terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Não aconteceu...ainda.

O medo está instalado entre os mais velhos. Nomeadamente naqueles que vivem sozinhos. Como se a crise, as baixas reformas, a solidão e as maleitas associadas ao avançar da idade não constituíssem já motivo bastante para preocupações, os acontecimentos dos últimos dias têm deixado muitos idosos à beira de um ataque de nervos. E o caso não é para menos. De repente toda a gente começou a dar conta do sumiço de um vizinho detestável, daqueles que normalmente se deseja que vão morrer longe, e vá de chamar a policia, os bombeiros ou outras pessoas com jeito para arrombar portas e janelas, no intuito de se certificarem que o velhote se encontra no recesso do seu lar. 
Não sei se já terá ou não ocorrido - mas se não ocorreu não tardará a ocorrer - uma situação em que alguém saia de casa sem dizer água vai, de resto não é obrigado a fazê-lo, com o intuito de passar uma temporada em casa dos filhos, de amigos, conhecidos ou de alguma amante e, no regresso, se depare com a porta deitada abaixo ou alguma janela estilhaçada por uma legião de vizinhos intrigados com a sua ausência. Aliás esse pode muito bem passar a ser o álibi para qualquer amigo do alheio que revolva introduzir-se numa residência. Se apanhado pela policia, pode sempre argumentar que se foi apenas inteirar se o morador - de preferência idoso - se encontrava vivo e bem de saúde. 
Nem tudo, neste campo, são más noticias. Terá sido, finalmente, encontrada uma idosa viva na sua própria casa. Aguardam-se, com expectativa, que sejam reveladas as razões para tão macabro achado.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Invejosos!

Interrogo-me acerca do que poderá motivar uns quantos portugueses a vir para a rua manifestar-se contra o primeiro-ministro de outro país. Ao que consta, a Itália - é contra Berlusconi que protestam - não pretende invadir nenhuma outra nação, tão pouco tenciona declarar guerra a quem quer que seja e, tanto quanto se sabe, nem sequer decretou qualquer espécie de boicote aos produtos que exportamos. O que, certamente, deixaria o nosso primeiro profundamente irritado mas não causaria preocupações de maior aos manifestantes. A inquietação desta malta é, pasme-se, com as actividades alegadamente libertinas a que se dedicará o chefe do governo italiano. 
O homem, apesar da idade avançada, será, ao que dão conta algumas noticias, danado para a brincadeira. Terá múltiplas amantes, recorrerá aos serviços de prostitutas e dedicar-se-á a práticas pouco próprias para a sua idade. O que, parece, está a indignar alguns. Ou a causar inveja, quiçá. Desconfio, no entanto, que se o gajo fosse paneleiro o pessoal que anda por aí a protestar nem piava.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O importante é proteger a privacidade dos vigaristas

Quando, por tudo e por nada, se levantam questões relacionadas com a privacidade e com a divulgação dos dados pessoais de cada um, não deixa de ser espantosa a facilidade com que se expõem fotografias e disponibilizam informações pessoais na Internet colocando-as à disposição e ao alcance de qualquer um. Bem intencionado ou não. 
Por outro lado, quando é o Estado que pretende ter acesso a coisas tão banais como, por exemplo, saber que rendimentos aufere cada cidadão para aferir se deve ou não ter acesso a benefícios sociais ou quanto deve pagar de impostos, levanta-se toda uma panóplia de questões acerca da protecção da privacidade no sentido de evitar aquilo a que alguns chamam devassa da vida privada. Como se o Estado, todos nós portanto, apenas tivesse obrigação de distribuir o que uns quantos pagam sem se preocupar se aqueles que recebem necessitam ou não. 
Infelizmente o controlo peca, ainda, por escasso. Desde o inicio do ano que para ter acesso às prestações sociais é necessário, para além de estar abaixo de determinados montantes a nível remuneratório, permitir que a Segurança Social tenha conhecimento dos valores das contas bancárias dos beneficiários. O que é manifestamente insuficiente. Quando um, ou mesmo os dois, membros do casal trabalha por conta própria não há qualquer espécie de controlo sobre os seu rendimentos, o que permite a essa gente continuar a receber as prestações sociais como vinha acontecendo. 
Estes burlões, que todos conhecemos, vão continuar a rir-se de nós. Os parvos que não conseguimos esconder um cêntimo do que ganhamos. E vão também continuar a bradar pela privacidade. A tal que vai permitindo que saquem os recursos para os quais não contribuem. Confesso que me apetece escrever por aqui uma dúzia de nomes. Mas, descansem vigaristas, não o vou fazer. Isso seria violar a vossa privacidadezinha.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Contestatários

Nos dias que se seguiram ao vinte cinco de Abril de setenta e quatro, “Nem mais um soldado para as colónias” era uma palavra de ordem que se berrava nas manifestações que, então, se realizavam quase diariamente por todo o país e que, simultaneamente, se pintava nas paredes de vilas e cidades. Manifestar-se e pintar paredes eram, naqueles tempos conturbados, actividades prazenteiras e que agradavam ao pessoal. 
Depois disso houve ténues tentativas de contestar o serviço militar obrigatório em que foram usadas frases como “Não quero ir à máquina zero”, “Tropa não” e outras onde se manifestava uma certa irritabilidade perante a obrigação de "assentar praça". Não levaram a lado nenhum, é verdade, mas sempre iam animando o pagode mais contestatário. Porque, como se sabe, o fim da tropa obrigatória apenas aconteceu quando Paulo Portas foi ministro da Defesa de um célebre governo que foi demitido porque o Presidente de então, Jorge Sampaio, se cortou ao fazer a barba. 
O fim das "crianças soldados" é, também, uma boa causa. Embora, por se tratar de uma realidade distante, pouco mobilizadora. Mas, ainda assim, lixada. A mensagem também não ajuda. É fraquinha. Os mentores da ideia podiam, por exemplo, ter optado por pendurar as mãos com o dedo médio espetado. A fazer o característico gesto obsceno. É o que merece essa malta das guerras. Não que eles se importassem, mas tinha mais piada. Tal como está parece uma ornamentação manhosa a embelezar o coreto decrépito. Sem êxito, diga-se.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Opções parvas

