segunda-feira, 2 de março de 2026

A esquerda e o fetiche pelas ditaduras alheias

 Por alguma razão que a psiquiatria explicará, as ditaduras gozam de uma especial simpatia em Portugal. Nomeadamente por parte da comunicação social, da esquerda e, mais espantoso ainda, de pessoas aparentemente ajuizadas.

Para os jornalistas, o ayatola a quem os israelitas limparam o sebo era “um religioso discreto”. Os muitos milhares de mortos do regime que chefiou terão sido, certamente, apenas ofertados em sacrifício ao amigo imaginário do tirano. 

Os esquerdistas odeiam tudo o que envolve a democracia, os EUA em particular e o ocidente em geral. Detestam tanto que chega a ser comovente vê-los insistir em viver aqui, neste inferno capitalista onde há salários, direitos e liberdade para dizer disparates sem desaparecer de madrugada. Ou cair de uma varanda enquanto apreciam o pôr-do-sol. Um sacrifício diário que mais parece um martírio digno de beatificação. 

Podiam — e deviam — ir viver para Cuba, Venezuela, Irão ou outro santuário ideológico onde pudessem desfrutar do sonho revolucionário. Partilhar filas, censura, moeda sem valor, prateleiras vazias e a deliciosa sensação de saber que o Estado pensa por eles. Mas não. Preferem ficar por cá, a sofrer nas esplanadas e a maldizer o capitalismo de iPhone na mão. Ninguém merece penar tanto.

domingo, 1 de março de 2026

O lucro é bom quando tem a forma de imposto.

 As empresas vivem para o lucro. Seja a mercearia da esquina ou a banca. Mas há quem não aprecie essa intenção. Os invejosos, por norma, ou aqueles falhados da vida que nem na gestão das suas finanças pessoais conseguem ter saldo positivo. E, quanto a estes últimos, estou apenas – e sublinho, apenas – a pensar naquela malta que possui rendimentos médios ou elevados, mas que esturra tudo em futilidades e que depois leva a vida a queixar-se do capitalismo ou de outra coisa qualquer que justifique a sua penúria. 

Isto a propósito dos recentemente divulgados lucros recorde da banca portuguesa. Ou, melhor, a operar em Portugal. Esta divulgação suscitou umas quantas reacções curiosas. Houve quem ficasse indignado, por os considerar pornográficos - nomeadamente os dos bancos privados – e quem ficou manifestamente satisfeito com o lucro da Caixa Geral de Depósitos e o facto do banco público ter entregue ao Estado a parte de leão desses resultados.

Por mim, sinto-me dividido quanto ao sentimento a adoptar. Por um lado, gosto do lucro. Mais ainda quando envolve os bancos. Até porque, a existir prejuízo sabemos que não é o respectivo conselho de administração quem o paga. Mas, no que diz respeito à CGD, a coisa já me provoca algumas comichões. Sendo um banco público, o lucro, pelo menos a parte respeitante ao território nacional, é imposto pago pelos clientes. Por mais que o embrulhem em linguagem contabilística para consumo de audiências parolas. Sei que isto não incomoda muita gente. Há quem adore impostos com devoção religiosa. O que não tem nada de mal, diga-se, até porque só tem conta na Caixa quem quer.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Entre a razão e a ração

Era uma questão de tempo. Como praga bíblica ou moda importada com atraso do estrangeiro, a febre dos therians — pessoas que se identificam como animais — tinha inevitavelmente de atravessar a fronteira e chegar a Portugal. Ainda não são uma manada, é certo, mas já atingiram aquele número mágico que justifica um ajuntamento solene. Seja um congresso, um encontro espiritual ou uma feira de rações com Wi-Fi. Um fungágá da bicharada, se quisermos ser rigorosos.

Cada um é livre de achar que é um gato persa preso num corpo humano ou um cão de médio porte emocionalmente incompreendido. Juntarem-se para trocar vivências inter-espécies, comparar marcas de areia aglomerante ou discutir a melhor posição para dormir 16 horas seguidas é perfeitamente legítimo. Até pedagógico, diria.

