quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Patriotismos

Afinal, contra tudo o que têm andado a pregar os economistas do regime, consumir parece que agora é um acto de patriotismo. Embora a conclusão seja minha, não vejo que outra ilação possa tirar das palavras de um dos comentadores económicos de serviço que hoje garantia ser o consumo das famílias, a par das exportações, o que nos pode salvar de entrar novamente em recessão. Considerava mesmo o brilhante analista, que uma quebra da procura por parte dos portugueses teria consequências desastrosas para a meta de crescimento económico que o governo prevê para o ano que agora começou e, de uma maneira geral, para o país. 
Não sei como é que alguém que defende uma redução de salários tem a lata de pronunciar semelhante dislate. Com os preços mais altos e o vencimento mais curto, pretender que o consumo não diminua, afigura-se uma ideia própria de um lunático. Ou então não. A julgar pelos parques de estacionamento das grandes superfícies os portugueses parecem querer fazer-lhe a vontade. Uns patriotas é o que nós somos.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Um país a cair aos bocados

Dezenas de anos de politicas urbanísticas e de habitação desastradas tem conduzido à situação desastrosa em que se encontram muitas cidades por esse país fora. Centros urbanos a cair aos bocados e construção de novos prédios, mais ou menos intensiva consoante a dimensão do núcleo populacional, constituíram a imagem de marca de qualquer terreola. Hoje, apesar de felizmente se construir menos do que aconteceu  há alguns anos, ainda não se vislumbram sinais que o inicio da premente tarefa de recuperar muitos milhares de prédios degradados possa estar próximo. Essa parece ser uma prioridade que esbarra de frente com as agendas – e, se calhar com as necessidades de financiamento – de políticos e outros decisores. Ou com as ideias parvas de técnicos que preferem fazer politica sem ter sido eleitos.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Alguém que diga, CORTA!

O relevo que a comunicação social, nomeadamente a televisão, está a atribuir à morte de um tal Carlos Castro é manifestamente exagerado. Todas as mortes são de lamentar, mais ainda quando se trata de um crime, mas o destaque que o assunto está a merecer é despropositado, principalmente quando não há nada de relevante a acrescentar ao que foi noticiado no primeiro momento. A criatura em causa não terá feito nada de importância na vida que tenha contribuído para o bem comum e, portanto, todo este espalhafato em redor do seu falecimento é algo para que não se encontra explicação lógica. 
Por estes dias faleceu também Vitor Alves. Um militar de Abril. Alguém que, goste-se ou não do que isso representa - e eu até nem gosto por aí além – é uma figura incomparavelmente mais importante para o país e que teve um percurso de vida que poderá ser apontado como exemplo. Não mereceu, ainda assim, nem um cagagésimo do tempo de antena dedicado ao outro morto. Provavelmente, no caso do militar, a comunicação social terá procedido de forma correcta ao cingir-se a noticiar óbito. O erro estará na forma ridícula e desproporcionada com está a acompanhar a morte do larila. A menos que o interesse da notícia provenha dos contornos macabros que terão rodeado o crime e o que daí possa interessar a alguns que também têm peças que não lhes servem para nada.

O pecado mora no centro da cidade

Segundo a última edição do “Brados do Alentejo”, para quem não sabe é dos três jornais que se publica em Estremoz, as instalações sanitárias do jardim municipal constituem um verdadeiro espaço multi-usos bem no centro da cidade. Para além do uso normal, que qualquer cidadão igualmente normal lhes dá, servirão ainda como loja social no ramo dos materiais de canalização onde os mais carenciados se vão abastecer, gratuitamente está bem de ver, de quase tudo o que precisam para colmatar as avarias que vão ocorrendo nas suas próprias casas de banho. Parece que torneiras e autoclismos serão os objectos mais procurados e que manter o stock, que é como quem diz o equipamento a funcionar, se estará a revelar tarefa difícil em consequência do elevado número de clientes que acorrerá ao local. 
Apesar do mau jeito e do evidente prejuízo para os cofres da autarquia, o desaparecimento deste material nem será o principal problema que as autoridades identificaram no local. Pior, mas muito pior, serão os actos indecorosos que, alegadamente, se praticarão no interior das ditas instalações. Diz que aquilo é para o muito e bem feito. Como diria a minha avó. Só num dia, pela manhãzinha, a senhora da limpeza terá encontrado treze preservativos com evidentes vestígios de utilização recente. 
A situação, já de si preocupante, assume ainda proporções mais alarmantes porque um cidadão, presumivelmente com necessidades fisiológicas inadiáveis, terá sido impedido de entrar no local por alguém que assegurava a segurança das actividades libidinosas que estariam a a decorrer no interior do edifício. O que, convenhamos, é muito grave. O coitado do pacato cidadão – e pode acontecer a qualquer um – não só teve de evacuar do local como, em compreensível aflição, teve de arranjar outro sitio para proceder à evacuação que o organismo exigia. 
O caso constitui um problema de difícil resolução para a Junta de Freguesia responsável pelo espaço. Qualquer medida para evitar estas ocorrências não será de fácil implementação nem conseguirá os resultados pretendidos. Nomeadamente para os roubos do equipamento. Já quanto aos actos pecaminosos que, supõe-se, por ali acontecem talvez, digo eu, se deva começar por colocar uma maquineta disponibilizadora de camisinhas e, de seguida, contactar uns gorilas que precisem de exercitar os músculos para dar uma carga de porrada aos moinantes que andam a usar os wc's públicos para actividades lascivas de caracter privado. Se calhar o mais fácil será optar pelo encerramento entre o lusco-fusco e o amanhecer. Mas, nessa circunstância, espera-se que a Junta, como medida preventiva, coloque nas imediações uma significativa quantidade de vasos de noite.

