sábado, 25 de fevereiro de 2012

Não é liquido que a banca tenha falta de liquidez.


Está criada a ideia que entre os principais problemas do país estão o excesso de endividamento dos particulares e a falta de liquidez da banca. O que, no segundo caso, estará a impedir o acesso das empresas ao crédito bancário e, por consequência, a causar sérios problemas ao crescimento da economia.
Tenho, cada vez mais, sérias reservas quanto à credibilidade desta tese. É que, ciclicamente, a caixa de correio é invadida por propaganda como a que a imagem documenta. Acompanhada, esclareça-se, de um monte de documentação, aparentemente válida, que inclui um contrato de crédito pessoal já devidamente assinado e que bastará devolver pelo correio para ter acesso a uma simpática quantia que poderei esturrar como muito bem me apetecer.
Não parece, portanto, que exista falta de liquidez à banca nacional. Tal como não se afigura que se verifique algum problema com o endividamento dos particulares. Se assim fosse este dinheiro estaria reservado para financiar projectos inovadores de um qualquer dinâmico empreendedor e jamais ao dispor de um gajo como eu, com manifesta tendência para viver acima das minhas possibilidades, com pouca vontade de trabalhar e a mania de fazer vida de rico à custa do dinheiro dos esforçados e produtivos trabalhadores alemães.
Num momento de rara sagacidade e de um invulgar sentido patriótico, decidi não usufruir de tão tentadora oferta. Fica para a próxima. Por agora a papelada vai ficar arquivada. Se a crise apertar talvez ainda venha a servir para limpar o cu.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Profissão errada


Há quem diga que o mundo está nesta tragédia porque as pessoas que o deviam governar não têm tempo. Estão demasiado ocupadas a cortar cabelo e a conduzir táxis. Ou, acrescento eu com alguma imodéstia, a escrever em blogues. Mas o contrário não será menos verdade. Muitos dos que estão em funções governativas desempenhariam muitíssimo melhor outras actividades. Fazer-nos rir, por exemplo. Quem se lembraria de juntar mais de duzentas pessoas para, durante horas discutir as vantagens da água engarrafada versus aguinha del cano?! Ou a quem ocorreria a fantástica ideia de inventar uma nova profissão de gestor de carreira para desempregados?! Daí acreditar convictamente que o mundo seria um lugar bem melhor se as pessoas que nos podiam divertir não estivessem demasiado ocupadas a governar.  

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O fim anunciado do Estado caloteiro


Foi publicada na terça-feira de carnaval a chamada lei dos compromissos. Pretende-se, no âmbito do acordado com a troika, ver drasticamente reduzidos os prazo de pagamento dos valores em divida das administrações públicas e fazer com que estas cumpram as suas obrigações no prazo de noventa dias. Parece, portanto, um objectivo nobre. Atingi-lo é que vai ser uma chatice. Principalmente porque o caminho escolhido é sinuoso e as regras impostas vão contra os mais elementares princípios de governação. Pelo menos daquela a que estamos habituados. E sem a qual, por mais que digamos o contrário, não concebemos a função de governar.
Comprar apenas quando temos uma razoável certeza de, a curto prazo, ter dinheiro, não é algo a que estejamos habituados. Seja na vida privada ou, ainda muitíssimo menos, na pública. Será, acredito, um choque. Até porque quase ninguém está preparado – ou tem, sequer, conhecimento – do que aí vem e das consequências que, a todos os níveis se vão fazer sentir no dia-a-dia de cada cidadão. E nem sequer estou a pensar nas obras que as Câmaras vão deixar de fazer ou dos ordenados que – no limite - muitos organismos públicos terão dificuldade em satisfazer. Preocupa-me antes que um qualquer hospital, onde tenha o azar de ir parar, não possua fundos disponíveis para adquirir a anestesia necessária para realizar cirurgias e desate a operar a sangue-frio.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Carnaval cá do sitio




Outros, com muito mais conhecimento de causa do que eu, farão o balanço do carnaval cá da terrinha. Por mim foi igual aos anteriores. Se isso o inclui no grupo dos bons ou, pelo contrário, o integra no conjunto dos que não valem um chavelho, é coisa que me interessa pouco. Para já manifestações de desagrado, pelo menos visíveis, apenas a do cachorro da foto, que não se coibiu de demonstrar a sua irritação com os cabeçudos.
De realçar – do meu ponto de vista, claro – o facto de finalmente ter existido um arremedo de sátira e de terem desfilado umas gajas relativamente despidas. Nada de muito animador, mas - quem sabe – possa constituir um incentivo a que outras folionas, em próximas edições, sigam o exemplo e nos proporcionem imagens muito mais interessantes.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A couve da crise


Pela primeira vez em muito anos praticamente toda a área cultivável do meu quintal foi aproveitada para semear - ou plantar, conforme o caso – diversos produtos hortícolas. Por todo o lado, até mesmo nos locais mais improváveis, há vegetais que mais tarde ou mais cedo vão acabar na panela. Como, por exemplo, neste vaso. Mas – verdade, verdadinha – é que o crescimento desta couve escanzelada foi obra do acaso. Uma verdadeira couve da crise, portanto.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Teóricos do trabalho


