terça-feira, 3 de julho de 2012

Discriminações selectivas


Um prestigiado jornal nacional, daqueles de referência, anunciou na sua página na internet que irá enviar às autoridades denúncias sobre comentários feitos no seu site que indiciam a prática de crimes de discriminação racial previstos no Código Penal.
Lá terão, os administradores do espaço em questão, as suas razões. Mas, mesmo desconhecendo o teor dos alegados escritos discriminatórios, não me parece grande ideia. Uma caixa de comentários, ainda mais quando permite o anonimato, se não for gerida por alguém que filtre os textos antes de permitir a sua publicação, não passará de uma espécie de parede de casa de banho pública antes da moda dos paneleiros deixarem lá os seus contactos. Logo é capaz de a gerência do site poder não estar assim tão isenta de responsabilidade quanto a intenção de denunciar possa dar a entender.
Atendendo ao que se lê por essa internet fora, atitudes deste tipo suscitam-me sempre algumas dúvidas. Existem uma série de preceitos constitucionais garantindo, entre outras coisas, que ninguém pode ser discriminado em função da sua origem ou opções de vida. Daí que me seja difícil perceber porque raio tecer considerações depreciativas relativamente a um cidadão de pele escura ou cigano pode ser discriminatório e, até, configurar um crime, mas se ditas em relação a um alentejano constituem motivo para risota e consideradas humor do mais requintado. Ou, mais flagrante ainda, se eu escrevesse que “limpo o cú ao Corão” seria facilmente acusado de islamofobia, discriminação religiosa e de intolerâncias várias. Contudo, se substituir o livro sagrado do islão pela bíblia, o mais provável é a minha escrita ser considerada do mais fino recorte literário.
Neste contexto, acho que escolher o que é ou não discriminação é um acto, também ele, discriminatório. Por estas e por outras tenho cada vez menos paciência para este tipo de virgens ofendidas e com a mania do politicamente correcto. Que vão todos bardamerda. A continuar assim um destes dias teremos de começar a olhar para o lado antes de pronunciar expressões tão inocentes como, por exemplo: “Um olho no burro e outro no cigano”, “trabalho como um mouro” ou “só tenho pretos” quando nos quisermos referir às moedas que temos na carteira.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Uma fortuna no lixo


Mesmo não sendo nenhum fanático da ecologia acredito que a reciclagem tem pés para andar. Embora a generalidade dos cidadãos desconheçam – até porque ninguém lhes explica – de cada vez que optamos por depositar no contentor de resíduos comuns um qualquer objecto que pode ser reciclado, estamos a pagar por isso. Todo o lixo não reciclável que produzimos é depositado em aterro e, por mais estranho que possa parecer, os municípios ou as empresas que fazem a recolha têm de pagar, quase a preço de ouro, tudo aquilo que recolhem. Preço esse que, em parte, suportamos directamente na factura da água e, o resto, através dos impostos que financiam as autarquias.
Portanto, quando todos reclamam de dinheiro mal gasto ou apenas da ausência de dinheiro para gastar, era capaz de não ser má ideia começar a reformular certos hábitos. Não vou sugerir que passemos a enterrar o lixo no quintal. Nem, ainda menos, a jogá-lo para a beira da estrada. Basta depositá-lo no sítio certo. Quando assim não procedemos estamos a engordar a factura que a autarquia - qualquer uma das trezentas e oito - terá de pagar para se livrar dos “restos”. Que é como quem diz, todos nós teremos de pagar. E se para alguns, trezentos ou quatrocentos mil euros em lixo – isto em concelhos relativamente pequenos – será coisa pouca, já a mim se afigura como uma fortuna. Ou, de outro ponto de vista, insustentável.

domingo, 1 de julho de 2012

Não há sardinhas grátis


Num momento difícil como o que passamos é normal que todos aqueles que tenham disponibilidade para isso queiram ajudar os que sentem mais dificuldades. Na primeira linha dos que querem prestar ajuda estão, como lhes compete, os autarcas. Embora, também, porque daqui por um ano e picos teremos eleições. Mas isso são as más-línguas a sugerir. Por mim acho bem que se auxilie quem precisa. E, deste âmbito, não excluo os carenciados de votos.
Deve ter sido com a nobre intenção de ajudar os pobres fregueses, que um conjunto de freguesias de um determinado concelho entendeu por bem promover uma festarola em que a bela da sardinha assada era à borla e o panito para a acompanhar completamente grátis. Música a convidar a um pezinho de dança também não faltou. Tudo à pala, claro, para quem se quis associar ao evento.
Não há, como se sabe, almoços grátis. Nem, sequer, petiscos. E a menos que um padeiro benemérito ou algum pescador altruísta tenham oferecido os ingredientes da ementa, alguém os teve - ou terá um dia mais ou menos distante - de pagar. São uns heróis estes regedores, a quem o elevado preço da sardinha não fez recuar na intenção de animar a malta nem as dificuldades, resultantes do inqualificável ataque do governo ao poder local, impedem de organizar festarolas eleitoralmente socialmente relevantes.

