segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Clubes-palhaço


A constituição de empresas municipais tem servido quase sempre – embora não haja disso noticia, admito que possa haver um ou outro caso em que assim não seja – para contornar procedimentos, empregar clientelas e, até algum tempo atrás, para continuar a aumentar alegremente o endividamento das autarquias.
Estas entidade empresariais desenvolvem a sua actividade nos mais diversos sectores. Mesmo naqueles em que a autarquia, a iniciativa privada ou o movimento associativo, fariam igual ou melhor por muito menos. Veja-se, por exemplo, no desporto. Por mais estranho que possa parecer existem em Portugal empresas municipais com equipas federadas, nas mais diversas modalidades, a competir como se de um vulgar clube desportivo se tratasse. E não, não me estou a referir aos clubes que são financiados quase a cem por cento pelos governos regionais, câmaras municipais ou juntas de freguesia. São mesmo empresas municipais. Assim, rigorosa e descaradamente.
Podem argumentar que se trata de proporcionar aos jovens uma salutar prática desportiva. É, por norma, um bom argumento. Colhe simpatias, também. Mas, isto sou eu a especular, pode-se igualmente acrescentar que gera postos de trabalho. E todos sabemos da importância de empregar a malta amiga que acabou um curso ou que anda para aí aos caídos. Principalmente daquela que possui o cartão do partido ou que segurou o pau da bandeira por alturas das eleições. Haverá certamente, nestas – e nas outras- empresas municipais, lugar para todos. Desde o administrador ao roupeiro. Não esquecendo os treinadores e outros profissionais. Tarefas que nos clubes são, na maior parte das circunstâncias, desempenhadas gratuitamente por pessoas que dão algum do seu tempo ao clube da terra.
Este tipo de “organizações” causam-me um elevado nível de alergia. E nem é por recentemente ter aturado uma claque de um destes “clubes” palhaços, devidamente uniformizada com t-shirts da empresa, que acho profundamente erradas estas concepções de desporto e de iniciativa empresarial local. Ainda que os progenitores que a constituíam, nomeadamente as mamãs, berrassem mais do que três claques femininas do Nacional da Madeira. Coisa que, convenhamos é muito desagradável.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Totós


A escumalha que se dedica a encher as cidades de gatafunhos não passa de uma cambada de totós. Tal como o que não encontrou melhor local do que este para largar um pouco de tinta. Mas, ao contrário de outros, reconhece a sua condição de totó. Javardice à parte, fica-lhe bem a auto-crítica.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Alguém que interne esta gente!


Diz-se com frequência que se isto fosse um país a sério a maioria dos políticos estariam presos. Não é que discorde. Nem, sequer, que não considere a parte de lá das grades como um sitio jeitoso para manter um número significativo daqueles que nos conduziram a este triste estado. Mas, parece-me também, em muitas circunstâncias estaremos antes na presença de loucos. Verdadeiros indigentes mentais. O que não os torna menos perigosos.
Três deles saltaram para a ribalta durante a semana de passou com declarações ao melhor nível de um doente mental. Primeiro foi um obscuro deputado social-democrata, exultante com o recente acordo no âmbito da concertação social. O discurso do homem foi de tal forma nojento que até as reacções das deputadas Ana Drago e Rita Rato pareceram de alguém dotado de uma sapiência intocável. Veio depois Daniel Bessa e a sua convicção de que cada português que se for embora resolve, de uma assentada, dois problemas. O seu e o dos que cá ficam. Partindo do principio que quem emigra é porque está desempregado ou ganha mal, se esta besta desaparecesse resolveria certamente muitos problemas. Por fim Cavaco Silva. O quase indigente. Diz que tem uma reforma de miséria. Pois. É capaz. Isso ou, como se diz por cá de alguém que não junta o gado todo, não conhece bem o dinheiro.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

"Tempos modernos"


A culpa do pouco crescimento da economia, do elevado desemprego, da baixa produtividade e, em suma, do nosso atraso em relação aos outros países europeus era a rigidez das leis laborais. Era. De ora em diante vai deixar de ser. O futuro será radioso. O desenvolvimento, o progresso e o emprego para quase todos não tardarão em chegar. Tudo isso porque vai ser ainda mais fácil e barato despedir, trabalhar-se-à muito mais e ganhar-se-à muito menos. Só vantagens competitivas, portanto. Lamentavelmente ficou apenas por consagrar a possibilidade legal do patrão poder chicotear os empregados menos produtivos ou que ousem olhá-lo de soslaio. Nada que, numa próxima revisão do código do trabalho, a UGT não se disponha a aceitar.
As perspectivas são de tal forma entusiasmantes que o primeiro-ministro não hesitou em considerar que vivemos um momento histórico. Até pode ser. Embora desconfie que pelas piores razões. É que, tal como dizia hoje o proprietário de um comercio qualquer, se não houver clientes não há negócio. Não sei é se esta gente estará a perceber que aqueles que vão trabalhar mais tempo, receber um ordenado menor e, muitos, ser despedidos é que são os tais clientes que fazem mover qualquer negócio.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O cliente tem sempre razão. Mesmo quando parte a loja.