O caso da velhota encontrada morta na sua residência, quase nove anos depois de uma vizinha ter dado conta do seu desaparecimento, despoletou na comunicação social um inusitado interesse pela situação em que vivem muitos idosos. Têm-se sucedido os opinadores de serviço, cada um a cagar a sua estaca, colocando quase todos especial ênfase na falta de solidariedade entre vizinhos, no desprezo que os familiares nutrem pelos seus parentes mais velhos e numa sociedade cada vez mais envelhecida onde escasseiam jovens e abundam idosos. 
Terão, com certeza, alguma razão. Pena que se fiquem por um diagnóstico simplista do problema. Não vejo apontar o dedo a um modelo de organização do trabalho que exige cada vez mais a quem trabalha, ao Estado que se demite do apoio à terceira idade, a muitas instituições ditas de apoio social mas que se preocupam muito mais com os apoios que podem angariar para si próprias do que com os que deviam prestar nem, por último mas mais importante, a um modo de vida que inverteu todos os valores. 
Nos últimos anos anos o Estado entendeu promover o aborto em lugar de fomentar a natalidade ou cuidar da saúde dos que mais precisam. Tem recursos para fazer, gratuitamente, interrupções voluntárias da gravidez a todas as mulheres que o desejem, mas não possui dinheiro para pagar abonos de família ou o transporte de doentes. Garante um rendimento mensal a quem não quer trabalhar, mas é incapaz de assegurar um lugar onde quem trabalhou toda a vida possa passar, tranquila e devidamente acompanhado, os últimos dias. 
Situações como a agora conhecida irão, seguramente, multiplicar-se. Constitui uma fatalidade a que será impossível escapar. Trata-se, tão só, de colher os frutos dos comportamentos que temos andado a semear. Em lugar de filhos optamos por ter cães, as poupanças para as contingências da velhice são gastas com automóveis ou naquela viagem de sonho e aplaudimos quando a autarquia lá sitio opta por construir um centro de acolhimento a extra-terrestres* quando devia construir lares de idosos. Temos, portanto, o que merecemos. 

* Substituir por outra obra, igualmente parva, entre as muitas obras parvas que as autarquias promovem.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Estacionamento tuga

Prevaricar dá, ao tuga, um especial gozo. Principalmente quando entre as mãos tem um volante. Sente-se, nessas circunstâncias, como um verdadeiro inimputável. Só isso justificará alguns comportamento a que diariamente se assiste nas ruas das nossas cidades e nas estradas do país. 
Veja-se o caso da foto. Nesta rua é permitido estacionar em, aproximadamente, setenta e cinco por cento do seu comprimento. Pois onde é que o tuga vai deixar o carrinho? Precisamente no sitio onde a sinalização não permite e a ocupação da faixa de rodagem prejudica o normal fluxo de transito. Nomeadamente a entrada nas Portas a veículos de maiores dimensões. Que o digam condutores e passageiros dos autocarros, obrigados a esperar que o tuga se digne a mover o tugamóbil para outro lugar. 
Como se pode apreciar, não é por falta de regulação que as coisas não correm nada bem por aqui em matéria de trânsito. Se calhar o mal também não estará na fiscalização porque, como está fácil de ver, não pode haver policias em todas as ruas o tempo todo. Provavelmente o problema será apenas a ausência de um qualquer Sandokan...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Kruzes kanhoto!

"La bolsa del miserable llega el diablo y la abre" é um dito popular espanhol cujo significado não é difícil de entender. Deparei-me com ele no sábado passado, em Estremoz, e estava - provavelmente ainda estará, a menos que se tenha quebrado - inscrito num prato que se encontrava à venda numa banca da feira de velharias. 
Como sempre é Belzebu a carregar com a culpa. Coitado. Chego, confesso, a ter pena do Mafarrico. Há por aí muito pior. Daqueles que são o Diabo em figura de gente. Assim, de repente, estou a lembrar-me de outro nome a quem incriminar pelo assalto à minha bolsa. 
E por falar em espoliação recordo que, no último vencimento, já não recebi o abono de família. Cinquenta e três e euros. Começa, portanto, a ser tempo de exigir explicações. Ou o país melhorou a sua situação financeira - pelo menos neste montante - ou então alguém se está a apropriar do que é meu. A gamar, como é fácil de ver. E não é o Chifrudo. Ou então é.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Fumaça ao lusco-fusco