domingo, 9 de janeiro de 2011

No subsidio é que está o voto

As Câmaras descobriram nos chamados apoios sociais um novo filão onde podem distribuir, como muito bem lhes apetecer, largos milhares de euros entre os seus eleitores. Mais ou menos o que sempre fizeram mas agora mais às claras e com regras muito menos apertadas. Consta que serão já em número significativo as autarquias que, alegadamente, tem vindo a dilatar o prazo médio de pagamento a fornecedores em consequência da transferência de recursos financeiros para apoio aos estratos eleitorais mais desfavorecidos. O que não deixa de ser irónico, por poder criar um circulo vicioso e assaz preocupante em que o Município não paga às empresas, que por sua vez deixam de pagar aos trabalhadores que, à rasca, vão à autarquia pedir um subsidiozito. 
A coisa está, no entanto, a dar para o torto porque a segurança social incluirá esses benefícios no cálculo do rendimento familiar. O que fará com que os beneficiários desses apoios deixem de ter direito às prestações sociais de que até aqui vinham auferindo. Ou seja, a vontade de “ajudar” é tanta que às vezes até atrapalha. Evidentemente que as pessoas devem ser apoiadas nos momentos difíceis. Mas cada caso é, obviamente, um caso. Tanto do lado de quem atribui os subsídios como do lado de quem recebe. Generalizar, ou distribuir de forma indiscriminada, este tipo de ajuda constitui um erro, descredibiliza o que às vezes até podia ser uma boa intenção e provoca um sentimento de injustiça, que se pode tornar perigoso, naqueles que pouco ou nada têm mas que vão passando ao lado destas benesses. 
O pior é que os exemplos conhecidos não são os melhores, tanto no que se refere à maneira como são atribuídos os diversos apoios ou à forma como são usados pelos seus destinatários. Para além de ser da mais elementar justiça usar uma malha muitíssimo apertada na altura da concessão, os apoios concedidos deviam ser em géneros, em prestações de serviços e apenas em casos muito especiais em dinheiro, mas com a condição de nunca serem os próprios a geri-lo. Os exemplos, que quase toda a gente conhece, mostram-nos que, infelizmente, o dinheiro público assim entregue é gasto em quase tudo menos àquilo a que se destina. Recordo, para não ir mais longe, o caso do subsidio – em dinheiro - atribuído aos alunos carenciados para livros que nunca chegam a ser comprados pelos progenitores.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Quanto é que isto dá em abonos de família?

Por desmandos como os que hoje são revelados pelo Diário de Noticias não constituírem novidade, são do conhecimento de quase toda a gente medianamente informada, é que fico com os meus poucos cabelos em pé sempre que ouço uns quantos javardolas debitarem alarvidades quando se pronunciam acerca da alegada crise. Nomeadamente quanto aos motivos que nos fizeram chegar a este ponto e às mezinhas que preconizam para isto entrar nos eixos. Vem, invariavelmente, sempre à baila o celebre, mas nem por isso menos miserável, aumento de 2,9% em vésperas de eleições no ordenado dos funcionários públicos. Esquecem-se os papalvos que, no escasso período de dois anos, tudo isso foi devorado por sucessivos aumentos de impostos e contribuições. Só em IRS, ADSE e CGA já lá vão quatro por cento. Mesmo para quem aufere fantásticos vencimentos de seiscentos ou setecentos euros. Além do desaparecimento de mordomias injustificáveis como, por exemplo, o abono de família. Tudo injustiças a que um governo deste partido socialista teria de pôr cobro.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Candidatos deploráveis

Estou-me nas tintas para as eleições presidenciais e positivamente cagando – que é para não me chamarem negativista - para os respectivos candidatos. Pouco me interessa, por isso, a quanto o Cavaco comprou ou vendeu a porra das acções da SLN ou quanto pagaram ao Alegre por escrever meia dúzia de baboseiras a propósito de uma banco onde, alegadamente, se praticariam umas certas manigâncias. Também me comove muito pouco que o Nobre candidato tenha assistido, nas suas altruísticas missões, verdadeiras pelejas onde galináceos e gaiatos se degladiavam por migalhas de pão. Igualmente acho pouco relevante os combates que o Lopes do PCP alega ter travado desde jovem pelas coisas em que acredita. Até porque cada um acredita no que quer, compra e vende ao preço que pode, ajuda quem lhe dá na realíssima gana e ganha a vida como lhe parece melhor. Não necessariamente por esta ordem, claro.
À excepção dos intervenientes neste circo e seus apaniguados, o restante país está-se a borrifar para as campanhas que os aparelhos tentam criar. Sujas, negras, baixas ou simplesmente promocionais por mais nomes com que as baptizem. Era deste contexto que o Defensor e o Coelho podiam tirar partido e, graças a ele, ter alguma visibilidade e granjear apoios entre os portugueses. Mas não. O primeiro insiste em falar a sério. O que, vindo de quem foi presidente de Câmara, constitui um manifesto contra-senso. O segundo – o Coelho da Madeira – ou está a ser boicotado pela comunicação social ou então perdeu a imaginação, até há pouco prodigiosa, para inventar novas formas de divertir o pagode. 
É perante as candidaturas destes seis canastrões sem graça, cinzentões e aborrecidos, notoriamente incapazes de motivar o interesse do eleitorado, que damos valor a personalidades como Manuel João Vieira, Pinto da Costa, José Castelo-Branco e outros que tais. Imagine-se a diversão que não constituiria um debate entre estes três personagens!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