As dúvidas surgem noutro plano. Nomeadamente no plano da convivência civilizada, esse conceito antiquado e caído em desuso. Espera-se, por exemplo, que não comecem a uivar às três da manhã porque a lua está “emocionalmente intensa”. Ou que as fêmeas em período de cio não transformem a via pública num documentário do National Geographic em horário nobre sobre reprodução animal. E, essencialmente, que não caguem nos passeios, não mijem nos postes, nas árvores ou, pior ainda, nos pneus dos carros alheios só porque “é instintivo”. Instintos todos temos, a civilização serve precisamente para os conter.

De resto, desde que não mordam desconhecidos, usem chip e estejam com as vacinas em dia é lá com eles. Portugal sempre foi um país tolerante. Desde que a tolerância não venha com pulgas. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Quem tem medo do passado?


Há quem não aprenda. Proibir raramente é solução seja para o que for. Por mais explicações, racionais ou não, que quem entendeu não permitir a exibição desta pancarta tenha prestado, o erro já não tem remédio. O estrago está feito e não há VAR que o reverta. 

A convicção de que a proibição desta pancarta terá pouco a ver com segurança e bastante mais com outras “sensibilidades”, está instalada. Cá dentro e lá fora. Porque sim, a notícia atravessou fronteiras e, como já dizia o outro, toda a dúvida é legítima. Sobretudo quando a certeza cheira a censura.

Não fosse a proibição, a mensagem ficaria confinada às bancadas e morreria no apito final. Assim, ganhou pernas, passaporte e tradução automática. Espalhou-se além-fronteiras dando azo a leituras, análises e interpretações que nem sempre serão as mais saudáveis e, de certeza, bem distantes daquilo que esteve na mente de quem elaborou a obra de arte. O que, por um lado, é bom. E pelo outro também. Recorda-nos que todos os ditadores são ridículos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Às três pancadas...

Parece que os tipos lá do governo terão contratado uma empresa para lhes tratar da imagem. Que é como quem diz do cabelo, das unhas, das beiças e do que mais calhar. O objectivo será, imagino, ficarem mais bonitos e apresentáveis no exercício das suas funções. Para isso, cuidava eu, é que serve aquele montante pecuniário que engrossa substancialmente o vencimento daquela malta e que dá pelo nome despesas de representação. Mas, se calhar não será bem assim. Contudo, independentemente de subsistir a dúvida quanto ao destino desse complemento salarial, fica a certeza que o serviço contratado não está a resultar. Não estão mais bonitos/bonitas. Tão pouco mais apresentáveis. 

Já outro dia foi aquilo dos canais de desporto que o executivo subscreve desde dois mil e dezassete. Um desperdício de dinheiro, convenhamos. Toda a gente vê isso e muito mais, completamente à borla. Ou seja, estamos perante um esparrame de dinheiro em futilidades. E nem é pelo valor, que nem dá para mandar um cego. Ou, vá, um invisual em matéria orçamental. É mais por, num e noutro caso, estas opções não se traduzirem em nenhuma mais-valia palpável na acção governativa. Mais valia não as ter, pois o resultado seria igual.

Por falar em valor acrescentado, anda muita gente a babar-se com a nomeação do gajo da PJ para ministro da administração interna. Alguns terão razão quanto ao contentamento. Nomeadamente os policias que já esfregam a carteira com a perspetiva de ver o valor do vencimento acrescentado de mais uns euros. Os demais que esperem pela pancada. Secreta. 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A liberdade passou por aqui...mas está de abalada.

 




Centenas de voluntários terão trabalhado durante semanas na elaboração desta tarja gigantesca que um clube de futebol pretendia exibir num jogo do campeonato português. Não foi permitido. Apesar da autorização da Liga profissional, entidade responsável pela organização da prova, a PSP entendeu por bem retira-la. Com o fantástico e rebuscado argumento que “não se vislumbra que a coreografia se enquadre no apoio aos clubes e sociedades desportivas intervenientes”. 