Cidadãos indignados terão hoje partido a pontapé uma divisória em vidro numa “Loja do Cidadão”. Estaria mesmo a pedi-las, suponho. Tal como também acredito que bastou escaqueirar o objecto em causa para que o motivo que provocou tão elevado grau de indignação ter ficado de imediato resolvido. Porque, como toda a gente sabe, para resolver certos assuntos nada como partir coisas. Ou, no mínimo, elevar em muitos decibéis o nível da berraria.
Ao que parece, na origem do desacato terá estado o desagrado de alguns beneficiários da segurança social que terão sido chamados a repor comparticipações a que não teriam direito. O que, naturalmente, provocou a ira dos lesados e motivou a sua colérica reacção. E nada melhor e adequado para resolver a coisa do que começar por ofender os funcionários e partir a loja.
Normal nos dias que correm, diga-se. Hoje quem se dirige a uma repartição pública, nomeadamente quando o assunto a tratar envolve algo que o utente entende não o beneficiar, fá-lo quase sempre de forma deselegante, agressiva e ostensivamente provocadora. Pena que toda essa coragem e ousadia seja dirigida, por norma, aos alvos errados. Seria, com certeza, muito mais apropriado que o fizessem quando, por exemplo nas campanhas eleitorais, os políticos vão visitar os locais onde vivem. Mas não. Aí portam-se que nem santinhos, talvez na esperança de receber uma torradeira, um emprego ou outra qualquer benesse. E não, não estou a pensar apenas em gente de poucos recursos, baixa escolaridade ou de certas franjas sociais. Bestas engravatadas ou mulas de salto alto é coisa que não falta.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Paradigmas há muitos...


Não seriam necessários grandes estudos, elaborados ou não por reputados especialistas de conceituadas instituições, para sabermos que a economia paralela representa um valor assustador em relação ao PIB do país. Nem, tão pouco, que constitui uma das principais causas de muitos desequilíbrios da nossa sociedade. O seu combate devia constituir um desígnio nacional e uma das principais apostas de qualquer governo que tivesse tempo - ou bom senso, talvez – para ver mais longe que o horizonte eleitoral.
Podia, também, servir de pretexto para a actuação de um desses auto intitulados movimentos de intervenção cívica que, de vez em quando, surgem por aí a promover causas aparentemente nobres. Quem sabe a capacidade de mobilização dessa malta não produzia resultados surpreendentes capazes de equilibrar o défice ou, menos provável, de levar o governo a ser mais simpático com aqueles que não podem fugir às garras da máquina tributária.
No actual cenário a vida parece sorrir aos que vivem à margem da realidade fiscal. Poucos sentirão qualquer espécie de apelo, patriótico ou outro, para depois do canalizador, o electricista ou o limpa-chaminés terminarem um serviço pelo qual cobraram cem euros, ainda desembolsar mais vinte e três. A somar, muito provavelmente, a outras centenas ou milhares que o governo já lhes sacou no ordenado e nas dezenas de impostos e taxas que pagamos a toda a hora. Pelo menos enquanto não mudar o paradigma. Que é coisa que, por estes dias, fica sempre bem dizer. E escrever.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Comprar só quando se pode pagar?! Que ideia tão parva...


Nestas situações de aperto como a que actualmente se vive nem tudo é mau. Existem também alguns aspectos positivos. Constatarmos que afinal, contrariamente aquilo que pensávamos, não somos ricos e que teremos que gerir muito melhor os recursos de que dispomos será seguramente um deles. Ainda que, em muitas circunstâncias, essa constatação tenha de nos ser imposta pela via legislativa.
Até agora o Estado e demais entidades públicas têm comprado tudo o que muito bem lhes apetece. Mesmo que não exista dinheiro para pagar nem a sua existência seja previsível para os meses – quiçá anos – mais próximos. Nem, às vezes, para os mais distantes. Por mais irresponsável que pareça a ideia, o governo vai pôr um ponto final neste peculiar modelo de gestão. Estará, ao que se sabe, para breve a publicação de legislação que limitará novas compras dos serviços públicos à possibilidade de as pagarem no prazo máximo de noventa dias.
Não faltarão sorrisos trocistas perante tão patética ideia. Teorias impraticáveis de gente que não tira o cú dos gabinetes, afiançarão uns quantos. Impossível. Se for assim “isto” pára tudo, garantirão outros. A mim o que me surpreende é que apenas agora, quando a desgraça está consumada, é que alguém se tenha lembrado de impor ao Estado e restantes administrações uma regra tão básica. Comprar apenas quando há dinheiro ou, mesmo não havendo no momento, haja a garantia da sua existência num prazo considerado aceitável.
Governar ou gerir uma instituição sujeita a pressões das mais diversas clientelas – em sentido lato, porque nem todas têm interesses ilegítimos – com as novas regras que se avizinham não será fácil. Mas também ninguém disse que a função governativa deve ser algo que se faz com relativa facilidade. Isso é o que tem acontecido até aqui, com os resultados que estão à vista. Aliás se fosse fácil qualquer badameco lá podia estar.