"Não se mencione o excremento" (É o titulo de um blogue que gosto de ler)

Tenho para mim que o governo – não no sentido genérico do termo mas este governo, o actual – nos quer ver mortos a todos. Ou a quase todos. Pelo menos àqueles que são menos abastados. Só assim se podem entender os sucessivos cortes e as medidas que têm vindo a ser implementadas visando, alegadamente, reduzir os custos do Estado em matéria de saúde e bem-estar social. A estratégia até pode ser brilhante. Reduz gastos, pela eliminação de pessoas de fracos recursos, e contribuirá para o equilíbrio das contas públicas. Mas este comportamento tem um nome. Que, obviamente, não menciono. O Kruzes é um blogue sério e o nível mais baixo a que desce é a merda de cão. 
A propósito de bater a bota, esticar o pernil ou, simplesmente, falecer, lembrei-me de uns dados que vi recentemente num qualquer sitio que trata de dados mais ou menos recentes. Parece que são cada vez mais os portugueses que optam pela cremação em lugar do tradicional enterro. O significado deste facto pode suscitar várias leituras. Quase todas preocupantes, diga-se. Pode, por exemplo, depreender-se que o país se tornou de tal forma insuportável que nem depois de mortos por cá querem permanecer. Ou, esta mais altruísta, continuarem para além da vida – mesmo que por pouco tempo - a transmitir algum calor humano. Embora, muito particularmente no caso das senhoras, talvez prevaleça a intenção de, ainda que apenas por alguns momentos, serem uma verdadeiras brasas. 
Mas, reitero, seja com um lindo enterro ou uma quente cremação, os gajos querem é que a gente vá desta para melhor. A confirmar as minhas suspeitas está, para além do anteriormente referido, o facto de todas as prestações sociais terem sido sujeitas a redução de montante ou retirada a sua atribuição aos que, segundo o Excremento, delas não necessitam. Todas?! Que digo eu...Parece que o subsidio de funeral não sofrerá qualquer diminuição.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pânico selectivo

Como seria de esperar os mercados reagiram com inusitada agitação à prolongada – quatro longos e desesperantes dias - falta de actualizações do Kruzes Kanhoto. Os rapazolas, espalhados pelo globo atrás de computadores, que quais mariquinhas se assustam por tudo e por nada, entraram em histeria colectiva e o resultado foi o disparar dos juros exigidos ao Estado português pela compra da nossa divida. O impacto da ausência das costumeiras opiniões profundamente irrelevantes que por aqui vou expressando foi, como se verificou, devastador.
A reacção a este fenómeno de transcendente importância é, no mínimo, preocupante. Aguarda-se, por isso, com expectativa o resultado das providências cautelares contra os intentos governativos de reduzir salários à função pública. Se obtiverem êxito podemos estar perante uma drama de proporções inimagináveis e que poderá levar ao suicídio – ou, até, a coisa pior – de muitos desses tais rapazolas, assustadiços e amaricados, a quem chamam mercados. Alguns brilhantes comentadores, instados a pronunciar-se acerca desta remota possibilidade, manifestaram a sua inquietação por tal facto nos poder colocar na iminência de um verdadeiro cataclismo. Ou à beira do autoclismo. Não sei ao certo porque havia muito barulho quando os analistas de serviço emitiam opinião. 
Já as múltiplas e inúmeras excepções à anunciada redução salarial não parecem perturbar nem constituir motivo bastante para fazer tremer os mercados de medo. Parece-me – eu bem que andava desconfiado – que esta malta dos mercados – os tais rapazolas amaricados – é muito selectiva nas coisas que escolhe para se assustar.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Desejos para 2011

No inicio de um ano todos formulamos desejos quanto ao que gostaríamos de ver concretizado durante esse período de tempo. Para além de outras coisas comuns a toda a gente, que nem vale a pena estar para aqui a relatar de tão comuns que são, desejo que em dois mil e onze todos os positivistas militantes - ou militantes positivistas, a ordem para aqui não interessa nada - saiam do armário e tentem contagiar-nos com a sua energia positiva. Ajudem o líder, já cansado de o fazer sozinho como confessou em tempos, a puxar pelas energias do país. Venham para a blogosfera – meio privilegiado para a divulgação desse tipo de coisas - e espalhem a mensagem. Façam-nos acreditar que somos bem governados, que o país é maravilhoso, que o Sócas é honesto, que a rapaziada dos jobs é séria, competente e ganha o que merece. Convençam-nos que os sacrifícios são justa e equitativamente distribuídos por todos. Digam-nos que  nós, o resto dos portugueses, é que somos uma corja de mal agradecidos. Vá lá. Mesmo que não acreditemos, pelo menos, contribuem para a malta se divertir.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Revellionzinho

A foto que acompanha este texto serve de perfeito contraponto ao post de ontem. Apesar de os autarcas das freguesias raramente obterem o reconhecimento que a esmagadora maioria merece, é amplamente reconhecido - pelo menos por aqueles que têm algum conhecimento destes temas – que é a este nível da administração que o dinheiro dos portugueses melhor é gerido. Talvez por ser pouco. Se calhar, digo eu que gosto muito de dizer coisas, os cortes do Sócas nas transferências para as autarquias só pecam por demasiado pequenos. 
Atendendo a tudo o que assistimos ao longo dos últimos anos, nomeadamente daquele que agora finda, atingiu-se um ponto de inversão de valores difícil de compreender, onde o exemplo é, inexplicavelmente, pedido aos de baixo. O que, pensando bem, nem será coisa que me deva admirar assim tanto. Afinal a malta lá de cima não passa de uma cambada de invertidos. Quem não acredita, ou acha que estou a ser injusto, que vá ler a legislação produzida por esta gente.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Festejar hoje e pagar (talvez) um dia destes.