O que, parece-me, não se vislumbrar é ser competência da policia fazer de júri de coreografias ou vestimentas em recintos desportivos. Nem, principalmente, levantar suspeitas de que possa estar ao serviço de agendas que visam censurar as nossas origens, valores e antepassados. Se alguém, no estádio ou em algum lugar do país, se sentir ofendido é porque não está bom da cabeça ou está cá a mais. 

Apesar de contrariado dou, cada vez mais, razão à esquerda e a todos os que andam a berrar que a democracia corre perigo e  vem aí o fascismo. Sim, têm razão. Este é só mais um sinal. A democracia vive os seus últimos dias e o fascismo, travestido de outra coisa qualquer, está a chegar. A liberdade de expressão já não é aquilo que foi e a censura está a voltar a ser o que era. Só falta encontrar um Salazar. Ou três.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

"Desgrácias"

 Num momento de rara sagacidade, um tal Brilhante Dias, figura de proa do actual Partido Socialista – assim se vê a “desgracia” que vai naquela força política – conclui que os resultados das presidenciais demonstram que os eleitores deram um inequívoco sinal ao governo que não querem alianças com a extrema-direita. Se calhar conclui bem, o gajo. Só lhe faltou a perspicácia para concluir que os eleitores, nas legislativas e nas presidenciais, também deram um sinal ao PS que não querem alianças daquele partido – o dele – com a extrema-esquerda. Isto de saber ler os sinais não é para todos, mas ler apenas aqueles que nos convém normalmente não dá bom resultado.

Por falar em “desgracias”. Uma deputada socialista manifestou-se surpreendida por, na sequencia da tempestade que assolou a região centro, ter constatado o desespero de empresários que, tendo perdido tudo, tinham como prioridade pagar os salários dos empregados. A surpresa revela a ignorância da criatura e maior parte dos deputados face ao país real. Se calhar menos Marx e mais realidade não lhes faziam mal nenhum. 

A última “desgracia” é a nomeação do novo ministro da Administração Interna. O homem pode, até, vir a revelar-se de uma competência extrema no desempenho do lugar, mas a satisfação da esquerda com a escolha e a esperança das corporações – sindicatos de policias, bombeiros e outros - na resolução dos seus problemas, não auguram nada de bom. Para os portugueses, mas esses interessam pouco.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O insulto inclusivo

Todos os dias aprendemos qualquer coisa. E nisto da aprendizagem, nomeadamente no âmbito do insulto, os últimos foram particularmente férteis. Aprendi muito, confesso. Cuidava eu, mas ninguém me manda ser ignorante em matérias insultuosas, que chamar “filho da puta” a outra pessoa constitui uma das maiores ofensas que se dirige a outrém. Esta ou outra qualquer que envolva a progenitora do interlocutor que pretendemos insultar.

Só que não. Estava, para meu enorme espanto, redondamente equivocado. Afinal, berrar isso nas trombas de alguém não é ofensivo. Ao que tiveram a paciência de me explicar trata-se, pelo contrário, de algo que pode não se gostar de ouvir, mas que não entra no conceito de ofensa, discriminação ou o que seja. Logo perfeitamente admissível de utilização quando pretendemos aborrecer alguém. É até, garantiram-me, uma expressão bastante inclusiva, dado que mãe todos têm. 

Como bom casmurro, ousei retorquir que a expressão em causa envolve algum tipo de discriminação por mencionar a alusão a uma actividade que, apesar da senhora em causa provavelmente não praticar, não é especialmente considerada pela generalidade das pessoas e que poucos apreciarão que a respectiva mãe pratique. Mais uma vez estava enganado, mas achei melhor não aprofundar o assunto. Desconfiei que estava a um passo de ficar a saber o quanto muitos se orgulham das práticas sexuais, enquanto prestadora de serviços, da mulher que os trouxe ao mundo. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Macaquices e outras macacadas

 


O racismo é uma coisa má. Bera, mesmo. Todos, ou quase, concordarão. A menos que seja praticado contra os brancos. Neste caso já não é má. Também quase todos estaremos de acordo. Até porque, como igualmente toda a gente sabe, nem sequer existe. 