Até ao momento não foram ainda divulgadas as causas que motivaram a intensa fumarola que se elevava ontem, ao final da tarde, num bairro periférico da cidade. Enquanto as autoridades competentes - ou, até mesmo, as incompetentes - não revelam os resultados da investigação que terão levado a cabo, toda a especulação acerca do ocorrido é legitima. 
Especulemos então. Dada a hora da ocorrência, o lusco-fusco, é provável que se tratasse de um churrasco. As febras estavam em promoção no Modelo e da cerveja de lata, na dita superfície comercial, praticamente apenas restavam as embalagens de cartão. A escassez de carrinhos de compras, usados vulgarmente como grelhas para suportar a carne sobre as brasas, pode igualmente ser considerado um indicio que nas redondezas estaria a ocorrer um festim gastronómico. 
Podia, em alternativa, tratar-se apenas de um fogaréu destinado a aquecer os habitantes. O tempo tem estado a atirar para o fresco e as mudanças de temperatura são uma coisa lixada. Capazes de deitar um gajo abaixo. Ou uma gaja. Convém, portanto, aquecer o exterior para não estranhar quando se sai à rua abandonando o conforto do ar condicionado. Chato apenas o pivete a borracha queimada que se entranha pelas ventas, mas a malta está habituada.
Pouco plausível, quase até de descartar, a hipótese avançada por algumas línguas mais viperinas que sugerem poder tratar-se de algo relativamente pouco licito. Assim do género de queimar objectos que incorporam elevado teor de materiais pouco nobres e ainda menos rentáveis. Itens, chamemos-lhe assim, que se encontram por aí ao Deus dará e mesmo a pedir que alguém lhes deite a mão.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A menos que seja criminoso ter direitos é (quase) um crime...

Ultimamente apareceram na imprensa e blogues de opinião prosas, quase tão brilhantes quanto os seus ofuscantes autores, em que se pretende incriminar as gerações que hoje têm quarenta, cinquenta ou sessenta anos, pelas dificuldades sentidas pelas gerações seguintes. Nomeadamente as que hoje estão na casa dos vinte e trinta anos. Segundo o luminoso pensamento, terão os primeiros todas as comodidades e privilégios enquanto os últimos, coitados, vitimas do desvario de pais e avós, viverão condenados a pagar o bem estar e o conforto dos que os antecederam. 
Seria de bom tom - e de algum rigor intelectual, também - que essa gente que assim disserta explicasse a quem se está a referir. Se é à geração de políticos que vive à conta do Estado - seja pela via de reformas, tachos diversos ou promoção conseguida através de desempenho de cargos públicos - então estaremos de acordo. O mesmo não acontece se, no grupo dos segundos - os tais desgraçados - não incluir as carinhas larocas sub-quarenta que têm lugar nas diversas bancadas do parlamento e todos os Ruis Pedros Soares desta vida. 
As desigualdades gritantes a que assistimos, parece-me por demais óbvio, têm muito pouco a ver com a idade dos portugueses. Os factores que as originam são outros e pretender associa-los a direitos básicos é de uma indigência mental que até mete dó. Curiosamente a culpa nunca é apontada por estes badamecos à corrupção, à economia paralela ou a um patronato bronco, incapaz, incompetente e praticamente iletrado. Se calhar, digo eu, coisas em que gente que assim analisa se reconhece.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O cu e a estratégia politica

Com mais ou com menos deputados, em democracia, os parlamentos nacionais são instituições respeitáveis e que, por consequência, devem ser respeitados. O mesmo se aplica aos governos. Aqui ou nos países que ficam três dias para lá do sol-posto. Pena é que, nem cá nem lá, se dêem ao respeito. Não seria com certeza pedir demais, nem constituiria exigência de maior, que deputados e governantes ocupassem o seu tempo a tratar de coisas sérias. 
A seriedade parece, contudo, ser algo inconciliável com a função. Por cá, os nossos representantes passaram semanas entretidos a discutir a possibilidade legal da realização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Num longínquo país dos confins do continente africano, governo e parlamento, estudam aturadamente a hipótese de criminalizar a flatulência em público. Num e noutro caso o cu aparenta ser o cerne da questão. O que não admira. Ou não fossem os políticos, em todos os lugares do mundo, verdadeiras cagaitas. Daquelas que se agarram a qualquer coisa, por mais fina que seja, para evitar que sejam removidas.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Travessuras

Se para alguma coisa serviram as últimas eleições foi para nos tentarem convencer que um dos candidatos, até agora agora tido como sério e honesto, não passaria de um maroto. Um mariola da pior espécie, mesmo. Um gabirú conforme o caracterizou, num momento de rara sagacidade, um analista politico da nossa praça, entre um bagaço no quiosque decrépito e um jogo da malha ali no Rossio. 
Foi graças ao pretérito acto eleitoral que ficámos a saber que não podemos confiar num homem que compra e vende acções, que troca uma propriedade por outra e, desconfia-se, ainda é gajo para ter trocado algum electrodoméstico mais problemático com recurso ao cartão de fidelização de uma loja estrangeira. 
O que não se sabia, nem desconfiava, é que o senhor em causa terá igualmente trocado um beco mal-afamado por uma travessa. E não foi por uma daquelas, apanhadas no lixo ou roubadas a um qualquer espólio doméstico, que os ciganos vendem a preços exorbitantes aos tios e tias de Lisboa no mercado das velharias aos Sábados de manhã. Nada disso. É daquelas à séria onde já não mora ninguém e as casas estão todas à venda.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Mas ninguém sabe fazer contas?!

