Escrever sobre a actualidade começa a aborrecer-me. A bem dizer já me aborrece há muito tempo, mas o nível de aborrecimento está a subir de uma maneira que não julgava possível. Noutros tempos até era divertido dissertar acerca dos assuntos do momento. Fazia umas piadolas jocosas, outras com mais ou menos sarcasmo e, na maioria das textos, procurava olhar para o quotidiano com algum humor. Hoje é quase impossível. A realidade enlouqueceu e é ela própria a piadola. E da boa, diga-se. Escrever alguma coisa com graça acerca de uma declaração que mais parece uma anedota, de uma parvoíce perfeitamente desconchavada ou de algo tão ridículo que até parece coisa dos “apanhados” requer dotes que, obviamente, estou muito longe de possuir.
A pobreza é um assunto sério. Pelo menos quando a pobreza é séria. Mas é também um negócio. Veja-se, por exemplo, os empregos que proporciona aquela malta dos cursos da treta que, se não fosse ela, dificilmente encontraria que fazer de forma remunerada. Interessa, por isso, a toda essa gente que existam muitos pobres.
Deve ser essa a preocupação de um tal Sindicato do Ensino Superior, a quem o “Público” resolveu dar voz. Ficaram alarmados por a percentagem de estudantes pobres ser extremamente baixa em relação ao total de alunos matriculados no ensino superior e, pior do que isso, ter descido face ao ano anterior. Por mais estranho que pareça – ou, se calhar, não - por vontade do tal sindicato existiriam mais pobres. O facto de existirem menos alunos em situação de pobreza podia, se vissem o copo meio cheio em lugar de meio vazio, alegrar aqueles sindicalistas.
Fazem-me lembrar uma autarca do norte que, um destes dias em plena reunião do órgão autárquico a que pertence - igualmente lá para o norte, que é sitio simpático para situar as coisas – lamentou que o respectivo município do norte gastasse tão pouco dinheiro a ajudar os pobres. Devia gastar mais, segundo a excelsa senhora. Só faltou recriminar os pobres por não pedirem mais ajuda.
Num e noutro caso a pobreza pouco importa. É preciso é que haja pobres. E se não houver inventam-se. O que não se inventam é graçolas para isto.
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