terça-feira, 9 de agosto de 2011

O reino da macacada

Confundir o que se está a passar em Inglaterra com os protestos que têm acontecido na Grécia é, pior do que manifesta ignorância, uma ofensa a quem trabalha e sente na pele as consequências das políticas determinadas pelo FMI e seus comparsas. Isto independentemente de se concordar ou não com essas medidas ou de reconhecer a necessidade da sua aplicação. Na Grécia as manifestações, ainda que violentas, visavam evidenciar o desagrado por motivos concretos e atendíveis e, principalmente, os protagonistas pouco ou nada tinham a ver com a escumalha que tomou conta das ruas britânicas.
Tentar encontrar justificações no campo social, nomeadamente com as medidas de austeridade e os cortes nos apoios sociais, seria risível se não fosse estúpido. Não consta – talvez as televisões ao serviço do grande capital censurem as imagens – que entre os artigos pilhados dos estabelecimentos comerciais estejam bens alimentares. O alvo dos macacos vai antes para artigos de electrónica, informática ou roupa desportiva de marcas famosas. Tudo previamente combinado através de mensagens trocadas com telemóveis topo de gama. Gentalha pobrezinha, portanto.
Outro argumento fabuloso é que os jovens – são assim que agora se designam os arruaceiros – coitados, não têm mais nada para fazer. Como muitos centros comunitários de ocupação de tempos livres – ou o equivalente lá do sítio, não interessa – foram fechados, a malta não tem como passar o tempo e então vá de partir, queimar ou assaltar coisas. Parece uma cena fixe. Muito mais fixe do que fazer coisas parvas como limpar ruas, praças e jardins ou desenvolver qualquer outra actividade menos destrutiva. E já nem falo em trabalhar, porque isso, para certa gentinha constituí uma ofensa da pior espécie.
Apesar de por cá também existir muita macacada como a que enxameia as ruas de Londres, não me parece que actos de vandalismo generalizado como os que as televisões nos têm mostrado, atingissem idênticas proporções ou se prologassem por tantos dias. As nossas forças de segurança não reagiriam de uma forma tão ridícula como está a fazer a polícia inglesa – nem a nossa opinião pública toleraria tamanha passividade – e, por outro lado, acredito que os próprios lesados fossem muito mais pró-activos, chamemos-lhes assim, na defesa dos seus bens. O único senão seria o facto de os macaquitos mais novos, ao contrário do que acontece lá, não poderem ficar na jaula. Mas a esses, não tenho grandes dúvidas, não faltaria quem desse uns tabefes pelas trombas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Da superioridade moral dos comunistas à genialidade intelectual da esquerda em geral

Havia, num passado não muito distante, quem reclamasse uma alegada superioridade moral dos comunistas. Coisa que nunca se chegou a provar e que, pelo contrário, o tempo - esse grande conselheiro - se encarregou de revelar que a moral não era muita e a superioridade, a existir, seria apenas na propaganda, na demagogia e na mentira. O que, mesmo nestes domínios, me suscita dúvidas. 
Nos dias que correm surgiu um novo conceito. Mais abrangente, porque todas as esquerdas o reivindicam, e que consiste numa auto-proclamada superioridade intelectual de todos os que se consideram portadores dos ideais de esquerda. Seja lá isso o que for. Para uma certa gente, que normalmente escreve em jornais e blogues, vai à televisão ou aparece em manifestações a encher o peito que nem um peru, as suas convicções são as únicas verdades e, de tão óbvias que as consideram, nem se lhes afigura possível que alguém em seu perfeito juízo as possa colocar em causa. Para eles a “direita”, ou seja todos os que não comunguem das suas certezas, não passam de mentecaptos, verdadeiros malvados que apenas desejam o mal do próximo e de criaturas inferiores a quem não foi concedido o privilégio de ver a luz.
Esta mania – doença mental é capaz de ser mais apropriado – atinge o auge na blogosfera. Quem ousa discordar da opinião do autor, ainda que manifeste a sua diferença de pensamento de forma cordata, é quase sempre considerado – ou melhor, desconsiderado – como um analfabeto, alguém que não percebe a genialidade da tese exposta ou um porco fascista da pior espécie que devia ter vergonha das opiniões parvas que anda por aí a vomitar. Trata-se, quase sempre, de uma certa esquerda caviar, burra, ignorante, que das dificuldades da vida pouco sabe e para quem o maior problema é escolher a marca do uísque com que se vai embebedar. Deve ser por isso que as suas ideias cativam tantas pessoas em todo o mundo. Embora, em alguns dos países que essa malta mais aprecia, exista gente “cativa” por causa delas…

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Mentes brilhantes. Ou delirantes, sei lá.