O fim do ano está a chegar e com ele as festas de arromba. O que é bom. Nomeadamente as festas. Nada como festejar. Sejam quais forem os motivos. Todos eles são bons e passar de um ano para o outro em animada festarola afigura-se-me como algo bastante prazenteiro. 
Deve ser o que pensam os uns quantos municípios que, apesar de endividados e de cofres vazios, não prescindem de ver os seus munícipes alegres. Para que tal aconteça, resolveram assinalar condignamente a ocasião. Claro que, da noite para o dia, muitas centenas de milhares de euros vão voar para fora dos respectivos concelhos. Poderá até pensar-se – uns quantos parvos, se calhar, vão ter o atrevimento de o fazer – que com esse dinheiro podiam pagar umas quantas dividas a empresas que venderam produtos ou prestaram serviços à autarquia e, assim, contribuir para a sua sobrevivência e para garantir postos de trabalho. Mas não. Ter a malta animada é que é uma coisa importante. Constituirá, desconfio, o principal desígnio de qualquer autarca que se preze.
A liderar este tipo de festividades, no sentido em que se esmera no programa com que brinda quem por lá quiser passar de ano, está uma autarquia que devia, em trinta e um de Dezembro de dois mil e nove, mais de sessenta e dois milhões de euros aos seus fornecedores. Bagatelas.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Empatas

Penso ter, em tempos, escrito qualquer coisa acerca da perplexidade que me causa a estranha e absoluta necessidade daquelas pessoas que não têm ocupação nem horário a cumprir – porque estão reformadas, desempregadas ou por outro motivo qualquer que não é para aqui chamado – e, apesar disso, escolhem precisamente a hora de almoço, ali entre o meio dia e meia e as treze horas, para fazer as suas compras diárias. Volto hoje ao tema porque continuo a acreditar, mas isso sou eu a dizer, que não custava nada tratar da aquisição dos bens essenciais à sua subsistência aí pelas dez da manhã. Ou pelas onze, vá. Até porque não acredito que seja gente para prolongar manhã dentro a sua estadia na cama. De resto para deitar cedo e tarde erguer boa companhia se há-de ter e não me parece que seja o caso. 
Isto aplica-se especialmente às senhoras de idade mais avançada. O que, estando Estremoz cheio delas, assume proporções alarmantes. Tenho o maior respeito pelas velhotas. Até porque, não tarda, serei tão velho como elas são agora e, quase de certeza, ainda mais chato e rabugento. Mas, confesso, causa-me uma especial irritação sair do emprego e ver os minutos da minha hora de almoço esvaírem-se na fila da padaria, do talho ou do supermercado porque, à minha frente, umas quantas velhinhas - ou outros desocupados - escolheram exactamente aquela altura para fazer o que podiam ter feito nas três horas anteriores. Isto porque, ao contrário delas, não posso ficar a degustar tranquilamente a minha refeição pela tarde fora. 
Se viver o suficiente para isso, vou vingar-me. Hei-de fazer o mesmo. Talvez, até, pior. Depois de fazer as compras passear-me-ei de carro pela cidade. A dez à hora. Só para chatear aqueles malucos apressados, que insistem em cumprir horários, e que vão atrasados para o emprego porque perderam parte da hora de almoço empatados por quem podia fazer compras noutro horário.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Inversões

A paneleiragem nacional, nomeadamente aquela que se expressa na blogosfera e na comunicação social, rejubila com a adopção de uma criança pela parelha de paneleiros constituída por um conhecido cançonetista britânico e alegado marido. É pelo menos assim que se referem as noticias que nos relatam o acontecimento quando mencionam o larila que vai ao cú do tal cantante. 
Afirmar que o rebento é filho do casal de rabetas, apesar de concebido numa barriga de aluguer e de nenhum dos dois ter tido qualquer intervenção no acto que gerou aquela vida, denota, manifestamente, uma falta de rigor quase tão grande quanto a vontade de ver por cá legalizada idêntica possibilidade. Seria, com certeza, muito mais correcto informar que dois fulanos adoptaram uma criança. Mas isso não seria noticia. Já noticiar que um casal mediático – marido e esposa, portanto – são agora pais tem outro impacto, parece uma coisa importante e constituirá até um exemplo de transbordante modernidade que nos faz exultar de alegria. Mesmo que se trate de um par de panascas que, provavelmente, terão pago uma fortuna pelo petiz.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Misturas muito caras

Não tenho grandes preocupações ambientais. Acredito que o planeta terá uma capacidade de regeneração maior que os estragos que lhe vamos fazendo e que, muito provavelmente, sobreviverá, ao contrário de nós, às nossa agressões. 
O desprendimento relativamente a estas questões não impede de me indignar com a forma como os estremocenses – e os portugueses em geral – tratam os resíduos domésticos que produzem. Apesar de o número de ecopontos, pelo menos na cidade, ser já relativamente significativo, continua a ser um procedimento recorrente a ausência de separação do lixo. Em muitas circunstâncias nem se pode falar de comodismo porque, no caso da imagem, o local correcto para depositar os garrafões está a cinco metros. 
Esta atitude negligente custa anualmente a cada município muitos milhares de euros. Numa altura de aperto como a que vivemos em que cada euro é importante, cada um pode, à sua maneira, contribuir para racionalizar recursos. Separar o lixo e depositá-lo no sitio certo é uma delas. Mas, pelos vistos dá muito trabalho. É mais fácil berrar contra os escandalosos ordenados e outras mordomias dos malandros dos funcionários municipais.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Dar desconto aos descontos