O actual Partido Socialista parece estar, finalmente, inclinado para admitir a hipótese de proceder à reforma administrativa do país. Que é como quem diz extinguir uns quantos municípios e freguesias. Esta ideia está a entusiasmar uma legião de comentadores, na internet e fora dela, que têm debitado as mais variadas alarvidades acerca do que deve ser extinto, das inúmeras vantagens que isso comporta e da imensa poupança que isso vai representar para as contas nacionais. Mais do que reorganizar seja o que for é de reduzir custos que se trata, portanto. Pelo menos é por aí que a discussão está a começar. 
Os pequenos municípios do interior são o principal alvo dos que manifestam opinião acerca deste assunto. Argumentos não lhes faltam. Curiosamente ou talvez não, ninguém, mas mesmo ninguém, questiona a existência de dezasseis municípios no distrito de Lisboa, dezoito no distrito do Porto e, pasme-se, nove (!!) naquilo a que vulgarmente se chama "margem sul". Alguns de dimensões minúsculas e quase ridículas mas com um aparelho "administrativo-politico-empresarial" de proporções gigantescas e cuja extinção representaria, de facto, uma poupança de recursos assinável. Coisa para valer, cada um deles, por duzentos ou trezentos Barrancos. Por ano.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Contenção que ainda é capaz de acabar com tensão

Verdade verdadinha que gostava de comungar do positivismo exacerbado e da infinita esperança num futuro radioso que emana das hostes socialistas. Ficaria deveras agradado se, tal como esses optimistas inveterados adoradores do ainda líder do actual PS, fosse capaz de descortinar mais do que um país, qual navio sem rumo, a navegar à vista, prestes a afundar, tomado de assalto e governado por um bando de piratas doidos. E histéricos a maioria deles. 
Deste rótulo não excluo nenhum nível de governo. Desde o central até à mais pequena junta de freguesia. Que, por acaso, é aqui perto e, se calhar, até é bem gerida, diga-se. Depois de terem andado a despejar rios do dinheiro que não tínhamos em cima de uma crise onde, argumentavam para justificar tão parva estratégia, o importante era ajudar a economia veio outra crise - que por acaso até era a mesma - e desataram a cortar a torto e a direito - mais o primeiro que o segundo - com a justificação que é necessário poupar e rentabilizar os recursos que, afinal, são escassos. 
Nessa altura, a exemplo do governo, não houve autarquia que não elaborasse o seu plano anti-crise. Muita despesa, muito apoio a tudo e mais alguma coisa, que no apoiar é que está o ganho e as eleições eram logo a seguir. Volvidos poucos meses e uns quantos actos eleitorais, a história repete-se. Mas ao contrário. Multiplicam-se os planos de contenção de custos e as despesas são seleccionadas criteriosamente. Ou quase. O governo corta na saúde, no abono de família e aumenta todo o tipo de taxas e impostos. As autarquias isentam ou reduzem os preços dos bens e serviços que vendem ou prestam aos seus munícipes, aumentam as comparticipações financeiras a associações e eleitores e, qual cereja em cima do bolo, apoiam os agregados familiares em situação de insolvência. Os tais que estouraram todos os limites de crédito, que não pagam um chavo das dividas que contraíram, se pavoneiam como se fossem gente importante e que deixaram outras famílias a arder com as dividas que não pagaram. Parece-me justo!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Preconceitos

Na sequência das declarações de Pedro Passos Coelho, preconizando o encerramento das empresas públicas com prejuízos crónicos, o porta voz do actual Partido Socialista acusou o líder social democrata de ter preconceitos ideológicos contra tudo o que é público. De facto só um preconceituoso da pior espécie se atreveria a alvitrar o fecho de uma empresa que, ano após ano, dá prejuízo. Ainda mais tratando-se de uma empresa pública que, como se sabe, não tem como finalidade dar lucros mas sim empregar a rapaziada com pouca apetência para o trabalho possuidora de cartão de sócio do partido do poder. Seja qual for que lá esteja. 
Em matéria de preconceito relativamente ao tecido empresarial do Estado o Coelho alaranjado não passa de um menino. Se calhar porque lhe convém. Sabe que terá de manter no sector público muitas empresas, para nelas poder albergar todos os laranjinhas que se vão chegar à frente quando o PSD ganhar eleições e formar governo. Porque se realmente defendesse os interesses do país e dos portugueses tratava - por enquanto sugeria, já que não pode fazer outra coisa - de vender tudo o que é participação do Estado. Incluindo no bolo as participações autárquicas e regionais que, à semelhança das outras, apenas servem para dar tachos, esconder divida pública e, alegadamente, encher os bolsos de dúzia e meia de oportunistas. E para nos levar à ruína, também. 
Preconceitos há-os para todos os gostos. Há quem ache que o Estado deve ter uma imobiliária, porque um edifício só é bem vendido se for uma empresa estatal a vende-lo. Ou deve ser dono de uma firma de distribuição de encomendas porque, como toda a gente sabe, uma carta só chega ao destinatário se entregue por uma empresa pública. Já para não falar de um banco. Porque, se o Estado não fosse o único accionista da Caixa Geral de Depósitos, os juros pagos aos depositantes seriam ridiculamente baixos, os empréstimos eram taxados com juros usurários e um gajo era capaz de estar uma hora à espera de ser atendido num qualquer balcão de um desses bancos manhosos.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Opções esquisitas

