica - como se isso fosse fisicamente possível - a protestar com a austeridade e, cito, os malfeitores que então nos governavam.

Hoje, perante mais de oitocentas concentrações em toda a Espanha que mobilizaram gente como nunca se viu naquele país, os órgão da comunicação social limitam-se a noticiar que “alguns milhares de pessoas participaram em manifestações convocadas pela extrema-direita por causa da crise migratória de Ceuta”. Definitivamente, a caixa que mudou o mundo já não é o que era. Se quando o mudou fosse o que é hoje, não o teria mudado. Felizmente nessa altura quem por lá andava era, como escrevia o outro referindo-se à autoproclamada superioridade moral de uma certa casta, “gente de outra estirpe”.

sábado, 29 de agosto de 2026

Um souvenir para a sola do sapato

 


Eu não queria. Juro que não queria. Mas que hei-de fazer, se esta gente insiste em colocar coisas destas no meu caminho? São mais que muitas e estão por todo o lado. Este imponente cagalhão podia ontem à noite ser admirado em todo o seu esplendor no Largo dos Combatentes. Bem no centro da cidade, para quem não conhece. Faz sentido. Parece-me um bom lugar para uma obra de arte pública que, sem dúvida, valoriza a calçada e o calçado de quem passa. Uma verdadeira lembrança turística para levar para casa no sola do sapato. E de borla.