Blogue do ano 2011


O Aventar, um dos melhores blogues portugueses, está a promover uma votação destinada a escolher o “Blogue do ano de 2011”. Entre os muitos candidatos, na categoria “Actualidade politica - individuais”, está o Kruzes Kanhoto. A votação decorre entre 15 e 21 de Janeiro e a mesa de voto está instalada em aventar.eu/blogs-do-ano-2011/. Todos os que se interessam por estas coisas podem ir até lá – e os não se interessam também - e votar neste blogue. Ou então num realmente bom.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Pontes da discórdia


Ciclicamente vem à baila a malfadada história das pontes. As quais, pelo menos até agora e ao que me tenho apercebido, constituíam um exclusivo dos funcionários públicos e representavam um intolerável privilégio dessa classe de malandros que não merecem o ar que respiram nem a água que bebem. Principalmente agora que o precioso liquido está cada vez mais precioso. Há semelhança, diga-se, de quase todas as matérias que se apresentam naquele estado.
Vaí daí que não percebo a indignação causada pela intenção do patronato que, segundo a manchete do “Jornal de Negócios”, pretenderá encerrar as empresas sempre que ocorra uma ponte e descontar o dia nas férias dos trabalhadores. Admito não estar a ver bem a coisa. Concedo que a minha capacidade de análise destas matérias não seja a melhor. Dou, até, de barato que esteja a fazer uma confusão qualquer. Mas esta gente queixa-se do quê?! Alguém que me corrija se estiver enganado, mas não é por causa dos funcionários públicos – essa cambada – poderem fazer exactamente o mesmo que é agora proposto para os privados que tantas criticas lhes têm sido dirigidas?! Não percebo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Mais de 70 anos? Afaste-se de um microfone!


Era para escrever qualquer coisa acerca do desplante daqueles anti-patriotas que, só para chatear e dar cabo das contas ao Gaspar, insistem em estar doentes. Tinha intenção de zurzir – malhar, vá – naqueles desenvergonhados que se atrevem a ter doenças cujo tratamento saí caro ao serviço nacional de saúde e que o país não tem condições de suportar. Gentinha sem dinheiro que, apenas porque existe, pensa que tem direito a adoecer e a ser tratada. Era, pois, para discorrer sobre tudo isso. Mas não vou perder o meu tempo. Manuela Ferreira Leite antecipou-se e já disse tudo o que havia a dizer acerca deste assunto. De forma brilhante e esclarecedora, faço-lhe a justiça de reconhecer.
Sei de um caso, até porque me é relativamente próximo, onde o descaramento, oportunismo e aproveitamento inqualificável de recursos do SNS atinge um nível absolutamente revoltante. Coisa para, se convenientemente divulgada nas redes sociais, causar uma onda de revolta difícil de conter. Nomeadamente entre bestas seres como a velha carcaça senhora que ontem opinou na televisão. Mas, escrevia eu, conheço uma pessoa com noventa e nove anos que há mais de vinte faz hemodiálise. À borla. Grátis. Á pala. Sem pagar um chavo. Nadinha. O que, imagino, deve ir já numa conta calada. De tal forma elevada que o melhor é nem pensar em quantos milhares de euros a doença da pessoa em questão já custou ao país. Para facilitar as contas pensemos antes em quantos meses de reforma da Manuela Ferreira Leite é que isso dá.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Coerências


Dois factos contribuíram hoje para me baralhar as ideias. Ou para me esclarecer. Não sei ao certo. Nem, sequer, ao incerto. O primeiro dá conta de um relatório do Banco de Portugal onde se afirma que as medidas de austeridade e a contenção salarial vão implicar uma quebra recorde no consumo e conduzir-nos a uma recessão sem precedentes. Fiquei, no entanto, com dúvidas se, para este gente, isso seria ou não uma coisa má. Pelos vistos não é. Se para qualquer pessoa com juízo mediano este seria uma caminho a evitar, para esta malta é por aqui que se deve continuar. De tal forma que até admitem a necessidade de mais austeridade. O que - não sei, digo eu – é capaz de ainda agravar mais a tal recessão sem precedentes.
O segundo facto que contribuiu para me aturdir, foi a justificação dada por Eduardo Catroga quando inquirido se não achava o seu novo ordenado – uns míseros 45 mil euros por mês a acumular com uma pensão de quase dez mil – um bocadito a atirar para o exagerado. Que não, terá dito o homem. Porque “quanto mais ganhar maior é a receita do Estado com o pagamento dos meus impostos e isso tem um efeito retributivo.” O que é manifestamente verdade, Embora seja mais verdadeiro para uns do que para outros. Principalmente quando esta tirada de génio não se aplica aqueles que são vitimas da redução salarial decretada em consequência de acordos em que o figurão em causa terá estado, directa ou indirectamente, envolvido.
Perante declarações e relatórios deste quilate parece legitimo questionar-me, citando um famoso filosofo brasileiro, se o burro serei eu. Quero acreditar que não, mas lá que ando há anos a levar coices destas bestas disso é que não tenho dúvidas.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Crise de pluviosidade