Por diversas ocasiões tenho defendido que os municípios, nomeadamente do interior, devem orientar as suas prioridades de investimento para a terceira idade. Em lugar de creches e escolas para crianças que não vão nascer ou megalomanias diversas que servem apenas para elevar o ego de autarcas à beira da demência, parece-me de uma lógica mais do que evidente - tão evidente que até me faz confusão que poucos a vejam - que a aposta deve ser, inequivocamente, nos mais velhos. Até porque temos muitos. 
Embora muito de vez em quando, vão surgindo noticias que me fazem acreditar que um ou outro autarca ainda conserva algum bom senso e mantém um nível aceitável de contacto com a realidade terrena. É o caso de um pequeno município do interior, envelhecido como quase todos os outros, que pretende construir cinco lares de idosos noutras tantas freguesias do concelho. Para tanto lançou já o concurso para elaboração dos projectos e tenciona, apesar da crise, iniciar as obras ainda este ano.
Ficará, com esta opção, impedido de subsidiar generosamente actividades importantes - almoços, jantares e comemorações diversas, por exemplo - ou manifestações culturais em que participaria parte significativa da população - cinco ou seis eleitores, vá, e quase todas da mesma família - mas pode, em contrapartida, contribuir para resolver muitos problemas de caracter social a um número cada vez maior de pessoas. De caminho contribui igualmente para criar umas dezenas de postos de trabalho e, assim, manter mais uns quantos habitantes. Há, vejam lá o desplante, quem ache isso importante.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Democratas pró-fascistas

Muito boa gente - e outra não tão boa quanto isso - anda por estes dias entusiasmada com as manifestações, alegadamente clamando por liberdade e democracia, que nas últimas semanas têm vindo a ocorrer no Norte de África. Em particular na Tunísia, que já levaram à queda do governo local, no Egipto e, mais timidamente, na Argélia. Pese as tendências ditatoriais dos governos destes e dos outros países da região, não acredito que a queda daqueles regimes seja algo que possamos saudar. 
Mesmo que a democracia, mais ou menos parecida com a que conhecemos no ocidente, seja implementada por aquelas bandas depressa assistiremos a uma "evolução" para um regime islâmico-fascista. Será apenas uma questão de tempo. O tempo suficiente para a realização de duas eleições. Isto partindo do principio, que não dou por adquirido, que os vulgarmente designados como moderados ainda conseguem ganhar as primeiras... 
Deve ser isso, presumo, porque suspiram os democratas de pacotilha que tanto vibram com as revoltas, alegadamente populares, a acontecer do outro lado do Mediterrâneo. É, de resto, a única explicação que encontro para o ódio que nutrem à única democracia que vigora em toda aquela região.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Variante, sim!

É frequente argumentar-se quando determinado projecto demora mais do que o habitual a ser levado à prática, que interesses pouco claros estarão a impedir a sua concretização. Não será, com certeza, o caso da variante do IP2 à cidade de Estremoz. Aqui, pelo menos alegadamente, tudo o que tem contribuído para a não efectivação da obra até parece muito claro. 
Apesar do permanente conflito de trânsito no local, dos sucessivos e cada vez mais frequentes atropelamentos e de todas as condicionantes que envolvem a zona da cidade atravessada pela Estrada Nacional dezoito, a sua construção afigura-se cada vez mais uma miragem. É contra este estado de coisas que surge esta petição  reclamando a construção da variante a Estremoz do IP2. Não sei se adianta ou não alguma coisa, sou bastante céptico em relação a petições, mas que se trata presentemente da obra mais importante para a cidade, disso, não tenho grandes dúvidas. A menos que alguém pense que outros valores, como uma paisagem bucólica ou um monte no Alentejo, valem mais que uma vida humana.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Grande ideia!

É sobejamente conhecido, pelo menos para aqueles que tem a paciência de me ler ou o azar de me aturar, que não aprecio as ideias do Bloco de Esquerda. Há gostos para tudo e a mim dá-me para isso. Podia, reconheço, ser pior. Mas, como em tudo na vida, também no campo das ideias há uma ou outra excepção que confirma a regra. É por isso que manifesto o meu apreço, concordância e que considero extremamente valorizável, a sugestão dos bloquistas de Estremoz relativamente ao nome a atribuir à nova avenida que, brevemente, irá começar a ser construída na zona da actual estação do caminho de ferro. Não que, ao contrário daquela organização politica, discorde da intervenção que vai ser realizada na zona. Nada disso. A recuperação de todo aquele espaço, bem como todas as infraestruturas que ali serão criadas constituirão uma inegável mais valia para a cidade. Agora chamar ao novo arruamento Avenida da Desertificação, como a malta da extrema-esquerda sugere, é que é uma grande proposta. Está muitíssimo bem escolhido, sim senhor. Sinto, confesso, uma certa inveja de não ter sido eu a ter a ideia.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Anda por aí uma malandragem...

Estremoz é, ainda, uma cidade segura. Embora, ao que conste, os amigos do alheio tenham estado particularmente activos nas últimas semanas. Produtividadezinha da boa no ramo do gamanço, portanto. Ainda assim os actos, públicos e devidamente publicitados, que correm pelo tribunal local relacionados com a delinquência comum serão num número significativamente inferior aos que se relacionam com calotes e manigâncias correlativas. O que, não sendo tranquilizador, não deixa de ser um dado curioso e a ter em conta quando falamos de gatunos e de outro tipo de cidadãos igualmente respeitáveis. 
Apesar da pacatez do lugar, vai havendo uma ou outra situação que me deixa com os sentidos mais alerta. Como, por exemplo, um café com uma clientela anormalmente elevada de ciganos no exacto momento em que seguro, com uma mão, uma nota de cinquenta euros para pagar o euro milhões e, com a outra, a carteira. Isso enquanto me ocorre que tenho o telemóvel num dos bolsos do casaco e a máquina fotográfica no outro. Claro que, pensando friamente, não havia razão para temores. Afinal o telefone tem dez anos, a máquina é quase tão má como as fotos que tira e, a julgar pela quantidade de garrafas de cerveja que enfeitavam as mesas, deve ter sido dia de receber o rendimento.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Fim de circo

