terça-feira, 8 de novembro de 2011

Despesa a diminuir e receita a sumir

A remota e afastada hipótese de o governo recuar e aceitar a proposta do líder do PS, no sentido do governo cortar apenas um dos subsídios aos funcionários públicos, está a deixar os comentadores de serviço com os cabelos em pé. Quase todos nutrem por quem trabalha na função pública um ódio visceral que os impede de analisar o que estará em causa a concretizar-se este assalto aos bolsos dos portugueses.
Seria bom que, friamente, cumpra-se a intenção do governo ou vingue a proposta socialista, os pretensos sábios destas coisas dos números explicassem à população, que agora exulta por os trabalhadores do Estado ficarem mais pobres, que a relevância destes cortes nas contas públicas não será tão significativa quanto se pretende fazer crer. Poderá, até, ao contrário do que se pretende, ter um efeito nefasto na execução orçamental do próximo ano.
Imagine-se o caso de um trabalhador que aufere mil euros de vencimento mensal. Deixará de receber anualmente dois mil. Mas, em contrapartida, pagará cerca de trezentos euros a menos de IRS, deixará de descontar trinta euros para a ADSE e duzentos para a Caixa Geral de Aposentações. O mesmo acontecerá com a sua entidade patronal que deixará de contribuir com trezentos euros para a CGA. Significa isto que, neste caso, o Estado deixará de contabilizar do lado da receita, por ano, oitocentos e trinta euros e, do lado da despesa dois mil. O que, é fácil fazer a conta, reduz esta fantástica medida de controlo da despesa pública a mil cento e setenta euros.
Se, ao cenário atrás descrito, adicionarmos o iva que o Estado deixa de arrecadar, os efeitos nefastos que esta quebra de rendimentos produzirá no consumo e, por consequência, na arrecadação de receitas fiscais, então teremos uma ideia mais aproximada da genialidade desta intenção e dos seus efeitos práticos na execução orçamental. Claro que os comentadores não são parvos e sabem, obviamente, fazer estas e muitas outras contas. Deve ser por isso que, se os ouvirmos atentamente – o que a maior parte não merece – podemos constatar que, quando dissertam acerca desta matéria, manifestam o seu entusiasmo pela “redução de despesa” provocada por esta medida mas esquecem sistematicamente a “execução orçamental”. Será por acaso?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"Insulta-me se puderes"

Na actual ditadura do politicamente correcto em que estamos a viver, tornaram-se banais as acusações de racismo. Por tudo e por nada se é acusado de praticar a discriminação racial, mesmo que em muitas circunstâncias os acusadores – quase sempre as alegadas vitimas – nem entendam muito bem o conceito. Por cá basta ir à loja do Belmiro para ter fortes probabilidades de ouvir guinchar histericamente “aiiiiiiii raciiiiistaaaaa”. O que na opinião deles – coitados – constituirá um gravíssimo insulto para o visado. E nem é preciso grande esforço para ouvir esta suposta ofensa. Basta não sair apressadamente do caminho de um qualquer habitante do resort contiguo ao referido espaço comercial, que por ali ande a colmatar as faltas na despensa.  
Vem isto a propósito das queixas de um jogador de futebol – negro, por sinal - que, segundo o próprio, terá sido alvo de insultos racistas por parte de outro. Branco, pois claro. Alega o primeiro que o segundo lhe terá chamado “preto de merda”. Uma acusação confusa, convenhamos. Pelo menos para mim, que após ler e reler as declarações do queixoso ainda não percebi se ele se sente ofendido com a parte do “preto” ou com a da “merda”. E esta questão das partes não é, para o caso, de somenos importância. Quando alguém chama a outrem “político de merda”, “economista de merda” ou “portista de merda”, o visado sente-se insultado na sua condição de político, economista ou portista? Obviamente que não. O que o incomoda é a merda. No caso em apreço parece que não será assim. O tal jogador sentir-se-á arreliado é com o “preto”. Ele, apesar de ser bastante escuro, lá sabe.

domingo, 6 de novembro de 2011

Flor de Outono

Esta cerejeira que vai sobrevivendo no meu quintal – digo sobrevivendo porque, face à paupérrima produtividade, um destes dias fica com as raízes ao sol – deve estar com o relógio biológico avariado. Estamos em Novembro, acabou há poucos dias de perder quase toda a folhagem e está a começar a dar flor. Coisa que, acho, só devia ocorrer lá para Março. A continuar assim, por essa altura devo estar a comer cerejas. Eu e os melros aqui das redondezas.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A rentabilidade é uma coisa boa? Depende se nos prejudica ou não...

Compreendo que a prometida revolução no sector dos transportes das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto suscite a indignação de muita gente. Nomeadamente dos que serão afectados pelas suas consequências. Ainda assim não é coisa que me inquiete por aí além ou que motive em mim o mais leve sentimento de solidariedade. Afinal são os residentes destas regiões quem, de um modo genérico, menos se apoquentam com as decisões governativas de encerrar serviços - por vezes tão ou mais essenciais do que os transportes - nas regiões do interior. Chegou, digo eu que nisto de ser solidário sou um apreciador da reciprocidade, a altura de também os moradores das duas grandes cidades e seus arrabaldes provarem, ainda que apenas ligeiramente, da receita que há muito é aplicada ao resto do país em nome de algo a que chamam rentabilidade, ou assim.
Não ter transporte público depois das vinte e três horas não constituirá nenhum drama. É tudo uma questão de mudança. De horário, de rotinas ou, até, de residência. O mercado – onde é que eu já ouvi isto – acabará por se ajustar. E, se não estiverem contentes, façam-se à vida e venham morar para o Alentejo, para a Beira ou para Trás-os-Montes. Curioso. Com as devidas adaptações esta sugestão também me soaria vagamente familiar…

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Javardolas


Cada dia que passa serve para confirmar que as gorduras do Estado são, em especial, os funcionários públicos e, de uma maneira geral, todos os restantes portugueses. Razão tinha o outro palerma em sugerir à rapaziada que emigre e deixe quanto antes esse país que parece condenado a ser governado por javardos. Sempre quero ver de que vão viver este bando de merdosos quando não estiver cá ninguém para os sustentar. Como disse o outro, eles sabem lá o que é a vida.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Perguntas desnecessárias. Parvas, até.

