quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Mentes brilhantes. Ou delirantes, sei lá.

Vindas sabe-se lá de onde, ou sugeridas vá lá saber-se por quem, todos os dias surgem novas e mirabolantes ideias. Gosto, em especial, de duas. A primeira é a já desmentida intenção de portajar, para além das anunciadas ainda no tempo do anterior governo, mais uma quantidade de estradas. Requisito bastante seria, ao que foi noticiado, ter pelo menos duas faixas em cada sentido. Seria, porque afinal, já não vai ser. Talvez, quiçá, se fiquem pelas portagens citadinas para evitar o aglomerado de viaturas nos centros da cidade. Ou, se calhar, nem isso. É que estes ministros geniais, que até chateiam de tão geniais que são, começam a fazer lembrar o tempo do Guterrismo em que qualquer medida, nomeadamente as difíceis, era posta a circular sob a forma de boato para aquilatar as reacções que suscitava, até que, se houvesse muita reclamação, alguém do aparelho se apressava a esclarecer que tal coisa nunca estivera nas cogitações do governo. 
A outra ideia absolutamente fabulástica e que me entusiasma a um nível que até a mim surpreende, tem a ver a diferenciação em função do rendimento que se pretende introduzir no acesso aos mais diversos serviços do Estado. Ou seja, quem nada declara em sede de irs é pobre e terá acesso mais barato aos serviços de saúde, transportes, e fornecimento de electricidade e gás. Se alguma critica posso fazer é apenas relativa à pouca ousadia desta tão parva quanto improvável medida. Comunicações, nomeadamente televisão, internet e telemóvel, deviam também estar incluídas no pacote de apoio aos fiscalmente mais pobres. Ou, fazendo verdadeira justiça social, toda a espécie de bens, desde a alimentação aos combustíveis e do vestuário ao calçado, podiam igualmente ter preços menores, devidamente subsidiados pelo Estado claro está, para todos os que são pobres na altura de apresentar a declaração de rendimentos. 
Como para pagar todo esse desvario e ao mesmo tempo diminuir o desequilíbrio da escrita será necessário muito dinheiro, suspeito que novas ideias andarão já a fervilhar nas geniais cabeças dos não menos geniais ministros. Colocar um contador na boca e outro no rabo dos que pagam tudo é coisa para lhes ocorrer. Paga-se o ar que se respira – isso de andar por aí a respirar sem pagar nada tem de acabar – e o ar que se expele. Nada de mais se pensarmos no princípio do utilizador pagador ou do poluidor pagador.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dever é um direito!


A declaração dos banqueiros, produzida há meia dúzia de dias, reclamando do Estado o pagamento das dívidas à banca passou praticamente despercebida. Caso tivesse merecido maior destaque por parte da comunicação social e dos comentadores de serviço teríamos, com toda a certeza, assistido a reacções indignadas por parte dos sectores do costume. Sendo sobejamente conhecida a nossa aversão ao rigor e à disciplina, também em matéria financeira, qualquer posição que se assuma em prol dessa causa, para além de condenada ao fracasso, faz quase sempre despoletar um coro de protestos e manifestações de gente para quem o “dever” se afigura como um dos seus direitos mais sagrados. Ou adquiridos, depende da perspectiva. De facto é preciso um descaramento descomunal para vir a terreiro lembrar – esteja em causa o Estado ou não, é perfeitamente irrelevante – a necessidade de pagar o que já devia estar pago há muito tempo.
Quase de certeza que entre os que manifestam o desagrado por esta estapafúrdia exigência dos bancos, estarão alguns que sofrem na pele, provavelmente sem perceberem, as consequências deste vergonhoso incumprimento das administrações públicas. Ainda que as pessoas tenham manifesta dificuldade em entender, o que está em causa é a sobrevivência das empresas e a manutenção de postos de trabalho. Quer nas empresas que estão directamente a “arder”, quer das outras a quem as primeiras não pagam e por aí fora numa bola de neve que acabará, mais cedo do que tarde, numa enorme avalanche que a todos irá esmagar. 
A ligeireza com que se olha para os calotes e caloteiros – sejam eles pessoas, empresas ou administração pública – deixa-me boquiaberto. A benevolência, a tolerância e, por vezes, até admiração com que são olhados pela “vida” que ostentam, provoca-me, mais do que alguma espécie de irritabilidade, um sentimento de compaixão pelas débeis capacidades intelectuais dos que assim agem e pensam. Coitados, não conseguem perceber que é muito por causa deles – dos caloteiros de toda a espécie – que os ordenados descem, os impostos sobem, o desemprego aumenta e o trabalho escasseia. E depois a crise é que paga…salvo seja!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Coisas que não m'aquecem nem m'arrefecem mas que me divertem

António José Seguro, talvez o menos socrático dos socialistas, tem agora o apoio da esmagadora maioria dos socialistas mais socráticos. Ele há coisas…

Coisas que m’atormentam

A quantidade de gente que vem aqui parar através da pesquisa “gaijas” no Google. Mas o que raio é uma “gaija”?!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Cãotidiano"

O canito, coitado, manifestamente mais ajuizado que o dono, demonstra séria relutância em caminhar sob a chuva intensa que, na altura, se abatia sobre a cidade. De nada lhe valeu.  A trela sobrepôs-se à sua vontade e fê-lo prosseguir no encalço do outro maluco. É, portanto, uma imagem clássica do nosso quotidiano.

sábado, 30 de julho de 2011

A cultura das boas contas. Ou a falta de ambas.

Da leitura de blogues de uma localidade não muito distante concluo que a autarquia lá do sítio terá uma divida colossal à banca, a fornecedores e aos chamados agentes culturais e desportivos do concelho. Nada que, relativamente à divida financeira, inquiete alguém. Tão pouco o atraso na regularização dos pagamentos às empresas que venderam bens e prestaram serviços à autarquia é merecedor de grandes preocupações. O mesmo não se pode dizer da falta de cumprimento dos compromissos assumidos pela edilidade para com os tais “agentes”. Isso aí é que “alto lá e pára o baile”, que não pode ser.
Obviamente que as dividas, seja qual for a sua natureza, são para pagar. O que não se percebe é que o movimento associativo lá da terra exija um tratamento de excepção e que se arrogue no direito de receber o que lhe é devido, de forma prioritária relativamente aos restantes credores. Fizeram, com certeza, a planificação das suas actividades na perspectiva de receberem atempadamente os valores em causa e o incumprimento autárquico estará certamente a causar transtornos. Mas, e isto não se afigura difícil de perceber, o mesmo sucederá com as empresas que aguardam a regularização de dezassete milhões de euros há mais de trezentos e sessenta dias.
Perante este cenário, nem sei como classificar argumentos do tipo “o chavão da falta de dinheiro já não convence”, usado para criticar o atraso no pagamento das quantias acordadas com as associações. Há quem tenha dificuldade em perceber, especialmente na área cultural onde por norma as pessoas são mais avessas a números, que o dinheiro, tal como tudo, também pode acabar. Ou, no mínimo, que se trata de um bem escasso para ser usado com ponderação. O que, dadas as evidências, não terá acontecido no caso em apreço. E é a ausência de crítica das gentes da cultura à gestão desastrosa que os conduziu até este estado de coisas, que me deixa verdadeiramente perplexo. Pior. Se reclamam é apenas porque a tal Câmara promoverá, na opinião deles, poucas actividades culturais. Ou seja, a divida até podia atingir valores ainda mais astronómicos que, desde que eles recebessem, estaria tudo bem. Com uma cultura destas não admira que o país esteja neste estado!