sábado, 30 de junho de 2012

Tiro ao Álvaro


Protestos como os que ontem tiveram como alvo o ministro da economia não constituem motivo para grandes espantos. Pelo contrário. O que surpreende é, face à tragédia que muitos ainda insistem em não querer enxergar, a pouca frequência com que vão acontecendo.
Embora de lamentar eventuais tentativas de agressão – que alegadamente possam ter existido – compreendem-se as razões dos protestos e da exaltação de alguns ânimos. O desespero não é, por norma, bom conselheiro e é perfeitamente natural que à medida que formos empobrecendo mais desesperados façam coisas que em situações normais não fariam.
O que nunca me pareceu normal é que estes indignados – provavelmente alguns deles profissionais da indignação, não sejamos ingénuos – apareçam apenas depois das asneiras que estamos a pagar já estarem feitas. Não teria sido má ideia terem insultado, na ocasião, quem andou de terra em terra a anunciar as obras faraónicas que agora nos estão a custar os olhos da cara. Assim de repente, mas admito que até possa ser da minha memória, não me lembro de nenhuma manifestação contra a construção dos estádios de futebol, de auto estradas onde ninguém passa, de infra-estruturas que não servem para nada e que apenas foram construídas para “aproveitar” – que expressão fantástica! – fundos comunitários ou contra as exorbitâncias pagas aos cantantes Carreiras desta vida. Desconfio – ando há dez anos a escrever isto – que os nossos problemas começaram aí. Ou, pelo menos, agudizaram-se desde então.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Amanhã continuarão com um nivel de patriotismo tão elevado como ontem?


Pode ser apenas impressão minha mas, eu que tenho o mau costume de prestar atenção aos pormenores, há umas semanas que não leio nem ouço a irritante expressão “é o país que temos...” a propósito de tudo e de nada. Seja lá o que for que os autores do desabafo pretendam insinuar quando a escrevem ou pronunciam. Deve ser, desconfio, do patrioteiro intervalo que os tugas fizeram para mostrar o seu amor à pátria. Coisa que, como se sabe, gostam de exibir de dois em dois anos durante o curto período de tempo em que a selecção de futebol está em competição.
Ao contrário de muita gente, a maioria da qual percebe tanto de futebol como eu percebo de cozinha afegã, não nutro grande entusiasmo pela selecção nacional do pontapé na bola. Por várias razões. Nomeadamente o massacre noticioso a que, nestas ocasiões, sou sujeito. Não se pode ligar uma televisão sem que o objecto da notícia seja a “equipa de todos nós”. Dados fundamentais para a boa prestação da equipa são revelados em catadupa. Desde a marca dos carros dos jogadores até ao nome da loja onde compram as cuecas, de tudo fomos informados para que, na altura do jogo, pudéssemos avaliar correctamente o seu desempenho dentro de campo. Pelo menos para aqueles que ainda tivessem paciência de, sequer, ouvir falar de selecção. É que, não sei se os gajos da comunicação social sabem disso, tudo o que é demais chateia e provoca em muitas circunstâncias o efeito contrário.
Foi, por isso, com algum alívio que vi aquele indivíduo de aspecto pouco recomendável, caceteiro inveterado e que, no relvado, dá porrada em toda a gente que use uma camisola diferente da sua, acertar em cheio na barra da baliza defendida pelo espanhol. Para além da magnífica pontaria demonstrada, teve o mérito de nos poupar à continuação do espectáculo deprimente de gente que nunca fez nada pelo país - a não ser viver à conta dele e deixar imundos os locais públicos onde assistiu aos jogos - garantir que Portugal é o maior. E o que temos, também.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Nem estou em mim...


