quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Prioridade parlamentar

Uma deputada do Partido Socialista na Assembleia da Republica, a propósito das caixas de correio electrónico dos deputados estarem a ser invadidas por spam com origem na paneleiragem e outras aberrações que pretendem ver consagrada a possibilidade legal de contraírem matrimónio com outros paneleiros e espécies afins, afirmava ser obrigação dos representantes do povo responder a estes e-mails que, recorde-se, instigam os deputados socialistas a desafiar a disciplina de voto que, muitíssimo bem, foi imposta pela direcção do partido.

Parece-me uma posição sensata, a da senhora. É bom que os deputados respondam às questões que lhes são colocadas pelos eleitores, incluindo os que pegam de empurrão, os que abafam a palhinha ou arrecadam a costeleta. Todos são dignos de resposta. Parlamentar, claro.

Pena que os deputados não o façam – nem pareçam ter obrigação de o fazer - noutras ocasiões em que outros cidadãos os questionam ou interpelam, não necessariamente por esta ordem, sobre assuntos muito mais importantes para o comum dos mortais. Pelo menos para aqueles mortais que não andam por aí a levar na peida ou a mandar o besugo à merda.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O sacana do cão não cagou!

Ao deslocar-me hoje a Évora deparei com um número inusitado de pessoas – na sua esmagadora maioria jovem – com uma indumentária totalmente negra, ao estilo do Mancha. Ou do Zorro, mas sem chapéu. Circulavam em bandos pelo centro da cidade enquanto iam berrando obscenidades e impropérios dirigidos a outros jovens sensivelmente da mesma idade, estes com ar aparvalhado e com a cara e outras partes do corpo pintadas.

Entre os transeuntes havia quem garantisse que, todos eles, eram estudantes e que se tratava de algo a que chamam praxe. Algo que, garantem os defensores desta pseudo tradição, se trata de uma forma de integrar os alunos recém-chegados à universidade.

Não creio que assim seja. Nem tão pouco acredito que cidade tolere este tipo de comportamento por muito mais tempo. Se as tais criaturas vestidas à “Mancha” ou à Zorro sem chapéu olharem à sua volta, facilmente constatarão que todos os olhares lhes são dirigidos com desprezo e reprovação.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Boatos e rumores

Dizia-se em tempos que o boato era a arma da reacção. Apelava-se, nessa altura, a que os portugueses não dessem crédito nem ajudassem a propagar supostas notícias que visariam destabilizar o processo revolucionário em curso que conduziria o país no glorioso caminho rumo ao socialismo.

Muita coisa mudou entretanto. Ao contrário do que então se garantia, de punho em riste e vozes ao alto, a reacção acabou por passar e o caminho seguido sofreu, para o bem e para o mal, os desvios conhecidos e que nos conduziram a esta espécie de lugar nenhum. Também o boato desapareceu. Em seu lugar surgiu o rumor. Herdou os malefícios do seu antecessor e para isso nos alertam os actuais responsáveis pelo processo actualmente em curso. Seja ele qual for.

Ficámos hoje a saber, através dos gajos que percebem destas coisas, que a criminalidade afinal não aumentou, ao que parece tudo não passou de rumores. O mesmo se pode dizer da crise financeira. Embora essa pareça existir, também quanto a isso não devemos ligar ao que por aí se diz, nem dar credibilidade a algumas vozes. Voz abalizada quando o tema envolve dinheiro, Vítor Constâncio alerta-nos diligentemente para não ligarmos aos ditos rumores que, tal como os boatos do PREC, apenas pretendem aniquilar o sistema.

Provavelmente será do meu mau feitio, ou então de uma inexplicável mania de complicar o que é simples e transparente, mas não consigo deixar de fazer estranhas associações entre boatos e rumores, criminalidade e crise do sistema financeiro ou, até mesmo, entre caminhos que sofreram desvios que, cada um na sua época, se afiguravam como altamente improváveis.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Coisas que não interessam a ninguém ou a verdadeira razão porque ninguém lê este blogue

Um comentário a um post anterior, certamente carregado de uma ironia tão boa que até podia ter sido eu a fazê-la, fez-me pensar acerca da “qualidade” do conteúdo deste espaço. É verdade que não pensei muito. Até porque, pensando bem, a qualidade não é o que mais interessa aos leitores – também não interessa nem ao menino Jesus, mas isso é outra história - nem o que mais contribui para o sucesso de um blogue. Isto se o sucesso for medido pelo contador de visitas, evidentemente.

Não nutro grande simpatia pelo conceito de “qualidade”. Chego mesmo a desconfiar que, aplicada por exemplo à blogosfera, essa coisa não é mais que um negócio manhoso. No entanto tenho procurado desde o inicio que este blogue tenha algumas qualidades. Embora, como está amplamente demonstrado, raramente o consiga.

Acredito que algumas coisas aqui publicadas podem por vezes causar níveis razoavelmente elevados de azia - lamentavelmente, por mais que me esforce, ainda não consegui provocar um único caso de afríca - a quem se sinta atingido por uma ou outra expressão mais contundente. Se calhar é por isso que preferem navegar por outros blogues muito mais navegados. Ou então é mesmo da qualidade.

domingo, 5 de outubro de 2008

O deserto

Em consequência de políticas há muito seguidas de abandono sistemático do território e não obstante irem surgindo timidamente alguns incentivos por parte de muitas autarquias, a desertificação humana do interior é um fenómeno que não dá sinais de recuo.

Os resultados do recenseamento eleitoral mostram, como se isso ainda fosse necessário e não estivesse à vista de todos, esse verdadeiro drama com o qual poucos parecem preocupados mas que é, quanto a mim, o mais grave problema do país. A inexistência de pessoas que ocupem o território de uma nação é algo inconcebível e disso até os nossos antepassados sabiam.

Embora não seja, nem de perto nem de longe, dos concelhos onde esta questão se coloca com mais acuidade, veja-se o exemplo de Estremoz. Desde o ano 2000 e até 31 de Dezembro de 2007 o concelho perdeu 675 eleitores, 135 do quais só no último ano. Estes números representam uma perda, em apenas sete anos, de 4,88% dos eleitores recenseados, o que em termos de população residente significará, provavelmente, uma diminuição ainda maior.

Mesmo em concelhos onde têm sido tomadas algumas medidas visando incentivar a natalidade e a fixação de jovens, os resultados demonstram a pouca eficácia desses incentivos. É óbvio que a solução, se é que existe, demorará a ser encontrada e estou mesmo em crer que tudo piorará neste e noutros aspectos no Alentejo até que um dia comece finalmente a melhorar.