Esta persistente ausência de pluviosidade começa a preocupar-me. E a aborrecer, também. Era só o que faltava, logo quando me dediquei à agricultura, ser confrontado com uma seca. Estas ervilhas – hoje já ligeiramente mais desenvolvidas do que na altura em que a foto foi obtida – começam a dar os primeiros indícios de que já bebiam qualquer coisinha. O que pode vir a constituir um problema. Ou uma chatice. É que, para regar, teria de recorrer à agua da rede e isso era coisa para fazer disparar as taxas – para cima de muitas – que todos os meses constam de uma factura que me aparece na caixa do correio. Ironicamente chamam-lhe conta da água, ou lá o que é.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Vão morrer longe!


Emigrem. Vão-se embora. Ou morram. Melhor ainda, vão morrer longe. Essa parece ser a única proposta que os javardolas que nos governam tem para apresentar aos portugueses. Comigo não terão sorte nenhuma. Pelo menos na parte de emigrar não lhes farei a vontade. E na outra só contrariado. Deve ser falta de patriotismo.
Desconfio que eles se estão a esforçar muito para levarem a deles avante. Provavelmente vão conseguir que muitos de nós morram e que os jovens se vão embora. O pior – ou melhor, depende do ponto de vista – é que se cumprirem o seu desígnio não fica cá ninguém para os sustentar e lá terão de ir para Paris, ou para outro sitio qualquer, estudar coisas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Devem ser uns optimistas, eles...


Começo a interrogar-me acerca das previsões, mais ou menos catastrofistas, que por aqui – e também por outros lados - tenho andado a espalhar. Nomeadamente quanto às consequências que a quebra brutal do poder de compra dos portugueses, em particular dos funcionários públicos, representaria em termos de queda no consumo. Admito que, provavelmente, estarei errado. E, se assim for, ainda bem.
Indiferentes aos aumentos de preços, subidas de impostos, descidas de salários e incertezas quanto ao futuro, continuamos a consumir como se não houvesse amanhã. Ou, noutra perspectiva, a dinamizar a economia. O que, reconheço, não é necessariamente mau. Mas, digo eu, se calhar era conveniente não abusar.
Apesar de todos os indicadores mostrarem uma acentuada diminuição dos níveis de consumo, por cá – pelo menos é essa a minha sensação – não se nota nada. Nos parques de estacionamento das quatro superfícies comerciais, nomeadamente ao fim-de-semana, é quase impossível arranjar lugar para estacionar. Nos cafés e pastelarias, em certas horas, não se arranja mesa para beberricar um cafezito porque estão repletos de malta a devorar os deliciosos bolos e doces cá da terra. Moro num bairro que, a pé, não dista mais do que dez minutos do centro da cidade mas, para além de mim e da patroa, são pouquíssimos os moradores que não fazem sistematicamente este trajecto de automóvel.
É por estas e por outras que desconfio que está a faltar lucidez na análise da alegada crise. Da minha parte, quase de certeza, por pintar um cenário demasiado negro. Ou do restante pessoal, o que será menos provável, que achará não ser o futuro tão mau quanto o pintam. O pessimista serei, portanto, eu. O pior é que há quem insista em definir o pessimista como um optimista informado.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Estratégias


O governo produziu um documento, actualmente em discussão pública e portanto aberto a sugestões de todos os cidadãos, a que chamou Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas. O que, desde logo, é sugestivo. Ter uma estratégia, seja lá para o que for é sempre bom e quando se trata de uma abordagem à comunidade cigana – o que implica mais do que um – é melhor ainda.
Ao longo das sessenta e oito páginas que compõem o dito documento estratégico é definido um conjunto de boas intenções – e também ideias meritórias, sejamos simpáticos - visando que nos tornemos todos amigos. Ou, pelo menos, que não nos andemos por aí a discriminar uns aos outros. A estratégia é tão boa e completa que reserva mesmo umas quantas medidas para as minorias existentes dentro desta minoria e, por isso, nem os ciganos paneleiros foram esquecidos. Também serão integrados estrategicamente, portanto.
Parte fundamental desta estratégia é, como não podia deixar de ser, a educação. Daí que nela se preveja mandar os adultos desta comunidade para as Novas Oportunidades e as crianças para a escola. Nomeadamente – é o que consta do documento - promovendo turmas mistas de ciganos e não ciganos. Parece, mais uma vez uma excelente estratégia. Pelo menos a julgar pelo sucesso da escola de uma certa freguesia que, de um ano para o outro, passou do risco de fechar para mais de cinquenta alunos. Todos não ciganos idos, na sua maioria, de um estabelecimento de ensino frequentado por um número bastante elevado de membros da comunidade alvo desta estratégia. Stratágie, em francês.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Com um pingo de inveja - e alguma amargura - por não poder fazer o mesmo.


