sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A trapaça disruptiva

 


Em muitos negócios a diversificação de mercados ou produtos constitui um factor importante para o crescimento do lucro. O que é bom. Nada tenho contra a diversificação nem, menos ainda, contra o lucro. É por isso que olho para a evolução recente do negócio da burla com um certo respeito académico. É cada vez mais visível a aposta dos empresários do ramo da trapaça na modernização, na inovação e em sair da sua zona de conforto. Estão a apostar também na expansão e  na disrupção do modelo tradicional de engano ao próximo. Já não oferecem heranças nigerianas, nem se fazem passar por príncipes exilados. Agora são gestores de conta da Via Verde, esse símbolo máximo da modernidade portuguesa que nos permite passar portagens sem parar. Enviaram-me – e, se calhar, a muita gente -  esta mensagem a informar-me de que foi registado com sucesso um pedido de alteração do email da minha conta. Tudo muito profissional, bem escrito e convincente. A tentativa, assim à primeira vista, tem tudo para resultar. Contém apenas uma falha. Pequena e quase irrelevante. Um detalhe mínimo, por assim dizer. Não me chamo Agripino Silva.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Agricultura da crise

 


Os efeitos da borrasca Kristin também se fizeram sentir por cá. Embora, felizmente, em muito menor escala do que noutras paragens. Ao que se sabe ninguém terá tido motivo para chorar, rezar ou meter a cabeça debaixo da almofada como, segundo terá confessado, fez a outra fulana que tem a mania que é especialista em cantorias e meteorologia emocional, e que, segundo consta, entrou logo em modo drama bíblico. 

No que toca à agricultura da crise, os estragos resumem-se a uma dúzia de laranjas atiradas ao chão e aos brócolos quase derrubados pelo vento. Coitados dos brócolos. A Kristin bufou-lhes com tanta força que quase os arrancou da terra pela raiz. Torceram-se todos, ficaram ali a fazer yoga involuntário, mas não quebraram. São rijos, os gajos. Ou pelo menos espero que sim. Especialmente quando chegarem ao prato, que é onde realmente importa que não estejam moles.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O fascismo é tão imaginário como o meu gato...

Uma revista que se publica semanalmente considera, na capa da sua última edição, que nestas eleições presidenciais está em causa o futuro da democracia. Não tem mal nenhum achar isso. Afinal, seja o assunto o que for, o futuro está sempre em causa. Basta não ter acontecido. O que é uma coisa que acontece muito, isso do futuro ainda estar por acontecer. 

O que já não me parece assim tão acertada é comparação com as outras eleições onde também foi necessário recorrer a uma segunda volta para eleger o Presidente da República. Isto porque, garante quem redigiu o texto que consta da dita capa, da outra vez o regime democrático, ao contrário de agora, não estava em causa. O que constitui um monumental disparate. Lembro-me mesmo de alguém ter dito após a confirmação da vitória de  Mário Soares -  se não estou enganado até terá sido o próprio -  que podíamos todos dormir descansados nessa noite. Numa clara alusão ao dramatismo que a esquerda, tal como agora, promoveu durante a campanha acerca das consequências trágicas para a democracia se Freitas do Amaral ganhasse. 

Desconfio que naquela altura a tentativa de amedrontar os portugueses para a perigo que constituiria a eleição de um presidente de direita, foi muito maior do que agora. O equilíbrio era muito grande e o resultado podia cair para qualquer dos lados. O que desta vez não acontece. Mesmo o meu gato imaginário, o Bigodes, ganharia com facilidade ao candidato que se apresenta com vontade de impor uma democracia mais felina, chamemos-lhe assim. 