Alguns, de repente e assim quase do nada, descobriram as virtudes do trabalho. Nomeadamente aquelas que envolvem a alegada necessidade de trabalhar mais horas, de acabar com feriados, suprimir pontes, gozar menos dias de férias ou até, pasme-se, voltar a fazer do Sábado um dia normal de labuta. Porque, dizem, tem sido o incumprimento destes preceitos que nos conduziu até aqui e apenas trabalhando muito mais – tempo, entenda-se – sairemos da crise.
Noto inúmeras incoerências neste discurso. Principalmente quando, em simultâneo, se enaltece ou alude como necessário o “investimento” nesta ou naquela obra megalómana que lhes agrada particularmente. Mesmo que daí, passado o período de construção e muitos milhões depois, não resulte a criação de qualquer posto de trabalho. Pelo menos daqueles úteis e produtivos. Parece-lhes importar muito pouco que os mamarrachos – os tais “investimentos”, segundo eles - apenas pelo facto de existirem tenham custos significativos. Se calhar até mais pesados para o país do que umas quantas tolerâncias de ponto. São, aliás, conhecidos exemplos em que a demolição já chegou a ser ponderada como solução mais razoável.
Apesar de todo o historial de má aplicação dos recursos públicos, próprios ou vindos da Europa, insistem neste argumento patético. O rigor, quando se trata de gerir a coisa pública, apenas se lhes afigura importante quando em causa estão os direitos mais básicos das pessoas. Se for para construir edifícios onde poucos entram, estradas onde ninguém passa, infra-estruturas sem utilidade, distribuir benesses variadas por amigos ou compinchas ou empregar militantes do partido circunstancialmente no poder, então isso já é matéria pouco relevante e atirar para o populismo.
Mas, voltando à vaca fria – que é como diz a alegada necessidade de trabalhar mais e, por consequência, ter menos dias de lazer – tenho sérias dúvidas quanto ao real impacto na economia. Dividir o PIB pelo número de dias de trabalho e acreditar que por cada dia trabalhado a mais o seu valor aumentará na mesma proporção é, digamos, parvo. Faz-me lembrar aquele matemático que teorizava acerca da possibilidade de dividir sempre qualquer número por dois. Teoricamente um carro nunca embateria num muro ou noutro objecto fixo, porque estando, por exemplo, a um metro ainda faltariam cinquenta centímetros para lá chegar. E assim sucessivamente até ao infinito. Diz que morreu de acidente de viação. Bateu contra uma parede.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Só lhes falta criarem um virus qualquer...


Sabe-se agora, se é que não se sabia antes, que as tais gorduras de que esta cambada falava antes das eleições são os portugueses. A solução para o emagrecimento tem vindo a ser conhecida ao longo do tempo e surpreende até os mais precavidos e desconfiados. Aos jovens mandam emigrar, porque o país não é para gente nova. Aos funcionários públicos – esses malandros - sugerem que deixem de o ser, porque o dinheiro não chega para governar mandriões. Aos doentes criam todas as condições para que morram quanto antes, que o Estado não pode andar a pagar pequenos luxos como hemodiálise ou cirurgias e muito menos passeios de ambulância. Aos velhos fazem o que podem para que vão desta para melhor quanto antes, que isto de receber reformas é mais um daqueles direitos adquiridos que fazem pouco sentido nos dias que correm. A todos, perante o roubo de que estão a ser alvo e a tentativa de extermínio de que são vítimas, recomendam que se deixem de pieguices. Qualquer bando de ladrões ou assassinos dificilmente faria melhor.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um deputado ao nível de almeida


João Almeida é um jove - rapazola, digamos - que passou de forma efémera pela presidência do Belenenses. O clube, que já foi um dos grandes no panorama desportivo nacional, tem passado nos últimos por uma profunda crise e, como quase sempre sucede quando se está na mó de baixo, tudo lhe acontece. Daí não surpreender que o actual deputado do CDS por lá tenha andado, ainda que quase não tivesse tido tempo para aquecer o lugar.
Mais do que para futebolices o rapaz parece é ter jeito para a política. Pelo menos a julgar pela forma como exortou hoje os funcionários públicos a procurarem outra vida se não concordam com as regras que o moço entende deverem ser aplicadas à função pública. Com estas declarações, repletas de bazofia, ele sabe que está agradar à esmagadora maioria do eleitorado e, por mais ataques de que seja alvo por parte da oposição e dos sindicalistas, terá granjeado uma imensa legião de admiradores entre todos – e são muitos - os que vêem um inimigo em quem trabalha no sector público.
Não me choca que o Estado promova a mobilidade territorial nos seus funcionários. Até porque, a continuar a senda de encerramentos de serviços no interior do país, as pessoas terão de ser colocadas noutros locais se quiserem continuar a trabalhar. Acho é desagradável - e completamente desnecessária - a arrogância bacoca de um qualquer badameco engravatado e ar de betinho. Principalmente quando usa argumentos javardolas que se lhe podem aplicar quando, daqui por pouco mais de três anos, voltar a fazer parte da oposição. Quando reclamar das propostas de um futuro governo podem sempre recordar-lhe que quem não está bem muda-se.