sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Multiculturalismo sim...mas os outros que o aturem!

Está a causar alguma celeuma a atribuição de casas pela Câmara de Lisboa a pessoas que, pelo seu estilo de vida, posição social ou outra, não necessitariam desta “benesse”. Argumenta-se, a propósito de certas situações vindas a público, que todas as capitais ou grandes cidades europeias dispõem de casas para cedências a artistas ou intelectuais e que isso constitui uma mais-valia para a comunidade. Acredito que sim. Apenas me parece estranho, relativamente preocupante até, que essas casas se situem em zonas nobres e nunca em bairros sociais, ou ditos problemáticos, e onde por norma as autarquias dispõem sempre de apartamentos disponíveis.

Provavelmente as pessoas a quem entregaram a casinha não escolheram a sua localização e a mesma foi determinada pelos serviços camarários dentro dos condicionalismos a que normalmente obedecem estas coisas. Se o pudessem fazer estou em crer que muitos escolheriam para morar bairros onde a multiculturalidade da vizinhança estivesse mais de acordo com a tolerância que manifestam relativamente aos comportamentos de muitos habitantes desses locais.

Jamais me passaria pela cabeça sugerir que na atribuição de habitação a condição social de um cidadão, seja ele quem for, constitua um factor determinante na sua localização. Isso seria racismo. Coisa que intelectuais e artistas, obviamente, não são.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Então vá...Onde?!

Há certas expressões no nosso vocabulário que, apesar de utilizadas no dia-a-dia por muita gente, não fazem sentido. Pelo menos para mim. E nem sequer estou a pensar no linguajar mais do que esquisito que aquela malta toda javarola, de boné ao lado e calças ao fundo do cú, usa para comunicar entre si ou para se fazer entender pelas pessoas. O que, diga-se, quase sempre se revela uma tarefa difícil, quando não impossível, para ambas as partes.

Uma delas, talvez a que esconde os desígnios mais misteriosos e simultaneamente mais repetidas, é o célebre “então vá”. Quando no final de uma conversa alguém diz ao seu interlocutor “então vá” quer dizer exactamente o quê?! Que o outro “vá” a algum sitio impronunciável? Que, simplesmente, vá à sua vida? Ou é apenas algo que se diz quando já não há mais nada para dizer? Provavelmente esta última hipótese será a mais plausível, mas nem por isso a mais convincente para justificar o seu uso.

Prefiro, sem dúvida, o clássico “passe bem”. Pode argumentar-se que não difere muito e que o “passe” poderá esconder sub-repticiamente uma intenção de mandar alguém passear, no sentindo mais pejorativo da expressão. Até pode, mas, pelo menos, deseja-se que o faça bem.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Orçamento zipado

Outubro é tradicionalmente o mês em que o governo apresenta à nação o Orçamento de Estado para o ano seguinte. Neles são definidas as orientações politicas, económicas e fiscais que regularão a vida dos portugueses nos doze meses seguintes.

Nesta altura é ainda muito cedo para especular acerca do conteúdo da proposta governativa, nomeadamente para saber como conseguirá o executivo de José Sócrates conciliar medidas para combater a crise financeira com iniciativas que visem atenuar o descontentamento dos eleitores e evitem o descalabro do Partido Socialista nos actos eleitorais que decorrerão em 2009.

Deixemos essa análise para outra altura e centremo-nos por agora na forma do Orçamento. Coisa a que poucos tem prestado atenção mas sobre a qual urge reflectir. Como se sabe a sua entrega no parlamento constitui um dos momentos mais altos da actividade parlamentar e normalmente reveste-se de um cerimonial que, anualmente, motiva a curiosidade jornalística e cria alguma expectativa na generalidade dos portugueses. Pelo menos daqueles minimamente informados.

Durante muitos anos a proposta de Orçamento foi entregue em papel na Assembleia da República. Habituámo-nos a ver o Ministro das Finanças, acompanhado do seu séquito, carregando resmas de papel. Depois passou-se para o suporte digital. Disquetes, cd’s e mais recentemente dvd’s todos tiveram a sua época. No ano que passou Teixeira dos Santos fez gala em entregar pessoalmente ao Presidente da Assembleia da República, para posterior distribuição aos deputados, em pen’s. Acredito que este ano, fazendo jus ao choque tecnológico e à elevada apetência para a inovação demonstrada por este executivo, vai haver novidades. Daquelas mesmo à séria. Provavelmente será entregue num pintelho. Zipado.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A alegada vitima

A programação televisiva matinal é particularmente deprimente. Toda a espécie de dramas, traições, tragédias e outras coisas que não interessam a ninguém são, durante esse período, analisadas e debatidas até ao mais ínfimo e sórdido dos pormenores. O caso de hoje dava especial enfoque a um desgraçado de ar suspeito – não sei ao certo de quê, mas lá tinha um aspecto suspeito de qualquer coisa, isso tinha – que se queixava de ter sido espancado, por engano, pela GNR.

Apesar de não ter dado muita atenção ao alegado problema do senhor, não posso deixar de considerar que se trata de uma questão assaz inquietante. É que a frase que dava titulo ao momento televisivo, “espancado por engano pela GNR”, não parece fazer sentido. Não consta que aquela – nem outra – força policial possa espancar alguém. Seja por engano ou não. Nem acredito que o faça. Ainda que indivíduos de ar alegadamente suspeito, como aquele, estejam mesmo a pedi-las.