Penso ter, em tempos, escrito qualquer coisa acerca da perplexidade que me causa a estranha e absoluta necessidade daquelas pessoas que não têm ocupação nem horário a cumprir – porque estão reformadas, desempregadas ou por outro motivo qualquer que não é para aqui chamado – e, apesar disso, escolhem precisamente a hora de almoço, ali entre o meio dia e meia e as treze horas, para fazer as suas compras diárias. Volto hoje ao tema porque continuo a acreditar, mas isso sou eu a dizer, que não custava nada tratar da aquisição dos bens essenciais à sua subsistência aí pelas dez da manhã. Ou pelas onze, vá. Até porque não acredito que seja gente para prolongar manhã dentro a sua estadia na cama. De resto para deitar cedo e tarde erguer boa companhia se há-de ter e não me parece que seja o caso.
Isto aplica-se especialmente às senhoras de idade mais avançada. O que, estando Estremoz cheio delas, assume proporções alarmantes. Tenho o maior respeito pelas velhotas. Até porque, não tarda, serei tão velho como elas são agora e, quase de certeza, ainda mais chato e rabugento. Mas, confesso, causa-me uma especial irritação sair do emprego e ver os minutos da minha hora de almoço esvaírem-se na fila da padaria, do talho ou do supermercado porque, à minha frente, umas quantas velhinhas - ou outros desocupados - escolheram exactamente aquela altura para fazer o que podiam ter feito nas três horas anteriores. Isto porque, ao contrário delas, não posso ficar a degustar tranquilamente a minha refeição pela tarde fora.
Se viver o suficiente para isso, vou vingar-me. Hei-de fazer o mesmo. Talvez, até, pior. Depois de fazer as compras passear-me-ei de carro pela cidade. A dez à hora. Só para chatear aqueles malucos apressados, que insistem em cumprir horários, e que vão atrasados para o emprego porque perderam parte da hora de almoço empatados por quem podia fazer compras noutro horário.



















