Nestes quarenta e cinco anos que levo de serviço as histórias de que guardo memória já são mais que muitas. As que não me lembro, provavelmente, serão outras tantas. Uma das que recordo sempre que ouço falar de SNS, de fascismo e de como morríamos por falta de assistência médica antes do dia fundador é a de um colega que, ali a meio da década de oitenta do século passado, se dirigiu aos serviços para tratar de cenas relacionadas com um acidente de trabalho.
Questionado acerca do sucedido o homem, um pedreiro que trabalhava na construção de um edifício municipal, esclareceu que ao descer de um andaime embateu violentamente com o traseiro numa vara de aço que um servente transportava na vertical e que passava naquele preciso momento no trajecto por onde o acidentado descia. A colisão na zona do traseiro foi inevitável e, ao que garantia, as lesões provocadas foram assinaláveis.
Transportado ao centro de saúde cá do sitio, o nosso homem foi encaminhado para o hospital distrital, pois seria necessário efectuar Rx não fosse haver chatices ao nível do cóccix. Coisa que, confessou, lhe causou profunda estranheza. Isto porque noutro infortúnio que vinte anos antes igualmente lhe afectou aquela zona anatómica, o assunto foi resolvido no hospital cá do sitio. E garantia, enquanto descrevia pormenorizadamente a maleita e respectivo tratamento, que se tratou de um caso muito pior. Com efeito, a remoção de um fragmento de osso de frango que ficou encravado mesmo à saída não deve ser encarada como um procedimento menor. Ainda assim, imagine-se, até para essas situações havia solução local com médicos, camas, bisturis e competência.
Isto vem a propósito da quantidade industrial de idiotice que se diz e escreve por aí sobre assuntos acerca dos quais reina uma ignorância vaidosa. Ainda bem que existe o SNS. Isso nem se discute, tal como não se discute a utilidade da água ou do oxigénio. Mas convém não reescrever a História como se antes dele só houvesse curandeiros, sangrias e orações. Porque, se fosse hoje, o dito colega teria esperado uma dúzia de horas para ser atendido a cinquenta quilómetros de casa e os meus pais teriam pago uma fortuna num hospital privado para me fazerem uma amigdalectomia. Na altura, sem SNS, foi de borla.
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