Pelo mediatismo da cena, é hoje um tema recorrente aquilo de ontem no Estádio da Luz. Apenas os dois intervenientes saberão ao certo o que terão dito um ao outro. Ainda que estejam a poucos metros de distância, é por demais improvável que outros jogadores tenham entendido a conversa. Será, por muito que de um lado e outro berrem o contrário, a palavra do brasileiro contra a do argentino. 

Por mim, mesmo que o tipo do Benfica tenha chamado macaco ao do Real Madrid, não estou a ver onde esteja o racismo. As imagens do comportamento do avançado madrilista na comemoração do golo não deixam dúvidas e mostram claramente que foi fazer macaquices para bandeirola de canto. Ora, quando fazemos macaquices, independentemente da cor da pele que tenhamos, corremos o sério risco de alguém nos chamar macaco. Se calhar, em lugar de hoje se falar daquilo como um acto de racismo, devíamos falar de educação. Nomeadamente da falta dela. De ambos.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Cultura e hipotermia

 



Destas cenas carnavalescas percebo pouco. Nada, mesmo. Tirando aquela parte das gajas nuas, das trapalhadas previsíveis e das piadas de qualidade duvidosa que costumam assinalar a época, sou, digamos, um perfeito analfabeto em tudo o resto que envolva o culto ao Rei Momo. Talvez seja essa ignorância que me impede de lhe prestar vassalagem. Ou então é só falta de jeito. Ou de paciência. Enfim, pouco importa.

Isso, ainda assim, não me impede de nutrir uma profunda admiração pelos seus súbditos. Especialmente por todos aqueles que aproveitam a ocasião para fazer figuras tristes em público. Coisa que exige coragem, treino e uma autoestima à prova de bala. E, sobretudo, por aquelas que, apesar do frio de rachar e do bom senso implorar por um casaco se despem de preconceitos e de outros agasalhos para, enfrentando estoicamente o rigor do inverno, desfilarem pelas ruas nos corsos de Carnaval. Aquilo não é para todos. É preciso fibra. E hipotermia controlada. Um grande bem-haja para essa malta, que sofre para nosso entretenimento.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

As velhinhas do Facebook são uma ameaça à democracia

 Ao que tenho lido  - e ouvido, sobretudo – os portugueses sentem-se confortáveis com o regresso da censura. Pelo que me é dado ler e ouvir não se incomodam que o acesso às diferentes redes sociais passe a ser controlado pelo Estado. O mais extraordinário que este mesmo povo, zeloso guardião da sua privacidade, quando chega a hora de pagar um almoço, recusa religiosamente a fatura com contribuinte porque “eles” — leia-se o fisco, leia-se o Estado — “não têm nada que saber onde gasto o meu dinheiro”. Aqui a desconfiança é virtuosa. Já quando se trata de saber o que se pensa, escreve, partilha ou comenta, aí não há problema nenhum. Estes iluminados parecem não perceber que, no num caso, os dados recolhidos são mínimos, servem para benefícios fiscais e contribuem para o bem comum. Já no outro, por mais angelical que seja a intenção anunciada, “eles” passam a saber tudo. Quem acede, publica, comenta, ironiza e quem não pensa de acordo com a cartilha oficial.

Agora, façamos um pequeno exercício de imaginação. Imagine-se esta lei nas mãos de um próximo governo de uma nova geringonça de esquerda. Ou, cenário ainda mais plausível a médio prazo, quando o Chega ganhar as eleições e conseguir governar. De repente, a lei já não parece tão simpática, pois não? Nessa altura será tarde para indignações retroativas. A censura, como o colesterol, não aparece de um dia para o outro. Vai-se instalando. Como o fascismo, que de tanto berrarem por ele, vai chegando pela mão dos alegados democratas.

