quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Tragédia grega

Não creio que os distúrbios que estão a ocorrer na Grécia tenham muito a ver com a morte de um jovem abatido pela polícia. Por mais trágico, lamentável e inútil que tenha sido o seu fim, trata-se afinal de alguém que morreu não por ajudar velhinhas a atravessar a rua, mas sim em consequência de um ataque a uma viatura da polícia com agentes lá dentro.

Por muito que os órgãos de comunicação social se esforcem por transmitir esta ideia, não é de todo plausível que, seis dias depois, ainda seja essa deplorável ocorrência o motivo da imensa revolta que assola as ruas Gregas. Por aquelas paragens o mal-estar social é latente, a corrupção está instalada nos corredores do poder, o fosso entre ricos e pobres não pára de aumentar e o sistema judicial está desacreditado junto da população, existindo a convicção generalizada que políticos e poderosos gozam de total impunidade. Apesar de, todos os indicadores o assinalam com inegável clareza, haver países bem piores que a Grécia em todos estes aspectos, convenhamos que tudo isto constitui um cocktail potencialmente perigoso para qualquer sociedade

Os mais pessimistas vaticinam o contágio e o alastramento destes tumultos a outros países europeus. O que, a acontecer, não constituirá grande surpresa. Será mesmo uma inevitabilidade, face àquilo que tem sido as mais recentes opções das classes dominantes na velha Europa que parecem ter esquecido aquela velha máxima que garante "ser necessário acabar com os pobres antes que os pobres acabem com os ricos". Alguns desacatos verificados em algumas cidades espanholas e dinamarquesas poderão constituir o primeiro indício.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Invejosos!

A folga que, no último dia da semana que passou, algumas dezenas de portugueses proporcionaram a si próprios continua a motivar as reacções mais negativas por parte de largos sectores. Afinal, aquilo até nem foi bem uma folga. As pessoas em questão terão assinado o livro de ponto e, por não haver nada de relevante a fazer, foram à sua vida. Nada demais, portanto.

Todo o burburinho que se levantou em redor deste assunto é injustificável, demagógico, populista é até ligeiramente ridículo, não passando, quanto a mim, de uma questão de inveja. Dessas que sistematicamente vão sendo criadas com o intuito de denegrir uma classe profissional, como ainda há poucos dias escrevi aqui no blogue.

O trabalho dos deputados não pode ser avaliado apenas com base na sua presença física no hemiciclo. Não. Pelo menos é o que dizem os dignos representantes da nação. E eu acredito. Tal como acredito que o parlamento é um lugar frequentado por gente preocupada única e exclusivamente em servir o país e em legislar em prol da felicidade e do bem-estar do povo que os elegeu. Principalmente nas sextas-feiras à tarde.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O papel (higiénico) da discórdia

A propósito da avaliação na função pública contaram-me recentemente uma história que terá ocorrido numa autarquia local e que ilustra bem a maneira como o sistema é encarado e, através de uma ironia e sentido de humor muito próprios, os portugueses tratam estas coisas. Ou seja, ao nível que elas merecem ser tratadas.

Ao que me contaram, para avaliação da equipa responsável pela limpeza do edifício sede da dita autarquia teria sido estabelecido, entre outros, como objectivo para o ano de 2007, a redução em dez por cento relativamente ao ano anterior do número de rolos de papel higiénico consumidos no edifício. Compulsadas todas as fichas de monitorização preenchidas ao longo do ano e cruzados os dados obtidos com a documentação do armazém, ter-se-á constatado que o objectivo não teria sido atingido e, em consequência disso, a nenhuma das funcionárias terá sido atribuída a classificação de Muito Bom.

Obviamente insatisfeitas as funcionárias terão reclamado evocando, entre outros argumentos, o facto de cada rolo de papel higiénico ter um menor número de folhas do que os utilizados no ano que servia de comparação. Vários papéis, análises e reuniões depois, ter-se-á concluído que, em resultado de consulta promovida pelo Aprovisionamento, o fornecimento deste produto foi adjudicado a outro fornecedor que apresentou um preço mais favorável. E com menos folhas por rolo, também.

O imbróglio não terá ainda sido resolvido. O conselho de coordenação da avaliação lá do sítio, pese as muitas horas gastas a discutir tão delicado assunto, contam-me, parece hesitar na decisão a tomar. O que se compreende. Decisões fundamentais para o interesse público não se tomam de ânimo leve.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Avaliar a avaliação

A avaliação de desempenho da função pública é, tal como a dos professores, ridícula e mais não visa do que bloquear a progressão na carreira dos funcionários públicos. Dela resulta a degradação do poder de compra de muitas centenas de milhares de famílias, com tudo o que isso acarreta a nível da quebra do consumo privado e o consequente reflexo que provoca na vida das empresas e, em última análise, na própria economia do país. Obviamente que a coisa depois remedeia-se transferindo para algumas empresas largos milhões de euros. Os tais que não havia para pagar a quem trabalha. As mesmas empresas que mais tarde certamente não “esquecerão” quem tomou tão generosa medida, até porque, como ultimamente se tem visto o empresariado português parece não ter memória curta e sabe recompensar quem, em algum momento, o ajudou.

O propósito de impedir as progressões automáticas foi, desde sempre, assumido pelo actual governo e tem merecido o apoio de uma população invejosa de uns quantos pretensos privilégios a que os funcionários públicos teriam acesso. Claro que este sentimento de inveja tem sido habilmente fomentado pelo poder, colocando constantemente a generalidade da população contra o sector social ou profissional contra quem pretende actuar.

Começa a ser tempo de se fazer a discussão acerca do que ganhou o país com este ímpeto avaliador. Parece mais que evidente não ter ganho nada. Profissionais desmotivados, sem perspectivas de evolução nas respectivas carreiras e diminuídos sistematicamente aos olhos da população, não são mais produtivos, tenderão a dedicar-se menos à sua profissão e procurarão outras formas de compensar a ausência dos rendimentos que tinham a expectativa de auferir.

Alguns destes argumentos não fui eu que inventei. Ouvi-os diversas vezes ao conhecido militante socialista Almeida Santos para justificar a sua persistente cruzada a favor do aumento dos vencimentos dos titulares de cargos políticos, nos tempos em que o homem garantia que quando um deputado estendia o braço para chamar um táxi lhe punham uma moeda na mão.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Graffiteito deprimente

Começam a surgir alguns sinais que a praga dos meninos que gostam de sujar paredes com graffitis, ou algo vagamente semelhante, está a chegar a estas paragens. Vandalizar paredes é uma actividade que requer esforço, algum jeito e que, em certos casos, reconheça-se, é feito com alguma imaginação e um certo toque de artista. Isso não faz, no entanto, com que o dono da parede borrada ou a generalidade das pessoas que olham para a “pintura” gostem do que vêem ou se sintam agradadas com a pretensa obra de arte urbana. O mais certo é mesmo darem-lhe umas quantas pinceladas e todo o “trabalho” do suposto artista desaparecer em dois tempos.

Aqui nem será o caso. Apenas alguém, tão narcísico, que resolveu borrar a parede inscrevendo nela o seu nome. Deprimente.