Entre os muitos rectângulos de plástico, com chip incorporado ou banda magnética colada nas traseiras, que quase todos transportamos na carteira – o cartão tornou-se um elemento fundamental nas nossas vidas – encontram-se um, ou mais, cartões de uma qualquer cadeia de lojas onde, com mais ou menos frequência, deixamos uma parte do nosso ordenado. Ou rendimento. Estes cartões, que oferecem inúmeras e fabulosas vantagens que até chateiam de tantas e tão fabulosas que são, procuram fidelizar o cliente e através de um sistema de acumulação de pontos, descontos ou promoções levá-lo a voltar ao local da compra e, de preferência, a gastar mais. Nada de anormal quanto a este procedimento nem, assim à primeira vista, nada de reprovável nesta estratégia. Afinal o gajo da loja está ali para vender e quem compra fica satisfeito porque acredita que ganhou qualquer coisita. 
A coisa muda de figura quanto querem fazer do consumidor parvo. O que, em muitas circunstâncias, conseguem sem esforço de maior. Veja-se, para não irmos mais longe, o caso dos alegados descontos do Modelo e Continente. Mesmo deixando de lado que o valor do desconto obtido apenas pode ser usado em futuras compras – constitui uma das cláusulas do contrato que regula o uso do cartão de fidelização – o produto onde é conseguido é, por norma, substancialmente mais caro que outro equivalente. A titulo de exemplo refira-se que um bolo rei nestas condições custava sensivelmente o dobro de outro a que a promoção não se aplicava. E nem sequer era uns daqueles produtos amaricados a que agora chamam gourmet - ou lá o que é - tratava-se de um bolo, assim à primeira vista e à excepção da embalagem, exactamente igual ao outro. 
Este é um procedimento recorrente para o qual devemos estar atentos. Se a quem vende interessa fazer sair a mercadoria do estabelecimento, quem compra tem obrigação de estar cada vez mais atento e não se deixar levar em promoções, descontos e outros esquemas manhosos em que quem fica a ganhar são sempre os mesmos. Até porque é para isso que eles lá estão.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Post de Natal

Talvez por causa da crise, do desemprego, da fome, da miséria e de tudo o que mais se sabe – também por causa da espírito natalício, claro - foi reconfortante ver todas as mesas – sublinho todas – da cafetaria do Modelo de Estremoz, na manhã de sexta-feira, ocupadas por famílias ciganas residentes no bairro contíguo ao supermercado. Papás, mamãs, putos ranhosos e um ou outro avô ou avózinha, desgrenhados e com cara de quem acabou de acordar, tomavam o seu pequeno almoço. Galões, leite com chocolate, bolos e torradas enchiam as mesas enquanto guardanapos de papel, restos e coisas dificilmente identificáveis ocupavam o pavimento em redor. Outros, provavelmente com o estômago já aconchegado ou aguardando a sua vez para o aconchegar, deambulavam pelo local em alegre algazarra. Foi bonito, pá. E diz que é assim todos os dias. 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Há gente com cada ideia...

“Os sacrifícios têm de ser equitativamente distribuídos por todos”. É o que acha um bispo da Igreja católica portuguesa. Vá lá saber-se porquê existem pessoas com a mania de distribuir coisas. Nomeadamente as más. Devem pensar que são uma espécie de Pai Natal mas ao contrário. Justo, mas mesmo justo, seria dividir as coisas boas por todos. Isso sim. Agora dividir as más – assim tipo...os sacrifícios – parece-me muitíssimo mal. Cá para mim os  ditos sacrifícios devem ser distribuídos pelo menor número e, de preferência, pelos do costume. Assim como assim já estão habituados.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mouro queixinhas

Um extremoso papá muçulmano, a viver em Espanha mais a sua numerosa prole, ficou irritado porque na escola pública espanhola frequentada pelo seu rebento – um pequeno Mohamed, presumo – o professor cometeu o atrevimento – heresia, como eles dizem – de citar o presunto como exemplo para melhor explicar a matéria que estava a leccionar. É, de facto, chocante e justifica perfeitamente a atitude daquele seguidor do profeta que, chateado com tamanho dislate, tratou de apresentar queixa contra o docente. Bem feita, porque isto de falar das pernas de um porco na presença de muçulmanos a residir na Europa, ainda para mais numa escola oficial, não lembra a ninguém. 
Se a atitude do queixinhas já é suficientemente parva, nem sei como qualificar a da policia. Ao que parece não só aceitaram a queixa, como se deslocaram à escola no intuito de ouvir o professor e suposto criminoso. Que por enquanto – e sublinho por enquanto - ainda não foi preso. Não tardará, qualquer referência a coisas que a mourama considere blasfémia, ainda que feita em território europeu, constituirá um crime punível sabe-se lá com que pena. Talvez, até, a morte por apedrejamento. Tudo, claro, com o alto patrocínio dos multiculturalistas.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Finalmente uma grande ideia!