Não partilho da indignação que por aí vai contra a mudança para a Holanda do local onde a empresa proprietária do Pingo Doce passará a pagar impostos. Tenho, até, alguma dificuldade em perceber a causa de tanta irritabilidade. Afinal todos, ou quase, fazemos o mesmo. Cada um à sua escala, claro. O que significa que, ao contrário daquilo que insistem em garantir, o tamanho importa.
Repare-se, por exemplo, nas romarias a Espanha para atestar o deposito do carrinho. Se fossemos tão patriotas como exigimos que seja o merceeiro em causa, tratávamos de abastecer a viatura cá pela terrinha e, consequentemente, pagar bastante mais imposto ao ministro Gaspar. Argumentar-se-à que estas actividades transfronteiriças são absolutamente irrelevantes e não terão impacto digno de registo na cobrança fiscal. Pode ser. Se calhar não passam de uma minúscula gota. Mas fica a intenção. E, quase sempre o lamento que o depósito não tenha uma capacidade maior.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Uma questão de fé.


Provavelmente fruto da época, de repente, os portugueses ficaram mais optimistas. Pelo menos uma parte deles. Parece que alguém os convenceu - ou se convenceram eles sem necessidade de intervenção externa – que, afinal, “isto não vai ser assim tão mau como para aí andam a apregoar” e “lá mais para o fim do ano as coisas começam a melhorar”. Já perdi a conta às vezes que nos últimos dias ouvi estas e outras frases onde se pretendia exprimir esta ideia. A menos que estas pessoas acreditem que vão ganhar o euro milhões, estejam à espera de receber uma herança avultada ou planeiem assaltar um banco, não estou a ver no que fundamentam o seu optimismo. Será, talvez, uma questão de fé.
Por mim não vou fazer mais previsões quanto ao que penso vai suceder nos próximos tempos. E não não é por medo de errar. Antes pelo contrário. Tenho é um certo receio de acertar. O que, diga-se, nem constituiria nem grande proeza. Basta desconfiar da existência do pai natal, ou ter umas leves suspeitas que o coelhinho da Páscoa nunca existiu, para ter uma razoável certeza quanto ao nosso futuro próximo. A ver vamos se os milagres existem.

domingo, 1 de janeiro de 2012

A queima


Entre ontem e hoje autarcas e governantes regionais queimaram – literalmente – alguns milhões de euros. Vá lá saber-se porquê, há quem ache tratar-se de um bom negócio rebentar fogo de artificio em determinadas circunstâncias. Para as pirotécnicas sê-lo-á, de certeza absoluta. Para os cofres públicos não me parece. Até porque se o fosse, estas actividades já estariam privatizadas há muito. E se até agora não o foram é porque à iniciativa privada estoirar milhões em foguetório não se afigura como algo lucrativo ou que traga qualquer tipo de retorno. Coisa que não interessa nada quando o dinheiro a incendiar, por ser de todos nós, não tem dono.
Poucas horas antes também eu me dediquei a queimar coisas. Sem custos. Para além dos fósforos que atearam o fogo. Claro que o fogaréu não atingiu as proporções de outros eventos. Foi o que se pode arranjar. Serviu apenas para queimar a porcaria que sobrou das limpezas da courela da família. Exactamente o contrário daqueles que iluminaram os céus de algumas cidades. Esses apenas nos trazem mais porcaria. É só esperar pela factura.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Adeus 2011, vamos ter saudades tuas.


É, confesso, com uma pontinha de emoção que digo adeus a 2011. Apesar de, em termos profissionais, no ano que hoje acaba não ter tido aumento de ordenado nem sido promovido e a classificação de serviço não ter ido além do “Bom”. O mesmo que o Mário Nogueira. Coisa que, vista assim, me aborrece. Recordarei este como o último ano em que recebi subsídios de natal e de férias, em que me foi devolvida uma parte do IRS que paguei e onde não foram necessárias privações de maior para poder pagar o IMI. É também com mal contida tristeza que não esqueço que foi neste conjunto de doze meses que hoje terminam que, provavelmente pela última vez, pude desfrutar de pequenos prazeres como gozar meia dúzia de dias de férias, fazer uma ou outra refeição fora de casa e dar-me a outros pequenos luxos manifestamente acima das minhas possibilidades. Tivesse o Benfica sido campeão e teria sido um ano fantástico. Mesmo assim, por comparação com o que aí vem, foi certamente o melhor de todos os que se vão seguir. É por isso que desejo a todos os que me lêem um 2012 o menos mau possível.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Antes a mentira era uma coisa má. Agora não.