Que me recorde - se não for assim que se lixe, não estou para ir confirmar - apenas numa ocasião abordei, aqui no Kruzes, o tema de actualidade que marcou as últimas semanas. As eleições para a presidência da república. Foi um acontecimento desinteressante, sem graça, cinzento - até parece que estou a repetir uma critica feita em tempos a este blogue - que felizmente já passou e do qual pouco mais vão ficar do que as dividas. Para os do costume pagarem. Como é óbvio. Assim como assim também já estamos habituados. 
Estivemos perante candidatos pouco dados à paródia, demasiado sisudos e incapazes de nos surpreender. Mesmo aquele que, de entre todos, reunia as melhores condições para animar o eleitorado acabou por se revelar uma profunda decepção. A comprová-lo as suas últimas declarações, já depois do acto eleitoral, em que se manifestava convencido que os portugueses o levam a sério e que os seus votantes o terão feito porque acreditaram na sua mensagem. Fiquei, confesso, ainda mais desiludido. Um gajo pode ser maluco, até aí tudo bem, mas não precisa de ser parvo.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Boicotes

Dia de eleições é, inevitavelmente, dia de boicote. Há-os para todos os gostos. Razoáveis e compreensíveis uns, parvos e despropositados outros. Principalmente quando visam protestar contra situações que afectam apenas um determinado grupo de pessoas e não a localidade no seu todo, ou quando os motivos que levam à tentativa de chamar a atenção dos centros de decisão são, digamos, idiotas e cobrem de ridículo quem os faz. 
Dos boicotes de hoje, pelo menos dos conhecidos, destaco dois que não abonam em nada a inteligência - ainda menos o bom-senso - de quem os promoveu. Na localidade algarvia de Fuzeta os pescadores acharam por bem boicotar o acto eleitoral por causa da barra marítima lá do sitio que, segundo eles, não reunirá as necessárias condições de segurança. Muito provavelmente terão razão. Agora impedir o direito ao voto a outras pessoas, que na sua maioria não têm nada a ver com isso, é uma atitude de arruaceiros que num país a sério era capaz de dar direito a umas vergastadas no lombo. Para amaciar. 
No âmbito do ridículo - e do parvo, também - temos o protesto de uma aldeia que reivindica a abertura da casa mortuária. Parece que na igreja faz frio, sentem-se desconfortáveis durante os velórios e, pior, falam desalmadamente durante os mesmos. O que constitui uma vergonha. É o que garante uma velhota certamente profunda conhecedora dos comportamentos a ter durante a permanência num templo. Acresce a isto que o edifício alvo da discórdia estará concluído e que apenas não abre porque a Câmara não terá ainda pago ao construtor que, assim, não entrega a obra. 
Acredito que também neste caso os habitantes da aldeia em causa, desgraçadamente não fixei o nome da terra, estejam cobertos de razão. Pena, no entanto, que não protestem com a mesma veemência quando a autarquia paga - se é que o faz, evidentemente - almoços, jantares e lanches aos velhotes, os leva a passear à borla por esse país fora, organiza festarolas com os artistas do momento, contrata os amigos para fazer "coisas" e dá subsídios a associações que apenas existem para organizar almoços, jantares e lanches, levar pessoas a passear por esse país fora ou contratar amigos para fazer "coisas".

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Merdosos

Verdadeiramente notável que uns quantos, por sinal os que clamaram durante anos pela redução de vencimentos na função pública, se mostrem agora indignados por Cavaco Silva defender que, em alternativa, o governo devia ter criado um imposto extraordinário para todos os que ganham a cima de um determinado montante. 
É, de facto, uma reacção espantosa. Não me surpreenderia por aí além se fosse um qualquer palerma ignorante a ter esta opinião. Mas não. Os palermas que a proferem são tudo menos ignorantes. São daqueles que fazem opinião e que, em muitas circunstâncias, detém influência nos que tomam decisões. Mas não menos merdosos por isso. E filhos da puta, também.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Discutir o género dos anjos

A esquerdalha nacional, pós-moderna e dotada de uma superioridade moral incontestável, não dá mostras de abrandar a sua cruzada em busca de novos e improváveis temas fracturantes. Propõe-se agora trocar palavras que sempre usámos - e que eu, que me estou cagando para essa cambada, continuarei a usar - como "raça" e "sexo" por "etnia" e "género". 
Receio que me esteja a escapar alguma coisa. É que, assim de repente, não consigo descortinar vantagens para as alterações propostas. Pelo contrário. Os mal-entendidos vão suceder-se e as relações entre as pessoas poderão sair seriamente prejudicadas. Conversas, até agora banais, poderão dar para o torto, por mal interpretadas, e provocar reacções de consequências imprevisíveis. Nem me atrevo a dar exemplos. Até porque cada leitor pode, com facilidade, encontrar meia-dúzia deles cada um com mais piada que o outro. Direi apenas que esta gente de má-raça não faz o meu género.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Plano maquiavélico

