domingo, 31 de agosto de 2025

Controlar a informação é coisa de ditador

Sob as mais variadas capas e os mais diversos pretextos não falta quem pretenda repor, cinquenta anos depois de “Abril”, princípios próprios do regime então abolido e de outros que felizmente, apesar dos esforços feitos nesse sentido, nunca chegaram a vigorar por cá. O controlo do que cada um de nós diz ou escreve é um deles. Há quem tenha a lata descomunal de defender publicamente a restauração da censura e a consequente limitação da liberdade de expressão. É isso que se pretende quando se defende o fim – ou o controlo pelo Estado, vai dar quase ao mesmo – das redes sociais. Em prol desta vontade, argumentam, está a defesa da democracia. Ou seja, para estas mentes iluminadas é preciso acabar com uma conquista das sociedades democráticas para proteger a democracia. A Rússia, a Coreia do Norte, a Venezuela, Cuba e outros faróis da democracia e das liberdades individuais já o fazem e, desconfio, pouquíssimos gostaríamos de habitar nesses países. Ficaríamos, como noutros tempos, sujeitos ao que os meios de comunicação social quisessem que nós soubéssemos. A história ensina-nos como funciona. Os exemplos são muitos e nem precisamos de ir muito longe. Basta lembrar o que fizeram – e quem o fez, no Verão quente de 1975, ao jornal “República”, os despedimentos efectuados pelo Nobel Saramago no Diário de Noticias ou as bombas que rebentaram com as antenas emissoras da Rádio Renascença.


Isto da populaça saber mais do que aquilo que as pretensas elites querem que se saiba é, reconheço, uma chatice. Seja sobre os “Panamá papers”, a Argentina ou as diatribes de um qualquer paladino da moral e bons costumes. Por falar nisso, onde posso encontrar um jornal ou um canal televisivo que investigue aquele escândalo financeiro – alguns garantiram, na época, que o fariam – ou que nos mostre – de forma séria, de preferência – as consequências da governação do Milei?

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

O sol que alumia lá não é o mesmo que alumia cá...

Que os imigrantes fazem cá falta e que sem eles o país não funcionava é, evidentemente, uma evidência por demais evidente. Basta olhar para as equipas de futebol que disputam as principais ligas do pontapé na bola. Estão recheadas de imigrantes. Os “onzes” que semanalmente entram em campo, dos trinta e seis clubes que integram os dois principais campeonatos, são compostos maioritariamente por futebolistas estrangeiros. 


Se, como garantem os especialistas especialmente especializados em assuntos que envolvem a segurança social, migrações e generalidades diversas – vulgo jornalistas, comentadeiros e esquerdalhos em geral – é graças à imigração que a segurança social não vai à falência e que são os descontos dos imigrantes que vão pagar as nossas reformas, há qualquer coisa numa noticia vinda da Alemanha que não bate certo. Algo que me deixou perplexo. Abismado, até. E com vontade de chamar nomes ao chanceler lá do sitio, inclusivamente. É que, apesar daquele país acolher um número absolutamente avassalador de trabalhadores estrangeiros, parece que o sistema de pensões alemão não está em condições de garantir que no futuro possa continuar a pagar as reformas. De tal forma que o governo alemão criou um subsidio mensal de dez euros para que cada jovem constitua o seu plano de poupança. Esquisito, isto. Ou então, por cá, andam a gozar connosco. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Uma questão de peso

A senhora dona deputada doutora Mortágua vai de viagem. Um cruzeiro de duas semanas pelo Mediterrâneo até encontrar a tropa israelita, ao que tudo indica. Altura em que terminará a passeata. O que deverá ocorrer a umas quantas milhas da costa. Não tem nada de mal ou de criticável. Cada qual escolhe fazer turismo conforme quer ou a sua carteira permite. E no caso da excelsa senhora permite-lhe estas liberalidades. Estas e outras, como ficar sem salário durante a metade do mês que falta ao trabalho. Mas, como tudo na vida, o que vai para um lado não vai para o outro e o guito não dará para tudo. Falta, aparentemente, para a segurança. Sendo aquilo tudo gente boa e o mar Mediterrâneo uma zona muito frequentada por pessoas cheias de boas intenções, não haverá motivo para preocupações. Ainda assim a doutora Mortágua acha que o governo tem obrigação de providenciar os meios necessários para se manter segura. Até porque uma deputada da nação tem muito peso político, justificou. Assim de repente, não me parece que a deputada única de um partido insignificante de um pequeno país sem qualquer relevância na cena internacional, pese por aí além. Cá para mim está é com miúfa e quer as costas quentes não vá tornar-se um peso morto. Salvo seja e longe vá o agoiro.

