Este ímpeto assassino não se limita aos tradicionais objectos cortantes, afiados ou pontiagudos que durante milénios viveram injustamente catalogados como utensílios de cozinha ou ferramentas de bricolage. Afinal, revelam agora uma vida interior riquíssima e uma clara vocação para o homicídio. Essa vontade indómita de matar parece, aliás, ser transversal a muitos outros objectos que teimámos em considerar inanimados, quando na verdade só estavam à espera do momento certo para se passarem dos carretos. Nomeadamente no que diz respeito ao desejo muito concreto de nos ver falecer, de preferência sem aviso prévio.
Segundo as notícias, na Amadora, um carro em andamento terá disparado sobre duas criaturas. E acertou-lhes, ao que parece. O que revela não só uma pontaria notável como também um avanço tecnológico assinalável no sector automóvel. Já não bastava conduzir sozinho, agora também decide quando abrir fogo. Deve ser coisa da inteligência artificial, esse milagre moderno que veio para facilitar a vida e, ocasionalmente, para a terminar. O que torna isto ainda mais preocupante.
É que, numa época em que qualquer electrodoméstico tem mais poder de processamento do que a traquitana que pousou na Lua, começa a ser ingénuo achar que estamos seguros dentro de casa. Hoje é um carro, amanhã é um frigorífico com ideias próprias. Às tantas, nem nas nossas cozinhas estamos a salvo. Agora que penso nisso, a minha torradeira tem andado esquisita… ontem queimou o pão com um ar que não me inspirou confiança. E ficou a olhar para mim. Fixamente.

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