terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O demónio imaginário e o anjo de conveniência

 

Por maior besta que se seja em vida, é na altura da morte que quase todos – e digo quase porque em certa ocasião estive num velório onde, com o morto ainda ali esticado, não faltou quem dissesse mal do extinto - se tornam as melhores pessoas do mundo. António José Seguro não precisou de passar pela maçada de falecer para atingir esse patamar. Bastou chegar à segunda volta das eleições presidenciais. O “Choninhas”, “Copinho de leite”, “sonso”, o tipo da “esquerda que a direita gosta” ou das vitórias “poucochinho” passou, ungido por comentadores e gente de esquerda sem vergonha na cara – passe o pleonasmo – para uma espécie de salvador da democracia ou arcanjo constitucional que, de lança em punho, enviará o demónio para o quinto dos infernos.

Obviamente que nada me move contra as pessoas que mudam de opinião. Nem, tão-pouco, contra quem não tendo visto eleito o candidato em quem votou na primeira volta opte por uma das alternativas na segunda. Uma e outra coisa são absolutamente normais. Pouco normal é a retórica. Eu, benfiquista ferrenho, também fico contente sempre o que Porto e o Sporting não ganham. Não ando é por aí a apregoar que os outros adeptos do Glorioso que não fazem o mesmo, por manifestamente terem mais juízo do que eu, são uns atrasados mentais ou que não gostam de futebol. 

E, como toda a gente parece sentir uma súbita necessidade de proclamar virtudes cívicas em praça pública, manifesto desde já o meu sentido de voto, para esta segunda volta, no candidato apoiado pelo Presidente do Conselho Europeu.

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