Um jornal online pediu a algumas personalidades - umas mais conhecidas que outras – que, cada uma, desse uma ideia para o país. A maioria dos inquiridos não revelou grande imaginação e as respostas obtidas não constituirão, seguramente, grande contributo nem para a melhoria da nossa situação nem, com toda a certeza, merecerão especial atenção por parte de Sócrates e seus sócretinos. 
Cooperação, exigência, qualidade, são chavões mais que batidos e que, quanto mais são repetidos menos impacto vão tendo nos destinatários. Apesar disso incluíram a receita de alguns notáveis. Já a “fusão com o Brasil”, a “poupança de energia” e “aumentar o número de nascimentos” me parecem argumentos bastante valorizáveis. Até porque – e provavelmente não serei apenas eu a pensar assim – existe uma curiosa interligação entre eles que nem mesmo a questão da economia energética ali pelo meio consegue disfarçar. Principalmente para aqueles que preferem às escuras. 
Não sei se pode ser considerada como ideia, mas a afirmação proferida por um dos entrevistados é verdadeiramente genial e vale o tempo perdido a ler o conjunto de lugares comuns que até eu, que não percebo nada destas coisas, era capaz de proferir. Garante um dos elementos do painel que “todos os nossos problemas estarão resolvidos quando cada chinês beber uma garrafa de vinho português”. Por dia, acrescento eu.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Comprar, comprar, comprar...

Os portugueses estão a gastar euros aos milhões. Somos, aliás, um dos povos que, no mundo inteiro, mais dinheiro gasta em prendas de Natal. Embora isto do Natal mais não seja, quanto a mim, do que um pretexto para arejar a carteira. Hesito, por isso, entre considerar que seremos uns mãos largas ou que se trata apenas do gozo que nos dá gastar dinheiro. Ou de usar o cartão de crédito. 
Também gostamos de fazer boa figura, nomeadamente no que diz respeito à fatiota e, para andar bem vestidos, compramos trapinhos como se não houvesse amanhã. Deve ser por isso que não há na Europa quem gaste mais do que nós em roupa. Não admira, portanto, que ande por aí muita gente toda janota mas que, só por si, justifica a existência de dois ou três escritórios de agentes de execução. 
Para constatar a fiabilidade dos relatórios que fornecem este tipo de dados, basta dar um volta pelos supermercados e ver que os respectivos parques de estacionamento estão, nomeadamente ao fim de semana, completamente lotados. Mesmo em cidades de pequenas dimensões e diminuto número de habitantes, como é o caso de Estremoz, verifica-se uma verdadeira corrida a este tipo de estabelecimentos. Chega mesmo a ser difícil acreditar que por cá haja gente suficiente para encher quatro superfícies comerciais de média dimensão. 
Talvez, a juntar ao vicio de comprar, os portugueses estejam a antecipar o próximo aumento do iva. Se assim for está bem visto. Trata-se de um investimento seguro que renderá, a curto prazo, um ganho de dois por cento. Pelo menos, porque o aumento dos bens é capaz de incorporar outros custos que as empresas, generosamente, se encarregarão de partilhar com os consumidores.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Os esquemas da Mariana

Mariana tem trinta e sete anos, é funcionária pública, mora em Estremoz e, segundo o Sol online, encontrou uma forma inovadora – alternativa, até – de obter crédito mais ou menos imediato, que paga no mês seguinte, sem juros. O esquema é simples e funcionará mais ou menos assim: Mariana dirige-se à Modalfa compra roupa e no dia seguinte volta lá para devolver o que comprou. Apesar de ter pago com cartão de crédito a loja procederá, segundo a mesma fonte, à devolução do valor da compra em dinheiro. O que, alegadamente, lhe proporcionará a liquidez necessária sem ter de suportar juros. Acrescenta ainda que, neste Natal, voltará a utilizar o esquema que, a acreditar na história, terá repetido por diversas ocasiões. 
Mariana, do alto dos seus trinta e sete anos, teria outras opções menos ingénuas. Mas cada um sabe de si. E, de resto, nem sabemos se usará outras formulas, ainda mais criativas e menos onerosas para os próprios, que são cada vez mais usadas por colegas seus. Até porque, convenhamos, este esquema é fraquinho. Pode, por exemplo, comprar a crédito tudo o que a sua imaginação lhe sugera. Quando a conta aparecer na caixa do correio basta olha-la com desprezo e continuar a comprar como se não fosse nada com ela. Anos mais tarde um qualquer tribunal vai confiscar-lhe uma parte do vencimento. Pequena, diga-se, porque terá de ficar sempre com um valor equivalente ao salário mínimo, para que a Mariana possa continuar a viver com dignidade. O que significa que pode deferir no tempo – vinte, trinta ou cem anos – o pagamento dos seus calotes, enquanto vai vivendo à grande com o produto do crédito que entretanto tinha obteve. 
Tudo isto constituem as pequenas maravilhas da protecção ao prevaricador que as Marianas desta vida aproveitam com sabedoria. Claro que também podia viver a sua vidinha de acordo com um orçamento ajustado ao rendimento mensal. Poder até podia. Mas não era a mesma Mariana.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O que é que vão açambarcar a seguir?

