domingo, 5 de julho de 2026

Ondas

Nunca gostei muito de ondas. Menos ainda desde que andei enrolado com uma – há coisa de uns trezentos anos, quando tinha idade para essas aventuras – que, mesmo sem me ter mandado para fora de pé, obrigou a fazer figuras tristes e deixou com as costas arranhadas. Menos mal que aquilo só durou uns segundos. O tempo estritamente necessário para ser cuspido de volta à areia.

Deve ser por não gostar de ir na onda que não mergulho no histerismo que costuma envolver essa cena das ondas. Sejam elas de que tipo forem. Agora são as de calor. Outra vez. Não sei se os tipos que costumam surfar estas paranóias mais ou menos colectivas sabem, mas estamos naquilo que se convencionou chamar Verão e, pasme-se, no Verão as temperaturas tendem a subir. É assim agora, como era há sessenta anos. Excepto na ideia de algum iluminado que, desconfio, ainda me há-de querer esclarecer que nesses tempos longínquos, em Julho era habitual as pessoas acenderem a lareira para se aquecerem.

Outra onda muito popular – ou, neste caso, apenas uma ligeira ondulação – que me deixa atónito é a constante necessidade que alguns evidenciam de comentar, em tom de endeusamento, todas as publicações dos eleitos locais nas redes sociais. Sempre que um deles coloca um post a publicitar um evento ou a dar conta de uma qualquer realização, aquilo são às dezenas a puxar lustro. Elogiar uma ou outra vez um trabalho bem feito, parece-me normal. Já uma maré de comentadores – quase sempre os mesmos - a abençoar tudo e mais um par de botas, exala um cheiro a graxa que não se pode. Deixem as pessoas fazer o trabalho delas – é para isso que lá estão, afinal - e parem de as lamber. O mais provável é que tanta lambedela cause incómodo. Ou, quiçá, alergia.

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