Os leitores que tem a paciência de frequentar este blogue farão o favor de reconhecer que não tenho qualquer simpatia politica pelo figurão que, durante seis anos, tratou de afundar o país. Nem mesmo os tratantes – no sentido de tratar de coisas - que se lhe seguiram me fizeram mudar de ideias. Apesar de se esforçarem muito e não se cansarem de me dar motivos para que isso aconteça. Ainda assim, face a tudo o que se tem passado nos últimos meses, não posso deixar de considerar que o actual estudante de filosofia foi um injustiçado. Nomeadamente pela comunicação social e fazedores de opinião em geral. Se as bacoradas que tem sido proferidas pelos actuais governantes e seus sequazes fossem pronunciadas pelos Socretinos e apaniguados, nem quero imaginar o escarcéu que por aí andava.
Estranhamente os portugueses estão a aceitar tudo. Até o inaceitável. Mesmo o que até há poucos meses parecia impensável. Daí que seja de espantar que não pareçam incomodados por no lugar de um mentiroso estar agora um pantomineiro. Deve ser um sinal que os sequazes de agora estão a desempenhar melhor o seu papel do que fizeram antes os apaniguados do outro. Ou então que nos sentimos confortáveis.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Mancha Negra

 
 
Por gente vestida mais ou menos como as imagens acima documentam – ou por causa de fatiotas do género – foram mortos na Nigéria, durante o último fim de semana, algumas dezenas de cristãos que, pasme-se, tiveram o desplante de se deslocar a uma igreja para rezar. No seu próprio país, assinale-se. Estavam, é bem de ver, mesmo a pedi-las. Tendo por perto pessoal dotado de tão bom gosto, no que diz respeito a indumentária e não só, apenas a um tonto ocorre dirigir as suas preces a outro deus que não aquele que abomina o porco.
Usassem os falecidos uma toalha à volta da cabeça ou andassem enrolados em panos negros apenas com os olhos à mostra e a causa da morte fosse uma bomba desses bandalhos americanos ou dos seus sabujos israelitas e, calculo, teríamos por aí uma onda de indignação. Comunistas, bloquistas, a eurodeputada Ana Gomes e, até mesmo, algumas pessoas daquelas que uma vez por outra dizem algo que merece ser levado em consideração, já teriam manifestado a sua indignação e teriam partilhado connosco o quanto estas mortes os horrorizam. Assim estão caladitos. Deve ser porque ainda não lhes passou o choque que tiveram com a morte do querido líder. Aquele grande democrata de aspecto badalhoco que reinava lá para a Coreia.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O cafézinho da crise



O aumento de preço da bica parece inevitável. Pelo menos é o que considera um representante do sector hoteleiro que, face à subida da taxa do IVA entende não ser possível aos empresários do ramo deixar de repercutir o encargo no preço do café. Desconheço se a maioria das empresas a operar nesta actividade terão ou não condições para serem elas a suportar o diferencial resultante da subida do imposto. Além de, convém não esquecer, terem também de arcar com o aumento de outros factores como a electricidade, a água ou o gás. O que sei - até porque nem foi assim há tanto tempo quanto isso - é que quando da entrada em circulação do euro, sem que nenhum dos custos atrás mencionados tivesse sofrido qualquer acréscimo, os donos de cafés, pastelarias e afins trataram de adaptar os preços à nova moeda. Verdade que eram outros tempos. A malta andava eufórica, julgava-se rica e ninguém se aborreceu com os aumentos. Hoje a coisa fia mais fino e acredito que, a haver subidas substanciais de preço, não faltarão estaminés a fechar portas.
Por mim, desde que o PPC anunciou o fim dos subsídios de férias e de natal, que entre as várias medidas anti-crise incluí a redução dos gastos em cafetarias e correlativos. O café da hora de almoço é bebido em casa. O que, apenas com esse pequeno gesto, representa uma poupança diária de cinquenta cêntimos. Mais ou menos cento e oitenta euros por ano. Incluindo cerca de vinte e um euros de IVA. Se um milhão de portugueses fizer o mesmo... é só fazer a conta!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Harmonias


