segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Presos às dividas



Lamentava-se, aqui há atrasado, um dirigente de uma associação representativa dos profissionais das forças de segurança da situação, dramática segundo ele, que estaria a ser vivida por alguns dos seus associados e que, alegadamente, colocaria em causa o seu bom desempenho profissional. Dita assim a coisa podia, de facto, ser preocupante. Temos de concordar que, na maioria das circunstâncias, quando as forças policiais intervêm, o caso, já de si, será um drama. Se a isso acrescer uma história dramática que influencie o comportamento do agente, então, o caldo pode mesmo entornar-se.
Mas não. O assunto tão dramatizado pelo tal dirigente não merece especial relevância. Trata-se afinal da dificuldade que alguns polícias e militares da GNR estarão a sentir para pagar as prestações dos créditos que contraíram. Em certos casos, acrescentava o cavalheiro, noventa por cento do vencimento estaria já comprometido e que o restante não dava, sequer, para assegurar as despesas de alimentação.
É verdade que ser autuado por um agente esfomeado não é das coisas que mais me tranquiliza. Não me parece é que o assunto assuma o dramatismo que se lhe pretende colocar em cima. As forças de segurança são, esmagadoramente, compostas por gente competente e que sabe separar de forma conveniente o trabalho dos assuntos particulares. Não irão por isso ter agora um comportamento diferente de quando, com dinheiro emprestado, iam de férias para destinos exóticos, compravam todo o tipo de novidade tecnológica, trocavam de carro todos os anos ou compraram uma casa toda artilhada e com o dobro do tamanho do que necessitavam para albergar o agregado familiar.

domingo, 7 de outubro de 2012

E que tal um imposto para financiar a limpeza do que os vossos parentes sujam?



Parte significativa do país está louca. Doida varrida, mesmo. Andamos de mão estendida a pedir dinheiro emprestado para manter isto a funcionar, corremos o sério risco de um destes dias não haver dinheiro para pagar pensões e vencimentos à função pública, a possibilidade de tudo, mas mesmo tudo, paralisar por não existirem recursos para manter a máquina do Estado a funcionar é uma ameaça real mas, ainda assim, continuamos em festa e a exigir coisas cada vez mais parvas.
Nem vou, por agora, referir-me às inúmeras festinhas - patrocinadas pelos dinheiros públicos que não existem - que todos os dias se vão realizando de norte a sul e onde se vão esturrando os euros que não há, numa constante e criminosa delapidação do erário público. Centro-me, hoje, numa antiga reivindicação de alguns alienados que desde há muito exigem para os bichos o mesmo tratamento que os humanos em matéria fiscal. Querem estes loucos que a comida para animais tenha uma taxa de IVA reduzida, em lugar da actual taxa máxima, e que as despesas de saúde “com os elementos não humanos da família” – possivelmente algum terá um primo gato ou um cão como irmão – sejam passíveis de dedução no IRS dos donos. Dos parentes de duas patas, portanto.
O mais extraordinário é que esta gente não se coíbe de, publicamente, reivindicar este tipo de benesses como se fosse a coisa mais normal deste mundo. Numa altura em que estamos sujeitos a mais um “enorme aumento de impostos” é preciso descaramento para soltar idiotices deste quilate. Parece que ainda não perceberam – tal como os desvairados das festarolas – que não há dinheiro para maluquices. Vão-se tratar, pá. Porque para isso, embora pouco, ainda vai havendo.

sábado, 6 de outubro de 2012

O passado que fique lá atrás...



Tenho a sensação, de há tempos a esta parte, que no tradicional mercado das hortaliças, frutas e legumes – e de outras coisas – dos sábados de manhã, em Estremoz, haverá cada vez mais gente a vender e a comprar. Pode ser da crise, dos preços mais em conta relativamente às grandes superfícies ou apenas da minha vista, mas, semana após semana fico com a impressão de que há sempre mais um vendedor a tentar o seu negócio. Isto após muitos anos em notório declínio, em que era visível a diminuição de vendedores e de compradores e em que o lugar abandonado, normalmente por morte ou velhice do seu detentor, ficava vazio por muito tempo.
O futuro dirá se a minha percepção corresponde ou não à realidade. Por mais estranho que possa parecer espero que não. Desejo mesmo estar redondamente enganado. Seria um sinal de retrocesso civilizacional e que parte da população do concelho teria de voltar a viver – ou sobreviver – da terra, como nos tempos da miséria e da pobreza de que alguns se mostram saudosos. Bonito seria apenas para os turistas e para aqueles que, de barriga cheia e bem instalados na vida, acham importante preservar aquilo que chamam “tradição”. Principalmente quando a podem olhar do alto sem necessidade de a viver.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Não escrevi...mas podia ter escrito.



Não é hábito publicar posts que não tenham sido escritos por mim. Abro hoje uma excepção para este texto que me foi enviado por correio electrónico e que terá sido, segundo o remetente do e-mail, publicado originalmente na revista “Sábado”. É daquelas prosas tão jeitosas que até podia ter sido eu a escrever…



                 O estranho mundo dos autarcas  
 
Nos últimos dois anos, por causa da crise, muita coisa mudou em Portugal, mas houve uma que se manteve: o País continua, como sempre, a poder contar com os autarcas para introduzirem uma dose substancial de insanidade política em qualquer debate público em que se envolvam.

Este fim-de-semana, durante o congresso da Associação Nacional de Municípios, ficou mais uma vez provado que os presidentes de câmara estão perto das populações mas longe do planeta Terra. Primeiro, decidiram exigir ao Governo a revogação da Lei dos Compromissos - trata-se de uma legislação que (imagine-se o desplante) impede as autarquias de "assumirem compromissos que excedam os fundos disponíveis". Ou seja, impede-as de acumularem dívidas que terão de ser pagas pelos contribuintes.

Depois, para contrabalançar esta posição crítica, decidiram fazer algumas propostas construtivas: criar "uma nova instância política de âmbito metropolitano eleita por sufrágio directo e universal" (faltou dizer quanto custa); incentivar o "fortalecimento e dinamização das Comunidades Intermunicipais" (sim, também faltou dizer quanto custa); e lançar uma Comissão Nacional da Administração Local (pois, faltou dizer quanto custa).

Os autarcas portugueses não têm a mais pequena dúvida de que estão certos e de que todos os outros estão errados: as propostas da troika são "um embuste, fruto da ignorância atrevida", o Governo é um mero "cúmplice" das "instituições internacionais" e todos aqueles que querem diminuir o número de freguesias são "realmente loucos" e estão "contra a vontade do povo".

Se a isto tudo juntarmos o facto de o congresso ter acabado com o abandono de parte dos autarcas e com uma votação feita debaixo de assobios e insultos, ficamos a perceber melhor como seria o País governado por presidentes de câmara com ainda mais poderes e ainda mais dinheiro para gastar - seria animado, mas perigoso.