Depois não se queixem, como diz o outro. Aos mais de doze mil detidos no Reino Unido na sequência de publicações nas redes sociais – entre os quais muitas velhinhas radicais que escreveram coisas no Facebook – queixar-se não lhes valeu de muito. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Censura do bem

É quase enternecedor — se não fosse obsceno — ver como o chamado “centrão” se entende às mil maravilhas sempre que o assunto é proteger o seu quintal. Veja-se, por exemplo, a farsa pomposamente baptizada de “eleição” das CCDRs. Hoje, com a mesma unanimidade bovina, voltaram a dar as mãos para aprovar a legislação que visa controlar as redes sociais. Uma medida fascizóide que nos querem fazer acreditar se destina a proteger os jovens, combater a desinformação, travar o discurso de ódio e lutar contra a extrema-direita. Deve ser,  deve.  

Eu, pela minha parte, nem sequer vou desconfiar das intenções desta gente. Longe de mim. Eles só querem o meu bem. Têm um carinho especial por mim, eles. Tão grande que até me simplificam a vida. O acesso fica muito mais simples com a chave móvel digital e esquecer as passwords passa a ser coisa do passado. Tudo muito moderno, ecológico e para minha segurança. Ficam a saber exactamente quem sou, onde estou e o que digo. Mas qual é o problema? Só paranoicos é que se preocupam com isso.

Era o que mais me faltava ter medo de rapazolas imberbes saídos das jotas, de gajas mal-casadas com tiques de comissárias dos bons costumes e de toda uma fauna de criaturas cuja única habilidade na vida é encontrar forma de se eternizar à mesa do orçamento. Gente que nunca produziu nada de útil, mas que se acha com legitimidade para decidir o que eu posso dizer, ler ou pensar. Não passarão!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Breve nota sobre aritmética democrática

Os resultados eleitorais dão sempre azo às mais dispares interpretações. Cada um interpreta como mais jeito lhe dá e tortura os números de maneira a que eles digam o que convém ao analista de ocasião. O PCP fez isso décadas a fio. Os que andamos cá há mais anos recordamos as auto proclamadas vitórias eleitorais dos comunistas, mesmo quando os votantes minguavam.

As eleições de domingo não escaparam a esta regra. Quanto à retumbância da vitória do candidato eleito não podem existir dúvidas, a menos que alguém queira reinventar a aritmética básica. Há, no entanto, um aspecto que tem sido menosprezado entre o comentariado. Muitíssima gente disse e escreveu que esta seria uma escolha entre a democracia e o fascismo. Ora, a maior parte dessas criaturas são as mesmas que não se cansam de chamar facho a todos os que não fazem parte do clube cada vez mais restrito dos trinta e dois por cento que votam PS ou mais à esquerda. Ou seja, chamam facho a quase setenta por cento do eleitorado. Coisa pouca.

Acontece que Seguro foi eleito com cerca de sessenta e sete por cento dos votos. Mais do dobro do eleitores que, segundo aquelas luminárias, são os democratas e defensores dos valores de Abril, como eles fazem questão de proclamar. Parece-me, pois, licito concluir que segundo os cânones dessa gente, o novo Presidente foi eleito à custa dos votos daqueles a quem chamam fascistas. É fazer as contas. Ou morder a língua. Mas, se optarem por esta opção, cuidado não faleçam.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

O sapo

 

Independentemente do candidato que logo à noite obtiver o maior número de votos, o vencedor desta segunda volta das eleições será o sapo. Esse pequeno animal causador de grandes azias, dada a sua difícil deglutição.

Apesar da viscosidade do bicho, calculo que para muitos não seja fácil engolir o pequeno batráquio. Aquilo deve custar. Por mais sorrisos que mostrem enquanto o engolem ou esforço que façam para tentar ocultar o sofrimento causado pela indigesta opção gastronómico-eleitoral a que se viram obrigados. 

