Que melhor exemplo para documentar o que escrevi no post anterior que as reacções desvairadas às declarações de Manuela Ferreira Leite?! A afirmação que as grandes obras públicas anunciadas pelo governo não contribuirão para baixar os índices de desemprego em Portugal, mas sim na Ucrânia e em Cabo Verde, gerou já um coro de protestos das tais associações que então referi, que consideram essas declarações xenófobas, racistas e outras coisas igualmente disparatadas.
Reafirmo. O politicamente correcto está a matar a nossa liberdade de expressão. A continuarmos assim ainda um dia alguém vai preso se ousar dizer que o equipamento da Académica é preto. O melhor será irmo-nos habituando a dizer que é negro…
Já o escrevi várias vezes e disse-o muitas mais. A “lei da rolha”, ou as condicionantes à liberdade de expressão que actualmente caracterizam a sociedade portuguesa, têm pouco a ver o poder político, qualquer que ele seja. Foi a própria sociedade que criou regras, aquilo que vulgarmente se designa como politicamente correcto, que marginalizam e transformam quase em criminosos quem ousa discordar de certos conceitos que foram ao longo do tempo sendo instituídos.
São muitas as localidades onde acontecem diariamente, cometidos por gente que se auto-exclui da vivência em sociedade, crimes de vária ordem, humilhações diversas e comportamentos dificilmente toleráveis se praticados por um português médio que, inclusivamente, estão a por em risco não só a segurança de pessoas e bens como a própria sobrevivência de algumas empresas. Porque os envolvidos pertencem a minorias, poucos são os que deles dão conta ou a eles se referem. A própria comunicação social só muito timidamente os notícia e, mesmo assim, tratando-os com um cuidado extremo para não ferir susceptibilidades e ser processada por alguma organização de gente esquisita. De tal forma assim é que muitas vezes se fica sem saber o que realmente aconteceu.
Se, em Portugal, existe lei da rolha a culpa é exclusivamente nossa. Calamos o que não devíamos calar e, muito mais por medo do que por imperativos de consciência social, permitimos que uns quantos parasitas nos tratem abaixo de cão. Ou de sapo, que nisto de animais também não deve haver discriminação.
Foi uma semana “porreira, pá” em termos de declarações públicas. Começou por Manuela Ferreira Leite, a indignar-se com o aumento do salário mínimo e confirmando assim que prefere mudar fraldas ao neto que ter a chatice de suceder a José Sócrates. Este, por sua vez, numa cimeira internacional lembrou-se de promover o seu brinquedo preferido, o “Magalhães”, como se estivesse numa reunião caseira para vender “taparwares” ou artigos de diversão sexual, coisa que parece estar agora muito em voga.
A meio da semana, foi a vez de um obscuro presidente de uma alegada associação de pme´s vir a público sugerir aos seus associados o despedimento de uns quantos milhares de trabalhadores, como represália pelo aumento da remuneração mínima anunciada pelo governo. Talvez não seja má, a ideia. Os trabalhadores iriam para o desemprego e continuariam a receber quase tão pouco, enquanto ele entre os familiares arranjará certamente quem esteja disposto a trabalhar por menos.
Quem não quis ficar atrás foi o General Loureiro dos Santos. Este antigo chefe do estado-maior do exército considerou serem os militares, principalmente os mais jovens, susceptíveis de cometerem actos tresloucados causados pelo desespero que a reforma das Forças Armadas está a causar entre os militares. São as actuações desesperadas que, normalmente, acabam por ser consideradas heróicas, embora neste caso me pareça que já não há heróis. Ou, como diria o outro, promessas!
Para terminar em beleza, ontem, um até agora desconhecido secretário de estado garantiu para quem o quis ouvir – e para quem não queria também – que quem estiver contra a reforma da administração pública será trucidado. Creio, dou-lhe esse benefício, que o rapazola se enganou. Trucidar, segundo o dicionário de língua portuguesa, é matar de forma bárbara e cruel. O fulaninho, quem nem tem aspecto de assassino tem só cara de parvo, quereria provavelmente afirmar que quem se opuser, ou mesmo que não oponha porque comem quase todos pela mesma medida, será vítima da atrocidade da dita reforma. Porque atrocidade significa ferocidade, desumanidade ou crueldade. E disso percebem eles.
Alguns rumores sugerem que se terá assinalado hoje o Dia Mundial da Poupança. Confesso que não dei por nada. Não vi ninguém a poupar, desconfio até que poucos conhecem o conceito, e a generalidade dos comportamentos públicos a que se assiste evidenciam um estilo de vida diametralmente oposto a uma conduta de poupança.
A julgar pelo caótico trânsito da cidade ninguém optou por andar a pé, mesmo que seja para uma deslocação de cento e cinquenta metros. Ninguém deixou de usar o telemóvel, ainda que a conversa com o interlocutor pudesse decorrer ao vivo e a cores ou a banal troca de impressões, que começa quase invariavelmente por um “onde estás?” e que acaba no inevitável “atão vá”, nem se revelasse imprescindível. Continuámos a tomar o pequeno-almoço nas pastelarias e cafés mesmo que o pudéssemos ter feito em casa onde, para além de mais barato teríamos uma noção mais precisa sobre o seu conteúdo e forma de preparação. E fumar? Alguém evitou hoje fumar, poupando assim uns cêntimos em cada cigarro e ganhando alguma saúde e minutos – horas ao longo do dia – de trabalho?! Claro que não.
Obviamente que não fizemos nada destas nem de outras coisas que nos podiam fazer poupar “algum” que, multiplicado por trezentos e sessenta e cinco dias, representaria no final de um ano uma poupança muito significativa. Principalmente numa altura em que todos se queixam de uma tal crise que parece andar por aí. Somos, definitivamente, uns queixinhas. E esbanjadores, também.
Há muitas maneiras de sujar uma cidade. Uma delas é escrever idiotices nas paredes ou, simplesmente, sujá-las com tinta. Uns chamam-lhe arte urbana, outros consideram que é uma forma de expressão de uma certa juventude. Tudo boa gente. Tirando a parte de existirem.