Acredito convictamente que está em curso um plano maquiavélico tendente a exterminar parte significativa da população portuguesa. Especialmente a mais pobre e, por consequência, mais dependente dos apoios do Estado. O objectivo será deixar de gastar os muitíssimos milhões que estas pessoas custam ao erário público e, com o seu desaparecimento, equilibrar as contas do país. 
Não comparo o mentor de tão macabro plano a nenhum autor de qualquer outro genocídio. Até porque não há termo de comparação. Anteriores politicas genocidas foram dirigidas contra cidadãos de determinada raça, nacionalidade ou crença religiosa, enquanto no nosso caso ela não faz distinção de cores, lugar de nascimento ou crenças religiosas. Vai tudo a eito. Basta não ter dinheiro. 
Depois de muitas outras medidas que tem vindo a ser tomadas ao longo dos últimos anos, decidiram-se agora por não transportar doentes às consultas ou exames que lhes são marcadas pelos médicos. Existirão, alegadamente, esquemas manhosos em redor deste negócio. Basta olhar para as praças de táxis, ou para as frotas das corporações dos bombeiros, para desconfiar da marosca. Mas isso não justifica o radicalismo da decisão de deixar os doentes a pé, condenando à morte os que não têm meios para se deslocar nem dinheiro para pagar a quem os transporte. 
Mais cedo do que tarde esta será mais uma área a ficar sob a alçada das autarquias. O que, diga-se, nem me parece mal. Afinal se as juntas de freguesia e as câmaras municipais têm dinheiro para levar velhinhos a Fátima e a outros locais de reconhecido interesse turístico, ou se podem pagar milhões em almoços e espectáculos dos Tóinos Carreiras desta vida, também devem ter algum para transportar quem está doente e precisa de ajuda médica.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A chama imensamente cara

Apesar do preço dos combustíveis estar a atingir novos máximos históricos, os portugueses não dão sinal de prescindir do uso do automóvel ou de, pelo menos, fazer um uso mais racional da viatura particular. Significará isso que o nosso bolso resistirá a mais uns quantos aumentos desse e de outros bens de que não damos mostra de aceitar colocar de parte. 
Confesso que a mim, apesar de não ter um poço de petróleo no quintal nem possuir acções de nenhuma gasolineira, considero que há coisas bem piores do que esta escalada de preços. Acho até alguma piada aos pretensos protestos e às patéticas tentativas de boicote, em relação a algumas marcas dominantes no mercado, que vão circulando pela internet e enchendo as caixas de e-mail com mensagens de caracter marcadamente infantil. 
Mesmo suscitando menos atenção por parte da comunicação social, o preço do gás de garrafa tem aumentado a um ritmo que nada fica a dever aos seus parentes líquidos. Refira-se que o preço de uma botija de onze quilos de propano rondaria, ainda há relativamente pouco tempo, os dezassete euros. Hoje custou-me vinte cinco euros. Ora, se percorrer de automóvel os mil metros que me separam do emprego pode – e bem – ser considerado um luxo, já tomar banho ou confeccionar as refeições não se me afigura como tal. Mas, estranhamente, não vejo nem ouço preocupações quanto a isso. Será que o pessoal só come sandes e toma banho de água fria?!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Estranho conceito de ocupação do espaço

Pretender taxar as máquinas multibanco com o argumento que estão a ocupar a via pública é uma ideia própria de loucos. Fundamentar tal decisão não será fácil e vai com certeza requerer aos proponentes de tão parva medida que puxem pela imaginação a um nível que é capaz de deixar sequelas. Esforço, ainda assim, bem menor do que aquele que os habitantes dos concelhos onde esta parvoíce for avante terão de fazer para suportar mais este custo. Sim, porque apenas os proponentes acreditarão – se calhar nem eles – que a banca não fará reflectir nos seus clientes o valor que tiver de pagar às Câmaras. 
Já situações como as que mostra a imagem não estarão sujeitas a nenhum pagamento por ocupação da via pública. Vá lá saber-se porquê terão merecido o licenciamento municipal e, embora ocupem largos metros quadrados de espaço pertencente ao domínio público, não integram os planos dos autarcas para angariar receitas. Evidentemente que os moradores não são responsáveis, nem podem ser responsabilizados, por este tipo de aborto urbanístico. Mas alguém projectou, aprovou e executou. Era capaz de não ser má ideia pôr essa malta a pagar a tal taxa. Porque, isto sim, ocupa mesmo um espaço que é de todos.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Gente a quem só falta ladrar (e abanar o rabinho, vá)

Gabo a paciência aos que se levantam manhãzinha bem cedo – alta madrugada, quase – para levar o cão à rua com o intuito deste fazer a cagada matinal. Igual se aplica a quem, ao anoitecer - se calhar são os mesmos - faça frio, chuva ou as duas coisas em simultâneo, se obrigue a passear o rafeiro até que este tenha largado na via pública tudo aquilo que o dono – gajo asseado, portanto – não quer em casa. Chega a ser comovente ver como, debaixo de uma carga de água ou a tiritar, uns fulanos ou fulanas esperam pacientemente enquanto o amiguinho de quatro patas vai hesitando quanto ao melhor local para aliviar a tripa. É vê-los na Avenida da Estação, ao cimo da Rua dos Telheiros, à volta do Rossio e em todos os poucos locais da cidade onde existe um pouco de relva. 
Não sei se a apetência por espaços relvados é dos cães ou donos. Por um lado acredito que seja dos canitos, porque sempre que o portão do meu quintal fica aberto é mais que garantido que aparece merda na relva. Por outro, olhando para os passeios, fico com a impressão que aos animais lhes é indiferente e que são os donos que escolhem os espaços verdes. Deve ser porque já habituados a levar para lá os filhos ou os netos. 
Em muitas localidades foi colocado, nos locais mais críticos, este tipo de equipamento que disponibiliza sacos de plástico para recolha dos dejectos. Por cá ainda não existe tal coisa. Pelo menos que tenha dado por isso. Não sei qual o seu nível de utilização onde já é disponibilizado mas, estou em crer, não deverá ser elevado. O que não justificará a sua aquisição e implementação entre nós. Ainda usavam os sacos para ir às compras ao Lidl. É que se quase todos os donos afiançam que ao seu cãozinho só falta falar para ser como as pessoas, a realidade demonstra-nos que a muitos donos só falta ladrar para serem como os cães.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Legislação humilhante. Especialmente para quem a aprova.

