Decididamente não compreendo os
portugueses. Pelo menos aqueles que não se importam de dar a conhecer as suas
opiniões. Até há poucas horas os cortes que atingem os funcionários públicos
eram considerados como algo de bom. Após a troika revelar o seu entendimento que
iguais cortes deviam também abranger os trabalhadores do sector privado, o
sentido das opiniões que se podem encontrar em blogues e nas caixas de comentários
dos jornais, vão em sentido diametralmente oposto. O que antes era bom - só
atingia os malandros da função pública - é agora mau porque, mais cedo do que
tarde se vai aplicar a todos. Impressionante a coerência de certa gentinha.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
A sesta
Não foi à ora tanto
tempo que um grupo de alarves andou a tentar motivar os portugueses para a importância
da sesta e, pasme-se, chegou a tentar que a pausa para passar pelas brasas
fosse consignada como um direito. Entretanto o mundo mudou. A vida tal como a conhecíamos
acabou e agora até em Espanha o intervalo para dormir está a ser colocado em
causa. Tudo indica que mesmo em Espanha esta tradição nacional tenha, pelo
menos para quem trabalha, os dias contados.
Nunca, nem em pequeno,
fui adepto da sesta. Nessa altura nem obrigado pregava olho. Sempre achei um
absurdo a ideia de interromper o trabalho, ou prolongar a hora de almoço, para
tirar uma soneca. Desconfio, no entanto, que entre quem defendia antes o
direito à sesta se devem encontrar muitos que agora defendem o contrário. Em
nome da produtividade. Ou de algo assim.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Boicote
Acho pouco
provável que, ao contrário do que tem vindo a ser sugerido, esteja a ser preparado
um plano de contingência tendo em vista o controlo pelas forças policiais de
eventuais distúrbios, motins, barricadas e outro desacatos que possam estar
para ocorrer no país. As reservas que manifesto perante essa possibilidade têm
tanto a ver com a pouca propensão dos portugueses para fazerem manifestações
violentas, tipo as que ocorrem frequentemente na Grécia, como com a fraquíssima
capacidade das forças da ordem nacionais imporem a sua autoridade onde quer que
seja. A menos que o perigoso prevaricador se disfarce de automobilista.
Sendo por demais
conhecida a impossibilidade da policia entrar em determinados locais, sabendo-se
da impunidade de que goza qualquer meliante – independentemente da cor do
colarinho – e dos amplos direitos que assistem a todos os criminosos, quase dá
vontade de rir que, de uma forma quase velada, venham tentar intimidar aqueles
que tencionam ir para a rua protestar.
Mas, se a
coisa for para levar a sério e o governo, com medo que lhes cheguem a roupa ao pelo,
se esteja mesmo a preparar para eventuais convulsões sociais, não há que ter
receio. Em lugar de tumultos, confrontos e tudo o que envolva pancadaria,
opte-se pelo boicote. A tudo. Para além de ser muito mais seguro, não requerer
grande esforço e poder ser praticado por todos é, garantidamente, bastante mais
eficaz. Basta puxar um pouco pela imaginação e cada um de nós encontrará com
facilidade meia-dúzia de alvos a boicotar. E nem estou a pensar em bombas. O
meu pensamento dirige-se para coisas mais simples e bem menos violentas como,
por exemplo, a economia paralela ou transferir dinheiro para um banco suíço. Ou, na pior das hipóteses, para o paypal.
domingo, 13 de novembro de 2011
Almofadas
Muito se tem
falado e escrito ultimamente acerca de almofadas. Das que há, segundo uns, e
das que não há, segundo outros. Por mim acho estranhíssimo que na elaboração de
um orçamento possa haver lugar a adereços deste género. Daí que tenha ficado
basbaque com as declarações produzidas por governantes e opositores - em
principio gente que sabe daquilo que está a falar - ou pelos paineleiros de
serviço que, na sua maioria, alinham pela posição do governo e afiançam não
haver na proposta do executivo qualquer margem de manobra.
O certo é que,
relativamente à proposta inicial, o bando laranja cedeu ao lóbi dos autarcas e
recuou na sua intenção de reduzir em metade a capacidade de endividamento das
autarquias e na proibição de contratar ainda mais funcionários. Significa esta
cedência a possibilidade da divida autárquica, no seu conjunto, poder aumentar
no próximo ano em, pelo menos, mais oitocentos e trinta milhões de
euros. Eu, que não sou de intrigas, não vou especular acerca da maneira como
este diferencial se vai aconchegar na cama do deficit. Acho, no entanto, de uma
desonestidade intelectual inqualificável nem um único filho da puta, daqueles
que passam a vida a saltitar de televisão em televisão, suscitar esta questão. Preferem
marrar em quem trabalha.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Abaixo os feriados!
O
empobrecimento dos portugueses constitui o desígnio nacional, proposto pelo
governo e aplaudido por uma ampla e quase consensual panóplia de paineleiros
espalhados pelos canais televisivos de notícias e principais jornais.
Secundados, diga-se, por um vastíssimo sector da opinião pública que, vá lá
saber-se porquê, acredita que escapará incólume ao retrocesso civilizacional em
curso e que serão apenas os outros, designadamente os funcionários públicos, a
ficarem mais pobres.
É
neste contexto que surge a ideia de reduzir o número de feriados. Quatro ao que
parece. O que, quanto a mim, é manifestamente pouco. Insignificante, quase. Ao
que se sabe datas como o natal, a pascoa, o dia de Portugal ou de cada um dos
trezentos e oito concelhos, continuarão a ser assinaladas como um dia de
descanso. Mal. Continuar a celebrar oficialmente feriados religiosos constitui
um insulto às crenças dos cidadãos de outras religiões que vivem entre nós e,
no tocante aos outros, nomeadamente aos feriados municipais, acabam por não ser
celebrados pelos munícipes que trabalham em concelho diferente daquele onde
residem.
