quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Mas que raio andam estes economistas a fumar?!

“Os cortes salariais no sector privado poderiam pôr em causa a solidez do sistema financeiro nacional por causa do grande endividamento das famílias. Assim, cortar os rendimentos punha em causa não só a situação social como o sector financeiro, já que muitas famílias poderiam ficar sem conseguir pagar os seus empréstimos aos bancos”. 
Foi o que teve o descaramento de zurrar um reputado economista. Curiosa interpretação, esta. Principalmente quando vinda de quem não manifestou idêntica preocupação quando foi anunciada a mesma receita para os trabalhadores da função pública. Talvez o cavalheiro considere que os últimos não têm empréstimos a pagar ou – hipótese a não descartar mas que eu não partilho - são mais honestos que os trabalhadores dos privados. Um pândego, o homem.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Tadinhos...

Decididamente não compreendo os portugueses. Pelo menos aqueles que não se importam de dar a conhecer as suas opiniões. Até há poucas horas os cortes que atingem os funcionários públicos eram considerados como algo de bom. Após a troika revelar o seu entendimento que iguais cortes deviam também abranger os trabalhadores do sector privado, o sentido das opiniões que se podem encontrar em blogues e nas caixas de comentários dos jornais, vão em sentido diametralmente oposto. O que antes era bom - só atingia os malandros da função pública - é agora mau porque, mais cedo do que tarde se vai aplicar a todos. Impressionante a coerência de certa gentinha.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A sesta

Não foi à ora tanto tempo que um grupo de alarves andou a tentar motivar os portugueses para a importância da sesta e, pasme-se, chegou a tentar que a pausa para passar pelas brasas fosse consignada como um direito. Entretanto o mundo mudou. A vida tal como a conhecíamos acabou e agora até em Espanha o intervalo para dormir está a ser colocado em causa. Tudo indica que mesmo em Espanha esta tradição nacional tenha, pelo menos para quem trabalha, os dias contados.
Nunca, nem em pequeno, fui adepto da sesta. Nessa altura nem obrigado pregava olho. Sempre achei um absurdo a ideia de interromper o trabalho, ou prolongar a hora de almoço, para tirar uma soneca. Desconfio, no entanto, que entre quem defendia antes o direito à sesta se devem encontrar muitos que agora defendem o contrário. Em nome da produtividade. Ou de algo assim.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Boicote

Acho pouco provável que, ao contrário do que tem vindo a ser sugerido, esteja a ser preparado um plano de contingência tendo em vista o controlo pelas forças policiais de eventuais distúrbios, motins, barricadas e outro desacatos que possam estar para ocorrer no país. As reservas que manifesto perante essa possibilidade têm tanto a ver com a pouca propensão dos portugueses para fazerem manifestações violentas, tipo as que ocorrem frequentemente na Grécia, como com a fraquíssima capacidade das forças da ordem nacionais imporem a sua autoridade onde quer que seja. A menos que o perigoso prevaricador se disfarce de automobilista.
Sendo por demais conhecida a impossibilidade da policia entrar em determinados locais, sabendo-se da impunidade de que goza qualquer meliante – independentemente da cor do colarinho – e dos amplos direitos que assistem a todos os criminosos, quase dá vontade de rir que, de uma forma quase velada, venham tentar intimidar aqueles que tencionam ir para a rua protestar.
Mas, se a coisa for para levar a sério e o governo, com medo que lhes cheguem a roupa ao pelo, se esteja mesmo a preparar para eventuais convulsões sociais, não há que ter receio. Em lugar de tumultos, confrontos e tudo o que envolva pancadaria, opte-se pelo boicote. A tudo. Para além de ser muito mais seguro, não requerer grande esforço e poder ser praticado por todos é, garantidamente, bastante mais eficaz. Basta puxar um pouco pela imaginação e cada um de nós encontrará com facilidade meia-dúzia de alvos a boicotar. E nem estou a pensar em bombas. O meu pensamento dirige-se para coisas mais simples e bem menos violentas como, por exemplo, a economia paralela ou transferir dinheiro para um banco suíço. Ou, na pior das hipóteses, para o paypal.

domingo, 13 de novembro de 2011

Almofadas

Muito se tem falado e escrito ultimamente acerca de almofadas. Das que há, segundo uns, e das que não há, segundo outros. Por mim acho estranhíssimo que na elaboração de um orçamento possa haver lugar a adereços deste género. Daí que tenha ficado basbaque com as declarações produzidas por governantes e opositores - em principio gente que sabe daquilo que está a falar - ou pelos paineleiros de serviço que, na sua maioria, alinham pela posição do governo e afiançam não haver na proposta do executivo qualquer margem de manobra.

