Sou, por principio, contra a redução de salários. Já aqui o escrevi vezes suficientes para que a minha opinião acerca do assunto, mesmo não interessando a ninguém ou tendo qualquer espécie de relevância, ficasse mais do que esclarecida. Acho que não é esse o caminho nem é através dessa via que se conseguirão recuperar as finanças públicas.
A maioria dos entendidos no assunto – que ao contrário de mim sabem realmente do que falam quando emitem as suas distintas opiniões – considera, no entanto, que os cortes previstos em matéria de vencimentos e apoios sociais são imprescindíveis, chegando mesmo alguns a considerar que se devia ter ido ainda mais longe. Pena que, na maior parte dos casos, esta gente apenas olhe para baixo e aplauda apenas os cortes ao rendimento de quem ganha menos e não tenha vergonha de classificar como demagogia a pretensão de ver essa redução aplicada a quem tem salários obscenos, como já alguém chamou a algumas roubalheiras que por aí existem.
A incoerência desta gente – uma cambada de bandalhos e javardos – enoja-me. No seu douto entender, reduzir – roubar é capaz de ser mais adequado – em cinquenta ou cem euros o vencimento e abono de família a quem ganha uma miséria é o caminho correcto que levará à recuperação do país. No entanto não ouvi um pio, provavelmente tenho andado distraído, acerca da trafulhice a que chamam contribuição extraordinária de solidariedade. Propõem as inteligências supremas que se governam neste país que um aposentado que receba cinco mil e cem euros passe, solidariamente, a contribuir com dez euros da sua reforma para o esforço colectivo de redução do défice...
Parece por demais evidente que o esforço é demasiado desigual. Mas isso devo ser eu, negativista exacerbado e demagogo incorrigível, a depreciar mais uma vez o magnifico trabalho que o alegado engenheiro está a realizar em prol do país. Trabalho em que, garanto, tenho esperança de ainda um dia acreditar. No dia em que ele for preso.











