Sob as mais variadas capas e os mais diversos pretextos não falta quem pretenda repor, cinquenta anos depois de “Abril”, princípios próprios do regime então abolido e de outros que felizmente, apesar dos esforços feitos nesse sentido, nunca chegaram a vigorar por cá. O controlo do que cada um de nós diz ou escreve é um deles. Há quem tenha a lata descomunal de defender publicamente a restauração da censura e a consequente limitação da liberdade de expressão. É isso que se pretende quando se defende o fim – ou o controlo pelo Estado, vai dar quase ao mesmo – das redes sociais. Em prol desta vontade, argumentam, está a defesa da democracia. Ou seja, para estas mentes iluminadas é preciso acabar com uma conquista das sociedades democráticas para proteger a democracia. A Rússia, a Coreia do Norte, a Venezuela, Cuba e outros faróis da democracia e das liberdades individuais já o fazem e, desconfio, pouquíssimos gostaríamos de habitar nesses países. Ficaríamos, como noutros tempos, sujeitos ao que os meios de comunicação social quisessem que nós soubéssemos. A história ensina-nos como funciona. Os exemplos são muitos e nem precisamos de ir muito longe. Basta lembrar o que fizeram – e quem o fez, no Verão quente de 1975, ao jornal “República”, os despedimentos efectuados pelo Nobel Saramago no Diário de Noticias ou as bombas que rebentaram com as antenas emissoras da Rádio Renascença.
Isto da populaça saber mais do que aquilo que as pretensas elites querem que se saiba é, reconheço, uma chatice. Seja sobre os “Panamá papers”, a Argentina ou as diatribes de um qualquer paladino da moral e bons costumes. Por falar nisso, onde posso encontrar um jornal ou um canal televisivo que investigue aquele escândalo financeiro – alguns garantiram, na época, que o fariam – ou que nos mostre – de forma séria, de preferência – as consequências da governação do Milei?