A democracia sobreviveu aos comunistas no Verão quente de setenta cinco. Desde aí nunca mais esteve em perigo. Nem estará por causas internas. Não enquanto, como estará prestes a acontecer noutras paragens, aqueles que se regem por valores contrários à civilização não constituírem a maioria da população. Mas isso não acontecerá nos tempos mais próximos. As netas desses auto-intitulados democratas é que “Irão” saber o que é o fascismo. Não o fascismo imaginário, omnipresente e conveniente, que só existe na cabeça dos malucos dos seus avós. O outro. O verdadeiro.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Dizer coisas tornou-se perigoso

No Brasil, um treinador português foi acusado de racismo por, ao explicar a deprimente exibição da sua equipa, ter cometida heresia de considerar que foi uma “noite negra”. Fica assim provado que o problema do futebol brasileiro não é a defesa, nem o meio-campo nem o ataque. Apenas o vocabulário.

Em Portugal, um tribunal — um órgão de soberania, convém sublinhar para quem ainda acredita nessas coisas — decidiu que a frase “nós só queremos o islão fora da Europa” configura crime de ódio. Aparentemente, já não é preciso odiar. Basta conjugar um verbo e mencionar um continente.

Noutros tempos, ambas as situações dariam origem a chacota, anedotas ou umas “décimas”, como dizia a minha avó perante algo que merecesse ser escarnecido. Hoje, exigem ar grave, testa franzida e comunicado oficial. A ditadura chegou. Não de botas cardadas, mas de corretor ortográfico moral, imposta por entidades sem rosto, comentadores profissionais e justiceiros de redes sociais com diploma em indignação instantânea.

O controlo da linguagem é apresentado como virtude cívica, mas cheira cada vez mais a velho vício autoritário. Enquanto isso, entretidos a trocar galhardetes por causa de um badalhoco e de um estarola, ignoramos olimpicamente os novos ditadores — esses mesmos que se arrogam o direito de decidir o que podemos ou não dizer, pensar ou até insinuar.

Sim, num caso e noutro estamos a falar de opiniões tão boas ou tão más como quaisquer outras. Incluindo as minhas, que continuarei a expressar aqui, ali ou onde bem me apetecer. Reafirmo, portanto, que mesmo em saldo não compro nada no “mercado negro”, que por mera prudência continuarei com “um olho no burro e outro no cigano”, que só quero as testemunhas de Jeová longe da minha porta e, já agora que aqui estou, aproveito para acrescentar que detesto “doutores da mula ruça”. Se isto me transforma num perigoso extremista linguístico, avisem-me antes que alguém me condene a frequentar aulas obrigatórias de semântica inclusiva.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Memórias inconvenientes de um tempo que alguns preferem inventar

 Nestes quarenta e cinco anos que levo de serviço, as histórias de que guardo memória já são mais que muitas. As que não me lembro, provavelmente, serão outras tantas. Uma das que recordo sempre que ouço falar de SNS, de fascismo e de como morríamos por falta de assistência médica antes do dia fundador é a de um colega que, ali a meio da década de oitenta do século passado, se dirigiu aos serviços para tratar de cenas relacionadas com um acidente de trabalho. 

Questionado acerca do sucedido o homem, um pedreiro que trabalhava na construção de um edifício municipal, esclareceu que ao descer de um andaime embateu violentamente com o traseiro numa vara de aço que um servente transportava na vertical e que passava naquele preciso momento no trajecto por onde o acidentado descia. A colisão na zona do traseiro foi inevitável e, ao que garantia, as lesões provocadas foram assinaláveis.

Transportado ao centro de saúde cá do sitio, o nosso homem foi encaminhado para o hospital distrital, pois seria necessário efectuar Rx não fosse haver chatices ao nível do cóccix. Coisa que, confessou, lhe causou profunda estranheza. Isto porque noutro infortúnio que vinte anos antes igualmente lhe afectou aquela zona anatómica, o assunto foi resolvido no hospital cá do sitio. E garantia, enquanto descrevia pormenorizadamente a maleita e respectivo tratamento, que se tratou de um caso muito pior. Com efeito, a remoção de um fragmento de osso de frango que ficou encravado mesmo à saída não deve ser encarada como um procedimento menor. Ainda assim, imagine-se, até para essas situações havia solução local com médicos, camas, bisturis e competência.