A acentuada diminuição da população nos concelhos do interior devia constituir uma das principais preocupações de quem tem por dever governar o país. Mas esse - e a realidade está aí para o demonstrar - não parece ser o caso. Tirando uma ou outra honrosa excepção. O Presidente da República, por exemplo. Recorde-se aquele discurso onde Cavaco se interrogava – ou interrogava-nos a nós, sei lá - de forma veemente, acerca do que seria necessário fazer para que nascessem mais crianças no interior do país. Assim, de repente, não estou a ver. Mas, ainda no âmbito das perguntas parvas, acabo de constatar no site do Parlamento que o Presidente não está sozinho quanto às interrogações sobre esta temática. Quatro deputados do CDS-PP enviaram dezenas de requerimentos a outros tantos Presidentes de Câmara onde solicitam resposta para a seguinte questão: “Quais são, na opinião de V.Exª, as razões que conduziram à diminuição da população no concelho?”. Eu, que não sou de intrigas, quase me sinto tentado a sugerir que a concentração do investimento público e privado na faixa litoral é capaz de ter alguma coisa a ver com isso. Ou que o sucessivo encerramento de serviços públicos, deixando as populações ao abandono, pode ter tido alguma influência. Embora também suspeite que as cegonhas tenham uma assinalável dose de responsabilidade. Mas, como isto anda tudo ligado, desconfio que o principal motivo é já não haver daquela rapaziada mariola a furar os preservativos com alfinetes. De cabecinha.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Se fosse grego votava não.

Os gregos chegaram ao fim da linha. Tal como nós, mais cedo do que tarde, acabaremos por chegar. Colocar nas mãos do povo a decisão acerca do seu futuro parece uma decisão sensata. Ou perigosa. Depende do ponto de vista. Mas que se justifica face à dimensão do que está em causa.
Por cá, quase de certeza, nunca seremos chamados a pronunciar-nos acerca das novas patifarias a que, um dia destes, seremos sujeitos. Principalmente se, como é expectável, os referendos – sim, porque tal como noutras ocasiões serão gajos para repetir a votação até o resultado ser do seu agrado - na Grécia não correrem de feição para aqueles que nos querem tirar a pele. Mas, se estiver enganado e formos também a votos, acredito que aceitaremos tudo e mais alguma coisa. Verdade que a alternativa será a falta de dinheiro para pagar ordenados, pensões e importar comida ou medicamentos. No entanto talvez fosse uma boa oportunidade para, definitivamente, os portugueses – incluindo muitos políticos e seus sabujos – aprenderem que a gestão da vida, a privada e a pública, não se faz apenas de gastar dinheiro. Principalmente do que não temos.

domingo, 30 de outubro de 2011

Homem prevenido vale por dois. Um não se afoga e outro não cai...

Com o aproximar da época das intempéries é altura de tomar medidas que minorem os seus efeitos destrutivos, catastróficos ou, simplesmente, aborrecidos. Entre os quais podemos incluir as inundações, os alagamentos e outras situações que envolvam excesso de água normalmente associadas a uma borrasca. Deve ter sido isso que pensou o precavido cidadão que engendrou este esquema manhoso. Estará assim, ele e o seu quintal, a salvo das consequências desagradáveis de algum temporal que traga uma pluviosidade mais intensa. O mesmo não se pode dizer de quem por ali passe, não repare na canalização e se estatele no passeio. Mas, nada de alarmismos, se tal acontecer – e esperemos que não – haverá certamente algum seguro ou alguma instituição pública que suportará os custos associados ao trambolhão. Tudo bem, portanto.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A bem da nação, dizem eles.

Aos poucos estamos a ser preparados para perder definitivamente os subsídios de férias e de Natal. O saque começou pelos funcionários públicos mas de certeza que não tardará a ser seguido pela generalidade dos patrões. E nem vale a pena termos a ilusão de que o seu valor será distribuído pelos doze meses do ano. Tal, a acontecer, representará na melhor das hipóteses uma ínfima parte do montante que até agora temos vindo a receber.
Perante um cenário desta natureza nem sei como classificar alguns apelos, feitos por governantes e analistas do regime, à união e patriotismo dos portugueses para que, com o contributo de todos, ultrapassemos este momento difícil. Isto ou coisa parecida que pretende dizer mais ou menos o mesmo. É, convenhamos, preciso ser possuidor de uma distintíssima lata para vir com esta conversa fiada. Principalmente vinda da parte de quem cria divisões desnecessárias – e até perigosas – entre os cidadãos.
Não tenciono fazer greves nem andar por aí a partir montras ou a apedrejar policias. Mas, excepto quanto ao confisco que me fazem a parte significativa do meu vencimento, não contem comigo para ajudar seja no que for. Tudo, mas mesmo tudo, farei para recuperar aquilo de que me esbulham. Seja a contornar o saque fiscal ou a comprar na economia paralela ou ali do outro lado da fronteira. Para o peditório do Estado ladrão só dou o que de todo não puder evitar. Que é como quem diz, o que a ladroagem me rouba.