Apesar
de tímida e pecar por escassa, gosto desta intenção. Mais. É até com imensa
satisfação que aplaudo esta ideia. Principalmente porque me vai permitir
auferir anualmente mais dezassete euros - livres de impostos - e me permitirá
poupar uns trocos que, às vezes mesmo sem querer, se gastam nos dias de lazer.
Não querem acabar com mais? Vá lá. O aumento da despesa pública com o subsídio
de refeição anda apenas à volta dos três milhões de euros por feriado. Peanuts.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Austeridade selectiva
Autarquias locais autorizadas a
contratar funcionários
– “Jornal de Negócios”
Há que aplicar a folga orçamental
resultante do corte dos subsídios de férias e natal, das prestações sociais e
da redução salarial dos funcionários, para dar emprego aos amigos,
companheiros, camaradas e outros palhaços que, de quatro em quatro anos, andam
agarrados ao pau. Da bandeira, claro, que eu não sou de intrigas.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Dai-lhe gás...
Um gajo
estrangeiro, com nome de esquentador, está num telejornal qualquer a agradecer
ao povo português o esforço que está a fazer para consolidar as contas pública.
Não tem de quê. Ele. Eu não tenho alternativa.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Despesa a diminuir e receita a sumir
A remota e
afastada hipótese de o governo recuar e aceitar a proposta do líder do PS, no
sentido do governo cortar apenas um dos subsídios aos funcionários públicos,
está a deixar os comentadores de serviço com os cabelos em pé. Quase todos
nutrem por quem trabalha na função pública um ódio visceral que os impede de
analisar o que estará em causa a concretizar-se este assalto aos bolsos dos
portugueses.
Seria bom que,
friamente, cumpra-se a intenção do governo ou vingue a proposta socialista, os pretensos
sábios destas coisas dos números explicassem à população, que agora exulta por
os trabalhadores do Estado ficarem mais pobres, que a relevância destes cortes nas
contas públicas não será tão significativa quanto se pretende fazer crer.
Poderá, até, ao contrário do que se pretende, ter um efeito nefasto na execução
orçamental do próximo ano.
Imagine-se o
caso de um trabalhador que aufere mil euros de vencimento mensal. Deixará de
receber anualmente dois mil. Mas, em contrapartida, pagará cerca de trezentos
euros a menos de IRS, deixará de descontar trinta euros para a ADSE e duzentos
para a Caixa Geral de Aposentações. O mesmo acontecerá com a sua entidade
patronal que deixará de contribuir com trezentos euros para a CGA. Significa
isto que, neste caso, o Estado deixará de contabilizar do lado da receita, por
ano, oitocentos e trinta euros e, do lado da despesa dois mil. O que, é fácil
fazer a conta, reduz esta fantástica medida de controlo da despesa pública a
mil cento e setenta euros.
Se, ao cenário
atrás descrito, adicionarmos o iva que o Estado deixa de arrecadar, os efeitos
nefastos que esta quebra de rendimentos produzirá no consumo e, por
consequência, na arrecadação de receitas fiscais, então teremos uma ideia mais
aproximada da genialidade desta intenção e dos seus efeitos práticos na
execução orçamental. Claro que os comentadores não são parvos e sabem,
obviamente, fazer estas e muitas outras contas. Deve ser por isso que, se os
ouvirmos atentamente – o que a maior parte não merece – podemos constatar que, quando
dissertam acerca desta matéria, manifestam o seu entusiasmo pela “redução de
despesa” provocada por esta medida mas esquecem sistematicamente a “execução
orçamental”. Será por acaso?
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
"Insulta-me se puderes"
Na actual
ditadura do politicamente correcto em que estamos a viver, tornaram-se banais
as acusações de racismo. Por tudo e por nada se é acusado de praticar a
discriminação racial, mesmo que em muitas circunstâncias os acusadores – quase sempre
as alegadas vitimas – nem entendam muito bem o conceito. Por cá basta ir à loja
do Belmiro para ter fortes probabilidades de ouvir guinchar histericamente “aiiiiiiii
raciiiiistaaaaa”. O que na opinião deles – coitados – constituirá um gravíssimo
insulto para o visado. E nem é preciso grande esforço para ouvir esta suposta
ofensa. Basta não sair apressadamente do caminho de um qualquer habitante do
resort contiguo ao referido espaço comercial, que por ali ande a colmatar as
faltas na despensa.
Vem isto
a propósito das queixas de um jogador de futebol – negro, por sinal - que,
segundo o próprio, terá sido alvo de insultos racistas por parte de outro.
Branco, pois claro. Alega o primeiro que o segundo lhe terá chamado “preto de
merda”. Uma acusação confusa, convenhamos. Pelo menos para mim, que após ler e
reler as declarações do queixoso ainda não percebi se ele se sente ofendido com
a parte do “preto” ou com a da “merda”. E esta questão das partes não é, para o
caso, de somenos importância. Quando alguém chama a outrem “político de merda”,
“economista de merda” ou “portista de merda”, o visado sente-se insultado na
sua condição de político, economista ou portista? Obviamente que não. O que o
incomoda é a merda. No caso em apreço parece que não será assim. O tal jogador sentir-se-á arreliado é com o “preto”. Ele, apesar de ser bastante escuro, lá sabe.
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