domingo, 24 de agosto de 2025

Fogos e fogachos

Devo ser o único português que não percebe nada de incêndios. A minha inabilidade, em matérias de fogaréus, é de tal ordem que acender o grelhador para fazer um churrasco constitui, para mim, uma tarefa ciclópica. A minha Maria que o diga. Por diversas ocasiões esteve quase a ter de fazer uma açorda porque as febras não saltavam para as brasas a tempo de um jantar a horas decentes.


Isto para dizer que os especialistas especialmente especializados em fogos sabem tudo acerca do assunto. Desde a prevenção até aos castigos a aplicar aos pirómanos, passando pelo combate às chamas, à maneira como coordenar aquilo e à forma como o governo devia lidar com o problema. E, já agora, também sabem o que não se deve fazer. Que é apagar brasas incandescentes em mangas de camisa, especialmente se forem tipos chamados André Ventura. Esses devem ficar quietos. Caso se chamem Montenegro devem ir para lá a correr, mas se o nome for Marcelo o melhor é não se aproximarem. Só atrapalham, com aquela mania das selfies.


Por mim que – reitero – de incêndios nada sei, parece-me que esta época de fogos foi deprimente. Mais uma vez. Quase tanto como promete ser a época futebolística do meu clube. Dirigentes que não se cansam de atirar dinheiro para cima dos problemas, treinadores incapazes de lidar com os egos do balneário e jogadores que marcam os adversários com os olhos em lugar de se atirarem à bola jamais constituirão uma equipa vencedora. Ainda bem que aquela malta do Benfica não anda nisso dos fogos, senão o país ardia todo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Greve de fome, isso é que era solidariedade.

O Hamas, aquela organização humanitária que zela pelo bem-estar dos palestinianos, propôs a realização de uma greve à escala global como forma de protesto contra o genocídio e a fome em Gaza. Ou a matança, como diz um conhecido bêbado. Com razão - um bêbado nunca se contraria - porque morrem muitos, mas nascem ainda mais. O que faz com que os requisitos necessários para a existência de um genocídio não estejam a ser cumpridos. Os israelitas - há que reconhecer - estão a esforçar-se, contudo a malta de lá não colabora e continua a fazer filhos como se não houvesse amanhã. Nem o barulho, a poeira e os efeitos desagradáveis das bombas os demovem de procriar.


A parte da larica, a outra componente do pretenso protesto, também se afigura muito sui generis. É o primeiro surto de fome em que, ao contrário dos que vimos na Etiópia ou na Somália, as criancinhas são mais esqueléticas do que as mães. Se a banda sonora que acompanha as imagens que nos servem a toda a hora fosse traduzida, acredito que ainda ouviríamos algum petiz a berrar para a progenitora: “Que raio de mãe és tu”.


A julgar pela quantidade de “fri-fri palestaine” que vejo por aí e de tanta gente com problemas de digestão da propaganda que lhe colocam na gamela, acredito que o apelo à greve será um retumbante sucesso. Tão grande que vai ficar tudo mais paralisado do que daquela vez do apagão. Por mim já reforcei o stock de pilhas. Para trabalhar. É que eu prefiro a democracia e estarei sempre do lado em que mulheres podem usar mini-saia.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Estacionamento tuga

IMG_20250820_111317.jpg


 


Quem nunca, num parque de estacionamento “às moscas” ou com incontáveis lugares vazios, optou por estacionar num local inapropriado, chamemos-lhe assim. Eu já. Assim, tão à descarada e que me recorde, talvez não. Mas quem não o fez que atire o primeiro impropério. Embora este comportamento não tenha nada de mal. Tal como dizem certos aleijados da cabeça, quando chamados à atenção por pontapearem a gramática com elevada ferocidade, cada um escreve como quer. É mais ou menos o mesmo nisto do estacionamento. Cada qual estaciona o carrinho como lhe apetece e ninguém tem nada a ver com isso.

sábado, 16 de agosto de 2025

Sou pobre e maluco e não sabia...