Isto vem a propósito da quantidade industrial de idiotice que se diz e escreve por aí sobre assuntos acerca dos quais reina uma ignorância vaidosa. Ainda bem que existe o SNS. Isso nem se discute, tal como não se discute a utilidade da água ou do oxigénio. Mas convém não reescrever a História como se antes dele só houvesse curandeiros, sangrias e orações. Porque, se fosse hoje, o dito colega teria esperado uma dúzia de horas para ser atendido a cinquenta quilómetros de casa e os meus pais teriam pago uma fortuna num hospital privado para me fazerem uma amigdalectomia. Na altura, sem SNS, foi de borla.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Turistas das intempéries

 Por cá também nevou. Pouco e durante um curto espaço de tempo. Tão pouco que nem deu para fazer “sku”. E ainda bem, não fosse isso servir de convite formal para a inevitável romaria dos turistas das intempéries. Essa espécie migratória peculiar que, mal ouve falar de um fenómeno meteorológico ligeiramente fora da banalidade, enfia a família no carro e acelera em direção ao perigo com o entusiasmo de quem vai ao centro comercial ao domingo. 

São os mesmos que sobem em massa à Serra da Estrela sempre que cai um floco com mais de meio centímetro sob a desculpa, nobre e inquestionável, de que é “só para o Martim ou a Carlota brincarem um bocadinho”. Porque nada diz mais sobre boa parentalidade do que expor uma criança a hipotermia ligeira, estradas geladas e filas quilométricas para fazer um boneco de neve que mais parece um croquete gigante.

Estes dias são também ideais para estes turistas se dirigirem à beira-mar usufruir da proximidade das ondas. A oportunidade de obter uma selfie épica, de costas para a água, justifica a deslocação e a galhofa. Até porque, toda a gente sabe, o Atlântico aprecia imenso aparecer nas stories do Instagram.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Armados em parvos

É reconfortante saber que as forças policiais estão atentas às movimentações do mundo do crime em geral e dos criminosos em particular. Há quem não se preocupe com minudências e ache que as policias deviam era preocupar-se com a malta do “colarinho branco”, os que roubam milhões e outra gente que comete a heresia suprema de escapulir ao fisco. São criaturas – conheço algumas – que se afirmam muito mais alarmadas com essas cenas do que com aqueles que andam por aí aos tiros e a roubar os pertences que não lhes pertencem.
Por mim acho muito bem que os policias cacem meliantes. Ontem caçaram uns quantos. Diz que alguns pertencem, ou terão pertencido, a partidos pouco recomendáveis – três ao Chega e um ao Partido Socialista – e outros a claques de futebol. Integrariam uma espécie de seita com uma admiração enternecedora pelas ideias deixadas por um certo Adolfo — um obscuro artista falhado — e, em simultâneo, um ódio visceral a muçulmanos. Uma posição curiosa, diga-se, já que ambos são igualmente incompatíveis com judeus. Mas não admira, a coerência nunca foi o forte destas alminhas.
Fez, reitero, a policia muito bem em dar-lhes caça. Aquilo é gente a evitar em todas as circunstâncias. Agora só faltam aqueles desgraçadinhos que andaram aos tiros com armas de guerra na noite da passagem do ano, de cara descoberta e perfeitamente identificáveis em vídeos amplamente divulgados que toda a gente viu. Excepto a policia. O que não admira. É óbvio que a policia não vai ver coisas filmadas ilegalmente e que não respeitam a privacidade do bandido. Alguém, de resto, tem de cumprir a lei.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O demónio imaginário e o anjo de conveniência

 

