sábado, 6 de outubro de 2012

O passado que fique lá atrás...



Tenho a sensação, de há tempos a esta parte, que no tradicional mercado das hortaliças, frutas e legumes – e de outras coisas – dos sábados de manhã, em Estremoz, haverá cada vez mais gente a vender e a comprar. Pode ser da crise, dos preços mais em conta relativamente às grandes superfícies ou apenas da minha vista, mas, semana após semana fico com a impressão de que há sempre mais um vendedor a tentar o seu negócio. Isto após muitos anos em notório declínio, em que era visível a diminuição de vendedores e de compradores e em que o lugar abandonado, normalmente por morte ou velhice do seu detentor, ficava vazio por muito tempo.
O futuro dirá se a minha percepção corresponde ou não à realidade. Por mais estranho que possa parecer espero que não. Desejo mesmo estar redondamente enganado. Seria um sinal de retrocesso civilizacional e que parte da população do concelho teria de voltar a viver – ou sobreviver – da terra, como nos tempos da miséria e da pobreza de que alguns se mostram saudosos. Bonito seria apenas para os turistas e para aqueles que, de barriga cheia e bem instalados na vida, acham importante preservar aquilo que chamam “tradição”. Principalmente quando a podem olhar do alto sem necessidade de a viver.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Não escrevi...mas podia ter escrito.



Não é hábito publicar posts que não tenham sido escritos por mim. Abro hoje uma excepção para este texto que me foi enviado por correio electrónico e que terá sido, segundo o remetente do e-mail, publicado originalmente na revista “Sábado”. É daquelas prosas tão jeitosas que até podia ter sido eu a escrever…



                 O estranho mundo dos autarcas  
 
Nos últimos dois anos, por causa da crise, muita coisa mudou em Portugal, mas houve uma que se manteve: o País continua, como sempre, a poder contar com os autarcas para introduzirem uma dose substancial de insanidade política em qualquer debate público em que se envolvam.

Este fim-de-semana, durante o congresso da Associação Nacional de Municípios, ficou mais uma vez provado que os presidentes de câmara estão perto das populações mas longe do planeta Terra. Primeiro, decidiram exigir ao Governo a revogação da Lei dos Compromissos - trata-se de uma legislação que (imagine-se o desplante) impede as autarquias de "assumirem compromissos que excedam os fundos disponíveis". Ou seja, impede-as de acumularem dívidas que terão de ser pagas pelos contribuintes.

Depois, para contrabalançar esta posição crítica, decidiram fazer algumas propostas construtivas: criar "uma nova instância política de âmbito metropolitano eleita por sufrágio directo e universal" (faltou dizer quanto custa); incentivar o "fortalecimento e dinamização das Comunidades Intermunicipais" (sim, também faltou dizer quanto custa); e lançar uma Comissão Nacional da Administração Local (pois, faltou dizer quanto custa).

Os autarcas portugueses não têm a mais pequena dúvida de que estão certos e de que todos os outros estão errados: as propostas da troika são "um embuste, fruto da ignorância atrevida", o Governo é um mero "cúmplice" das "instituições internacionais" e todos aqueles que querem diminuir o número de freguesias são "realmente loucos" e estão "contra a vontade do povo".

Se a isto tudo juntarmos o facto de o congresso ter acabado com o abandono de parte dos autarcas e com uma votação feita debaixo de assobios e insultos, ficamos a perceber melhor como seria o País governado por presidentes de câmara com ainda mais poderes e ainda mais dinheiro para gastar - seria animado, mas perigoso. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Saiam da frente!



De há umas semanas para cá resolvi praticar alguma actividade física para além daquela mais básica, tipo ir a pé para o trabalho ou uns trabalhitos no quintal e na propriedade. Atendendo à minha forma deplorável, dar uma volta de bicicleta - de vez em quando, que isto não convém abusar e não tenho vontade de me cansar muito - pareceu-me o mais apropriado.
Ir pedalar para o espaço reservado a ciclistas existente na nova avenida foi, assim de repente e dadas as características do percurso, a opção que se me afigurou mais razoável. Nada de mais errado. Ao longo da avenida circulam largas dezenas de pessoas que se dedicam às caminhadas de final da tarde - parte deles acompanhados pelos seus cães – e apesar da apreciável largura dos passeios a esmagadora maioria insiste em caminhar pela pista destinada às bicicletas. Donde muitos, mesmo na iminência de colisão com o veiculo de duas rodas, não saem nem por nada colocando em perigo a sua integridade física – o que não me preocupa por aí além – e especialmente de quem vai, de bicicleta, no sitio certo.
A zona reservada aos ciclistas está assinalada de forma adequada e o uso a que se destina não deixa qualquer espécie de dúvida ao mais burro caminhante. Daí não ser de fácil compreensão a estúpida tendência que esta gente manifesta para caminhar por ali. O melhor, se calhar, é ir pedalar para outro lado. Para, se o descobrir, um percurso reservado a peões, talvez. Ou então arranjar uma buzina.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O último que pague a conta



Estaremos ao que tudo indica a poucas horas de conhecer mais um pacote de medidas de austeridade que, como é expectável, provocarão a ira de um número significativo de portugueses. Com toda a razão, muito provavelmente. Embora, como não me tenho cansado de escrever, o aborrecimento esteja a chegar tarde e a más horas. Que é como quem diz já não há grande coisa para fazer além de pagar a conta.
É por isso que, antecipando-me ao Vítor Gaspar ou aos jornalistas bisbilhoteiros que descubram o que aí vem antes do anúncio do ministro, deixo aos meus leitores dois motivos para se indignarem. Dois pequenos exemplos que demonstram o desvario em que continuamos a viver, a forma irresponsável como o nosso dinheiro é desbaratado e que deviam merecer, ainda mais no momento que atravessamos, a profunda censura daqueles que não se cansam de barafustar que lhes estão a ir ao bolso. Para pagar estas coisas, sublinhe-se.
Numa vila aqui perto foi recentemente inaugurado um novo campo de futebol com relvado sintético. Terá custado, diz, dois milhões de euros. Poderá não parecer muito e, admite-se à partida, ser um equipamento de relevante interesse para a população. Talvez. O pior é que a terra em causa, para além das conhecidas dificuldades financeiras do município local, não chega a ter dois mil habitantes. Dos quais, ou muito me engano, mais de metade não será sequer capaz de se locomover sem qualquer tipo de restrições de ordem física.
Noutra vila, igualmente perto, foi anunciada a construção de um centro escolar. Obra para uns oito milhões, mais coisa menos coisa. No concelho em causa residem apenas cinco mil almas, o que significa uma população escolar diminuta.  Seiscentos e sessenta e um alunos, desde o pré-escolar até ao nono ano, segundo dados oficiais. É, portanto fazer a conta.
Não consta que alguém se queixe destas opções. Estarão, ao que parece, todos satisfeitos com este derramar de dinheiros públicos. Que, recorde-se, um destes dias alguém, inclusive os profissionais das manifestações, terá de pagar. Talvez quando, por essas paragens, já não viva ninguém que possa usar estas infra-estruturas. Porque, entre outras razões, não houve inteligência para aplicar os milhões em investimento capaz de criar postos de trabalho que fixassem a população que ainda resta.