IMG_20250815_214306.jpg


O komentariado nas diversas televisões está, na sua imensa maioria, entregue a gente esquisita. Tirando aqueles que vão lá em representação dos partidos – esses, ao menos, sabemos ao que vão – aquilo está cheio de cartilheiros, criaturas intelectualmente pouco honestas e outros que nem se percebe como é que alguém os contrata para ir falar à televisão. Ou é um reiterado erro de casting ou é de propósito para descredibilizar os órgãos de informação. 


Uma dessas criaturas, jornalista ao que parece, afirmou um destes dias que “temos um interior abandonado, envelhecido, em que não há esperança, em que as pessoas são pobres, isoladas e têm problemas de saúde mental”. Terá razão quanto ao abandono, envelhecimento, isolamento e falta de esperança num futuro melhor. Embora isso não seja exclusivo do Portugal interior. Ainda que não conheça as estatísticas, quase arriscaria escrever que velhotes a viver e morrer sozinhos em Lisboa e Porto não serão menos do que no restante território. Quanto ao resto, a pobreza e a saúde mental, só me posso admirar por haver tanto jornalista e tanta gente das televisões a comprar casa no interior do país, seja para viver ou como segunda habitação. Devem gostar de morar no meio dos pobrezinhos e de criaturas que não batem bem da cabeça. Há malucos para tudo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

A cartilha enquanto instrumento de tortura da realidade

Desde que apanharam em falso aquela moçoila do Chega que não sabia o valor do Rendimento Social de Inserção, não há debate em que o interveniente daquele partido não seja confrontado com a sacramental pergunta: “Sabe qual é o valor do RSI?”. Acompanhada, quase sempre, por um sorriso matreiro. Confesso que acho piada. Até pela originalidade. Mais ainda se, como foi o caso de ontem, em que o debatente do Partido Socialista depois de obtida a resposta – cerca de duzentos e cinquenta euros, mas sem ninguém ter a certeza – acrescentou a variante, “por família ou por pessoa?” referindo, sem esperar por resposta, ser deplorável que o interlocutor ache possível uma família de quatro pessoas, ainda que nenhuma trabalhe, viver com mil euros por mês. Isto dito por um tipo do PS, reitero. Aquele partido, não sei se estão recordados, que esteve no governo vinte e dois dos últimos trinta anos. De recordar igualmente, se calhar há gente do PS que não sabe, que há muitas famílias que se têm de governar com um valor idêntico e, pasme-se, até trabalham.


Por falar em gente alheada da realidade, circula um vídeo nas redes sociais de gente ligada à extrema-direita sobre supostas actividades religiosas daquela malta que reza de cú para o ar, à porta de uma igreja. Não digo que não aconteçam provocações desse género, mas no caso, trata-se de uma encenação efectuada durante um festival medieval. Manipulações desta natureza são, para além de desprezíveis, reveladoras do carácter de quem as faz e que apenas servem para descredibilizar as legitimas preocupações que os comportamentos desta comunidade estão a provocar na sociedade. Ou seja, o efeito contrário ao pretendido.


O que têm em comum estes dois assuntos? Nada, a bem dizer. Tirando aquela parte em que, em ambos os casos, se puxa da cartilha para torturar a realidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

O peso e a sabedoria popular

146d41a7-0adb-4d21-889f-e92939713268.png


 


Dizem os jornais de hoje que um homem faleceu sufocado pelo peso da sua esposa, que terá caído da cama e tombado sobre ele. O sujeito, um lingrinhas, não terá suportado a pressão exercida pelo corpo avantajado da senhora. Não é que queira fazer piadolas acerca do assunto, até porque o caso é sério, há que respeitar o falecido e ter em consideração a dor da esposa que vê o marido partir – ou ficar-se, conforme o ponto de vista – desta forma trágica. Nada disso. Ocorreu-me, no entanto, que no caso de as circunstâncias serem as inversas, ou seja o cavalheiro gordo a cair sobre a senhora magricela, esta tragédia não teria ocorrido. Segundo a sabedoria popular, um barrote em pé e uma mulher deitada aguentam todo o peso que lhes ponham em cima. É o que garantem também, entre outros especialistas das diferentes especialidade envolvidas, todos aqueles que estudam a resistência dos materiais. Lá está, essa coisa do “sexo fraco” não é bem como a pintam. Nunca foi.