Bastou surgir a noticia de que o governo se prepara para rever as tabelas salariais da função pública, alegadamente no sentido de as aproximar daquilo que se paga no sector privado, para os comentários de satisfação de inúmeros opinadores se multiplicarem. Seja nos sites dos jornais que publicaram a noticia ou numa qualquer esquina. Toda essa gente saliva de agrado com a perspectiva de ver os funcionários públicos sofrerem mais uma quebra dos seus vencimentos. Isto porque – com intenções fáceis de adivinhar - é frequentemente transmitida a ideia que no sector público os ordenados são mais elevados.
Provavelmente até serão. Talvez a sua harmonização com os pagos no sector privado constitua um factor de justiça social. É que a mim, um gajo relativamente preocupado com os mais desfavorecidos, fazem-me confusão as listas – públicas todas elas – de atribuição de apoios de âmbito escolar a alunos carenciados. Quase todos, diga-se, filhos de pessoas que trabalham no sector privado. E, não raras vezes, até a descendência de empresários que todos julgávamos de sucesso por lá aparece.
Fará, portanto, algum sentido a satisfação evidenciada por uma certa populaça que sofre de uma raiva mal contida contra os funcionários públicos. Verem-se incluídos numa lista de pobrezinhos não deve ser agradável. Mesmo que os carros em que se locomovem, as casas onde habitam ou os sofisticados telemóveis e outros gadgets manuseados pela sua prole, indiciem que vivem numa zona de conforto pouco compatível com a sua condição de quase miseráveis.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Isto não vai acabar nada bem...


Admiro este governo. De verdade. Identifica rapidamente um problema e, quase de imediato, encontra soluções. Temos demasiadas pausas por culpa do excesso de pontes, férias e feriados. Tudo pretextos para parar a produção e dar cabo dos esforços governativos para fomentar o crescimento, aumentar as exportações e essas coisas que eles acham que crescem por decreto. Vai daí a resolução da questiúncula surgiu célere. Acabam-se com uns quantos dias festivos - nacionais ou religiosos - põe-se fim às pontes, tolerâncias nem que venha o Papa e reduzem-se os dias de férias. Vai ser produzir até mais não, o mundo vai ver-se grego – péssimo exemplo, mas isto é a força do hábito – para consumir tudo aquilo que exportamos e, num ápice, estaremos podres de ricos. Pelo menos alguns de nós.
Reitero a minha admiração pela malta do governo. Não só pela perspicácia que demonstra na identificação dos problemas e pertinácia que coloca na sua resolução mas, principalmente, pela quantidade de ideias parvas que conseguem produzir. São imbatíveis. É por isso que aguardo com ansiedade o dia em que o ministro da economia – ou o Parvus Coelho, tanto faz – nos anuncie que estamos proibidos de comer carne. Esta será toda para exportação e, por cá, ficaremos apenas com os ossos. Diz que dão uma sopinha óptima. Foi uma receita – o caldinho e a ideia - que já foi testada na Roménia no tempo do Ceausescu. Com os resultados, quer para o ditador quer para os romenos, que se conhecem.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Festarolas e luzinhas


Certas opiniões, se expressas por um qualquer vulgar cidadão, para além de não deverem ser levadas a sério, são perfeitamente irrelevantes. Daí que alguns disparates que se vão dizendo – ou escrevendo – não tenham importância absolutamente nenhuma. É, no fundo, a aplicação daquela máxima que garante que vozes de burro não chegam ao céu.
O caso muda de figura quando manifestadas por outros com alguma responsabilidade ou projecção mediática. As opiniões expressas por este tipo de figurão, até por chegarem muito longe, deveriam ser bem pensadas e não constituírem uma espécie de bocas mais comuns entre os frequentadores de tabernas ou outros antros de má vida. E, neste aspecto, os últimos dias têm sido particularmente férteis. Desde o maluco que acha não serem as dividas coisa que os adultos devam levar a sério até ao outro que se está a marimbar para os compromissos financeiros, passando pelo gajo que sugere a emigração como solução para quem não tem emprego.
Ainda assim não foi este tipo de conversa que mais de indignou. Outras declarações tiveram o condão de me desagradar bastante mais. Ouvir – na televisão – um Presidente de Câmara garantir que pode não haver dinheiro para mais nada, mas que nunca faltará para pagar almoços aos eleitores mais velhotes lá da terra é bastante mais irritante. Ou escutar um conhecido comentador a considerar pindérico que a Câmara da capital do reino tenha – apenas para poupar a bagatela de setecentos mil euros - decidido não proceder às habituais iluminações de natal, é coisa para me deixar de boca aberta.
As prioridades desta gente são intrigantes. Festarolas e luzinhas. Apesar disso, um vai continuar a gerir uma autarquia e o outro a vomitar opiniões num canal televisivo. O pior é que continuará a haver quem os leva a sério. Por mais parva que seja a sua verborreia.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Vizinho incendiário


Esta é uma imagem que, segundo os moradores, se repete quase todos os dias logo que o tempo se torna mais fresco. Desleixo, distracção ou tendências pirómanas de algum vizinho friorento e sem paciência para aguardar que o lume se extinga por completo, constituirão a razão para que tal aconteça. Desnecessariamente. O vizinho incendiário que deita as cinzas mal apagadas da lareira para dentro do contentor que me diga qualquer coisinha. Os resíduos de que apressadamente se quer livrar davam-me um jeitão. Diz que as cinzas são óptimas para fazer medrar os alhos e – acabei de saber - para repelir as lesmas. Espécie que - vá lá saber-se porquê - resolveu fixar residência no meu quintal e da qual, apesar de todas as tentativas, ainda não me consegui livrar.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O estranho caso do autarca pudico.