Já se fazem apostas acerca dos bens ou produtos, supostamente de primeira necessidade, que desaparecerão misteriosamente do mercado quando os açambarcadores deixarem de se interessar por açúcar. De recordar que este, por sua vez, sucedeu aos medicamentos alvo de diminuição da comparticipação pelo Estado. Embora no caso dos fármacos, pese todos os esforços desenvolvidos por uma legião de idiotas, apenas em casos muito pontuais é que os stocks se foram abaixo. 
Segundo alguns o próximo bem a escassear poderá ser, também, do ramo alimentar. E, quase de certeza, daqueles que são capazes de suportar um largo período de armazenamento. Outros sugerem os combustíveis. Mas neste caso a constante subida de preços indicia claramente que este tipo de produtos não faltará no mercado. Pelo menos enquanto a tendência ascendente do custo se mantiver. 
Fontes geralmente bem dispostas garantem que serão os preservativos o próximo produto a escassear nas prateleiras dos supermercados, aos balcões das farmácias e até nessas maquinetas que disponibilizam camisinhas em cada esquina. Parece que factores climatéricos adversos estarão a condicionar negativamente a produção de latex das seringueiras brasileiras. Tal facto irá, necessariamente, reflectir-se na industria que trabalha com esta matéria-prima e afectar o sector de forma dramática. 
Daí à ausência deste bem essencial do circuito comercial será um ápice. Alertados por este post, os consumidores encetarão uma demanda por preservativos que só terminará quando não existir um único exemplar disponível para venda. Todas as manhãs, pontualmente, longas filas se formarão à porta dos locais suspeitos de ainda disporem de algumas unidades e rapidamente esgotarão o stock entretanto reposto. E, neste caso, alerto desde já, nem vale a pena ir a Espanha. As camisinhas espanholas são mais pequenas...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Candidatos de aviário

As presidenciais são, de todas as eleições, as mais desinteressantes. Os poderes do Presidente são pouco mais do que protocolares, pelo que se torna completamente indiferente quem ocupa o cargo. Quem vencer pouco ou nada pode fazer e, ainda que queira - e nem mesmo quanto a isso existem certezas acerca da vontade dos candidatos anunciados – pouco poderá interferir no sentido de alterar o rumo que o governo está a dar à politica nacional. Daí que a imagem da luta pelo pedaço de pão no bico da galinha assente que nem uma luva a este acto eleitoral. O lugar em disputa tem tanta importância quanta a fome que pode ser saciada pela migalha de pão pendurada do bico de um galinácio em fuga. 
Calculo que debates como o transmitido ontem sejam penosos para os intervenientes, para os que tem como função comentá-los e, principalmente, para quem assiste. Embora quanto aos últimos um comando à distância possa obviar a penosidade da coisa. Acredito que qualquer dos candidatos que ontem estiveram na TV sejam bons na área de actividade em que se notabilizaram. Também não tenho motivos para duvidar que a curar feridas ou a ligar cabos serão do melhor que existe entre nós. No entanto, pelo nível de argumentação usado no debate, nem  para Presidente da junta da minha freguesia me parece que reúnam qualidades.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Totós

Quase todos já fomos, pelo menos uma vez, abordados por alguém que nos pretendia inquirir, ao vivo ou pelo telefone, acerca de um assunto especifico para fins estatísticos, para a realização de um qualquer estudo de mercado ou desses a que vulgarmente chamam sondagens. Coisas destas há para todos os gostos – e alguns desgostos, também – muitas delas com resultados verdadeiramente surpreendentes. 
É o caso do estudo, recentemente divulgado pelo Jornal de Noticias, segundo o qual sessenta e um por cento dos portugueses não confiava a chave de casa ao alegado engenheiro que por cá nos vai lixando. O facto de trinta e nove em cada cem cidadãos equacionar a possibilidade de confiar a chave da sua residência à criatura, deixa-me absolutamente perplexo. Ao carteiro, ao homem que vai contar a luz, a água, levar a botija de gaz ou reparar a tvcabo, seria mais ou menos normal que assim fizessem. São, por norma, pessoas sérias. 
Apenas encontro alguma justificação para este facto se levarmos em conta que o universo dos inquiridos inclui pessoas que enchem a despensa de açúcar para os próximos dez anos, que adquirem medicamentos que deixam de ter comparticipação ainda que o mais provável seja estes passarem da validade muito antes que tenham tempo de esgotar o stock e que, por duas vezes, elegeu um pantomineiro compulsivo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Fúria do açucar

A imperiosa necessidade de possuir reservas estratégicas de açúcar, evidenciada nos últimos dias pelos portugueses, é reveladora de sinais preocupantes. De parvoíce, logo para começar. De facto comprar quantidades absurdas de um produto, quando se necessita apenas de uma pequena quantidade, é parvo. 
Fazer uma peregrinação, em busca de açúcar, pelas diversas superfícies comerciais é também sinal de histeria. Bastou a comunicação social anunciar a sua eventual escassez para, num ápice, pessoas aparentemente normais se precipitarem para as prateleiras dos supermercados na ânsia de comprar o maior número possível de embalagens. 
Podia, finalmente, pronunciar-me acerca dos sinais de pouca lucidez que esta gente manifesta. Gastaram dinheiro quando não precisavam de o fazer, adquiriram um bem perecível que possivelmente se vai deteriorar antes que o consumam e criaram todas as condições para terem as suas casas invadidas por formigas. Mas não o vou fazer. Sugiro apenas que vão  tendo cuidado com o pacote.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Produzir mais e melhor?! Talvez bastasse só "produzir"!