O certo é que, relativamente à proposta inicial, o bando laranja cedeu ao lóbi dos autarcas e recuou na sua intenção de reduzir em metade a capacidade de endividamento das autarquias e na proibição de contratar ainda mais funcionários. Significa esta cedência a possibilidade da divida autárquica, no seu conjunto, poder aumentar no próximo ano em, pelo menos, mais oitocentos e trinta milhões de euros. Eu, que não sou de intrigas, não vou especular acerca da maneira como este diferencial se vai aconchegar na cama do deficit. Acho, no entanto, de uma desonestidade intelectual inqualificável nem um único filho da puta, daqueles que passam a vida a saltitar de televisão em televisão, suscitar esta questão. Preferem marrar em quem trabalha.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Abaixo os feriados!

O empobrecimento dos portugueses constitui o desígnio nacional, proposto pelo governo e aplaudido por uma ampla e quase consensual panóplia de paineleiros espalhados pelos canais televisivos de notícias e principais jornais. Secundados, diga-se, por um vastíssimo sector da opinião pública que, vá lá saber-se porquê, acredita que escapará incólume ao retrocesso civilizacional em curso e que serão apenas os outros, designadamente os funcionários públicos, a ficarem mais pobres.
É neste contexto que surge a ideia de reduzir o número de feriados. Quatro ao que parece. O que, quanto a mim, é manifestamente pouco. Insignificante, quase. Ao que se sabe datas como o natal, a pascoa, o dia de Portugal ou de cada um dos trezentos e oito concelhos, continuarão a ser assinaladas como um dia de descanso. Mal. Continuar a celebrar oficialmente feriados religiosos constitui um insulto às crenças dos cidadãos de outras religiões que vivem entre nós e, no tocante aos outros, nomeadamente aos feriados municipais, acabam por não ser celebrados pelos munícipes que trabalham em concelho diferente daquele onde residem.
Apesar de tímida e pecar por escassa, gosto desta intenção. Mais. É até com imensa satisfação que aplaudo esta ideia. Principalmente porque me vai permitir auferir anualmente mais dezassete euros - livres de impostos - e me permitirá poupar uns trocos que, às vezes mesmo sem querer, se gastam nos dias de lazer. Não querem acabar com mais? Vá lá. O aumento da despesa pública com o subsídio de refeição anda apenas à volta dos três milhões de euros por feriado. Peanuts.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Austeridade selectiva

Autarquias locais autorizadas a contratar funcionários – “Jornal de Negócios”

Há que aplicar a folga orçamental resultante do corte dos subsídios de férias e natal, das prestações sociais e da redução salarial dos funcionários, para dar emprego aos amigos, companheiros, camaradas e outros palhaços que, de quatro em quatro anos, andam agarrados ao pau. Da bandeira, claro, que eu não sou de intrigas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Dai-lhe gás...

Um gajo estrangeiro, com nome de esquentador, está num telejornal qualquer a agradecer ao povo português o esforço que está a fazer para consolidar as contas pública. Não tem de quê. Ele. Eu não tenho alternativa.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Despesa a diminuir e receita a sumir

A remota e afastada hipótese de o governo recuar e aceitar a proposta do líder do PS, no sentido do governo cortar apenas um dos subsídios aos funcionários públicos, está a deixar os comentadores de serviço com os cabelos em pé. Quase todos nutrem por quem trabalha na função pública um ódio visceral que os impede de analisar o que estará em causa a concretizar-se este assalto aos bolsos dos portugueses.
Seria bom que, friamente, cumpra-se a intenção do governo ou vingue a proposta socialista, os pretensos sábios destas coisas dos números explicassem à população, que agora exulta por os trabalhadores do Estado ficarem mais pobres, que a relevância destes cortes nas contas públicas não será tão significativa quanto se pretende fazer crer. Poderá, até, ao contrário do que se pretende, ter um efeito nefasto na execução orçamental do próximo ano.
Imagine-se o caso de um trabalhador que aufere mil euros de vencimento mensal. Deixará de receber anualmente dois mil. Mas, em contrapartida, pagará cerca de trezentos euros a menos de IRS, deixará de descontar trinta euros para a ADSE e duzentos para a Caixa Geral de Aposentações. O mesmo acontecerá com a sua entidade patronal que deixará de contribuir com trezentos euros para a CGA. Significa isto que, neste caso, o Estado deixará de contabilizar do lado da receita, por ano, oitocentos e trinta euros e, do lado da despesa dois mil. O que, é fácil fazer a conta, reduz esta fantástica medida de controlo da despesa pública a mil cento e setenta euros.
Se, ao cenário atrás descrito, adicionarmos o iva que o Estado deixa de arrecadar, os efeitos nefastos que esta quebra de rendimentos produzirá no consumo e, por consequência, na arrecadação de receitas fiscais, então teremos uma ideia mais aproximada da genialidade desta intenção e dos seus efeitos práticos na execução orçamental. Claro que os comentadores não são parvos e sabem, obviamente, fazer estas e muitas outras contas. Deve ser por isso que, se os ouvirmos atentamente – o que a maior parte não merece – podemos constatar que, quando dissertam acerca desta matéria, manifestam o seu entusiasmo pela “redução de despesa” provocada por esta medida mas esquecem sistematicamente a “execução orçamental”. Será por acaso?