Para piorar a situação a maior parte dos aziados não consegue ficar calado e digerir a coisa sossegado. Insistem em fazer piruetas, dar cambalhotas e mortais encarpados à rectaguarda para nos convencerem que “grenouille ao voto” constitui uma iguaria gourmet da qual sempre foram apreciadores. Não se cansem. A gente sabe que sim. Mas, se isso os faz sentir melhor, façam-no. Ao menos divertem a malta.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Solidariedade fiscal

 

O governo anunciou, já este ano, um conjunto de apoios ao sector da restauração. Os empresários do ramo – em tempos conhecidos por taberneiros – reclamaram das inúmeras dificuldades por que estariam a passar e vai daí, vão ser subsidiados com o dinheiros dos impostos dos portugueses.

Podem, até, ter alguma razão. Muitas, admito. Entre elas estarão os altos salários que são obrigados a suportar se quiserem ter empregados, os clientes que consomem e saem de fininho sem pagar, os preços que não refletem os custos de aquisição dos produtos e, principalmente o raio do IVA. Aquele imposto preverso que está incluído na conta que o cliente paga, mas que o restaurador acha que é um encargo seu.

Confesso-me solidário com esta classe empresarial. É por isso que cada vez mais evito frequentar esses estabelecimentos. Não quero contribuir para a sua desgraça. É que, se bem percebo o drama, quanto mais gastarmos mais IVA eles têm de entregar ao fisco. Nada como poupar-lhes essa despesa. No caso da foto acima, quase verti uma lágrima quando pensei no prejuízo que dei à criatura. Só tenho uma forma de o compensar. Não voltando lá.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A História explicada por quem faltou às aulas


Artistas há muitos. Autointitulados, então, são aos magotes. Este, o autor dos rabiscos que fotografei há dias, deve pertencer a essa nobre estirpe. Ou, pelo menos, aspirar a isso com a coragem de quem ainda não percebeu que o talento para o desenho não é para todos. Tem de praticar muito mais, o desgraçado. Muito, muito mais. De preferência longe das paredes dos outros. Até porque se torna dolorosamente evidente que não é só a arte de desenhar que a criatura não domina. Há ali demasiadas falhas estruturais de diversa natureza, nomeadamente no no âmbito da ortografia e da história. Ou seja, o jeito para o desenho é tão notório como a ignorância.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Quando a festa acaba ficam os buracos





A principal missão de uma autarquia é cuidar do seu território e das gentes que nele habitam. Uma actividade aborrecida, convenhamos. Não é, ao contrário do que quase todas fazem, ser uma agência de espectáculos ou um centro de criação de empregos de utilidade duvidosa. Embora, reconheço, seja disso que o povo gosta. Os autarcas, obviamente, gostam que o povo fique satisfeito. Assim as probabilidades de serem reeleitos são substancialmente maiores. No fundo e por mais que digam mal do gajo, são como o Ventura.  Um diz ao pagode o que ele quer ouvir, os outros fazem exatamente aquilo que o pessoal da terra aprecia. Populismo falado de um lado, populismo executado do outro. Ou seja esturram os muitos milhões que deságuam nos cofres municipais em festas, foguetório e emprego para a malta. Por mais inúteis que qualquer dessas opções se revele.

As imagens são de um arruamento da capital de distrito. Um local bastante movimentado, por sinal. Está neste estado lastimoso. E, mesmo assim, parece-me que há coisa de quinze dias ainda estava pior. Obviamente que a sucessão de tempestades – dantes chamava-se Inverno – tem contribuído para a degradação do piso, mas não justifica tudo. Quem conhece a área sabe que justifica, até, muito pouco.

Perante estes cenários há sempre quem se justifique com os anteriores executivos. Podem, se quiserem, atirar as culpas para o Camões. Pouco adianta. Mesmo desconhecendo a fauna politica local, estou desconfiado que os concertos musicais que a Câmara pagou chegavam e sobravam para concertar a rua.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Solidariedade, saque e suecos

 Sempre houve quem soubesse lucrar com a desgraça alheia. É por isso que o vendedor de lenços sorri quando todos choram. Faz parte da vida, como diria aquele português que fugiu do pântano que ele próprio criou e ajudou a transformar a ONU na inutilidade falida que é hoje. Sempre assim foi, sempre assim será.