O assunto não é novo e tem motivado acesa discussão em diversos blogues onde foi abordado. Trata-se de uma iniciativa legislativa, a decorrer em Espanha, pela qual se pretende aplicar pesadas multas a quem provocar a outrem um sentimento de humilhação. Não fora a tendência da coligação  entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda, acolitados pelo Partido Comunista, para copiar tudo o que no país vizinho se aprova em matéria de costumes e a coisa não teria especial relevância para os portugueses. Até porque a maioria de nós não dominará o castelhano vernáculo e ofender espanhóis na nossa língua é perfeitamente ineficaz. 
Assim de repente a ideia do legislador nem parecerá mal de todo. O pior é que o projecto de lei em apreciação no parlamento espanhol, inverte o ónus da prova. Ou seja é ao acusado a quem compete provar que não ofendeu o queixoso. Também o que poderá ser considerado como ofensivo variará conforme a sensibilidade ou o humor de cada um. Daí que, mesmo a verificar-se a sua cópia para este lado da fronteira, não estou a ver como possa ser aplicada entre nós, pois, como toda a gente sabe, somos verdadeiros especialistas em contornar as leis. 
Vários casos têm sido dados como exemplo onde a lei se pode aplicar. Se, hipoteticamente, alguém perguntar a homem solteiro se tem namorada, isso pode ser considerado ofensivo e motivo para que ao bisbilhoteiro seja aplicada uma coima. Basta para tanto que o inquirido seja panasca e se sinta ofendido com a questão. 
É por estas e por outras que até nem me desagradava que os súcias portugueses seguissem o exemplo espanhol e aprovassem lei semelhante. Pelo menos perto de mim mais ninguém contava anedotas de alentejanos.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Gente que quer é obrar

O anuncio de uma nova obra, a realizar com dinheiros públicos, provoca inevitavelmente reacções de caracter contraditório. De um lado estão os que a acham imprescindível, inadiável e que já vem com muitos anos de atraso mas que, acrescentam quase sempre, mais vale tarde do que nunca. Do outro os que acham que será mais um desbaratar de recursos ou que, em lugar da que é anunciada, devia ser feita outra coisa qualquer. Essa sim importante. Embora se fosse outra dissessem exactamente a mesma coisa. Haverá também quem pense que, se calhar, o melhor é não fazer nada porque isso só serve é para “eles” encherem os bolsos. Ou – a minha preferida e que parcialmente comungo – mais uma factura para nós, contribuintes, pagarmos. 
Isto sucede em todos os patamares do poder. Seja na freguesia, no município ou no país. Quando, mesmo que não passe ninguém, se promete construir o fontanário para matar a sede a quem passa, se anuncia a construção de várias rotundas, porque está na moda ainda que apenas sirvam para chatear, ou se insiste em fazer uma linha de tgv só porque o chefe do governo gosta de brincar aos comboios. Trata-se, acredito, de uma estranha patologia que afecta quem é eleito. Por uma qualquer razão que escapa ao meu entendimento, parece que quem ocupa cargos de poder tem, obrigatoriamente, de gastar dinheiro e de fazer obras. E nada nem ninguém os consegue convencer que, em muitas circunstâncias, fariam melhor se estivessem sossegados. Mas há quem goste e aplauda. Vá lá saber-se porquê.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Não é liquido que a banca tenha falta de liquidez

Todos os dias somos bombardeados com noticias que nos dão conta da escassa liquidez da banca e do perigo para a estabilidade do sistema financeiro que isso representa. Lamenta-se, em simultâneo, a dificuldade que os bancos portugueses terão em se financiar no exterior e quanto isso é terrível. Porque, dizem, não podem assim responder aos pedidos de crédito de empresas e particulares. O que, ao que se ouve e lê, inviabiliza o funcionamento da economia e provocará, profetizam, um verdadeiro desastre. Ou o fim do mundo tal como o conhecemos. 
Tudo isso, acredito, será verdade. Mas, confesso, tenho uma leve desconfiança que a coisa é capaz de não ser bem assim. Não que ponha em causa a análise económico-financeira de quem diariamente nos transmite essa ideia – eu era lá capaz disso! - mas porque as evidencias parecem demonstrar o contrário. Ainda há dias um dos maiores bancos a operar em Portugal enviou pelo correio, aos seus clientes mais jovens, um contrato de crédito pré aprovado através do qual se propunha conceder-lhes em empréstimo de quinze mil euros. Bastava para tal devolver, até podia ser pela mesma via, os documentos devidamente assinados. 
Ora se isto é assim quando se verifica escassez, nem quero imaginar como será quando houver fartura. Provavelmente irão apontar-nos uma pistola à cabeça para nos forçar a contrair um crédito.