domingo, 10 de agosto de 2025

A empatia do empoderamento

Já não suporto essa coisa da empatia. Digamos que não tenho empatia nenhuma por quem, a propósito de tudo e principalmente de nada, anda sempre com essa palavra na boca. Hoje toda a gente diz ser empática, todos exigem empatia aos outros e não há parvo nenhum que não pronuncie essa palavra pelo menos dez vezes por dia. Ainda que, a maior parte, não passem de uns empatas.


O mesmo com isso do empoderamento. Seja lá essa cena o que for. Agora, todas as gajas de esquerda se gabam, para além de ter empatia para dar e vender, de ser empoderadas. Muito empoderadas, mesmo. Uma coisa parva, é verdade, mas se elas se acham assim é melhor não as contrariar. Primeiro porque ninguém nota nada e segundo porque um maluco – ou maluca – nunca se contraria.


Num tempo em que mais vale parecer do que ser, faz sentido que muita gente se declare empática e empoderada. Provavelmente não é nem uma coisa nem outra, mas fica bem para o like, para por no currículo e para a auto-estima. Por mim, já estou como dizia o poeta: “detesto os bonzinhos”. E, de caminho, as empoderadas auto-proclamadas.

sábado, 9 de agosto de 2025

Surreal...

Não temos médicos, professores, engenheiros nem outros profissionais especializados nas mais diversas artes. Não temos transportes em condições ou em número suficiente, não temos habitação, não temos creches que cheguem para a procura e os serviços públicos estão à beira do colapso. Ainda assim as criaturas que até há pouco tempo nos governaram e a quem o povo resolveu punir, secundadas pelos sequazes que colocaram nos lugares chaves da decisão, exigem que se efective o direito ao reagrupamento familiar. Está tudo maluco. Ou, então, estão a fazer de propósito. Dizem que está na Constituição. Tal como o caminho para o socialismo, digo eu a talhe de foice. Reagrupe-se tudo, portanto. Nomeadamente aquelas famílias muito unidas, com duas ou três esposas e onde são todos primos e primas. Vai correr bem.


Por falar em famílias. Fica, a seguir, uma lista ordenada dos países onde os casamentos consanguíneos representam uma percentagem – estimada porque a realidade deverá ser muito pior - mais elevada do total das uniões matrimoniais. O que tem isto a ver connosco? Não sei, esclareçam-me. Só sei, usando uma figura de retórica, que “Podes tirar o macaco da selva, mas não tiras a selva do macaco”.


Países com maior taxa de consanguinidade (estimativas médias):
País - Percentagem estimada de casamentos consanguíneos
Paquistão 50–65%
Sudão 45–60%
Arábia Saudita 40–60%
Iraque 40–55%
Afeganistão 40–50%
Qatar 40–50%
Jordânia 30–40%
Síria 30–40%
Emirados Árabes Unidos 30–40%
Irão 25–35%
Sudeste da Índia (ex: Tamil Nadu) 20–30%
Egipto 20–30%
Líbia 20–30%
Omã 20–30%
Turquia (regiões rurais) 15–25%
Bangladeche 15–25%

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Habituem-se...

A comunicação social em Portugal – se calhar nos outros países também – devia ser objecto de estudo. O tempo de antena ocupado com declarações dos lideres de partidos absolutamente insignificantes e a quantidade de comentadores que lhes são afectos é desproporcional face à sua representação eleitoral. Quem os ouve falar há-de pensar que foram essas forças políticas, meramente residuais na sociedade e no parlamento, que ganharam as eleições. Têm, obviamente, todo o direito a questionar as opções de quem governa. Era o que mais faltava que não tivessem. Não têm é legitimidade – nem eles nem os comentadores que vestem essas camisolas – de pretender impor a sua vontade à maioria dos portugueses. Quem ganhou governa. Isso inclui, parece-me, implementar as ideias em que se acredita. É, afinal, para isso que pagamos aos políticos. Não gostam? Temos pena. As maiorias são o que são, duram o tempo que tiverem de durar e quando acabarem escolhem-se outros que constituam outras maiorias. Nem sempre são aquelas que, individualmente, nós gostamos, mas isso é a vida. Há cinquenta anos que é assim. É a democracia, ou lá o que é.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Aquilo de acabar com os ricos foi coisa que ficou...