Intolerável é que, numa situação de calamidade como a que atravessamos, existam criaturas — bestas, é o termo mais adequado — que deliberadamente prejudicam toda a comunidade. O roubo de bens essenciais ao restabelecimento da frágil normalidade de centenas de milhares de pessoas é inaceitável. Quem rouba gasóleo e cabos eléctricos, indispensáveis para levar água e energia a populações já privadas do básico, abdica do direito a ser considerado gente.

As televisões estão, e bem, a cair em cima dos ministros que proferiram uma sucessão de alarvidades. As criaturas estavam mesmo a pedi-las. Também me parece meritório mostrar que os estrangeiros que vivem entre nós foram igualmente vítimas do temporal e que outros estão a ajudar, como podem, na recuperação das casas. Afinal, estamos todos no mesmo barco. Excepto uns quantos electricistas alegadamente suecos, igualmente especializados em combustíveis fósseis.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Pais de cães, órfãos de educação

 


É isto que fazem os donos dos canitos. Passeiam os seus “filhos” — eles lá sabem que falha emocional os leva a chamar isso a um animal que lambe o próprio cu — de quatro patas, sem se importarem com o que fica espalhado pelo caminho. Outros limitam-se a abrir o portão do quintal ou a porta de casa, largam o bicho na via pública e deixam que o “filho peludo” vá tratar de arrear o calhau onde bem entender, regressando depois ao lar de tripa aliviada para junto dos papás.

Esta vistosa poia foi hoje deixada à minha porta. Como muitas outras foram deixadas à porta de muitos outros. O mesmo aconteceu ontem. E, sem grande margem para erro, voltará a acontecer amanhã. Sem que ninguém faça nada ou, ao menos, se incomode a fingir que faz alguma coisa. A chatice, o drama, o horror urbano e a súbita paixão pelo civismo só aparecem quando um caco velho é deixado ao lado de um contentor do lixo. Aí já há indignação, já há comunicados, já há autoridades a franzir o sobrolho e a falar em saúde pública. Curioso. Porque sendo ambos comportamentos reprováveis, suspeito que em matéria de higiene e saúde pública a merda de cão ganha por larga vantagem. É mais nojenta, mais infecciosa e infinitamente mais frequente.

Penalizar os donos de cães não dá votos, não rende fotografias e pode dar polémica no Facebook. Multar quem deixa um monte de merda fumegante à porta dos outros é antipático, é “sensível”, é mexer com o amor incondicional dos “pais” de cães. E isso, como sabemos, é politicamente inconveniente. Já um caco velho não ladra, não vota e não faz posts indignados. Prioridades.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Ver o óbvio...e para além dele.

 


Esta retórica dos imigrantes a salvar a segurança social já aborrece. Cheira a lavagem cerebral. É óbvio que, face à paupérrima taxa de reprodução dos portugueses, necessitamos de importar gente que garanta que este território vai continuar habitado. Também é por demais evidente que se não for a mão-de-obra estrangeira a economia do país, tal como a conhecemos, colapsará a curto prazo. 

A Segurança Social estará a ter lucro imediato por existirem mais contribuições. O que é bom, mesmo que lá mais para diante tenha de pagar mais pensões de reforma. Agora só falta pôr os desempregados profissionais e beneficiários de subsídios à preguiça a trabalhar. Aí o lucro seria ainda mais significativo, pelo efeito duplo da coisa.

O que me parece igualmente evidente é que a chegada de tantas pessoas tem consequências. Boas e más. Evidenciar as primeiras até à exaustão e negar as segundas, acaba por contribuir para a desvalorização das boas e não resolve as más. Pior do que isso, acaba a criar uma divisão imbecil entre os que apenas olham para cada um lados da questão. E o facto das auto intituladas elites intelectuais urbanas acharem que quem não pensa como elas é atrasado mental, não augura nada de bom.