Vindas sabe-se lá de onde, ou sugeridas vá lá saber-se por quem, todos os dias surgem novas e mirabolantes ideias. Gosto, em especial, de duas. A primeira é a já desmentida intenção de portajar, para além das anunciadas ainda no tempo do anterior governo, mais uma quantidade de estradas. Requisito bastante seria, ao que foi noticiado, ter pelo menos duas faixas em cada sentido. Seria, porque afinal, já não vai ser. Talvez, quiçá, se fiquem pelas portagens citadinas para evitar o aglomerado de viaturas nos centros da cidade. Ou, se calhar, nem isso. É que estes ministros geniais, que até chateiam de tão geniais que são, começam a fazer lembrar o tempo do Guterrismo em que qualquer medida, nomeadamente as difíceis, era posta a circular sob a forma de boato para aquilatar as reacções que suscitava, até que, se houvesse muita reclamação, alguém do aparelho se apressava a esclarecer que tal coisa nunca estivera nas cogitações do governo. 
A outra ideia absolutamente fabulástica e que me entusiasma a um nível que até a mim surpreende, tem a ver a diferenciação em função do rendimento que se pretende introduzir no acesso aos mais diversos serviços do Estado. Ou seja, quem nada declara em sede de irs é pobre e terá acesso mais barato aos serviços de saúde, transportes, e fornecimento de electricidade e gás. Se alguma critica posso fazer é apenas relativa à pouca ousadia desta tão parva quanto improvável medida. Comunicações, nomeadamente televisão, internet e telemóvel, deviam também estar incluídas no pacote de apoio aos fiscalmente mais pobres. Ou, fazendo verdadeira justiça social, toda a espécie de bens, desde a alimentação aos combustíveis e do vestuário ao calçado, podiam igualmente ter preços menores, devidamente subsidiados pelo Estado claro está, para todos os que são pobres na altura de apresentar a declaração de rendimentos. 
Como para pagar todo esse desvario e ao mesmo tempo diminuir o desequilíbrio da escrita será necessário muito dinheiro, suspeito que novas ideias andarão já a fervilhar nas geniais cabeças dos não menos geniais ministros. Colocar um contador na boca e outro no rabo dos que pagam tudo é coisa para lhes ocorrer. Paga-se o ar que se respira – isso de andar por aí a respirar sem pagar nada tem de acabar – e o ar que se expele. Nada de mais se pensarmos no princípio do utilizador pagador ou do poluidor pagador.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Dever é um direito!


A declaração dos banqueiros, produzida há meia dúzia de dias, reclamando do Estado o pagamento das dívidas à banca passou praticamente despercebida. Caso tivesse merecido maior destaque por parte da comunicação social e dos comentadores de serviço teríamos, com toda a certeza, assistido a reacções indignadas por parte dos sectores do costume. Sendo sobejamente conhecida a nossa aversão ao rigor e à disciplina, também em matéria financeira, qualquer posição que se assuma em prol dessa causa, para além de condenada ao fracasso, faz quase sempre despoletar um coro de protestos e manifestações de gente para quem o “dever” se afigura como um dos seus direitos mais sagrados. Ou adquiridos, depende da perspectiva. De facto é preciso um descaramento descomunal para vir a terreiro lembrar – esteja em causa o Estado ou não, é perfeitamente irrelevante – a necessidade de pagar o que já devia estar pago há muito tempo.
Quase de certeza que entre os que manifestam o desagrado por esta estapafúrdia exigência dos bancos, estarão alguns que sofrem na pele, provavelmente sem perceberem, as consequências deste vergonhoso incumprimento das administrações públicas. Ainda que as pessoas tenham manifesta dificuldade em entender, o que está em causa é a sobrevivência das empresas e a manutenção de postos de trabalho. Quer nas empresas que estão directamente a “arder”, quer das outras a quem as primeiras não pagam e por aí fora numa bola de neve que acabará, mais cedo do que tarde, numa enorme avalanche que a todos irá esmagar. 
A ligeireza com que se olha para os calotes e caloteiros – sejam eles pessoas, empresas ou administração pública – deixa-me boquiaberto. A benevolência, a tolerância e, por vezes, até admiração com que são olhados pela “vida” que ostentam, provoca-me, mais do que alguma espécie de irritabilidade, um sentimento de compaixão pelas débeis capacidades intelectuais dos que assim agem e pensam. Coitados, não conseguem perceber que é muito por causa deles – dos caloteiros de toda a espécie – que os ordenados descem, os impostos sobem, o desemprego aumenta e o trabalho escasseia. E depois a crise é que paga…salvo seja!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Coisas que não m'aquecem nem m'arrefecem mas que me divertem

António José Seguro, talvez o menos socrático dos socialistas, tem agora o apoio da esmagadora maioria dos socialistas mais socráticos. Ele há coisas…

Coisas que m’atormentam

A quantidade de gente que vem aqui parar através da pesquisa “gaijas” no Google. Mas o que raio é uma “gaija”?!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"Cãotidiano"

O canito, coitado, manifestamente mais ajuizado que o dono, demonstra séria relutância em caminhar sob a chuva intensa que, na altura, se abatia sobre a cidade. De nada lhe valeu.  A trela sobrepôs-se à sua vontade e fê-lo prosseguir no encalço do outro maluco. É, portanto, uma imagem clássica do nosso quotidiano.