Por maior besta que se seja em vida, é na altura da morte que quase todos – e digo quase porque em certa ocasião estive num velório onde, com o morto ainda ali esticado, não faltou quem dissesse mal do extinto - se tornam as melhores pessoas do mundo. António José Seguro não precisou de passar pela maçada de falecer para atingir esse patamar. Bastou chegar à segunda volta das eleições presidenciais. O “Choninhas”, “Copinho de leite”, “sonso”, o tipo da “esquerda que a direita gosta” ou das vitórias “poucochinho” passou, ungido por comentadores e gente de esquerda sem vergonha na cara – passe o pleonasmo – para uma espécie de salvador da democracia ou arcanjo constitucional que, de lança em punho, enviará o demónio para o quinto dos infernos.

Obviamente que nada me move contra as pessoas que mudam de opinião. Nem, tão-pouco, contra quem não tendo visto eleito o candidato em quem votou na primeira volta opte por uma das alternativas na segunda. Uma e outra coisa são absolutamente normais. Pouco normal é a retórica. Eu, benfiquista ferrenho, também fico contente sempre o que Porto e o Sporting não ganham. Não ando é por aí a apregoar que os outros adeptos do Glorioso que não fazem o mesmo, por manifestamente terem mais juízo do que eu, são uns atrasados mentais ou que não gostam de futebol. 

E, como toda a gente parece sentir uma súbita necessidade de proclamar virtudes cívicas em praça pública, manifesto desde já o meu sentido de voto, para esta segunda volta, no candidato apoiado pelo Presidente do Conselho Europeu.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Ontem uma faca, hoje um veículo e amanhã, quiçá, uma torradeira...


São recorrentes as notícias acerca de facas que esfaqueiam pessoas. Acontece muito. Tanto, que já fazemos pouco caso dessas notícias. As facas, essas maganas, andam numa azáfama homicida por essa Europa fora, fartam-se de esfaquear pessoas que, por coincidência, costumam estar por perto. Por cá também acontece, mas menos. Por enquanto.

Este ímpeto assassino não se limita aos tradicionais objectos cortantes, afiados ou pontiagudos que durante milénios viveram injustamente catalogados como utensílios de cozinha ou ferramentas de bricolage. Afinal, revelam agora uma vida interior riquíssima e uma clara vocação para o homicídio. Essa vontade indómita de matar parece, aliás, ser transversal a muitos outros objectos que teimámos em considerar inanimados, quando na verdade só estavam à espera do momento certo para se passarem dos carretos. Nomeadamente no que diz respeito ao desejo muito concreto de nos ver falecer, de preferência sem aviso prévio.

Segundo as notícias, na Amadora, um carro em andamento terá disparado sobre duas criaturas. E acertou-lhes, ao que parece. O que revela não só uma pontaria notável como também um avanço tecnológico assinalável no sector automóvel. Já não bastava conduzir sozinho, agora também decide quando abrir fogo. Deve ser coisa da inteligência artificial, esse milagre moderno que veio para facilitar a vida e, ocasionalmente, para a terminar. O que torna isto ainda mais preocupante.

É que, numa época em que qualquer electrodoméstico tem mais poder de processamento do que a traquitana que pousou na Lua, começa a ser ingénuo achar que estamos seguros dentro de casa. Hoje é um carro, amanhã é um frigorífico com ideias próprias. Às tantas, nem nas nossas cozinhas estamos a salvo. Agora que penso nisso, a minha torradeira tem andado esquisita… ontem queimou o pão com um ar que não me inspirou confiança. E ficou a olhar para mim. Fixamente.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Adeus Sapo, olá Blogger.

Onze anos depois de ter migrado do Blogger para o Sapo, faço hoje o caminho inverso. Os tipos do batráquio resolveram acabar com os blogs e, entre as alternativas disponíveis, não hesitei na escolha. É um regresso óbvio a um espaço onde andei pelos primórdios destas coisas.