Por alguma razão que me escapa, tem sido noticia nos diversos meios de comunicação social um email enviado por um funcionário de uma Câmara Municipal a desejar as boas-festas aos colegas e que terá, por motivos ainda mais difíceis de entender, causado um elevado nível de indignação junto da presidência da autarquia em causa. O caso atingiu tais dimensões que a demissão do autor da mensagem estará mesmo a ser equacionada.
Face ao teor do noticiado fui levado a pensar que se trataria de algo bastante grave. Mas não. O próprio desenvolvimento da noticia se encarrega de revelar o ridículo da situação. Quer pelo destaque noticioso, quer pela posição da autarquia perante o ocorrido. Afinal tratam-se apenas de meia-dúzia de imagens de moçoilas com notória falta de roupa e umas quantas frases a desejar coisas boas para o ano que se aproxima. Nada de mais, portanto.
Principalmente numa altura em que são necessário estímulos, onde todos concordam que faz falta levantar a moral e há é que ter pensamentos positivos, o alarido e a consequente atitude sancionatória do município relativamente ao comportamento do seu funcionário revelam-se totalmente descabidos e assim a atirar para o parvo.
Vendo o assunto numa outra perspectiva, não acredito que o senhor presidente – letra minúscula intencional – tivesse “coragem” para tomar a mesma atitude se o conteúdo do email fosse de carácter apaneleirado. Nem, muito menos, que as recriminações contra o seu autor atingissem idênticas proporções. Aí, provavelmente, estaríamos a falar de discriminação a um larila qualquer.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Os alhos da crise.


Tal como dei conta noutras ocasiões, nomeadamente aqui e aqui, o meu exíguo quintal está este ano quase todo cultivado. Daí que uma pequena parcela tenha sido reservada para uma sementeira de alhos. Um alhal, portanto. Ou, quiçá, uma alhada. A produção, não é difícil de adivinhar, não me tornará auto-suficiente neste tipo de temperos. Nem, de certeza, a colheita resultaria em material bastante para afastar um vampiro. Se eles existissem, claro. Mas, espero, talvez seja coisa para durante uns quantos meses, quando for ao supermercado, não necessitar de me preocupar com a origem desta planta hortense liliácea. Sim, porque é necessária uma elevada dose de atenção para não meter no carrinho alhos oriundos da China. Para já, a julgar pelo desenvolvimento que apresentam, se calhar até demasiado precoce para esta época do ano, tudo indica que a colheita vai ser jeitosa.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A luta é imaginação.



Greves e manifestações não são a forma de luta que mais aprecio. Diria até que constituem um tipo de acção arcaico e a necessitar de urgente modernização. Excepto alguns sectores em que, pela sua especificidade, a paralisação do trabalho pode ainda ter uma força decisiva para fazer valer as reivindicações dos grevistas, na maior parte dos casos de nada vale. Veja-se, por exemplo, a administração pública. Um dia de greve – ou mesmo mais, não interessa a quantidade – apenas serve para prejudicar os utentes e pouco ou nada influencia as decisões governativas, enquanto os governantes, esses, pouco se importarão com os eventuais transtornos causados ao cidadão comum. Já os grevistas, quando olharem para o recibo do vencimento, constatarão que, afinal, apenas contribuíram para o seu empobrecimento.
As manifestações podem ser encaradas como algo mais útil. Pelo menos no âmbito do desabafo. Mas, tal como as greves, de pouca utilidade prática. De resto, se exceptuarmos os tempos demenciais do período revolucionário de setenta e quatro e setenta e cinco, não há memória de um governo – pelo menos daqueles normais – ceder a um grupo mais ou menos numeroso de pessoas aos gritos.
A luta, tal como tudo na vida, tem também ela de evoluir. Adaptar-se a novas realidades, adoptar outras armas, deixar a rua e mudar-se para cenários alternativos de combate. Não há limites para a imaginação humana e, por isso, a nossa capacidade de encontrar maneiras de contornar as barreiras que nos vão colocando - ou apenas protestar contra a sua colocação - causará um impacto muito mais forte do que as tradicionais formas de protesto. Acredito que, aos poucos, os portugueses perceberão isso. E também quero acreditar que o facto de cento e noventa e sete visitantes deste blogue, entre os últimos quinhentos chegados pela pesquisa do Google, aqui terem vindo parar através de buscas relacionadas com a simulação de IRS a pagar em 2012, significa alguma coisa relativamente à preocupação em pagar menos imposto e, pela via fiscal, manifestarem o seu protesto face ao esbulho de que estão a ser alvo.
Outro exemplo do que atrás referi está na pesquisa “como piratear o contador da luz” que trouxe um leitor até cá. Não encontrou por aqui a solução mas, sinceramente, espero que tenha sorte e encontre o que procura. E, já agora, se descobrir diga qualquer coisinha...