“Trabalhadores a ganhar mais de três mil euros duplicaram em dois anos”. Serão agora, de acordo com um estudo efectuado por especialistas na especialidade, quase cem mil os que auferem mensalmente o valor liquido acima mencionado. Como adoro a clarividência dos portugueses em matéria financeira e tenho uma profunda admiração pela empatia que geralmente manifestam quando em causa está a distribuição da riqueza, fui ver os comentários à noticia. Não me decepcionaram. Para a esmagadora maioria trata-se de uma coisa má. Mesmo muito má, isso de haver algumas pessoas que viram os seus rendimentos elevados a um valor bem distante do que aufere a generalidade dos trabalhadores. Culpa desse malvado governo da direita que, veja-se o desplante, promove condições para que haja gente a ganhar mais. Uma vergonha, é o que é. Tudo a ganhar o salário mínimo é que era.


Não consigo compreender – nem, sequer, aceitar – este sentimento permanente de inveja. Admito que estes dados não são nada de especial. Representam apenas dois por cento da população e o ideal seria que muitos mais tivessem um ordenado assim ou, de preferência, superior. A indignação devia ser por apenas ter duplicado. Mas não. Continuamos a pensar pequeno e irrita-nos que o vizinho do lado ganhe mais, tenha uma casa maior ou um carro melhor.


Obviamente que aquela parte do governo criar condições para a existência de melhores salários continha ironia. O governo, seja de direita ou esquerda, à excepção da função pública e do SMN, não aumenta salários. Quando muito baixa os impostos que incidem sobre o trabalho. O que, diga-se, também desagrada, à maioria dos tugas. Ou não fossem quarenta e dois por cento as famílias que não pagam IRS.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

A lei é uma espécie de rotunda. Serve para ser contornada.

Não sei qual é o motivo para espanto relativamente à opção daquelas comissões de festas e autarquias locais que resolveram antecipar a hora do lançamento do foguetório para contornar a proibição destas práticas. Como se toda a gente, em todo o lado e em todas as circunstâncias não fizesse o mesmo no que concerne ao cumprimento das leis que não nos dão jeito cumprir. Nomeadamente daquelas que, como dizia um ex-Presidente de uma Câmara do norte, só servem para atrapalhar.


Veja-se, nisto de contornar a lei e só para recordar um dos mais flagrantes, o caso do memorando assinado com a Troika pelo governo de José Sócrates após os socialistas, terem falido o país. Durante aqueles anos participei em algumas reuniões onde a grande questão que se colocava, perante a sucessiva legislação que ia sendo publicada visando impor algum rigor às contas públicas, era invariavelmente “como é que vamos dar a volta a isto”. E, de facto, pouco daquilo se cumpriu. A única coisa que importava era demonstrar que se cumpria. Ou, como numa dessas ocasiões salientou um Secretário de Estado qualquer, se demonstrasse a intenção de cumprir. A tramoia foi tão bem urdida e o discurso tão bem elaborado que, ainda hoje, há quem continue a acreditar que não só se cumpriu como até se foi além do exigido pela Troika. Para a oposição é um discurso que dá jeito e percebe-se que o continuem a fazer. Que o cidadão médio acredite é que já uma cena a atirar para o esquisito. Ou não. Afinal, como os factos demonstram todos os dias, o país está repleto de ingénuos, crentes e alienados. Alguns, até, tudo isso em simultâneo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Prioridades pouco prioritárias

Facilitar os despedimentos, como exigem os patrões e o governo parece estar disposto a fazer, não se afigura como prioridade. Nem, sequer, necessário num momento de quase pleno emprego e de evidente falta de mão de obra em praticamente todos os sectores do mundo laboral. Excepto na administração autárquica. Aí há aos montes, cada vez mais e claramente em excesso, mas sobre isso falarei um dia destes. Quando me reformar, talvez. Ou antes, se me apetecer.