Hoje consumou-se mais um assalto. Desta vez gamaram-me, como há muito tinham anunciado, o subsídio de férias. O que, à semelhança do que acontecerá com todas as vítimas deste bando devidamente organizado que dá pela alcunha de “governo”, me faz sentir indignado. Capaz, digamos, de chamar nomes até esgotar o repertório mais vernáculo, aos políticos, aos eleitores e outros sabujos que contribuíram para este esbulho de que acabo de ser alvo. E, até, inventar ainda mais uns quantos. Mas não o vou fazer. Nada resolvia. Nem, sequer, contribuía para diminuir o nível de irritação.
Ser assaltado é sempre mau. Sê-lo duas vezes é pior ainda. Principalmente quando isso ocorre no mesmo dia. É, convenhamos, algo para deixar qualquer um fora de si. Pois que foi o meu caso. Fui duas vezes assaltado hoje e fiquei fora de mim. E ainda não regressei. Quis o destino, ou outro palhaço qualquer, que no mesmíssimo dia em que não recebi o subsídio de férias que me é devido, tivesse na caixa do correio uma notificação das finanças a comunicar-me a avaliação da casa. Coisa para, no próximo ano, ver multiplicar por cinco o valor a pagar de IMI.  
Tenho, por isso, mais do que razão para estar “ligeiramente” chateado. Aborrecido, vá. Não que me incomode pagar impostos. O que me desagrada – e inquieta, também - é o que fazem com eles.


domingo, 24 de junho de 2012

Os javardos que paguem a crise


Tem-se falado, com alguma insistência nos últimos dias, da eventual necessidade de novas medidas de austeridade face à má execução orçamental do ano em curso. Nomeadamente e como seria de esperar pela significativa quebra nas receitas fiscais. Do que se tem falado muito pouco é daquelas que terão mesmo de ser aplicadas por causa das dívidas das autarquias. Vá lá saber-se porquê essas parecem não afligir os comentadores, os políticos, nem – pasme-se – a população que as vai pagar. E bem pagas, acrescente-se.
O Plano de Apoio à Economia Local, recentemente objecto de acordo entre o governo e ANMP, prevê, entre outras coisas, um aumento significativo das receitas municipais das autarquias que recorram ao financiamento estatal para satisfazer os seus encargos para com os credores. E, embora a adesão seja voluntária, perante os mais patéticos constrangimentos legislativos que foram criados, praticamente todas terão de o fazer sob pena de, não recorrendo ao PAEL, verem toda a sua actividade bloqueada ou os seus responsáveis incorrerem em responsabilidade criminal.
Neste contexto não será de admirar que os preços dos bens e serviços das autarquias sofram actualizações capazes de nos pôr – àqueles que os têm – os cabelos em pé. A água, o IMI ou o selo do carro serão apenas alguns, mas tudo o resto irá pelo mesmo caminho. Tudo o resto é como quem diz. Provavelmente coimas que penalizem comportamentos como este, perpetrado por um vizinho javardão e filho da puta, continuarão incólumes. O que é pena. Se os donos dos descomunais montes de merda que pululam pelos passeios das nossas vilas e cidades fossem devidamente taxados a crise passaria rapidamente à história.  

sábado, 23 de junho de 2012

As barbas do vizinho já estão a arder...


Queixam-se os responsáveis pelas instituições de solidariedade social, de certeza absoluta com toda a razão, da falta de meios para apoiar quem a elas se dirige em busca de auxílio. Neste, como noutros campos, os recursos são quase sempre escassos e, infelizmente, por maior que seja a boa vontade de quem está à frente destas organizações, acredito que é difícil satisfazer todas as solicitações que lhes são dirigidas. Não será mesmo de excluir que, com o agudizar da crise e o colapso social a que estamos a assistir, alguns destes organismos possam, também eles, entrar em ruptura.
Passei um destes dias por perto de um dos locais onde cá pelo burgo é distribuída ajuda alimentar. Aos cidadãos mais carenciados, suponho. E, confesso, fiquei incomodado. Se a crise e a tragédia para onde fomos conduzidos não constituem motivo de grande surpresa, a sua dimensão – essa sim – mais do que apreensivo, começa a deixar-me assustado.
Vou poupar-me ao trabalho de percorrer o caminho da demagogia. Esqueço, por isso, o facto de um ou outro que dali saía com ajuda alimentar ser cliente assíduo das esquinas e tascos da cidade, onde fuma as suas cigarradas ou emborca umas bejecas. Não virá, daí, grande mal ao mundo e um homem – ou uma mulher – ainda que pobre, também tem direito aos seus pequenos prazeres. Mas não consigo ficar indiferente quando um aposentado da função pública, com mais de oitocentos euros mensais de reforma, sente necessidade de recorrer a uma instituição para obter bens alimentares essenciais. Aí é porque a crise já está a bater bem fundo. Será, portanto, tempo de todos nós irmos colocando as barbas de molho não vão elas, um dia destes, pegar fogo.