A receita parece consensual. Precisamos de trabalhar e produzir mais e melhor. Até a mim, que por norma estou contra, esta ideia se afigura como razoável. Por outro lado sucedem-se os apelos contra o desperdício alimentar, nomeadamente das refeições que sobejam em restaurantes e cantinas, tendo mesmo sido criado um movimento de cidadãos que conseguiu já mobilizar uma parte significativa da sociedade para esta causa. Tal como a anterior também me parece uma intenção capaz de reunir o consenso de todos. 
Pena que não se consiga mobilizar ninguém – pelo menos sensibilizar, vá – para um outro problema bem mais grave, pelo menos na minha óptica, que tem a ver com a ausência de capacidade produtiva de bens essenciais à nossa alimentação e, consequentemente, com a necessidade de importar quase tudo o que consumimos. O que, num futuro que pode não ser muito distante, inevitavelmente nos trará problemas que, por agora, dificilmente imaginamos. 
Ainda sou do tempo em que cada metro quadrado de terreno era aproveitado. Por todo o lado cresciam hortas, searas ou simplesmente se plantavam couves ou semeavam batatas. Hoje nada disso acontece. Pior. Criou-se um circuito de produção que constitui um claro desincentivo a quem pretende produzir alguma coisa. 
Até como estamos na época da azeitona, atentemos neste exemplo. Um olival de pequena dimensão produzirá cerca de duas toneladas. Esclareça-se, desde já, que o proprietário tem emprego que não lhe permite ser ele a apanhar a azeitona pelo que terá de recorrer ao recrutamento de mão-de-obra. Como na região as pessoas em idade activa não abundam e as que restam estão ao serviço da autarquia ou no desemprego, a alternativa é procurar entre os ciganos ou a comunidade de leste quem esteja disponível para fazer o serviço. Se tiver a sorte de encontrar, pagará dezoito cêntimos por cada quilo recolhido. Ou seja trezentos e sessenta euros. Como não possui um tractor ou outro de meio de transporte com capacidade adequada, terá de fretar um para colocar a azeitona no lagar. Coisa para, a preço de amigo, mais uns cinquenta euros. O que totaliza quatrocentos e dez euros, portanto. Chegados ao lagar o preço proposto será de vinte cêntimos por quilo. Ou seja quatrocentos euros. O que representa para o proprietário, só nesta fase do processo, um prejuízo de dez euros. 
Claro que, perante este cenário, a azeitona irá ficar na árvore, apodrecer e cair ao chão. O pequeno olival produziu matéria-prima para cerca de duzentos e cinquenta litros de azeite. No entanto, por uma estranha lógica que influencia os factores de produção, o produto final nunca chegou a existir. Se calhar, também nestes casos, a culpa é dos mercados...

sábado, 11 de dezembro de 2010

Pimbagaga

Diz que passou por aí uma senhora gaga que, por sinal, até canta. A criatura, de aspecto esquisito, arrasta consigo uma legião de fans dispostos a tudo, mesmo pernoitar à porta do local do espectáculo, para a ouvir cantar. Ou lá o que ela faz. Até, pasme-se, pagar entre cinquenta a oitenta e cinco euros por bilhete, mais os custos da deslocação para quem não reside pelas redondezas. 
A vinda da exótica senhora a Portugal terá representado a saída do país de mais de um milhão de euros. Mais coisa menos coisa. Quando, no Verão passado, o Presidente da República apelou a que os portugueses não fizessem férias no estrangeiro, porque isso representaria um incremento das importações, teria sido bom que tivesse igualmente lembrado este tipo de acontecimento. Não que tenha nada contra quem canta ou gosta de ouvir cantar. Mas, assim como assim e já que estamos na miséria, não percebo porque raio não se hão-de contentar com a Ana Malhoa, a Ruth Marlene, a Micaela ou com a Romana. Até porque qualquer delas é muito melhor que a tal Gaga.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Limpar as mãos à parede

As paredes dos wc's públicos constituem locais privilegiados para a exibição de mensagens mais ou menos exóticas. Chamemos-lhe generosamente assim. É, também, comum encontrarmos apelos ao asseio, à higiene ou, no mínimo, para que mantenhamos o local como o gostaríamos de encontrar. Este pedido, recomendação ou o que lhe queiramos chamar vai, convenhamos, um pouco mais longe. Mas o caso, há que reconhecê-lo, não é para menos. 
Limpar as mãos à parede, seja qual for o prisma pelo qual se olhe a coisa, não é bom. Estejam elas – as mãos, claro – cagadas ou não. No sentido literal do termo porque a parede fica suja e as mãos não ficam limpas. Em sentido figurado porque se trata de uma expressão popular que significa ter vergonha da sua obra e que se usa quando alguém fez mal qualquer trabalho. No caso em apreço ambos os sentidos parecem encaixar na perfeição. Limpar as mãos à parede, para mais cagadas, além de não contribuir para a higiene pessoal ou do lugar onde tão nojento acto é praticado, é de causar vergonha ao autor de tal serviço.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Consumistas iluminadas

Escapam-me os motivos que levam alguns seres, especialmente gajas, a sentir uma estranha necessidade de comprar coisas. Não porque, de facto, lhes sejam indispensáveis, mas apenas porque sim. Porque, dizem, lhes faz bem ao ego, lhes levanta o astral – seja lá isso o que for – para espairecer ou, apenas, porque gostam de comprar coisas que apesar de não lhes fazerem falta nenhuma estavam ali mesmo a suplicar que as comprassem. Não sei se este tipo de comportamento é ou não considerado uma doença. Mas se não é devia ser. Até porque o grupo de risco está, há muito, perfeitamente identificado e caracteriza-se por ter a carteira cheia e a cabeça vazia. 
Deve ser a este tipo de gente que se destinam as luzinhas que na quadra natalícia alumiam as nossas cidades. Embora haja quem não necessite de incentivos para consumir, acredita-se, vá lá saber-se baseado em quê, que o facto de as ruas estarem iluminadas constitui um estimulo ao consumo. A mim, sinceramente, não me parece. Excepto, claro, ao consumo de energia eléctrica e às demais alcavalas com que a EDP nos compõe a factura.