No Brasil, um treinador português foi acusado de racismo por, ao explicar a deprimente exibição da sua equipa, ter cometida heresia de considerar que foi uma “noite negra”. Fica assim provado que o problema do futebol brasileiro não é a defesa, nem o meio-campo nem o ataque. Apenas o vocabulário.
Em Portugal, um tribunal — um órgão de soberania, convém sublinhar para quem ainda acredita nessas coisas — decidiu que a frase “nós só queremos o islão fora da Europa” configura crime de ódio. Aparentemente, já não é preciso odiar. Basta conjugar um verbo e mencionar um continente.
Noutros tempos, ambas as situações dariam origem a chacota, anedotas ou umas “décimas”, como dizia a minha avó perante algo que merecesse ser escarnecido. Hoje, exigem ar grave, testa franzida e comunicado oficial. A ditadura chegou. Não de botas cardadas, mas de corretor ortográfico moral, imposta por entidades sem rosto, comentadores profissionais e justiceiros de redes sociais com diploma em indignação instantânea.
O controlo da linguagem é apresentado como virtude cívica, mas cheira cada vez mais a velho vício autoritário. Enquanto isso, entretidos a trocar galhardetes por causa de um badalhoco e de um estarola, ignoramos olimpicamente os novos ditadores — esses mesmos que se arrogam o direito de decidir o que podemos ou não dizer, pensar ou até insinuar.
Sim, num caso e noutro estamos a falar de opiniões tão boas ou tão más como quaisquer outras. Incluindo as minhas, que continuarei a expressar aqui, ali ou onde bem me apetecer. Reafirmo, portanto, que mesmo em saldo não compro nada no “mercado negro”, que por mera prudência continuarei com “um olho no burro e outro no cigano”, que não tenho pachorra para aturar testemunhas de Jeová. E, já agora que aqui estou, aproveito para acrescentar que detesto “doutores da mula ruça”.
Se isto me transforma num perigoso extremista linguístico, avisem-me antes que alguém me condene a frequentar aulas obrigatórias de semântica inclusiva.
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