segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O passado, em politica, é muito imprevisivel

Tempos houve em que se garantia que um tipo perigoso é aquele que nos olha nos olhos e mente. Hoje mente-se com a maior das naturalidades enquanto nos olham de frente. Sem sequer pestanejar, se preciso for. Os políticos aperfeiçoaram essa prática e a mentira faz parte integrante das suas estratégias. Digamos que a mentira deixou de ser um desvio moral para se tornar numa competência transversal, especialmente apreciada na carreira política. 


Mas, convenhamos, há mentiras e mentiras. Uma coisa é prometer mundos e fundos para o futuro, esse território sempre elástico onde tudo cabe e nada se confirma. Outra, bastante mais grave e com muito menos margem para ginástica verbal, é mentir sobre o que se fez no passado. Foi nesse campeonato que decidiram alinhar António Filipe e André Ventura. Pelos menos, assim que me lembre, mais à descarada.


O primeiro garante, com ar ofendido, que o PCP nunca, jamais, em tempo algum, defendeu a saída do euro e da União Europeia. Ideia que, aparentemente, brotou espontaneamente da imaginação coletiva de décadas de militantes, dirigentes e documentos oficiais. O segundo jura a pés juntos que é uma falsidade pegada ter dito que votou em José Sócrates. Tudo invenções, como se sabe.


Cada qual é livre de defender as ideias que bem entender. Os comunistas, por exemplo, sonham com um país que seria uma espécie de Cuba em versão europeia, com clima menos tropical e economia igualmente exótica. É lá com eles. O problema não é a ideia, mas sim a negação histérica de a ter tido. Assumir posições exige coluna vertebral e, como temos visto no caso da Ucrânia, isso é um acessório que o PCP tende a dispensar sempre que em causa está a mãe-Rússia.


Quanto a ter votado em José Sócrates, obviamente, não tem nada de mal. Especialmente se, como diz André Ventura — embora nunca saibamos quando está a falar verdade — se arrependeu por se sentir enganado. Acontece aos melhores e ele até está muito longe de integrar esse grupo. O incómodo começa quando não se assume e evolui para o patético quando se jura que é mentira. Ainda assim, vindo de alguém que votou no candidato do PS enquanto militava no PSD, não é exatamente motivo para espanto. Aliás, não me surpreenderá minimamente se, nas próximas presidenciais, André Ventura acabar por não votar no candidato André Ventura. Afinal, coerência é um conceito raramente usado na politica. Por ele e por todos.

6 comentários:

  1. A mentira vulgarizou-se mostra-se o fim da decência na política. E sabemos quão nefasto é o poder da mentira. A história mostra-nos isso.
    Desejo umas boas festas para ti e para os teus!

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  2. A mentira, dita com dotes artísticos ou mesmo sem eles, tornou-se a verdade dos tempos modernos. Aliás, antigamente dizia-se com a verdade me enganas, agora ao menos é mais honesto, com a mentira se engana.
    Boas Festas

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  3. Mentir quanto ao que se pretende do futuro é, infelizmente, comum na politica. Mentir à descarada relativamente a afirmações que proferiram no passado, como o Filipe e o Ventura fizeram, é coisa de gente sem vergonha na tromba. Sem caracter. Nada de espantar vindo de um comuna ou de um facho.

    Bom Natal!

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  4. O Pimenta Machado é que tinha razão quando dizia que "o que hoje é verdade, amanhã é mentira".

    Bom Natal!

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