terça-feira, 9 de junho de 2020

A gorjeta

Nunca hei-de entender o conceito de gorjeta. Não me faz sentido. Escusado será escrever que não dou gorjeta a ninguém. Em nenhuma circunstância. Acho a ideia paternalista, por um lado – assim, tipo, ganhas pouco deixa cá compensar-te porque até foste um gajo porreiro - e, por outro, profundamente discriminatória. Que é, como estou farto de escrever, dos comportamentos que mais me irritam.


Diria, até, que no âmbito da gorjeta a discriminação está institucionalizada e é socialmente aceite. O que, obviamente, me parece mal. Muito mal. Dar gorjeta a um barbeiro ou a um empregado de mesa é comummente aceite. Toda a gente o faz. Mesmo que o cliente saia da barbearia com um corte de cabelo de meter medo ao susto ou a refeição provoque daí por umas horas uma realíssima caganeira. Já à senhora que nos renova o cartão do cidadão ou ao funcionário que nos trata da licença do canito, por mais simpáticos que se revelem, nem pensar em dar gorjeta. E ainda bem. Fazê-lo seria até considerado crime, ou coisa parecida. Mesmo que, se calhar, estes últimos aufiram um vencimento mensal muito próximo daquele que recebem os primeiros.


Cada um ganha o que negociou com o patrão, ou seja lá o que for. Se está mal muda-se, como diria a minha avó. Mas a sociedade aceitar de bom grado arredondar o vencimento de uns e achar que outros, apesar de igualmente pobres, são uns mandriões e “já têm muita sorte em estar ali” é, digo eu, de uma profunda hipocrisia. Deve ter algo a ver com aquele conceito, geralmente detestável, da pobreza engravatada…

8 comentários:

  1. Está a "ouvir" as minhas palmas?

    Também não concordo com gorjetas!

    Beijinhos Kruzes
    Boa Noite

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  2. Ora bem falas de algo que também nunca participei. Quando ia com a minha mãe almoçar fora ela queria sempre deixar gorjeta o que me levava a discordar.
    Subscrevo inteiramente.

    Abraços e um bom feriado

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  3. Anónimo2:08 p.m.

    Totalmente de acordo.
    Uma curiosidade: em Londres, anos 80, os motoristas de táxi ficavam ofendidos se não recebessem gorjeta. Ouvi alguns ofender quem não lhe patrocinava o 'shot'.

    Cumprimentos, caro KK.
    Desculpe mas não deixo 'gorja' 😎

    Ass: O António

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  4. E os gajos dos casinos?! Uma das raríssimas ocasiões em que entrei num antro desses fui logo ofendido por não dar gorjeta!

    Bom feriado, caro António.

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  5. Há sempre alguém do contra.
    Fui criado (educado) a ver os homens da minha Família a darem gorjeta em restaurantes. Proporcional ao serviço recebido. Em adulto também aprendi que no caso do serviço prestado ter sido imprestável, não dar a esperada gorjeta ou (pior) deixar um tostão é uma 'ofensa' que sempre me deu prazer.

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  6. Todo o serviço tem um preço. Que é pago, por norma. Ser o comprador a acrescentar-lhe valor não me parece grande ideia...

    Cumprimentos

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