Os últimos governos, em particular o actual, têm pautado a sua actuação por um feroz ataque aos trabalhadores da função pública. Chamam-lhe convergência, ou lá o que é, com o regime aplicável a quem trabalha na iniciativa privada e merece o aplauso entusiástico de amplos sectores da sociedade. É, pode dizer-se sem grande margem de erro, um dos poucos assuntos que reúne um estranho consenso entre a opinião pública e a publicada. Estranho, porque ou isto é um país de gente burra que come a palha toda que lhe põem na gamela ou, não sendo burros, são todos uns filhos da puta que desejam o pior possível aos outros. Ainda que daí não tirem qualquer proveito.
Vem isto a propósito da decisão do governo em aumentar para 3,5% o desconto para a ADSE. A ideia, dizem, é que o Estado deixe de financiar o sistema e o mesmo se torne auto-sustentável. Isto porque, segundo opinião que faz escola, não têm de ser os contribuintes a pagar os privilégios dos funcionários públicos. No entanto ninguém se incomoda que as empresas deduzam os custos com os seguros de saúde dos seus trabalhadores em sede de IRC. Como se neste caso não estivesse em causa o dinheiro dos contribuintes! Ou seja: O Estado não pode comparticipar a ADSE, mas pode, através dos impostos que deixa de receber, financiar os seguros de saúde de quem trabalha no privado. Deve ser isto a que chamam convergência...
Pouco convergente parece, também, o facto de quem tem seguros de saúde – pagos pelo próprio, não pela empresa – os possa deduzir no IRS. É que o mesmo principio não se aplica aos beneficiários da ADSE, dado que os descontos para este sistema não são dedutíveis naquele imposto.
Mas nada disto parece importar. O que importa é malhar nos mesmos. É disto que o povo gosta. É isto que dá votos. Ou não fosse o povo burro, ignorante, invejoso e mesquinho. Digno dos governos que tem, portanto.