Encontrei algumas diferenças na gestão do blogue face aquilo que me recordo que era em 2015 e inconsistências diversas com o material que exportei da anterior plataforma. O normal numa transição desta natureza, mas que requer um trabalho imenso até ficar tudo como eu gosto.

Ou seja, o Sapo fechou a porta, eu voltei ao Blogger e assim se confirma que, na Internet, nada morre realmente, apenas muda de URL e dá mais trabalho do que prometia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O socialismo funciona...nunca!



Há quem não perceba, ou não queira perceber, que o socialismo não funciona. Ainda assim insistem num argumentário rico em verborreia, mas manifestamente longe da realidade. Aquela coisa que se encarrega de destruir, sempre mais cedo do que tarde, os cenários idílicos daquelas terras que prometem o sol a brilhar para todos nós, mas que afinal apenas conseguem dar a noite mais negra. Ou vermelha, vá, para ser cromaticamente mais  rigoroso.

No gráfico pode ver-se a evolução de um país capitalista, a Venezuela, que um bando de malucos resolveu levar a adoptar as práticas socialistas. O outro, a Polónia, fez o caminho inverso. Os últimos dados da comparação são de 2020. Hoje a diferença será bastante maior. Apesar de todas as evidências ainda existe gente que nos quer vender as opções políticas que levaram ao colapso e à destruição daquele país sul-americano. É a estes que recomendo sempre que façam a revolução socialista no respectivo quintal. E, porque não lhes desejo mal nenhum, estimo as melhoras. Com pouca esperança, mas muita sinceridade.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Quando a liberdade encarece a culpa é do ocidente...

Compreende-se a vontade de controlar – que é como quem diz, censurar e, se possível, calar – as redes sociais. Sem elas saberíamos apenas aquilo que o poder decidisse que era bom para a sua sobrevivência. Ou, como já acontece em Portugal e em boa parte das democracias ocidentais, ficaríamos confinados à versão oficial dos factos. Aquela filtrada, higienizada e explicada pelos activistas que hoje acumulam as funções de jornalista, militante, pedagogo moral e fiscal da virtude alheia. Nada disto é coincidência, sempre que se sentem ameaçados os ditadores já não mandam calar jornais nem desligam o sinal da televisão. Isso é coisa do passado. Agora mandam cortar a Internet. 

Veja-se o caso do Irão. Para a comunicação social portuguesa aquilo são protestos por causa da inflação galopante que está a destruir a economia e o poder de compra da população. Tudo, esclarecem-nos, por culpa das sanções do ocidente. Deve ser mesmo isso, deve. A grande preocupação das mulheres iranianas é, de certeza, o aumento do preço dos tecidos pretos em que são obrigadas a embrulhar-se. Vai daí, foram para as ruas protestar. Nem ele é outra coisa. Está-se mesmo a ver e só um facho é que não percebe esta maquinação capitalista para derrubar a revolução. Nem um facho, nem alguém que tenha o atrevimento de pensar pela própria cabeça.

Ainda assim, admito, essa canalha do activismo jornalistico tem alguma razão quanto a isso do envolvimento da inflação nestas lutas populares. É que o preço da liberdade está pela hora da morte. No Irão, na Venezuela e em todo o lado onde a esquerda e os seu aliados governam. E, se não nos pusermos a pau, também por cá.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O balázio de ano novo - património imaterial da família tradicional

Há quem ache estranho que, passados todos estes dias, ainda nenhum membro da  “família” que celebrou a entrada no novo ano aos tiros de metralhadora tenha sido incomodado pelas autoridades. Gente mesquinha, evidentemente. Pessoas pequenas, roídas pela inveja, que não conseguem aceitar que há quem se divirta de forma genuína, saudável e profundamente enraizada na tradição oral  e balística  dos seus antepassados.

