quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Coisas da idade

A primeira vez que tomei consciência de que estava a ficar velho foi quando começaram a aparecer, nas principais equipas de futebol, jogadores mais novos do que eu. Nada que suscite preocupação a quem quer que seja, convenhamos. Deve ter sido por isso que não liguei. Ou, então, as alegrias que as novas gerações nos proporcionaram foram-me fazendo esquecer essa coisa do avançar da idade.
Poucos anos depois sucedeu o mesmo com os polícias. De repente, ou pelo menos assim me pareceu, um número significativo de agentes da autoridade tinha uma idade inferior à minha. Confesso que, ao princípio, achei estranho. Mas depois habituei-me. Até porque são cada vez mais e, reconheça-se, contribuíram para melhorar significativamente a imagem da polícia.
De há um tempo para cá está a acontecer o mesmo com os políticos. Mas, no que diz respeito a essa gente, estou com manifesta dificuldade em aceitar o facto com o mesmo optimismo que o fiz em relação a polícias e futebolistas.  Deve ser – quero acreditar nisso – por não nos proporcionarem alegrias nem contribuírem para melhorar coisa nenhuma.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Endividar para reinar

A ser aprovado tal como foi proposto, o orçamento de Estado para o próximo ano vai colocar em excesso de endividamento - logo sujeitas a umas quantas penalizações nada meigas – um número significativo de municípios. Entre eles alguns que, face à legislação ainda vigente, tem sido geridos de forma relativamente prudente e com os seus dirigentes a revelarem, em matéria financeira, um bom senso pouco habitual entre os autarcas.
Queixam-se os representantes autárquicos, no que são secundados por alguma imprensa, que as regras estão a ser mudadas a meio do jogo. Como se isso não fosse rotineiro de alguns anos a esta parte em relação a quase todos os sectores da sociedade. Mas, no caso das autarquias, nem será esse o caso. As novas regras entram, a merecer aprovação, em vigor no primeiro dia do novo ano e, por consequência, aplicam-se a um exercício que então se inicia. Ano novo, exercício novo, regras novas. Nada de mais, portanto.
O desequilíbrio financeiro das autarquias portuguesas devia constituir um caso de estudo. Deve-se, na maioria das circunstâncias, a investimentos inúteis, desnecessários ou que replicam outros investimentos igualmente inúteis e desnecessários já existentes na autarquia vizinha. Mas não só. A atribuição de subsídios a colectividades fantasma - no sentido em que são mais negócios familiares e grupos de amigos do que associações culturais ou desportivas – bem como uma pretensa agenda cultural que pretendem promover nos seus concelhos, tem igualmente contribuído para este estado de calamidade a que urgia colocar ponto final. Coisas que, no dizer do Presidente da ANMP, ficam comprometidas. Oxalá fale a sério.

sábado, 22 de outubro de 2011

Não será altura de começar a cortar os pintelhos?

Os subsídios de alojamento que alguns políticos auferem pelo facto de estarem deslocados da sua residência habitual poderão não passar de pintelhos. Mesmo quando vivem num alojamento perto do local de "trabalho" e que é igualmente seu. Também os subsídios de deslocação que vereadores ou membros das Assembleias Municipais auferem, quando se deslocam às reuniões dos respectivos órgãos, não terão grande expressão orçamental nem motivarão especial inquietação. Ainda que sejam, por exemplo, pessoas que estudam ou trabalham em Lisboa e que, com ou sem reunião, sempre se deslocariam a casa.   
Não está em causa a legalidade da marosca. Quem faz as leis não é parvo e, obviamente, não deixou espaço para que a questão da eventual ilegalidade fosse suscitada. Mas lá que é imoral disso parecem não sobejar dúvidas. Até porque o mesmo principio não se aplica à generalidade dos cidadãos ou das profissões. É o que dá, nas restantes actividades, não serem os próprios a fazer as leis pelas quais se vão reger.

Para o ano não esquecer de pedir factura

Se eu tivesse um pequeno comércio – ou mesmo que fosse apenas empregado de uma lojeca – numa pequena vila ou cidade de oito mil habitantes, não me regozijava com o facto de oitenta por cento dos meus potenciais clientes perderem uma parte significativa do seu poder de compra. A menos que esteja farto do negócio ou coloque a hipótese de emigrar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Antenas mal orientadas

Apesar do ecoponto estar mesmo ali ao lado – dez metros, se tanto – constituiu para o munícipe que resolveu mudar de antena uma distância demasiado grande para o seu espírito cívico. Estaria, provavelmente, com pressa de testar a qualidade do som, a nitidez da imagem ou de dar uma última olhadela na sintonia dos canais.
É verdade que este local não prima pela limpeza. Nem, sequer, as condições circundantes são propícias a que a zona apresente um aspecto minimamente asseado. Mas a verdade é que podia – e devia – estar bastante melhor. Pena que os moradores, uns mais que outros, diga-se, pouco contribuam para isso. Lamentável é que depois estas coisas nos saiam a todos do bolso.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Está tudo a arder, mas eles não sabem.

A julgar pelas reacções que se lêem nas caixas de comentários dos jornais on-line, blogues ou mesmo as que se vão ouvindo ao vivo e a cores, os portugueses ficaram bastante agradados com a proposta de orçamento para o próximo ano. Principalmente porque malha nos funcionários públicos e isso, como se sabe, cai sempre bem na opinião pública. Melhor apenas se despedissem aos milhares deles. Nesse caso talvez lhes arranjassem “por lá” um lugarzinho. O pior é que não vai ser assim. Ainda que muitos saiam da função pública, não vai haver lugares para ninguém. Mesmo que peçam muito, muito, muito. Que é como quem diz, metam cunhas. Muitas cunhas. Está tudo no tal presupuesto de que gostam tanto.
Apesar de nunca, nem em pequenino, ter ambicionado ser bombeiro, tenho por hábito colocar as minhas barbas de molho mal me apercebo que as do vizinho começam a ficar chamuscadas. Não me tenho dado mal com este princípio de vida e faz-me alguma confusão que outros – a maioria, como infelizmente a realidade parece demonstrar – continuem em festa quando a casa do lado está em chamas e o fogo há muito esturricou as barbas do dono. E nesta ocasião, como em muitas outras que aí virão, ninguém está a salvo. Espere-lhe pela pancada. Ou melhor, pela labareda.