Não há manifestação, seja contra a extinção do gambuzino-marreco ou pela contratação de mais funcionários para as escolas porque os que lá estão não trabalham suficientemente pouco, onde não sejam visíveis o estandarte da Palestina e a toalha de piquenique idêntica à usada por aquelas paragens. Coisa que costuma suscitar uma infinidade de graçolas a zombar com os esgazeados que as exibem.
Hoje, como não podia deixar de ser, aconteceu mais uma vez. Algumas criaturas manifestaram-se em várias cidades contra a carestia de vida e a dificuldade de encontrar um lugar para morar a um preço acessível. Desta vez não vou alinhar em zombarias. Acho que, no caso, têm razão em quase tudo. A vida está pela hora da morte, a elevada procura face à escassa oferta de habitação fez disparar os preços para valores incomportáveis e, nestas circunstâncias, os trapos palestinianos fazem algum sentido. Afinal, se há um sítio no planeta com um problema de habitação é mesmo Gaza.
A minha concordância apenas não é completa por não concordar com a escolha dos culpados. Alojamento local, fundos abutres, estrangeiros ricaços e senhorios gananciosos não me parece que tenham assim tanta culpa no cartório como os manifestantes querem fazer crer. Se não vejamos: O Alojamento local, em Lisboa e provavelmente no resto do país, caiu quase quarenta por cento; Os fundos imobiliários, presumo que nem todos sejam “abutres”, representam algo entre um a dois por cento; As casas compradas por estrangeiros, ricos e não ricos, serão pouco mais de vinte cinco por cento do total das casas vendidas, sendo que oitenta e cinco por cento delas são compradas por imigrantes ou estrangeiros residentes no país; Finalmente os senhorios, esses patifes. Gente sem escrúpulos e do piorio, diria. Gastam centenas de milhares de euros para comprar ou recuperar uma casa e depois, feitos mete-nojo, têm o desplante de pretender rentabilizar o investimento.
Se calhar este pagode que se exalta com esta cena dos preços das rendas, podia também atribuir uma percentagem elevada da culpabilidade ao milhão e meio de imigrantes que entraram no país nos últimos anos. São muitos, têm de morar em algum lado e se não se construíram casas em número significativo as que existem terão, face à procura, de ficar mais caras. É como os ovos no mercado. Desengane-se quem pensa que fixar o preço dos ditos resolve o problema. Apenas aumenta o número de omeletes comidas pelo produtor.

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