Querem ver atrás das grades cidadãos de bem que apenas exerceram o seu direito ancestral de transformar o espaço público num campo de tiro improvisado, sem qualquer intenção de fazer mal a uma mosca. A não ser, claro, que por um azar cósmico absolutamente imprevisível, alguma dessas moscas — ou pombos, ou varandas, ou transeuntes — se tenham atravessado na  trajectória de um dos muitos projécteis festivos disparados para o ar. 

Os que defendem que isto é comportamento punível e que pedem mais “acção” policial revelam apenas ignorância. Não percebem o contexto. Não percebem a cultura. Não percebem que o facto de a “família” disparar armas proibidas a civis é um detalhe menor. Quase burocrático, diria. Quem nunca, numa passagem de ano mais animada, sacou de uma arma de guerra para marcar a meia-noite, que atire a primeira bala. De preferência em rajada.

Além disso, sejamos razoáveis. Identificar a “família” seria uma tarefa ciclópica. Apesar de estarem de cara descoberta, numa rua perfeitamente identificável, num vídeo amplamente difundido, é praticamente garantido que ninguém os conhece. Não moram ali, claro. Estavam só de passagem. Foram à festa. Coisa rápida. E, como é evidente, desapareceram logo a seguir porque a casa fica longe e no dia seguinte tinham de acordar cedo para ir trabalhar. 

Pode ser isso tudo. Ou não. Tenho outra teoria. Cá para mim, aquele vídeo é falso. Ou melhor, é coisa criada por inteligência artificial para nos levar a sentir falsas sensações de insegurança. Uma cena muito própria da extrema-direita, ou lá o que se chama aqueles gajos que não gostam de “famílias”. Toda a gente sabe que as “famílias” não se dedicam a actividades desprovidas de enquadramento legal. "Jamé", como dizia o outro. No máximo, vá, a umas burlazinhas no MB Way...

domingo, 4 de janeiro de 2026

Especialistas que deixaram de querer apenas paz...

De repente, como cogumelos depois da chuva ou comentadores depois de um conflito internacional, começaram a surgir especialistas especialmente especializados nessa especialidade muito específica chamada direito internacional, que curiosamente ninguém parecia dominar até ontem ao pequeno-almoço. Aquela coisa da Venezuela fez-lhes saltar a tecla. Eu, pelo meu lado, pouco percebo do assunto. O que me coloca, ironicamente, numa posição de enorme vantagem. Daí que me socorra das posições dos apaniguados de um conhecido partido político — aquele cuja relevância pública é rigorosamente inversa à sua relevância eleitoral — já testadas e aprovadas aquando da invasão da Ucrânia. A receita é simples, eficaz, moralmente confortável e resume-se a “eu só quero paz”. O que é preciso é paz. Paz acima de tudo. Se é que aconteceu alguma coisa, claro. E, se aconteceu, não começou agora. Nunca começa agora. Começa sempre algures no Neolítico ou, no mínimo, em 1991. É preciso olhar para trás. Muito para trás. Até encontrar qualquer coisa que justifique tudo. Deve ser isso. Ou outra cena marada qualquer, possivelmente.

Seja como for, a deposição de Maduro é, sem dúvida, uma boa notícia. A má é a forma como foi deposto. Um detalhe, dirão alguns. Um pormenor técnico, dirão outros. Embora não se trate sequer de um precedente — ingerências, invasões, golpes e anexações são mais que muitas nos últimos cinquenta anos — o episódio tem a ligeira desvantagem de significar que nenhum país ou território está verdadeiramente a salvo. Nenhum mesmo. Seja o Canadá, a Gronelândia ou os Açores por parte dos EUA, todos os países que constituíam a URSS por parte da Rússia ou Taiwan pela China. É tudo uma questão de tempo, oportunidade e uma narrativa suficientemente criativa. Até mesmo Portugal é melhor ir pondo as barbas de molho, que os castelhanos estão mesmo ali ao lado e são capazes de começar a ter ideias. E isso, as ideias - especialmente as mais parvas -  costumam surgir quando menos se espera.