Sobre este tema – os despedimentos – os poucos comunistas que ainda restam, a esquerda que vai sobrando e os alucinados em geral têm, concedo, alguma razão. Tanta que até podiam assinalar os cinquenta anos do despedimento de vinte e quatro jornalistas do Diário de Noticias, efectuado por um tal José Saramago então director daquele jornal que, na época, era propriedade do Estado. Foi uma coisa que me ocorreu nem sei porquê, mas ficava-lhes bem. Seria uma forma bonita de protestar contra as arbitrariedades do patronado, do sistema capitalista em geral e dos pequenos tiranetes em particular. E inclusiva, também.

domingo, 3 de agosto de 2025

Agricultura da crise


 


A agricultura da crise de agora não é o que já foi. Depois de perdidos os anteriores cenários para a especulação imobiliária, como lhes chamariam criaturas de moral duvidosa, está actualmente limitada ao quintal cá de casa. São condições menos propicias, com pouco espaço e bastante mais dispendiosas, que isto de regar com água da rede não constitui uma opção sustentável. Digamos, face a estas circunstâncias, que estamos perante outro conceito. O da mobilidade – ou da portabilidade, talvez – agrícola. Dado que a exposição ao sol do espaço vai variando conforme as estações do ano, com esta solução as plantas podem ser deslocadas de maneira a que estejam expostas à luz solar o maior tempo possível. Um Sechium edule e um Vaccinium myrtillus são os primeiros experimentos neste campo. Que é como quem diz, nesta amostra de quintal. Para já evidenciam sinais de alguma vitalidade. Espera-se que a produção dê, pelo menos, para engasgar…

sábado, 2 de agosto de 2025

Ditadura do bem...

screenshot.jpg


Este cartaz colocado pelo Vox na cidade espanhola de El Ejido, província de Almería, resistiu pouco tempo à censura e à ditadura do politicamente correcto. É o mundo ao contrário. Ao invés de se condenar que, em pleno século vinte um, as mulheres andem pelas ruas com indumentárias que mais parecem sacos do lixo, condena-se quem a isso se opõe. Discurso de ódio, dizem. Incitamento à violência, racismo e mais umas quantas bacoradas da moda, constituem os argumentos dos pretensos defensores da democracia e da liberdade. As mesmas criaturas que, veja-se o topete, se fartam de berrar contra o fascismo, pelos direitos das mulheres que alegam estar a ser retirados e mais não sei quantas conquistas que nas suas mentes lunáticas estarão em perigo. A ironia da coisa é que serão as feministas e as auto-intituladas “empoderadas” – seja lá isso o que for – as principais vitimas do processo de islamização em curso na Europa ocidental. Desejo-lhes saúde suficiente para ainda por cá andarem quando, também elas, tiverem de andar envoltas em trapos pretos. Depois não se queixem.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Decidam-se, porra!

Ao que leio e ouço a todo instante precisamos de imigrantes. Mais. Muitos mais. Caso contrário o país pára por falta de mão de obra. Esta retórica, provavelmente verdadeira, é repetida por partidos de esquerda, governo, empregadores e gente que sabe tanto do que está a falar ou a escrever como eu de plantações de cannabis. Todos terão as suas razões para desejar a vinda de mais gente. Mas, convenhamos, a posição mais extraordinária acerca da imigração é a dos patrões. Ainda há poucos dias estavam preocupados com os efeitos nefastos da legislação recentemente aprovada, nomeadamente por dificultar a entrada de imigrantes e com isso colocar em causa o funcionamento das empresas devido à falta de mão de obra. Hoje, ao que foi noticiado, pretendem que o governo facilite os despedimentos. Receio não estar a perceber o sentido da coisa. Deve ser problema meu, admito, mas num momento de escassez de trabalhadores parece-me que faria mais sentido reivindicar maiores facilidades na contratação. Como, por exemplo e entre outras coisas, isentar de IRS e TSU os trabalhadores que optem por ter um segundo emprego. Hoje, por mais vontade, ambição ou necessidade poucos são os que estão dispostos a ter dois empregos. Com a actual fiscalidade, praticamente tudo o que ganham no segundo é para entregar ao Estado. Ou seja, trabalhar para aquecer. E disso ninguém gosta. Nem os imigrantes que me vão pagar a reforma.