sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Somos mesmo espertos



O nível de conhecimento acerca dos seus direitos evidenciado pelos portugueses é verdadeiramente notável. Raro é o dia em que nas televisões não aparece alguém a reclamar “os meus direitos”, por vezes em circunstâncias dramáticas – reconheça-se – mas com um tom, por mais justo que seja aquilo que reclama – e, sublinho, admito que a matéria reclamada constitua algo da mais elementar justiça – dá logo vontade de embirrar. Podiam, acho eu, reclamar tão-somente que se cumpra o que a lei prevê na situação em causa. Mas não. Enchem a boca com “os meus direitos” e isso, visto de fora, provoca de imediato a sensação de que a frase estará incompleta pela falta de alusão à parte dos deveres. Que, parece-me, devia andar sempre associada aos direitos.
Mas se muitos terão motivos mais do que suficientes para invocar os seus direitos, outros há que quando o fazem mais valia estarem calados. Foi o caso de um gajo, entrevistado por uma televisão que acompanhava a acção de uma equipa de fiscais da Carris, apanhado a viajar de autocarro sem estar munido do respectivo título de transporte. O homem, apesar do aspecto parecer evidenciar que não trataria de alguém especialmente letrado, falou com desenvoltura dos direitos que lhe assistiam, mostrando um vastíssimo conhecimento da legislação aplicável à infracção que acabara de cometer. Garantido que pagar a coima não era com ele e que daí não adviriam consequências de nenhuma espécie.
Somos, parece licito concluir, um povo que sabemos tudo acerca dos nossos direitos e que, tal como escrevi aqui, adoramos o dever. Assim mesmo. Os primeiros no plural e o segundo no singular. Somos mesmo espertos.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Há muita falta de memória...



Manuela Ferreira Leite caiu, finalmente, nas boas graças dos portugueses. O discurso, em tom mais ou menos arruaceiro, agradou à generalidade dos que se não revêem nas actuais opções políticas de quem nos governa e o descontentamento daí decorrente acabou por fazer o resto.  Rapidamente se esqueceram umas quantas tiradas mais ou menos infelizes - como a suspensão da democracia ou a hemodiálise para os velhotes ficar reservada só para os que a possam pagar – e vá de elogiar a clarividência da senhora. Seja pela sua quase disponibilidade para participar em manifestações ou, principalmente, pela feroz defesa que a criatura fez dos reformados. Os tais que, ainda um destes dias, ela achava que só deviam ter acesso a tratamentos médicos se os pagassem.
Devo ter sido o único, de entre os que não gostam de Passos Coelho, a achar as declarações da porta-voz de Cavaco um verdadeiro disparate. Um conjunto de baboseiras, a bem-dizer. Primeiro porque me lembro que foi a senhora, no tempo em que ocupou o lugar de ministra das finanças, a congelar o vencimento dos funcionários públicos para, ao que à época argumentava, controlar o défice. O resultado é sobejamente conhecido. Tal como agora, o desequilíbrio das contas não parou de aumentar. E, convém não esquecer, tomou a mesma medida dois anos consecutivos. Como aquele médico que lhe serviu de exemplo, também ela insistiu na receita apesar do estado de saúde do paciente se ter agravado.
Depois a questão das reformas. Num momento de rara sagacidade, a ex-lider do PSD comparou os descontos que os trabalhadores fazem ao longo da vida a um depósito bancário. Sugerindo que, por isso, as pensões não podem ser cortadas dado que o dinheiro que os pensionistas estão agora a receber é o que foram, ao longo da vida contributiva, entregando ao Estado. Não é, obviamente, assim. A segurança social não funciona num sistema de capitalização do tipo PPR. Quem trabalha faz os seus descontos e estes servem para pagar aos reformados de hoje esperando que, no futuro, a geração seguinte faça o mesmo.
Percebo que a senhora não goste de ver a sua pensão diminuída e aproveite o tempo de antena que lhe dão para puxar a brasa à sua sardinha. Não precisa é de ser demagoga – até porque a sua carreira política já acabou – nem querer fazer dos outros parvos. Teve, enquanto interveniente na vida política, sobejas ocasiões para fazer alguma coisa pelos reformados que vivem com reformas de miséria e, por mais que me esforce, não me ocorre nada de bom a que possa associar o seu nome. Pena que, tal como dizia o outro, haja tão fraca memória na politica e nos políticos. E nos portugueses de uma maneira geral.

domingo, 23 de setembro de 2012

O dever acima de tudo



Esta crise que nos atormenta é culpa nossa. De todos os portugueses em geral e de alguns em particular. Embora, como em tudo na vida, uns sejam mais culpados do que outros e a esmagadora maioria não passe de miseráveis cúmplices. Grupo este – o último – em que vergonhosamente me encontro incluído. E nem sequer é pelo facto de, no passado, ter votado nos que lá estiveram, nos que lá estão agora ou, no futuro votar nos que hão-de ir para lá continuar a afundar o rectângulo. Digamos que sou cúmplice porque, cobardemente, nunca fui capaz de espetar um par de murros nos cornos dos políticos quando eles anunciaram a intenção de realizar as obras onde esturraram muitos milhares de milhões. Quem diz eu, diz os outros quinhentos mil que andaram por aí a manifestar-se um destes dias.
Há, depois, a questão dos princípios pelos quais nos regemos. Achamos, por exemplo, que o dever está acima de tudo. Ao pagar ninguém dá importância nenhuma e, como toda a gente sabe, está na nossa escala de valores cá muito por baixo. Fazemos mesmo gala em afirmar que pagar e morrer é a última coisa que se faz na vida. Temos, também, em elevada conta aqueles que morrem no cumprimento do dever. Dos que pagam, desses, nem reza a história. Repare-se igualmente como o pagamento está sempre associado a uma espécie de penitência. Já o dever é, em muitas circunstâncias, quase confundido com um direito. Podia continuar por mais umas linhas a lembrar o quanto o dever é enaltecido entre nós em detrimento do pagamento. Mas não posso. O dever chama-me.

sábado, 22 de setembro de 2012

Onde pára a equidade?!



O governo vai distribuir vacinas da gripe pelos portugueses com mais de sessenta e cinco anos. Apesar da clara discriminação para com os portugueses de sessenta e quatro anos, parece-me uma decisão acertada. O custo desta vacinação em massa será com certeza bastante elevado mas, ainda assim, é provável que os ganhos decorrentes desta medida profiláctica superem aqueles que resultariam da contracção da doença.
O que já não me parece assim tão bem é que esta súbita generosidade governativa seja atribuída em função da idade e não, como seria de esperar, do rendimento. Poderá, até, tratar-se do grupo de maior risco. Fico, também, satisfeito pela diminuição do número de pessoas que vão andar por aí a tossir e a espirrar para cima de quem está por perto. Mas – e isto não é pretender que eles faleçam por não lhes ser administrada – acho uma indecência e uma ofensa a quem trabalha, que gente com reformas acima daquilo que são os valores do salário médio em Portugal não pague esta vacina. E depois venham para cá com histórias da carochinha acerca dos custos da saúde, da necessidade de austeridade e outras badalhoquices que uns quantos javardolas insistem em nos impingir. Para sermos um país normal bastava-nos RIGOR. Infelizmente poucos sabem o que isso significa.