sábado, 30 de março de 2019

Ideologia da morte

Diz que a Catarina Martins andou a pavonear-se cá pelo mercado. Não a encontrei. Ainda bem. Assim não tive de olhar para o lado nem cuspir para o lenço de papel. Ao que passou nos telejornais andou a pregar contra as convenções e acordos do Serviço Nacional de Saúde com os prestadores de cuidados de saúde do sector privado e social. Uma vergonha, garante a senhora. Ficamos pois a saber – claro que já sabíamos, mas é sempre bom recordar o apreço que esta criatura tem pela saúde dos portugueses – que, no que depender do partido extremista que lidera, teremos de esperar ainda mais tempo por uma consulta ou um exame no SNS. Ir aos convencionados e resolver o assunto em dias ou poucas semanas é que nem pensar. O Estado não está cá para isso.


Não é apenas ela. Há muito quem tenha essa ideia. Como se fosse possível ao Estado assegurar, em tempo aceitável, a realização de todos os actos médicos a que hoje em dia se recorre. Quem assim pensa ou é doido ou nunca necessitou de visitar um hospital ou um dos muitos centros médicos que existem por aí. Basta contar, mesmo que por alto, as pessoas que todos os dias passam por esses locais e depois fazer o breve exercício de imaginar quantos hospitais públicos seriam necessários para lá meter tanta gente.


Mas o melhor na conversa da pequena mulher foi o que ela não disse. Nem nenhum dos pés de microfone soube perguntar. Qual a alternativa para os habitantes de Estremoz, onde os cuidados públicos são o que são, se acabarem, com a nova lei de bases, os convénios com os privados? Deve ser mais ou menos a mesma cena da hemodiálise. Quem necessita, mesmo com uma clínica privada pronta a funcionar, tem de ir a Évora. Com todas as consequências daí decorrentes para o Estado e, principalmente, para o doente. Nada que incomode certos palhaços. É o que acontece quando a ideologia se sobrepõe à razão. E, lamentavelmente, à saúde.

Sem comentários:

Enviar um comentário